A relevância da Educação Física e da Psicomotricidade na inclusão social e na promoção da qualidade de vida do discente com neurofibromatose em programas sociais

Marcelo Bittencourt Jardim

Licenciado e Bacharel em Educação Física (Unipli), especialista em Psicomotricidade (IBMR), pesquisador e membro do Comitê Científico Internacional da revista Observatorio Del Deporte (Universidad de los Lagos, Santiago – Chile)

É notório que a Educação Física e a Psicomotricidade são importantes para o desenvolvimento da promoção da qualidade de vida, interação, socialização, autoestima e inclusão social de crianças e adolescentes com deficiências nas atividades curriculares e extracurriculares nos programas sociais e nas instituições educacionais públicas e privadas. Além disso, podemos contribuir com nossa disponibilidade e perseverança. Em vista do que foi mencionado, este estudo aborda discursos de estudiosos e de bases bibliográficas para tentarmos de fato um desenvolvimento laboral concreto, digno e respeitoso para com as pessoas com deficiências que precisam muito do olhar e do acolhimento da sociedade e das instituições públicas.

Caracterização da deficiência

A neurofibromatose é um transtorno transmitido com autossômico dominante com expressão variável. É uma neuroctodermose cujas manifestações compreendem as alterações cutâneas que aumentam em tamanho e número com a idade, sardas axilares e nódulos cutâneos e subcutâneos que aparecem na idade escolar. Época em que, segundo o médico, a criança já evidencia baixo rendimento escolar. Nesse período, o diagnóstico de retardo pode ser feito. Alguns casos podem ter evolução lenta, acometendo cerca de 10% dos doentes de neurofibromatose.

Podemos encontrar três tipos de neurofibromatose: tipo 1 (NF1), tipo 2 (NF2) e schwannomatose, autossômicas dominantes que têm em comum o surgimento de tumores benignos múltiplos no sistema nervoso. As neurofibromatoses são de evolução progressiva e imprevisível.

A neurofibromatose tipo 1 (NF1), também chamada de Von Recklinghausen, é a forma clássica, com incidência de 1 a 3 mil indivíduos, existindo manifestações dermatológicas, manchas cor de café com leite e neurobromas como sinais patognonâmicos do tipo 1, lesões oculares com sinal quase específicos da NF1, característicos no nível do globo ocular, chamado de módulo de Lish. O facoma da retina é um pequeno tumor que equivale a pequenos tumores cutâneos e nervosos. É raro com localização peripapilar, podendo haver concomitância de glioma do nervo ótico.

As lesões neurológicas não tumorais apresentam quadro clínico impreciso, sendo identificadas por meio de ressonância magnética, uma gliose heterotípica com acometimentos principais no nível de núcleo de base, região periventicular, troncocerebral e cerebelo específicas da neurofibromatose NF1.

Há concomitantemente um déficit mental que está presente em 40% da NF1. O quadro clínico mais comum está ligado ao déficit de atenção e baixo rendimento escolar. A deterioração intelectual está presente em cerca de 8% dos pacientes, podendo ser observado um quadro de autismo. Existem raros casos de epilepsia, principalmente a síndrome de West. As lesões tumorais periaqueditais se apresentam com um quadro de hidrocefalia por estenose do aqueduto de Sylvius e malformações óbito-cranio-faciais, como, por exemplo, os neuromas plexiformes da pálpebra superior, neurofibroma primitivo da órbita.

A importância da Psicomotricidade e do professor de Educação Física

A Psicomotricidade é a ciência cujo objeto de estudo é o homem e o seu movimento; ela está fundamentada em três aspectos básicos: o intelecto, o afeto e o movimento. A prática psicomotora tem a tarefa educativa de criar condições propícias ao desenvolvimento de cada criança, permitindo-a viver a pulsionalidade motora, que acompanha a dinâmica de seus esquemas de ação (SBP, 2003).

A criança tem que ter um desenvolvimento global (geral) e múltiplas experiências (vivências) por meio do seu próprio corpo e seu movimento, tendo assim uma organização temporal e espacial para se desenvolver melhor (Jardim, 2012).

Segundo Aucouturier (1986), a Psicomotricidade Relacional favorece o desenvolvimento da função simbólica pelo prazer de agir, de brincar e de criar, tendo como objetivo principal o toque, o afeto e a linguagem que são bastante desenvolvidos, incluindo a imagem corporal da criança, que é o sentimento que ela tem do seu corpo, o conhecimento do corpo, que é o conhecimento intelectual que o indivíduo tem do seu corpo e de cada função e o seu esquema corporal, que é a união das relações anteriores com os dados do mundo exterior.

Com isso, desenvolvemos os elementos psicomotores nas crianças e jovens com deficiência, como lateralidade, percepção de tempo e espaço, ritmo, equilíbrio, percepção óculo-pedal e manual, percepção visual, atenção e concentração. Com isso desenvolvemos sua coordenação motora e sua flexibilidade, que é a capacidade de as articulações moverem-se com grande amplitude de movimento (Jardim, 2012), com atividades físicas e lúdicas centralizando principalmente na interação, socialização dos discentes com o professor e na inclusão social de pessoas com deficiência.

Inclusão social do “Capitão” nas atividades do programa social

O discente observado, D., é um jovem de 15 anos que foi diagnosticado com neurofibromatose do tipo 1 (NF1) e possui espinha bífida na região cervical (é uma grave anormalidade congênita do sistema nervoso, desenvolve-se nos primeiros meses de gestação e representa um defeito na formação do tubo neural). Os defeitos do tubo neural (DTN) são uma causa importante de mortalidade infantil.

Uma das lesões congênitas mais comuns da medula espinhal é causada pelo fechamento incompleto da coluna vertebral. Quando acontece, o tecido nervoso sai pelo orifício, formando uma protuberância mole, na qual a medula espinhal fica sem proteção. Isso é denominado espinha bífida, embora possa ocorrer em qualquer nível da coluna vertebral. Os segmentos da medula cervical (C1 a C7) controlam os movimentos da região cervical e dos membros superiores; os torácicos (T1 a T12) controlam a musculatura do tórax, do abdômen e de parte dos membros superiores; os lombares (L1 a L5) controlam os movimentos dos membros inferiores; os sacrais (S1 a S5) controlam parte dos membros inferiores.

“Capitão” (apelido carinhoso que a comunidade elegeu) possui manchas na pele, chamadas de manchas de café com leite (essas manchas tipicamente são lisas e uniformemente pigmentadas, resultam de um aumento da produção de pigmento nos melanócitos da pele, estão presentes ao nascimento em cerca de 95% dos afetados, constituindo geralmente a principal e muitas vezes a única manifestação da doença em crianças pequenas), possui escoliose, baixo rendimento em relação a coordenação motora e de atenção durante as atividades físicas e esportivas e baixo rendimento escolar em algumas matérias, como Português.

Ele é aluno no programa social no qual sou coordenador. Visitei algumas vezes a família de D. na comunidade onde o trabalho está implantado, e observei que ele é muito querido pela família, que o está sempre apoiando em relação aos estudos e também ao seu sonho, que é ser desenhista gráfico, pois nas aulas de cultura e desenho livre mostra desenvolvimento intelectual muito rico e tem enorme talento para desenhar, tem boa coordenação motora fina ao pegar lápis e canetas para desenvolver os desenhos; a família também o apoia na prática das atividades físicas no projeto.

D., antes de ingressar no projeto, era uma criança muito tímida, retraída na sua vida social e escolar, não se comunicava direito com os outros jovens de sua idade, não olhava fixo nos olhos de ninguém, não participava das aulas de Educação Física na escola por ter vergonha de não saber executar as atividades, por apresentar distúrbios e transtornos globais no desenvolvimento motor; tinha vergonha de ser o centro das brincadeiras e gozações entre os alunos, conforme relato de sua mãe, Sra. N.

No término do programa social em dezembro de 2011, tive a oportunidade de conversar pessoalmente com a Sra. N, que ela relatou uma grande diferença na vida de D. desde que ele ingressou no programa Social e começou a praticar atividade física. Ela relatou que o seu filho nunca tinha participado das aulas de Educação Física na escola onde está matriculado, e depois que ele começou a frequentar e a praticar as atividades físicas e atividades de interação social no programa teve sua vida transformada, começou a participar das aulas de Educação Física na escola municipal de Niterói, teve melhora muito expressiva nos estudos, sendo aprovado ao próximo ano na sua escola sem ficar em recuperação (passou direto em todas as matérias), começou a interagir com seus amigos da escola e de onde mora, uma comunidade socialmente desfavorecida. Segundo Jardim (2015), para existir inclusão social tem que ter interação; se não existir a interação a inclusão social está comprometida.

Capitão demonstra, no começo das aulas, isolamento na parte afetiva entre o professor e os alunos do projeto; observamos que D. é uma criança que necessita muito da parte afetiva para seu desenvolvimento e crescimento como indivíduo.

Podemos observar que, nas aulas que coordeno e ministro, o toque, a linguagem e o afeto, itens constantemente citados na Psicomotricidade Relacional como meio de comunicação, interação e socialização, principalmente; com o D. produz bom resultado no desenvolvimento, mesmo com suas limitações motoras e de atenção.

Observamos também o desejo de D. de aprender os movimentos corretos e o interesse dele pelas atividades coletivas como o futebol e o handebol, pelas atividades individuais, como o atletismo e pela aula de que ele gosta muito, de cultura e desenhos livres. O que também chamou atenção foi a garra e a vontade dele em investir em seu sonho; durante as aulas ele falava do seu desejo de ser um profissional de excelência, e isso foi muito importante para sua evolução nas aulas do projeto, nas aulas de sua escola e na sua vida.

De um jovem muito tímido que não conseguia olhar nos olhos das pessoas, passou a ser um jovem descontraído e comunicativo, conseguiu o respeito e o carinho das crianças e jovens da comunidade durante as atividades físicas do projeto, todos os alunos sabiam de sua deficiência e de sua dificuldade em executar os movimentos durante as aulas, mas todos o acolheram e o ajudaram em sua dificuldade; hoje ele é o Capitão no programa social e na comunidade onde reside.

Considerações finais

A Psicomotricidade deve afirmar-se como um caminho novo, tendo sua originalidade própria para abordar o inconsciente através de suas manifestações mais diretas nas pulsões do agir.

Carlos Alberto de Mattos Ferreira, psicanalista, psicomotricista, coordenador do curso de pós-graduação lato sensu em Psicomotricidade do IBMR e fonoaudiólogo no Rio de Janeiro

Este trabalho é de suma importância, porque nele podemos observar o desenvolvimento de D., em que testemunhamos a enorme importância da Psicomotricidade Relacional e das atividades de Educação Física na sua vida e das crianças do programa social na parte afetiva. O início do trabalho com ele foi um pouco difícil, pois ele não deixava nem ser tocado nem ter contato corporal como um abraço, pois ele tinha muita vergonha dos seus tumores e manchas, mas rapidamente sentiu confiança, e deduzimos que esse envolvimento afetivo (relacional) foi o fator primordial para seu bom desenvolvimento nas aulas e para o desenvolvimento do meu trabalho com ele.

Referências

AUCOUTURIER, Bernard; LAPEIRRE, André. Bruno: psicomotricidade e terapia. Trad. Alceu Edir Fillman. Porto Alegre: Artes Médicas, 1986.

JARDIM, Marcelo B. A importância da Psicomotricidade Relacional na inclusão, estimulação e reabilitação de pessoas com deficiências. EFDeportes.com, revista digital. Buenos Aires, nº 205, Junio 2015. Disponível em: http://www.efdeportes.com/efd205/a-psicomotricidade-relacional-de-pessoas-com-deficiencias.htm.

______. O afeto como instrumento primordial na atuação do educador físico com crianças e jovens de comunidades carentes. Rio de Janeiro: ibmr/Laureate International Universities, Pós-Graduação em Psicomotricidade (Educação e Clínica). 2012.

SBP. Sociedade Brasileira de Psicomotricidade. Disponível em: www.psicomotricidade.com.br. Acesso em: 11 set. 2011.

Sites pesquisados

http://blogpop.com.br/entretenimento/curiosidades/neurofibromatose-doenca-rara-tipo-1-tipo-2-tratamento-sintomas. Acesso em maio de 2012.

http://www.espinhabifida.com/. Acesso em maio de 2012.

http://www.nf.org.br/nf_profissional_nf1.asp. Acesso em maio de 2012

Publicado em 24 de maio de 2016