Uma alternativa: meditação!

Claudia Nunes

O tempo está diferente. Nossa dimensão de realidade está acelerada. A sensação de rápida fluidez dos dias é crescente: essa é a experiência consensual em que vivemos nós, a sociedade contemporânea. Com isso, nossa maturidade biopsicológica ou surge antes do tempo e há inconsequências assustadoras (na faixa etária) ou se estabelece como superficial, apesar do tempo, e há tensões incompreensíveis (para a faixa etária também). Crianças, jovens, adultos e idosos são moléculas soltas no vento das mudanças destemperadas dos dias e do cotidiano atual. Precisamos nos atender, nos pensar, urgentemente.

Na loucura desse tempo, os conceitos de aprendizagem, de colaboração e de maturidade, por exemplo, parecem não ter convergência natural no tempo, e isso torna o próprio tempo um grande e elástico tempo de experiência sem tempo de aprofundamento. Nós continuamos crescendo, mas criar duradouras colas sociais e profissionais tornou-se bem difícil. Como disse Caetano Veloso, “Tempo, tempo, tempo”, eis o nosso maior infortúnio e ponto de insegurança: e não há tempo para nada nem para ninguém.

Em torno desse fio desequilibrante recorre-se a religações divinas ou energéticas: para o tal pé no chão incluímos, outra vez, um percurso e uma aceitação religiosa. Nós nos voltamos para um religare em que reprogramamos cautelosamente cérebro, mente e corpo. Há uma recordação intensa das mitologias e dos rituais mais antigos: se não há tempo, há estranhamentos e, logo, o desejo de explicações e harmonias de outros tempos. A vida, no mundo, é uma sequência de ocupações mentais tornando o cérebro um profissional dos recondicionamentos mnemônicos e afetivos. Ainda amamos viver!

Não há aqui descartes ou desacatos às necessidades e emoções de cada um; há um levantamento real de que cada vez mais pessoas investem em técnicas/tecnologias alternativas para o reencontro com elas mesmas, envolvendo-se com a perspectiva da presença/existência de outras dimensões de realidade ou de processos de reorganização da chamada paz interior. O inconsciente coletivo entra em efusão de saberes ao toque ritmado das amígdalas, ínsulas e glândula pituitária: surge uma sensação de equilíbrio, paciência e grandes energias positivas.

Segundo a revista Scientific American Brasil (dez. 2014), na matéria intitulada A Neurociência da Meditação, “a difusão do rádio, depois da televisão, mesmo a influência do cinema e, recentemente, da internet, que forjou um novo padrão de comunicação em escala global, preencheram com conteúdos um tempo que, antes disso, era dominado pelos ciclos da natureza: o nascer e o pôr do sol, além das estações do ano”. Ou seja, nós, eternos ‘aprendizes de feiticeiros’, nos ocupamos com mais atividades/trabalhos e perdemos o junto, o olhar, o escutar, principalmente de nossos corpos e necessidades com o outro e conosco. Parece que estamos em areia movediça da razão, mas com relógios biológicos plenamente ativos e eletromagnéticos: a questão da gravidade está em torno de tudo e nos força a dificultar quaisquer movimentos à divagação interior. Nós trabalhamos tempo demais!

Mesmo assim, de forma crescente, as pessoas vêm procurando espaços/momentos de contemplação de si mesmas, de suas idiossincrasias e de seus objetivos de vida; e uma das técnicas mais requisitadas/revisitadas tem sido a meditação. Estamos, de novo, favorecendo o cérebro humano a realizar sua neuroplasticidade com outras origens, agora em colaboração com a neuroquímica da necessidade e do desejo de ser feliz ou de se envolver com a paz interior, por meio de uma prática emocional alternativa. Ênfase no jorro de neurotransmissores como a serotonina (humor), a dopamina (prazer), a noradrenalina (concentração) e a acetilcolina (aprendizado). Em jogo, hoje, portanto, uma certeza: o aceleramento do tempo trouxe não só a certeza da obsolescência, mas também a possibilidade de resiliência, em meio a comportamentos contrários ao esperado: silenciar, respirar, pensar e se equilibrar corporal e emocionalmente. Pela meditação, há uma contemplação de si dentro de si e para si, criando estados positivos internos, com um gosto positivo de satisfação.

A opção pela meditação é uma estratégia de conquistar, por ferramentas inatas, bem-estar e tranquilidade. E tudo isso com o propósito de manter uma convivência no novo mundo, com o novo tempo e com poucas tensões. De acordo com Ricard et al. (2014, p.32)[1] e Ricciardi (2015)[2], existem três formas comuns de meditação:

  • a atenção focada (ou concentração), que visa acalmar e centrar a mente no momento presente, desenvolvendo ao mesmo tempo a capacidade de permanecer vigilante para distrações; é a concentração à inspiração e expiração para sensações positivas; tem foco nas áreas cerebrais responsáveis pela atenção, como córtex pré-frontal, córtex parietal superior, giro fusiforme e substância reticular ativadora ascendente (SARA), em ambos os hemisférios;
  • a atenção plena (ou meditação de monitoramento aberto), que procura cultivar a consciência emotiva menos reativa a emoções, pensamentos e sensações que ocorrem no presente para impedir que eles espiralem e fujam ao controle, criando sofrimento mental; há desligamento dos estímulos visuais, sonoros ou outras sensações, sem se deixar levar por eles; é uma forma benéfica à ansiedade, à autorresponsabilização, à auto-observação antes de pensar e agir e aos sintomas da depressão, uma vez que diminui a atividade cerebral nas regiões do córtex insular e amígdala; há menos suscetibilidade aos efeitos negativos da dor e, por consequência, melhora do sono e do humor;
  • a compaixão (e bondade amorosa), que promove uma perspectiva altruísta em relação aos outros; amor incondicional aos próximos ou não, amigos ou inimigos; é preciso o desejo sincero de ajudar não só a si próprio, mas a todas as pessoas que encontrar; relação forte com a empatia, e não é fácil mantê-la, mas é necessário; aqui estão ativados o córtex somatossensorial e o insular pelo sofrimento alheio, sem tirar o equilíbrio emocional; é a real condição de fornecer incentivos positivos a si e a outrem.

Estas três formas, hoje, são amplamente praticadas em vários setores da sociedade e ao redor do mundo. E vêm provocando mudanças fisiológicas no sistema cerebral, cujos resultados são reações mais rápidas aos estímulos em geral e menos propensão a várias formas de estresse. Há um convite sendo refeito para reencontrar ferramentas que possam proporcionar ao ser humano benefícios cognitivos e emocionais que o façam permanecer vivendo e convivendo, mesmo com a velocidade do tempo.

Sendo assim, há necessidade de treinar a mente a partir do reconhecimento das próprias potencialidades, mesmo que, para isso, seja preciso atravessar o “vale da sombra da morte” das memórias mais inconscientes e tóxicas. Paz, tranquilidade e equilíbrio se alcançam quando transformamos nosso cérebro pela experiência de (se) conhecer e de ser um ser vivo humano na real e no tempo certo: aqui está a realeza de nossa humanidade. Há uma regulação dos “estados mentais para se alcançar uma forma de enriquecimento interior, uma experiência que afete o funcionamento e a estrutura física do cérebro” (p. 30). E cérebro, mente e corpo têm efeitos convergentes, efeitos que colaboram entre si e que tornam a luta pela sobrevivência emocional mais saudável e focada: é a serenidade no caos.

Nós precisamos parar! Nós precisamos nos introjetar! Nós precisamos nos manter atentos, ainda que por dentro de uma proposta divagante ou distraída das preocupações, responsabilidades e tensões mundanas. Boa parte do processo de meditar inclui uma varredura nas memórias de longa duração, já que elas refletem nossas certezas, visões de mundo e formas de agir. É sair do âmbito do córtex pré-frontal e realinhar as infovias neuronais aos nossos sistemas mais interiores e emocionantes, criando aspectos positivos dentro e fora do corpo e da alma humana.

Amígdala, hipocampo, lobo parietal e temporal, ínsula anterior e córtex cingulado detêm o poder de envolver conjuntos de neurônios a outras atividades mais subjetivas, como divagação mental, atualização de modelos internos, regulação de sensações percebidas e libertação da atenção de quaisquer estímulos distrativos. Logo, mesmo se iniciantes, todos sabem que o ponto nevrálgico de quaisquer tipos ou aspectos da meditação é a respiração. Vamos respirar e nos renovar! Vamos expandir o fluxo da consciência e ganhar flexibilidade atitudinal real! Vamos ser pessoas melhores, melhorando nossa experiência conosco, por princípio.

Uma amiga cantora sempre lembra que a palavra compaixão é fundamental para o século XXI e, de acordo com Ricard (2014), ao respirar, é preciso ter consciência também das necessidades de outras pessoas e experimentar “um desejo sincero e compassivo de ajudá-las ou aliviar o sofrimento dos outros ao protegê-los de seus próprios comportamentos destrutivos”. Entende-se que o cérebro em compaixão diminui o risco de esgotamento emocional e de ações impulsivas. Os córtices somatossensorial secundário e insular (responsáveis pelas reações empáticas, dentre outras respostas emocionais) são ativados: é uma ansiedade mais organizada e coerente, além de instituir tempo para reflexões pertinentes.

O cérebro é fiel escudeiro, afirma a professora Marta Relvas, mas não tem receita nem bula. Ele é nosso maior aprendente e, de acordo com nossas necessidades e práticas, pode construir redes provisórias que “integrem as funções cognitivas e afetivas durante o aprendizado e a percepção consciente, processo que pode resultar em mudanças duradouras em circuitos cerebrais” (p. 35).

Seja bem-vinda meditação, precisamos de alicerces como você!

[1] RICARD, Matthieu; LUTZ, Antoine e DAVIDSON, Richard J. A mente (burilada) do meditador. Revista Scientific American Brasil, Editora Duetto, ano 13, nº 151, p. 28-35, dez. 2014.

[2] RICCIARDI, Marcelo. Mente brilhante. O Poder da Meditação, Editora Alto Astral, ano 1 nº 01, p. 6-7, 2015.

Publicado em 19 de julho de 2016