O meio ambiente, o ser humano e os problemas ambientais

Eduardo Beltrão de Lucena Córdula

Doutorando (Prodema/UFPB); mestre em Meio Ambiente e Desenvolvimento (UFPB); professor (Pronatec/FPB); educador socioambiental (Semapa/Prefeitura de Cabedelo-PB)

O meio ambiente

Muitas definições surgem: é o que está no meio, entre; o que une ambientes; o que é natural etc. Porém, muitos estudos epistemológicos não conseguem colocar as questões pertinentes na atual situação do planeta: que meio ambiente temos atualmente? Que futuro nos aguarda? O que fazer para reverter tal situação? A Educação Ambiental é a salvação?

Primeiramente, a melhor e mais simples definição de meio ambiente seria tudo que está contido no nosso planeta, à nossa volta, do qual fazemos parte, em que cada ação gerada, em qualquer parte, corresponderia a uma reação (Vernier, 1994). Simplificando mias ainda, é o nosso planeta Terra!

O meio ambiente, infelizmente, possui dois contrastes gritantes hoje em dia: o ambiente humano e o natural, no qual, este último está perdendo espaço pelo crescimento populacional e a grande demanda de recursos naturais. O consumismo está degradando os recursos do planeta, esgotando-os e provocando graves e irreversíveis alterações (Brasil, 2002). Tudo isso, movido pelo sistema econômico que está no domínio de alguns e que detém as maiores riquezas do planeta, em detrimento de uma maioria que vive em situações de pobreza e de escassez de atendimento de suas necessidades básicas (Melo; Hogan, 2006) (Figura 1).

Figura 1 - Pirâmide de desenvolvimento e de detrimento de riquezas, no sistema capitalista  Fonte: Baseado no texto de Melo e Hogan (2006).

Figura 1 - Pirâmide de desenvolvimento e de detrimento de riquezas, no sistema capitalista

Fonte: Baseado no texto de Melo e Hogan (2006).

Os centros urbanos consomem a maior parte dos recursos naturais extraídos do planeta, principalmente nos chamados países desenvolvidos e em desenvolvimento. Com esse tipo de desenvolvimento, estamos condenando nossa própria espécie a um fim trágico, pois o fim deste planeta talvez nunca ocorra, mas o da nossa própria espécie pode estar mais próximo do que os cientistas imaginaram (Córdula, 2012).

A Educação Ambiental, em todas as suas expressões de atuação (formal, não formal, informal) (Abílio; Sato, 2012), infelizmente não conseguiu ainda atuar frente à maciça carga diária do marketing capitalista que estimula o consumismo (Portilho, 2005). Sensibilizar pessoas para mudanças de hábitos, de pensamentos e principalmente de cultura é uma atuação em que tem que ser considerada a própria condição humana:

acreditamos, portanto, que apreendemos o mundo, o ambiente, por intermédio de um fenômeno perceptivo tão complexo quanto a natureza humana, não sendo possível seu entendimento pelos caminhos puramente conceituais. Dessa maneira, procuramos entender a importância das imagens construídas pelo ser humano a partir da sua relação com o meio, e de outros aspectos que julgamos profundamente ligados a esse fenômeno: a biofilia e a topofilia, significando a ligação do ser humano com as outras formas de vida e a atração por componentes físicos do ambiente, respectivamente (Marin et al, 2003).

Para Mazaro-Costa et al. (2013), biofilio (bio = vida; filia = afinidade) são os laços afetivos entre seres humanos, outros seres vivos e com a própria vida. Já topofilia (topo = lugar; filia = afinidade) é, segundo Tuan (1980), o estudo das relações humanas com o ambiente e os sentimentos de apego e de vinculo com os espaços e sua percepção sobre eles.

O ambiente humano

Formado pela sociedade com todos os seus conceitos religiosos, étnicos, culturais, éticos, científicos, tecnológicos e econômicos, o ambiente humano ou urbano traz reflexos na mudança do ambiente natural em virtude de sua acomodação dos centros urbanos e até mesmo os rurais (DIAS, 1998). Nesse processo, a consequência é a gênese de um metabolismo que nas grandes cidades é intenso, em virtude do consumo elevado de matérias-primas, que são abastecidas pelo meio rural, de minerações, de recursos hídricos e a exploração dos recursos biológicos, tendo como reflexo o intenso fluxo de energia gerada pelo calor, eletricidade e combustíveis fósseis e com produção de grande quantidade de resíduos poluentes (fuligem, poeira, gases tóxicos, lixo etc.) que retornam ao ambiente causando desequilíbrios internos e externos (Dias, 1998).

Figura 2 – Metabolismo urbano num modelo celular, segundo Dias (1998)   Fonte: Adaptado de Dias (1998).

Figura 2 – Metabolismo urbano num modelo celular, segundo Dias (1998).

Fonte: Adaptado de Dias (1998).

O próprio espaço urbano, segundo Córdula et al. (1999), causa sérios problemas socioambientais, como:

  • aquecimento local, com modificação no clima regional;
  • poluição sonora, visual e olfativa, gerando estresse, aliado à competitividade por emprego e ascensão no trabalho;
  • grande quantidade de lixo, que afeta o ambiente natural, com proliferação de doenças;
  • desigualdades sociais, falta de emprego, falta de condições de sobrevivência dignas para seus habitantes, entre tantos outros aspectos.

O modo de vida que a sociedade gerou para si, está inviável e precisa ser repensada coletiva e individualmente para termos qualidade de vida.

O ambiente natural

Este seria considerado a integração harmoniosa dos organismos com o ambiente em que estão inseridos, mantendo suas relações de interdependência, com um fluxo contínuo de energia e ciclagem da matéria. Identificamos nele os principais conceitos ecológicos, como: nicho, habitat, ecossistema e cadeia alimentar (ODUM, 1988; DIAS, 1998).

  • Nicho - posição ocupada pelo organismo no seu habitat ou a função desempenhada por ele (ex.: herbívoro - cadeia primária);
  • Habitat - lugar onde cada organismo vive (aquático, terrestres etc.);
  • Ecossistema - ambiente habitado por vários organismos em constantes interações, com diferente habitats e nichos, mantendo-se em equilíbrio (florestas, cerrados, campos etc.);
  • Cadeia alimentar - produção de matéria orgânica (autotróficos) com fluxo contínuo de energia e menor consumo de energia a cada passagem de nível trófico, devido a perdas da passagem de um nível para outro, sendo responsável pela manutenção da vida.

Figura 3 – Cadeia alimentar rudimentar com apenas 4 níveis tróficos  Fonte: Adaptado de Odum (1998).

Figura 3 – Cadeia alimentar rudimentar com apenas 4 níveis tróficos

Fonte: Adaptado de Odum (1998).

Ser humano: agente consumidor/transformador

O ser humano é o principal agente modificador do meio, adaptando-se rapidamente e modificando para atender às suas exigências e para satisfazer as suas necessidades primárias. Porém, somos o único organismo com necessidades secundárias para manutenção do que concebemos como status quo (Córdula, 1999). O ser humano possui um telencéfalo altamente desenvolvido, que lhe confere capacidade intuitiva e raciocínios complexos na interpretação e adaptação do ambiente que o cerca (cognição), com produção e repasse de conhecimentos (aprendizagem), valores e hábitos culturais. Com um polegar opositor lhe propiciando a manipulação de objetos, trabalhos minuciosos que requerem precisão, perícia e movimentos delicados (Córdula, 2010).

Nossa espécie (Homo sapiens sapiens) vive socialmente em grandes centros urbanos, áreas isoladas e até mesmo como nômades. Estamos em quase todos os ambientes do globo, desde os polos gélidos às regiões desérticas (Córdula, 2014a). Alguns preferem o isolamento (eremitas), mas a grande maioria prefere o convívio social "harmonioso", principalmente dos centros comerciais (cidades). E por estarmos engajados em comunidades, pertencemos a um sistema que engloba cultura, política, religião, economia, ciência e tecnologia (Dias, 1998). E, mesmo assim, mesmo como entidade social, somos a única espécie que se agride, violenta-se (canibalismo moderno) não pela necessidade de sobrevivência (acasalamento, alimento, território), como os demais animais, mas devido a uma retomada na essência humana da primitividade pela busca do poder e da ascensão perante o grupo social, que é gerada unicamente pelo capitalismo, ou seja, a luta pelo poder de dominar o econômico (CÓRDULA, 2014b). Isso tem como consequência um individualismo crescente, com ausência de preocupação com o próximo e descaso com a vida. Possuímos, além disso, agravantes à condição humana, como os preconceitos, mitos, medos, violência descontrolada, decadência da qualidade de vida etc. Para Vernier (1994), somos uma espécie em vias de extinção, devido ao nosso comportamento autodestrutivo, pois, ao destruir o meio ambiente, consequentemente destruímos a nós mesmos, sendo, portanto, considerados a entidade biológica que extermina, ou seja, o Homo exterminador.

Por outro lado, somo seres possuidores da capacidade de sonhar, ter esperanças e produzir manifestações emocionais, o que nos leva a muitas conquistas nas últimas décadas, buscando o inexplorável, consequência de uma altíssima curiosidade, conferindo um sentido próprio de busca de respostas para nossas indagações acerca do funcionamento dos cosmos – microcosmos: nosso organismo, a vida etc.; e macrocosmos: o planeta, o universo etc. (Córdula, 1999).

Reflexões para estas e as futuras gerações

O ser humano contemporâneo passa por uma fase de autoconhecimento e de reflexão do seu papel perante a vida e o planeta, tentando entender os reflexos e os custos do altíssimo desenvolvimento das sociedades; acima de tudo, estamos aprendendo com os erros para, a partir deles, buscar soluções a médio, curto e longo prazo. Uma delas é encontrar a humanidade que nos falta, que nos fará sermos mais completos, mais conscientes e mais voltados para nossa própria espécie (Capra, 2006 a,b).

Como vemos, não há ainda uma ligação harmoniosa entre o ambiente humano e o natural; o segundo está perdendo espaço e sendo constantemente agredido. Para termos o meio ambiente, teríamos que passar a interagir de modo responsável e sustentável, fazendo parte da totalidade que impera em nosso planeta, passando a ser considerado uma entidade viva, Gaia, pela sua complexidade sistêmica de interagir com seus componentes e evoluir ao longo do tempo (Lovelock, 2006).

Se as sociedades não despertarem para a realidade das consequências de nossos atos perante o planeta, estaremos fadados e entrar em um processo de extinção irreversível, assim como acontece e aconteceu com as demais espécies que foram extintas, como em virtude de nossos atos egoístas, gananciosos e consumistas neste planeta.

Referências

ABÍLIO, Francisco José P.; SATO Michelé. Métodos qualitativos e técnicas de coleta de dados em pesquisas com Educação Ambiental. In: ABÍLIO, F. J. P.; SATO, M. Educação Ambiental: do currículo da Educação Básica às experiências educativas no contexto do Semiárido Paraibano. João Pessoa: Editora Universitária da UFPB, 2012. p. 19-76.

BRASIL. Meio ambiente e consumismo. Brasília: Inmetro, 2002. Disponível em: http://www.saeb.ba.gov.br/vs-arquivos/HtmlEditor/file/compraspublicas/novo/cartilha_meio_ambiente_inmetro.pdf. Acesso em: 25 fev. 2015.

CAPRA, Fritjof. O ponto de mutação. São Paulo: Cultrix, 2006a.

______. A teia da vida: uma nova compreensão científica dos sistemas vivos. São Paulo: Cultrix, 2006b.

CÓRDULA, Eduardo Beltrão de Lucena et al. Poluição: Eca! In: GUERRA, R. A. T. (org.). Educação Ambiental: textos de apoio. João Pessoa: Editora Universitária da UFPB, 1999a. p. 76-80.

______. Eu! In: GUERRA, R. A. T. (org.). Educação Ambiental: textos de apoio. João Pessoa: Editora Universitária da UFPB, 1999b. p. 48-49.

______. Educação Ambiental Integradora – EAI. Cabedelo: EBLC, 2010.

______. Educação Socioambiental na Escola. Cabedelo: EBLC, 2012.

______. A cultura e a casca de banana: repensando a sociedade. Revista Educação Pública, Rio de Janeiro, v. 14, nº 15, 29 abr. 2014a. Disponível em: http://www.educacaopublica.rj.gov.br/cultura/cinema_teatro/0084.html. Acesso em: 30 abr. 2014.

______. Desenvolvimento sustentável e Educação Ambiental: em busca do equilíbrio planetário. Revista Educação Ambiental em Ação, Novo Hamburgo, ano 18, n. 50, dez./2014-fev./2015. Disponível em: http://revistaea.org/artigo.php?idartigo=1906&class=02. Acesso em: 25 fev. 2015.

DIAS, Genebaldo F. Educação Ambiental: princípios e práticas. 5ª ed. São Paulo: Gaia, 1998.

LOVELOCK, James. A vingança de Gaia. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2006.

MARIN, Andréa A.; OLIVEIRA, Haydée T.; COMAR, Vitor. A Educação Ambiental num contexto de complexidade do campo teórico da percepção. Interciência, Venezuela, v. 28, n. 10, p. 616-619, 2003.

MAZARO-COSTA, R. et al. A preferência animal (biofilia) pelas crianças frequentadoras de parques em Goiânia-GO. In: Encontro Nacional dos Grupos PET–Enapet, 18, de 1 a 6 de outubro de 2013. Anais... Recife: UFPE/UFRPE, 2013. Disponível em: http://www.portalpet.feis.unesp.br/media/grupos/pet-informatica-recife/atividades/xviii-enapet-recife-pe/artigos/Biofilia_RMC_01_09_black_corrigido.doc. Acesso em: 25 fev. 2015.

MELLO, Leonardo F.; HOGAN, Daniel J. População, consumo e meio ambiente. In: Encontro Nacional de Estudos Populacionais, 15., de 18 a 22 de setembro de 2006, Caxambu. Anais...  Caxambu: ABEP, 2006.

ODUM, Eugene P. Ecologia. Rio de Janeiro: Guanabara, 1988.

PORTILHO, Fátima. Consumo sustentável: limites e possibilidades de ambientalização e politização das práticas de consumo. Cadernos Ebape.BR – edição temática 2005. Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/cebape/v3n3/v3n3a05. Acesso em: 25 fev. 2015.

TUAN, Yi-Fu. Topofilia: um estudo da percepção, atitudes e valores do meio ambiente. São Paulo: Difel, 1980.

VERNIER, Jacques. O meio ambiente. 2ª ed. Campinas: Papirus, 1994.

Publicado em 07 de abril de 2015

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