Autopapos: um sistema de recompensa

Claudia Nunes

Realmente o mundo mudou. Mudou em tudo. E uma das mudanças que venho observando é o aumento das pessoas que revelam: eu falo sozinho/a. Sem nenhum senão, esta revelação tem feito parte dos papos entre amigos e vem tornando os diálogos mais profundos e esclarecedores. Realmente, saber que o outro fala sozinho tem entrado noutro patamar: não é loucura, é forma de extravasamento; não é doença, é maneira de criar o pensamento estratégico; não é esquizofrenia, é jeito de desenvolver equilíbrio emocional. Segredo: eu falo sozinha...

No mundo acelerado do século XXI, “falar sozinho” significa autopapo, ou seja, uma conversa solitária e solidária consigo mesmo, na perspectiva do entendimento de uma situação e/ou do encontro com o chamado “equilíbrio emocional”. Em tempo de ansiedade generalizada, este talvez seja um recurso interessante para o reencontro com a nossa sensibilidade, paciência e compreensão de si e do outro. Autopapo pode se projetar, por exemplo, no respeito real às diversidades de pensamento, atitude e emoções alheias; e ai talvez, só talvez, nós tenhamos um mundo melhor.

De acordo com o que venho observando e lendo, autopapos têm múltiplas linhas de ação nos sujeitos. Outro exemplo de análise pode ser: eles aceleram e qualificam o processo cognitivo e emocional necessário à convivência de todos com todos. O cérebro ganha qualidade em seu sistema de recompensa; logo, é possível pensar que os autopapos fortalecem a capacidade humana de se motivar, emocionar, agir e explorar a realidade, porque são fontes de dopamina no corpo. Como a recompensa faz parte da programação cerebral, autopapos investem em estruturas orgânicas e mentais. Resultado: menos reatividades inúteis que complicam a continuidade das relações; mais presença de espírito e espírito esportivo diante de situações/emoções ruins. Há uma varredura real das emoções tóxicas, por exemplo.

O “falar sozinho” (autopapo) é um momento da imaginação e da aprendizagem; é pensar oralmente; é uma tentativa de entender o outro; é uma necessidade de permanecer junto ao outro; é uma possibilidade de apartamento dos barulhos e murmúrios do cotidiano para se compreender e assim saber se comportar com determinadas tranquilidades; e, por fim, é uma ferramenta de mudança de comportamento simples.

Com poucas dúvidas, acredito que “falar sozinho” é um tipo de comportamento cada vez mais comum; particularmente, não vejo nada de irracional nisso. Há benefícios ao cérebro como a melhora da qualidade da plasticidade cerebral (e sua neurogênese); da formação da bainha de mielina (necessária à condução organizada das informações no cérebro); e dos processos cognitivos importantes às formas de aprender e de conviver em sociedade. Quando “falamos sozinhos” trazemos à memória variadas informações e as articulamos com as futuras situações ou pessoas com as quais temos que lidar todos os dias. É uma forma de preparação de postura, de olhar, de escuta, de temperamento e, principalmente, de diferenças sem que percamos a espontaneidade ou sem que magoemos alguém. Autopapo como instrumento de diminuição da impulsividade, da agressividade ou da reatividade humanas? Autopapo como forma de se equilibrar ações cerebelares? Interessante...

Bom, com o autopapo é possível também pensar que, em seu processo, as habilidades emocionais contidas na memória criam sinapses mais fortalecidas e experimenta-se maior compreensão de si e de mundo. Há crescente capacidade de memorização, concentração e atenção. A linguagem não verbal e física, diante de determinadas situações, tem mais harmonia e ganha mais maturidade. As lembranças acontecem com mais clareza e facilidade. Importante reconhecer, porém, que não deixamos de ser quem somos (conjunto de vivências e experiências = memória), mas é possível, em muitos momentos do autopapo, compreender quem é o outro e criar pontos maiores de respeito e escuta. E assim o reflexo da personalidade acontece com um pouco mais de condescendência e perseverança. Autopapo como instrumento de diminuição da violência atual? Novamente, um pensamento interessante...

O “falar sozinho” é ter cuidado consigo mesmo para ter cuidado com o outro. O autopapo é uma forma de exercitar o cérebro: memória e funções executivas. Há reprodução de gestos e atos em solidão pensando justamente no outro e em suas reações, afinal o autopapo se dá pensando no outro. Louco? Não! Reforma do pensamento e liberação total do que se é e pensa sem a presença do outro, mas em função também do outro. Sem o outro fisicamente, no caso do autopapo, habilidades sociais são desnecessárias e, em muitos casos, é isso que acalma e acerta nossos desentendimentos emocionais para novos (nossos) enfrentamentos.

O autopapo pode incentivar “o cérebro a manter o foco para realizar as tarefas e resolver os problemas; melhorar a capacidade de pensar, resolver as coisas de forma mais rápida e relembrar com maior facilidade”; reativar informações, principalmente visuais e sensórias; facilitar o processo de aprendizagem; e estimular a percepção e as formas de se expor entre pessoas. É uma alternativa para que as pessoas que se sentem, por exemplo, esquecidas se mostrem e ganhem mais força emocional quando suas presenças são necessárias. Se longos e duradouros, os autopapos se prestam a trazer mais harmonia à vivência das situações. Ou não? Ó, discussão boa...

O autopapo acontece dentro do carro em viagem relativamente longa ou não; quando se pratica exercício físico fora ou dentro da academia; quando, depois de um dia cansativo de trabalho, deitamos e não conseguimos dormir; quando nos damos ao luxo de um banho demorado; quando decidimos arrumar a casa ou nossos armários; quando lemos algo que nos desafia a paradas constantes para pensar; quando relaxamos em lugares aprazíveis por tempo indeterminado etc. Enfim, o autopapo é uma troca de ideias com seu eu, às vezes reprimido. É também forma de sublimação, um dos mecanismos de defesa mais positivos de que se tem notícia.

Mas atenção aos exageros: diante do excesso e da percepção de que, por exemplo, seus amigos estão lhe evitando ou já comentando sobre essa sua mania, um passatempo ou um hobby é imprescindível. Nunca estamos sós. Temos bipessoalidade, pelo menos.

Então o autopapo sou eu e o outro eu cujo espelhamento está no outro fora-eu. Trabalhamos com imagens internas modificadas pela assimilação e pela interação das imagens/informações externas.

Precisamos desses autopapos. Precisamos desses autodiálogos para ter e procurar sentidos em nossa participação na vida. Mas também precisamos da figura real do outro, importando novas cognições e emoções em nosso sistema nervoso, e causando, assim, em princípio, a chamada “maturidade emocional”.

Como o cérebro pensa com palavras, sentimentos causam confusões; daí a necessidade de autopapos em que, sem a interferência da fala e do olhar do outro, organizamos essas confusões (discussões internas) com calma e do nosso jeito. Um bom autopapo, por fim, demonstra saúde mental, ou, como diriam os orientais, é uma experiência de iluminação – e esta nos energiza para entender e respeitar o outro e suas diferenças.

Ah, de novo, o autopapo não magoa ninguém.

Referência

FURTADO, Débora. Cientificamente comprovado: falar sozinho deixa você mais inteligente. Disponível em: http://thesecret.tv.br/2014/07/cientificamente-comprovado-falar-sozinho-deixa-voce-mais-inteligente/. Acesso em 4 jan. 2015.

Publicado em 16 de agosto de 2016