A visão de alunos sobre projetos de inclusão na escola: um estudo de caso

Adriana Oliveira Bernardes

Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (UENF)

Enock Peixoto

Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO)

Introdução

Cada dia mais, as novas tecnologias vêm fazendo parte da vida escolar, colaborando para o aprendizado e para interação entre professor e aluno.

Nas escolas, muitas atividades acontecem sem que necessariamente o aluno interaja com ela e verificamos que os blogs podem colaborar muito em relação a essa questão.

Implantando um projeto que discute a inclusão de alunos cegos na escola, divulgamos as atividades por meio de um blog para o qual sempre eram postadas as atividades realizadas e publicadas as fotos de oficinas, palestras e eventos realizados.

Com a Lei de Diretrizes e Bases, na qual foi estabelecida a importância da presença do aluno com necessidades especiais na sala de aula regular, muitas discussões vêm sendo realizadas, a maioria abordando a questão do professor e suas possibilidades de trabalho com esse aluno. Porém a percepção do aluno vidente dentro da escola convivendo com aluno cego ou com baixa visão também é importante no processo de inclusão, e acreditamos que deva ser conhecida. Qual a visão dos alunos dentro da escola sobre a questão da deficiência? Como eles observam os trabalhos realizados pelo professor e as ações realizadas pela escola em projetos inclusivos?

Neste trabalho apresentamos uma análise dos comentários realizados no blog de divulgação de projeto inclusivo, especificamente abordando a questão da deficiência visual, tendo observado no discurso dos alunos que eles dão importância ao trabalho e acreditam que ele deva ser realizado na escola efetivamente.

Levar a discussão da questão diversidade para sala de aula, visando um debate sobre os alunos com necessidades especiais, é algo que deve ser realizado na escola com ações que propiciem ao aluno conhecer as diferenças entre as pessoas em nossa sociedade e que elas vivem e aprendem de maneiras diversas.

A Lei de Diretrizes e Bases fala na importância de manter o aluno com deficiência em sala de aula regular; ali é afirmado que “o atendimento educacional especializado gratuito aos educandos com necessidades especiais deve se dar preferencialmente na rede regular de ensino” BRASIL (1996, p. 2), porém sabemos da importância de que esse processo não só contemple a permanência do aluno na escola, mas que esta se dê de modo a propiciar a esse aluno condições para uma aprendizagem de qualidade.

A chegada de tais alunos para absorver o conhecimento, sobretudo em disciplinas consideradas de difícil assimilação, como a Física, pressupondo a diversidade de alunos que se tem em sala de aula, é de grande relevância.

Nesse contexto, é importante que conheçamos também a visão do aluno sobre essa questão na escola, podendo assim responder a perguntas como: o discente é indiferente à questão da presença de alunos especiais na escola? Como ele vê a atuação desses professores juntos aos alunos? O que pensam dos projetos inclusivos?

Para que a escola ofereça uma educação de qualidade, é importante que todos os seus atores – professores, pais de alunos, alunos e funcionários – vivenciem e enfrentem as dificuldades para que tal qualidade ocorra e colaborem para que ela se dê de forma plena, fazendo parte da luta por uma escola inclusiva e de qualidade.

Nesse contexto, poderíamos considerar que

o sucesso da inclusão de alunos com deficiência na escola regular decorre, portanto, das possibilidades de conseguir progressos significativos desses alunos na escolaridade, por meio da adequação das práticas pedagógicas à diversidade dos aprendizes. E só se consegue atingir esse sucesso quando a escola regular assume que as dificuldades de alguns alunos não são apenas deles, mas resultam em grande parte do modo como o ensino é ministrado, a aprendizagem é concebida e avaliada. Pois não apenas as deficientes são excluídas, mas também as que são pobres, as que não vão às aulas porque trabalham, as que pertencem a grupos discriminados, as que de tanto repetir desistiram de estudar (Mantoan, 2005).

Ainda sobre essa questão, é interessante observar que o que se está discutindo não é a presença pura e simples de alunos com necessidades especiais em turmas regulares, mas também a qualidade da educação que eles estão recebendo; nesse sentido,

o desafio da educação inclusiva é atingir uma educação de qualidade, obtendo a escola regular como parceira, organizando-se de modo que o atendimento aconteça com todos os alunos sem nenhum tipo de discriminação, de modo que reconheça as diferenças como fator de enriquecimento no cenário educacional (Fernandes, 2015, p. 1).

A Declaração de Salamanca foi de suma importância para que hoje lutemos por uma escola inclusiva, já que esse documento considerava que todas as crianças são diferentes e o ensino precisa se dar para pessoas que aprendem de modo diferente e possuem necessidade de recursos diferenciados.

Acordado à Declaração de Salamanca, compreende-se que todas as crianças possuem suas diferenças perante as características, habilidades, interesses, no entanto as necessidades são únicas: têm o direito a educação e o ensejo de aprender (Fernandes, 2015, p. 1).

Neste trabalho, utilizamos o blog como veículo de discussão do projeto realizado; ele consta de uma página na internet que propicia a interação entre professores e alunos e toda a comunidade escolar. Devemos considerar que blogs podem ser facilmente elaborados pelo professor e acessados pelos alunos.

O estímulo a um aprendizado colaborativo tem no blog um grande aliado, pois ele, na medida em que proporciona a interação entre grupos, produz aprendizado a partir dessa interação.

Nesse contexto, a educação poderá beneficiar-se ao agregar conceitos andragógicos e pedagógicos, com o objetivo de estimular a aprendizagem colaborativa e fomentar a construção do conhecimento a partir de um instrumento que diz respeito ao hoje e ao que as pessoas estão usando como forma de expressão. Assim, o uso do blog na educação apresenta-se como um possível viabilizador da construção do coletivo a partir da cooperação para o conhecimento (Barbosa, 2005, p. 2).

Os blogs de projeto, além de divulgar informação sobre o tema central do trabalho desenvolvido, também podem divulgar as atividades realizadas, os eventos promovidos ou eventos dos quais o projeto participa, como congressos e feiras de ciências, entre outros.

Obtivemos resultados através do blog do projeto Recursos Didáticos para o Ensino de Astronomia para Deficientes Visuais. Como a visão sobre a deficiência é historicamente construída, a conscientização e formação dos alunos nas escolas é fundamental para que discentes com necessidades especiais cheguem a um ambiente inclusivo no qual eles próprios, com os demais colegas, colaborem para a efetivação desse espaço, pois percebem a diversidade e a encaram como algo natural com o qual se convive não só durante a vida na escola, mas na vida como construção cidadã.

Assim, cabe ressaltar que

é importante lembrar que a visão sobre a deficiência é social e historicamente construída; a conotação que temos hoje do que seja deficiência certamente é bem diferente daquela de outros momentos da história. Com o fim da Idade Média e o início da Moderna, a deficiência começou a ser vista como uma doença, o que não acontecia antes; a partir daí começou-se a pensar em educação para as pessoas com deficiência (Bernardes, 2010, p. 18).

Na atual sociedade, temos o avanço de não se considerar a deficiência como algo demoníaco ou patológico, como já ocorreu no passado; entretanto, os desafios para criar uma escola efetivamente inclusiva, capaz de tratar tais pessoas com o respeito que elas merecem, ainda é um caminho longo a ser percorrido. Várias dificuldades se impõem frente a esse problema, entre elas o fato de tais crianças serem colocadas em uma sala sem o suporte adequado para que possam aprender ou com docentes despreparados para atender esse público. Não basta colocar tais discentes em sala e considerar este um ato inclusivo; isso é um engodo, que apenas vai engrossar as estatísticas do Estado como aquele que cumpre as exigências de uma política pública inclusiva. É urgente e necessário avançar com ações concretas para que a inclusão não seja para preencher planilhas e sustentar números que indicam melhorias nesse campo; precisamos de melhoras efetivas, de ações didáticas, pedagógicas, técnicas que favoreçam de verdade a vida dessas pessoas. Para isso, é necessário um verdadeiro respeito pela pessoa humana – o que nem sempre ocorre com as nossas políticas de educação pública. Entretanto, não podemos desconsiderar o esforço de educadores, governos, dos próprios discentes e das famílias em lutar para que a situação do aluno especial seja tratada com mais dignidade.

Objetivos

O trabalho realizado visava discutir a questão da deficiência na escola e desenvolver materiais táteis e de áudio que trabalhassem com os alunos as características das superfícies dos planetas. Nesse sentido,

  • Pretendeu desenvolver atividades nas quais os alunos tiveram oportunidade de, em uma oficina, conhecer uma possível forma de aprendizagem que inclui os deficientes visuais;
  • Buscou discutir a utilização do blog para divulgação de projetos inclusivos;
  • Objetivou obter a visão dos alunos sobre tais projetos na escola a partir dos depoimentos deixados por eles.

Metodologia

Com o desenvolvimento do trabalho junto a alunos de escola pública do Estado do Rio de Janeiro, objetivava-se aproximá-los da questão da diversidade, na qual encontramos também alunos com necessidades especiais. Visamos provocar reflexões sobre o tema e foram elaborados materiais táteis voltados ao ensino de Astronomia para deficientes visuais; esses materiais descreviam as superfícies dos planetas chamados rochosos: Mercúrio, Vênus, Terra e Marte.

Informação sobre a Escola Tuffy El Jaick

Com o desenvolvimento do projeto, a partir da interação dos alunos com os materiais obtivemos depoimentos deles sobre o que pensavam do projeto e da sua divulgação na escola.

Os comentários foram postados no blog do projeto e esboçam a visão dos alunos sobre o trabalho desenvolvido. Cada uma das atividades desenvolvidas foi postada; catorze postagens abordavam as atividades desenvolvidas no projeto. Elas tinham conteúdos relacionados às atividades dos alunos de iniciação científica em interação na escola, elaborando apresentações para o público escolar discutindo a questão da deficiência; apresentando os materiais elaborados; participando de feiras de ciências municipais e estaduais e da Semana Nacional de Ciência e Tecnologia.

O relato acima analisou o tipo de postagem e os comentários realizados pelos alunos ao longo do projeto.

Resultados

Os resultados foram obtidos a partir da análise dos depoimentos dos alunos no blog do projeto; ali eram postados comentários dos sobre as atividades desenvolvidas pelos discentes de iniciação científica.

Os comentários dos alunos eram, em sua maioria, de três tipos:

  • Elogios ao trabalho realizado na escola;
  • Discussão da importância do ensino de qualidade para pessoas com necessidades especiais;
  • Relato da facilidade de aprendizado com o material inclusivo elaborado para alunos com e sem deficiência.

Comentários dos alunos no blog

Todas as pessoas podem aprender, sejam elas deficientes ou não, e o projeto traz uma alternativa de ensino para os deficientes visuais. Parabéns!!!

Adorei a possibilidade de poder sentir com o toque o que pessoas deficientes passam todos os dias.

Bem interessante o projeto do grupo. O projeto já foi aplicado em alguma escola? O que teve mais resultado? A experiência tátil ou a sonora? Parabéns pelo trabalho!

Ajudou muito esse projeto de vocês, pois muitas pessoas não sabem o que é ter uma deficiência e não conseguir ter acesso a várias coisas. Só sentindo na pele é que realmente damos valor. Parabéns, muito legal mesmo!

É um projeto muito interessante, principalmente por ser um projeto que visa à interação do publico com deficiência visual, visto que o projeto tem como principal objetivo facilitar a vida das pessoas que possuem esse tipo de deficiência. Em minha opinião, é um projeto que, se tiver o devido apoio, pode crescer e muito, pois é um projeto em que vale a pena investir. Legal mesmo, gostei muito e espero que vá à frente e não pare por aí.

Eu achei o projeto muito interessante, pois permite ver que pessoas deficientes são capazes de aprender, assim como nós. Existem muitos métodos para ajudá-los, como esses, por exemplo; basta apenas que as pessoas vejam e reconheçam que desse modo podemos tornar as coisas bem mais fáceis para quem é portador de deficiência. Muito bom o trabalho de vocês, a equipe está de parabéns.

Esse projeto fez com que todos parassem para pensar como deve ser difícil ter alguma deficiência e não poder saber como as coisas realmente são. A ideia da feira era mostrar que mesmo a pessoa tendo uma deficiência visual ela pode sentir perfeitamente como são os planetas, uma coisa que muitos achavam impossível pelo fato de eles não poderem ver, então nunca iriam saber como são os planetas, mas através da feira muitos passaram a perceber isso de outro jeito. Devemos sempre nos lembrar de que certas atitudes como essa podem mudar a vida de muitas pessoas. O trabalho de vocês estava muito bom, foi muito bem apresentado e teve ótimo desempenho. Parabéns para a professora e para os alunos que se desempenharam muito bem.

Muito legal o trabalho de vocês, qualquer pessoa que colocasse as mãos poderia saber quais eram os planetas, pela temperatura, pelos relevos... Vocês acharam um método muito legal e muito criativo para ensinar, assim os portadores de deficiência visual podem interagir e saber como são os planetas, estão de parabéns!

Esse projeto de incentivar nos alunos uma discussão escolar sobre a questão da deficiência valoriza a aproximação dos alunos com pessoas com ou sem deficiência, traz também um desenvolvimento para um trabalho comunitário no qual os alunos dos colégios sofrem grandes problemas, como preconceitos etc. Esse projeto com certeza será útil para tudo isso. Parabéns para as alunas do projeto que está sendo construído. Vale a pena esse trabalho de vocês, o Brasil está precisando disso.

Muito interessante a iniciativa, pois permite que os deficientes visuais possam aprender mais como todos nós, e é muito importante também para que eles possam saber que, mesmo sendo diferentes, podem participar da sociedade como um todo! (Comentário de aluna do 3º ano).

Um ótimo trabalho, parabéns aos alunos e professores pelo empenho e dedicação; podemos aprender muito com as apresentações, que elas motivem outros colégios e incentive a inclusão social!

Nossa, eu gostei muito! É importante se preocupar com pessoas com deficiência visual e outras deficiências!

Parabéns pelo trabalho de vocês, ficou ótimo! Muito bem elaborado e organizado! Foi bem desenvolvido! Parabéns, muito bom! (Comentário de aluna do 3º ano).

Análise dos comentários

Dados e informações sobre o assunto foram disponibilizados no blog, que recebeu 101 comentários e teve 1.440 acessos no período de setembro a dezembro de 2011. A análise de depoimentos mostra a importância que os alunos atribuem ao desenvolvimento de tais projetos na escola, bem como valoriza o desenvolvimento de materiais que possam ser utilizados por pessoas com necessidade especiais.

No sentido formal, a Análise do Discurso teve início com o filósofo francês Michel Pêcheux em 1969; entretanto, é possível sustentar que ela já existe desde a Antiguidade grega, com a valorização da dialética com Platão e da retórica com os sofistas, por exemplo. Existem várias correntes para se trabalhar tal análise, mas de modo geral ela trata do estudo sistemático do texto escrito ou falado, quais são as ideologias, as intencionalidades dele. No passado, a Análise do Discurso estava preocupada com o embasamento da frase isolada; agora, ela se ampliou para o nível mais amplo do discurso ou do texto. É necessário que destaquemos o que é e qual a função do estudo de um texto. Trata-se da análise do sentido, do significado de um discurso, considerando a ideologia que está subjacente a ele. São os diversos modos como o ser humano produz significado para a vida. Ele não se limita apenas às abordagens escritas, mas também à fala e várias outras criações humanas, como a arte, por exemplo. Para Gregolin (1995),

empreender a Análise do Discurso significa tentar entender e explicar como se constrói o sentido de um texto e como esse texto se articula com a história e a sociedade que o produziu. O discurso é um objeto ao mesmo tempo linguístico e histórico; entendê-lo requer a análise desses dois elementos simultaneamente.

A Análise do Discurso que pretendemos realizar se refere aos interlocutores do blog. Os blogs são uma forma de linguagem contemporânea que ocorre por intermediação da internet; neles, as pessoas podem manifestar a sua posição sobre determinado assunto, geralmente de forma livre. Nesse contexto, observaremos os sentimentos e percepções que as pessoas tiveram ao fazerem a experiência dos cegos. Além disso, versaremos sobre os possíveis preconceitos e atitudes afirmativas que podem estar subjacentes nas “falas” dos participantes frente aos deficientes. No caso do trabalho em questão, pessoas foram motivadas a expor as suas posições sobre uma atividade da disciplina Física, na qual indivíduos fizeram a experiências dos cegos, de ter acesso aos planetas rochosos apenas com o contato manual e a partir dai emitir suas sensações mediante tal experiência.

Para analisar tais discursos, entendemos que podemos partir de dois pontos: o que está dito explicitamente e o que está velado, que não está explicito nas palavras dos participantes da atividade, mas que revelam um determinado modo da sociedade de se posicionar frente a pessoas especiais. Talvez o que não esteja descrito revele de modo mais decisivo o sentido das opiniões dos interlocutores.

Comecemos pelo que é dito. Consideremos que se trata de posições bastante informais, descritas a partir do sentimento mais imediato que as pessoas tiveram ao terem conhecimento da atividade. Como foi descrito, ocorreram muitas participações, mas nos deteremos nas já descritas. São no total quatorze intervenções no blog, sete delas apresentaram frases condensadas, com aproximadamente duas e três linhas; três com observações um pouco mais longas, com quatro linhas, e quatro ainda mais longas, com mais de quatro linhas. Quisemos demonstrar esse detalhe para destacar que, em um blog, as opiniões podem ser variadas tanto no conteúdo como na forma. Não analisaremos individualmente cada uma das posições, mas vamos nos deter no seu sentido mais geral.

Nas opiniões com frases mais curtas, pudemos observar a demonstração de interesse e consciência da importância do projeto, por ele colocar o aluno especial com chances de receber educação de qualidade. Acentuou-se a necessidade de se colocar no lugar do outro e sentir, pelo menos por alguns momentos, o modo como essas pessoas possivelmente sentem a vida. Nas posições com quatro linhas, observou-se, entre outros aspectos, a importância do toque objetivo nos relevos, na forma prática como a atividade ocorreu; atentou-se para a importância do método, a criatividade e, finalmente, naquelas observações que tiveram análise um pouco mais longa, além de aspectos relatados nas posições anteriores, destacou-se a importância de o grande público interagir com a deficiência visual; foi destacada a significância da consciência de pensar como as coisas são mais difíceis para essas pessoas; um dos textos destacou: “atitudes como esta podem mudar a vida das pessoas”. Outra posição traz que o projeto leva a pensar dentro da escola problemas relacionados à deficiência, promovendo a aproximação entre as pessoas, evidenciando um problema sério de nossas escolas: o preconceito.

Este breve resumo objetivou tratar de modo geral as questões que foram acentuadas nos discursos no blog. As pessoas retrataram o seu sentimento subjetivo, indicando a importância pedagógica e existencial do projeto. Atividades que podem levar pessoas portadoras de necessidades especiais e pessoas sem essas necessidades a tomar consciência sobre a efetividade do problema. Existe uma parcela da população que não é tratada com igualdade, que não recebe de forma adequada aquilo que é seu direito – uma vida digna, tanto na escola como na sociedade.

Sendo a análise do discurso uma criação de sentido, quais os sentidos que essas interpretações apresentam? Primeiro, conforme geralmente ocorre nas posições de um blog, trata-se de opiniões livres sobre determinado tema. Mas é possível observar que ocorreu grande proximidade nos discursos. Isso pode indicar que a aprovação do projeto e a concordância das pessoas apontem que a escola e a sociedade ainda não tratam de forma adequada tais pessoas, a ponto de causar admiração e também certo conforto ao saber que tais cidadãos são capazes e existem profissionais trabalhando para evidenciar isto. Os textos demonstram que há, da parte de uma parcela da sociedade, uma preocupação com o problema. Visões bastante particulares indicam que existe um horizonte mais geral, preocupado com a seriedade que o tema exige.

A segunda análise textual que pretendemos fazer é sobre aquilo que não é dito, mas que indica um sintoma presente na sociedade frente aos deficientes visuais e as pessoas portadores de necessidades especiais em geral. A partir do que as pessoas escreveram sobre deficiência visual, é possível detectar que há na sociedade certa despreocupação com tais cidadãos. Existe uma “ideologia da perfeição física” que leva ao preconceito frente às pessoas com deficiência. A ponto de causar espanto, conforme detectamos em certas falas, o fato de elas poderem aprender tal como ou próximo do que pode uma pessoa dita “normal”.

Subjaz a praticamente todas as posições um discurso de poder, pois há uma visão de mundo legitimada como certa na sociedade e um conceito de educação no qual grupos de pessoas diferentes ficam dissociados de uma vida plena na sociedade. A linguagem admirada e propositiva dos interlocutores evidencia uma sociedade excludente, preconceituosa, que, não obstante a existência de legislação que visa integrar tais pessoas na vida escolar e social, ainda as mantém distantes do pleno convívio coletivo.

Os discursos apresentam o aspecto positivo de mostrar a preocupação dos participantes com uma educação mais propositiva, que integra as pessoas com deficiência, mas também evidencia o aspecto negativo de uma realidade que está muito aquém de tratar o problema com a devida responsabilidade. O conteúdo dos textos evidencia a importância de o tema ser debatido dentro e fora da escola, e como ações pedagógicas podem ser um instrumento agregador e provocador de reflexões sobre a questão. O espaço do blog indica que pelo menos numa avaliação microssocial existe ou ajudou a despertar uma preocupação efetiva com alunos cegos. Além disso, demonstra que a capacidade de as pessoas especiais conhecerem a realidade não se limita aos planetas rochosos, mas à realidade como um todo; o que falta em muitos casos é tornar essas possibilidades viáveis.

Considerações finais

O processo de inclusão envolve a participação de todos, e iniciativas que trabalham a questão são bem-vindas. O trabalho relacionado à Astronomia envolvendo a inclusão de alunos cegos é importante para que a disciplina se torne cada vez mais inclusiva e que valorize a elaboração de recursos que possam ser utilizados por alunos com e sem deficiência. Mas como saber como os alunos recebem tais iniciativas?

Os depoimentos postados mostram que os alunos receberam com grande entusiasmo o projeto. Podemos observar que o trabalho realizado foi bem aceito pelos alunos, que postam elogios ao projeto, bem como pelas pessoas responsáveis pelo seu desenvolvimento na escola.

É importante que o tema seja discutido, e a possibilidade de interação dos alunos pelo blog traz grandes benefícios para que seja construída sua visão sobre o tema. Qual a visão desejada?

Os comentários, que foram mais de cem, mostram que os alunos apreciaram o projeto e acham importante que pessoas com necessidades especiais tenham na escola recursos que favoreçam seu aprendizado.

A posição que pudemos observar, oriunda da análise dos discursos realizados, embora não possa ser tomada com peso de diagnóstico sobre a coletividade em geral, nos apresenta pelo menos um sintoma do modo como a nossa sociedade se posiciona frente às pessoas especiais e à educação que elas recebem. Como indicamos, há o aspecto extremamente positivo de haver preocupação e valorização sobre um trabalho que traz à tona o protagonismo de alunos cegos, mas, subjacente a muitas posições, é possível perceber o reflexo de um contexto coletivo que ainda não conseguiu incluir efetivamente tais cidadãos na vida educativa e social. Tal situação é ao mesmo tempo razão de esperança e de conscientização de que a luta por uma educação mais integral e inclusiva precisa continuar.

Referências

BARBOSA, C. A. P.; SERRANO, C. O blog como ferramenta para construção do conhecimento e aprendizagem colaborativa. Disponível em: http://www.abed.org.br/congresso2005/por/pdf/011tcc3.pdf. Acesso em: 10 mar.2013.

BERNARDES, A. O. Astronomia Inclusiva no universo da deficiência visual. 2009. 144 p. Disponível em: http://www.btdea.ufscar.br/arquivos/td/2009_BERNARDES_D_UENF.pdf..

BRASIL. Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional. Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996. Brasília: MEC, 1996.

FERNANDES, I. M. C. Educação inclusiva e escola regular: pontos e contrapontos da proposta. Disponível em:

https://www.posgraduacaoredentor.com.br/hide/path_img/conteudo_542346f00d4ed.pdf. Acesso em: 10 fev.2015.

GREGOLIN, Maria do Rosário Valencise. Análise do discurso, conceitos e implicações. Alfa: Revista de Linguística, São Paulo, Unesp, Departamento de Linguística da Faculdade de Ciências e Letras, v. 39, p. 13-21, 1995.

MANTOAN, M. T. E. Caminhos pedagógicos da inclusão.

PÊCHEUX, Michel. Semântica e discurso: uma crítica à afirmação do óbvio. Campinas: Editora da UNICAMP, 1995.

______. Discurso: estrutura ou acontecimento. 2ª ed. Campinas: Pontes, 1997.

Publicado em 19 de julho de 2016