Mudemos o sistema, não o clima

Cândido Grzybowski

Sociólogo, diretor do Ibase

O título desta crônica lembra um dos muitos slogans da Marcha dos Povos ocorrida em 10 de dezembro de 2014 pelas ruas centrais de Lima, durante a realização da Conferência da ONU COP-20 sobre mudanças climáticas. Como representante do Ibase, estive participando do 3º Encontro de Diálogo das Sociedades Civis da China, Europa e América do Sul, um evento no interior da Cúpula dos Povos, paralelo à COP-20. Decidi registrar aqui partes de minha fala na abertura da segunda parte de diálogo.

A questão da destruição ambiental, mudança climática e da justiça social não é somente de mitigação e adaptação. Necessitamos de uma mudança muito mais profunda. Não nos bastam o tal “new green deal” ou diferentes formas de economia verde. O que precisamos é pensar seriamente na sustentabilidade da vida e do planeta, antes de mais nada. Precisamos de economias a serviço de tal objetivo maior, pois cometeremos um enorme erro se invertermos as prioridades. Mas, pensando na  sustentabilidade da vida e do planeta, são os próprios fundamentos do sistema atual que precisam ser mudados.

Estamos diante de uma crise profunda do paradigma civilizatório, hoje exacerbado com a globalização. Isso significa que a maneira como nos organizamos – economia/mercados, mais poder/Estados –, os estilos de vida que levamos e a estrutura mental de valores e motivações estão no centro da destruição ambiental, da mudança climática e da justiça social. Caminhamos para o desastre por obra nossa, pelo antropocentrismo que está encrustrado nos nossos corações, mentes, estruturas, culturas, filosofias e religiões, relações e processos políticos e econômicos.

A racionalidade é uma grande conquista humana, fundamental para o desenvolvimento das ciências e das tecnologias que nos levaram à Revolução Industrial. Mas, ao subordinar a emoção à razão, valorizamos o machismo, colonizamos povos e radicalizamos a escrevidão, criamos racismos e discriminações dos diferentes. Como civilização, perdemos a ética, o encantamento, o senso do limite e da interdependência, o cuidado, todos princípios fundamentais ao viver em troca com outros seres vivos e a biosfera em geral. Liberamos, assim, o capitalismo, a busca do interesse pessoal, da acumulação sem limites, do lucro a qualquer preço. Produzimos para acumular, ao invés de satisfazer necessidades humnas em bens e serviços. O produtivismo e o consumismo que caracterizam nossas sociedades atuais criam luxo e lixo, enorme desigualdade social e exclusão, de um lado, e muita destruição ambiental, de outro.

Hoje, já superamos a capacidade de regeneração de vários dos sistema ecológicos do planeta. Nunca é demais lembrar que o planeta é nossa casa comum, nosso grande comum. Continuamos a excluir socialmente e cada vez mais concentramos riquezas em poucas mãos. O pior é que nossas estruturas de poder estatal servem para proteger o funcionamento de tal sistema – com guerras se necessário. Isso me leva a ser categórico: nada a esperar dos Estados e das empresas diante da mudança climática que está à nossa porta.

Então estamos diante de uma mina que pode explodir e cujas consequências nem sabemos direito quais serão. Mas será que é impossível mudar, aqui e agora, para caminhar em outra direção? Penso que o impossível pode tornar-se possível pela nossa ação, como ensinaram grandes personalidades na história humana. Lembro aqui Mandela na luta contra o apartheid na África do Sul. Tudo pode se tornar possível, mas ousadia, motivação e determinação são necessários. Como não podemos esperar de Estados e mercados, o segredo está dentro de nós mesmos. Temos que mudar a nós como povos, como cidadãs e cidadãos do mundo, com poder instituinte e constituinte, como a história nos mostra. Precisamos imediatamente descolonizar as nossas cabeças, liberando-nos de toda “pregação” do sistema – publicidade, consumismo, individualismo, competição, sucesso individual etc. –, que nos faz pensar que não existem alternativas a ele. Precisamos de uma catarse coletiva que nos leve a repensar os fundamentos éticos, filosóficos e religiosos, políticos, tornados senso comum no nosso cotidiano. Reencontrar a alegria de viver sem ser determinado pelos mercados e “seu humor”, eis o segredo do bem-viver necessário para a sustentabilidade da vida, do planeta e das nossas sociedades, com suas economias e poderes, é claro.

Trata-se de uma mudança de olhares e de rumos. Trata-se, também, de criar “trincheiras cidadãs”, verdadeiras barreiras humanas de dizer “basta” e de definir estratégias e organizar forças para avançar quando oportuno na conjuntura, que se cria independentemente de nossa vontade. Proponho aqui algumas direções possíveis do labor coletivo e cidadão a ser feito com ousadia e persistência, mas sem mistérios, no sentido de novos paradigmas civilizatórios. Penso naquela pergunta: por onde começar?

Estou propondo algo que elege a legitimidade acima da legalidade, quando for o caso. Temos urgências, e a desobediência civil pode ser necessária para o exercício cidadão, dado que o sistema está montado para proteger-se a si mesmo e não a humanidade e o planeta. Direitos coletivos legítimos estão sempre acima de eventuais legalidades e institucionalidades geradas por lutas passadas.

  1. Olhar as resistências e emergências no planeta, em especial aquelas que protegem comuns, visam sua desmercantilização e privatização, seu resgate e sua gestão como comuns. Comuns em questão podem ser os territórios, o ar e a água, os solos, as sementes, a biodiversidade, a atmosfera. Tudo isso está hoje colonizado pelo capitalismo e é base de lucro de empresas privadas. Mas temos também os comuns criados a serem resgatados da mercantilização e privatização, a serem fortalecidos como base de vida humana: as diferentes línguas que nos permitem a comunicação e o intercâmbio, as culturas que nos dão sentido e alegria de viver, o conhecimento como expressão máxima do ser humano, as cidades e diferentes habitats que criamos, a política como busca de projetos e direções coletivas, os imaginários, sonhos e valores.
  2. Avaliar as potencialidades de tais resistências e emergências em sua capacidade de convergir, articular e integrar justiça social, igualdade para todas e todos e participação, com integridade da biosfera, nossa casa comum, fundamental para a vida.
  3. Desenvolver redes e movimentos de cidadania do local ao mundial, dos territórios que ocupamos e onde vivemos até o planeta como um todo, em sua diversidade e interdependência natural e cultural.
  4. Trazer ao centro de nossas preocupações e ações os comuns da natureza e da criação humana. Adotar os princípios do cuidado, da convivência entre todas e todos e do compartilhamento como bases do viver. Os comuns e tais princípios devem se tornar os fundamentos organizativos do Estado e da economia de que necessitamos.

Tal agenda elementar é impossível? Penso que aponta para outro rumo e, sobretudo, que podemos adotá-la no aqui e agora, cobrando de governos e empresas a agir de acordo. Afinal, nós podemos desempatar o impasse atual e começar a mudar o sistema antes que seja tarde. As ruas e o espaço público do debate são as arenas da cidadania. Penso em quatro frentes de incidência de nossas ações. É necessário sublinhar que estou me referindo a lutas democráticas de transformação para podermos transitar parar uma nova, justa e solidária regulação de nosso viver na diversidade de nossos povos e culturas e na diversidade de condições naturais do planeta.

As áreas de incidência que considero fundamentais são:

  • Transformar os territórios cidadãos – habitats rurais e cidades – em pilares de resistência e do novo a ser fortalecido, do local ao mundial;
  • Pensar em alternativas ao desenvolvimento como projeto social, submetendo a economia ao serviço da sociedade e da sustentabilidade;
  • Organizar o poder/Estado como condição de regulação democrática para buscar justiça social com preservação da integridade da biosfera;
  • Universalizar direitos iguais na diversidade que nos caracteriza;
  • Criar sonhos e imaginários mobilizadores, prioriando a comunicação e a cultura, o debate público e a disputa coletiva de sentidos do viver em coletividade.

O futuro começa no aqui e agora. Cabe a nós construí-lo!

Publicado em 27 de janeiro de 2015

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