Fala demais por não ter nada a dizer

Mariana Cruz

Outro dia, zapeando na TV (onde mais?), entre as centenas de opções, não resisti ao charme retrô do Canal Viva. Estava passando uma daquelas novelas antigas, acho que Dancing Days, nas quais mocinhos e vilões fumavam sem parar. Se não me engano, era a Joana Fomm dentro de casa, dando um monte de baforadas na cara da então menininha Glória Pires. Mas, por incrível que pareça, não foi essa atitude que mais me chamou a atenção na cena – inconcebível nos dias de hoje, quando nem mais os vilões fumam na TV –, e sim o longo tempo de duração dos diálogos, coisa cada vez mais rara hoje em dia, quando tudo parece videoclipe.

Seja na ficção, seja na vida real, os diálogos parecem estar cada vez mais rápidos. É todo mundo falando em cima de todo mundo (eu, inclusive). Não raro tenho a impressão de que as conversas, independente do número de interlocutores, não passam de vários monólogos ditos em alta velocidade por cada pessoa e que versam mais ou menos sobre o mesmo tema. É como se a fala de uma pessoa servisse apenas como pausa, uma respiração para as outras recomeçarem a falar. Escutar o outro é querer demais.

A arte de contar uma história com detalhes, começo, meio e fim é coisa do passado. Ouve-se apenas o começo, instantes depois começam as intervenções, as observações, as interrupções dos celulares e parte-se para outro assunto. É como se as conversas ao vivo estivessem cada vez mais parecidas com os papos nos grupos do WhatsApp: todo mundo falando simultaneamente, sem saber direito o mote da conversa; a última frase é que serve de gancho para as outras.

Tenho percebido essa aceleração na comunicação entre o apresentador e os convidados/jurados até mesmo nos programas de auditório. Cada um tem poucos segundos para expor sua opinião antes de cortar para outro, chamar a nova banda ou fazer propaganda do patrocinador. E tudo se perde nesse caldeirão de imagens, falas cortadas e múltiplas atrações. É como prenunciou Renato Russo, já em 1986: “se fala demais por não ter nada a dizer". Fala-se sobre tudo, posta-se sobre tudo, imagens e vídeos são enviados incessantemente, mas o que de reflexivo todas essas coisas trazem? Contando os grupos do WhatsApp, Facebook, e-mail, não é exagero afirmar que nos comunicamos com centenas, quiçá milhares de pessoas por dia. E se formos reler ou ouvir as mensagens trocadas veremos que muitas delas eram absolutamente dispensáveis, serviram apenas como preenchimento de tempo e que não acrescentaram nada a ninguém. Fala-se cada vez mais e cada vez menos coisas são ditas.

Não é questão de saudosismo nem de criticar o presente com aquele papo de que "no meu tempo as pessoas concluíam as frases". Afinal, como diz o mestre Paulinho da Viola, "Meu tempo é hoje"; sendo assim, também me incluo entre essas pessoas que não conseguem mais concluir suas histórias e talvez nem esteja deixando meus interlocutores terminarem as deles. Parece ser uma crítica, mas não é (ou até pode ser, mas o propósito é ser apenas uma constatação meramente empírica a respeito das mudanças na comunicação decorrentes da novas tecnologias).

Tal velocidade, pelo que noto, se estendeu para todos os campos, inclusive em sala de aula: se há dez anos era tarefa fácil e prazerosa levar textos para serem lidos em voz alta pelos alunos, hoje em dia percebo uma resistência muito maior por parte deles. Olham o tamanho do texto e quase caem para trás. E não são textos longos; pelo contrário, têm no máximo três laudas. O irônico é que eles passam grande parte de seus dias lendo conteúdos das mídias sociais e não conseguem se concentrar para ler textos mais reflexivos, mais longos.

Entendo e apoio a ideia de que os professores devam se adaptar aos novos tempos, lançar mão dos audiovisuais, dos recursos provenientes das novas tecnologias (vivo tirando dúvidas dos discentes pelo WhatsApp e recebendo trabalhos via e-mail). Isso, porém, não quer dizer que tenhamos que abrir mão de vez da old school, isto é, da leitura de textos em voz alta e interpretação deles. E do velho e eficiente cuspe e giz.

Publicado em 05 de janeiro de 2016