Que mal há em levar a vida na flauta?

Mariana Cruz

Já ouvi diversos pais dizerem que não levam muito a sério certas atividades que os filhos têm na Educação Infantil, como inglês, música ou artes. Não é à toa que muitos consideram o "inglês da escola" como "café com leite", algo com pouco valor. O mesmo ocorre com as aulas de música e de artes plásticas. A preocupação maior é que os pequenos aprendam a ler, escrever e fazer as operações matemáticas básicas. Como sempre, o Português e a Matemática são colocados como disciplinas "realmente sérias". Tal mentalidade de já "preparar as crianças para o Enem" faz com que a ludicidade seja deixada de lado por algumas escolas mais competitivas justamente nessa fase em que a brincadeira é algo tão necessário.

Para a música fazer realmente sentido na vida das crianças, não depende somente da habilidade e da competência do professor, mas da importância que a escola dá para tal disciplina. Em relação à música, lembro-me de que nas aulas da minha infância basicamente aprendíamos a cantar cantigas do cancioneiro popular, e não necessariamente a tocar um instrumento. Tínhamos contato com os instrumentos, mas era algo muito mais instintivo do que propriamente técnico. A professora sentava com os alunos em roda com o violão e começava a cantarolar alguma canção, distribuía chocalhos, reco-recos e triângulos que tocávamos como bem entendíamos. Fazíamos um som meio anárquico, mas nem por isso menos prazeroso (afinal, tratava-se de uma escola experimental). Não me lembro de ter aprendido as notas musicais, compasso ou solfejo, mas ainda assim tais aulas incutiram em mim uma intimidade gostosa com a música. Não me tornei musicista nem tenho talento para tal, mas, apesar de não ser superafinada, consigo cantarolar e perceber quando alguém está fora do tom, ao contrário de alguns amigos que parecem não ter ritmo algum, desafinam até entoando "Parabéns". Sempre tenho a impressão de que não tiveram contato com música na infância.

No final do ano passado assisti, surpresa, à apresentação de final de ano da escola da minha filha. Lá estava ela e seus colegas, de seis, sete anos tocando na flauta doce a introdução de Asa branca, de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira, e as primeiras notas de A rã, de João Donato. Como podiam aquelas pessoinhas estarem tocando juntas e afinadamente esses clássicos da música popular brasileira? Não se tratava de crianças com dom musical aguçado, e sim de um professor criativo e interessado que fez com que aprendessem música sem sentir, brincando com as notas, com os sons. Com isso, conseguiu que tocassem sem dificuldade um instrumento relativamente complexo como a flauta (que requer controle da respiração, do fôlego, da posição dos dedos).

Aos que não valorizam o aprendizado de música na infância: fiquem sabendo que os especialistas afirmam que tal prática desenvolve e estimula áreas do cérebro que outras atividades não alcançam. Quem sabe assim esses céticos musicais não mudam de ideia e veem que não há nada de errado em levar a vida – um pouco que seja – na flauta?

Publicado em 24 de fevereiro de 2015