A construção da identidade vista na escola: desafios e perspectivas

Isis Terse Barros de Souza Silva

Especialista Educação em Direitos Humanos (UFPB)

Josué Barreto da Silva Júnior

Doutorando em Geografia (UFPB)

Considerações iniciais

Ao avaliar o ambiente escolar, seus atores sociais e as relações nos processos de ensino-aprendizagem, pode-se compreender a relação agravante a que se referem os aspectos comportamento/aprendizagem dos educandos. Além disto, identificou-se eminente crise de valores e éticas, como respeito e tolerância, sendo implementados os preceitos presentes na musicalidade local moderna (forró estilizado), como: desvalorização da mulher, incitação ao uso de drogas como álcool; desapego ao trabalho e ao estudo etc. Com isso, tornou-se essencial desenvolver medidas que possibilitem a reflexão crítica dos educandos, permitindo o debate temático de questões como: Direitos Humanos, identidade, cultura e construção de valores. O presente artigo visa à compreensão do fenômeno da modernidade, o processo de formação da identidade cultural do indivíduo e a crise social e institucional vigente a esta ação e derivado do projeto Estudo dos Sentimentos e Valores, executado em algumas escolas do município de Sumé (PB), a fim de compreender os aspectos éticos e a formação de valores comportamentais na sociedade contemporânea e suas implicações locais.

Desenvolvimento

A questão da identidade ganha força e espaço; segundo Hall (1998), a identidade vem se tornando um problema ainda mais relevante num contexto em que as identidades deixam de se referir a grupos fechados ou apenas identidades étnicas. Num mundo instável – numa sociedade de risco (Beck, 2003), numa modernidade líquida (Bauman, 2001), as identidades também se tornam instáveis. Elas deixam de ser determinadas por grupos específicos e de ser foco de instabilidade do mundo social. As identidades tornam-se híbridas e deslocadas de um vínculo local. No entanto, isso significa dizer que elas são transformadas em tarefa individual, em processo de construção incessante, e não mais de atribuição coletiva, que implicava apenas certa conformação às normas sociais.

Bauman (2001) denomina “sociedade líquida” essa nova era da modernidade em que vivemos hoje. Ele usa esse termo dando ideia de liquidez, contrapondo à ideia de solidez, que seria a metáfora que melhor se encaixaria à primeira fase. Essa liquidez estaria invadindo todos os setores da modernidade que antes eram sólidos. Isso mostra o quão frágil a nossa sociedade se encontra, à medida que avançamos. Para complementar, Hall faz uma crítica afirmando que “as velhas identidades, que por tanto tempo estabilizaram o mundo social, estão em declínio, fazendo surgir novas identidades e fragmentando o indivíduo moderno, até aqui visto como sujeito unificado” (Hall, 1998, p. 7). O que vemos é que para ele as mudanças estruturais que vêm ocorrendo desde o final do século XX, dando início a uma sociedade moderna, estão transformando com elas as ideias que temos de sujeito e nossas formas de “exercer” uma identidade.

Contudo, podemos dizer que a identidade cultural vem se transformando ao longo do processo civilizatório. Outrora, tínhamos o sujeito do Iluminismo identificado como ser totalmente unificado desde seu nascimento, dotado de razão, consciência e ação. Pela transformação, o sujeito passa a ser visto como “sujeito sociológico”, agora capaz de participar das relações com outras pessoas, que, por sua vez, medeiam seus valores, sentidos e símbolos expressos em uma cultura. Por meio disso, passamos a projetar em nós próprios essas identidades culturais à medida que internalizamos tais significados e valores, alinhando nossos sentimentos subjetivos e ocupando lugares no mundo social e cultural em que vivemos. Ou seja, o mundo exterior é que estaria mudando, fragmentando o indivíduo, obrigando-o a assumir várias identidades, com o agravante de que o ambiente em que vivemos agora é considerado provisório e variável. Seguindo dessa forma, Bauman (2001) considera que o sujeito pós-moderno não tem identidade fixa, essencial ou permanente, devido a estar sujeito a formações e transformações contínuas em relação às formas em que os sistemas culturais o condicionam.

É importante entender que nossa cultura não é algo fixo ou imutável; ela está sempre se moldando de acordo com nossas experiências em sociedade. O que queremos afirmar com tudo isso é que o sujeito, devido ao processo de globalização, vem assumindo de forma rápida e sem perceber várias identidades diferentes em diferentes momentos, afetadas pelo meio, seja social, de comunicação e informação. A sociedade em que vive o sujeito não é um todo unificado e monolítico, uma totalidade, que flui e evolui a partir de si mesma, pois está também constantemente sendo descentrada e deslocada por forças externas. Desde o fim do século XX tem se discutido a questão da autoidentidade. Hall (1998, p. 12) aponta que

o sujeito, previamente vivido como tendo uma identidade unificada e estável, está se tornando fragmentado; composto não de uma única, mas de várias identidades algumas vezes contraditórias e não resolvidas.

Correspondentemente, as identidades que compunham as paisagens sociais ‘lá fora’ e que asseguravam nossa conformidade subjetiva com as ‘necessidades’ objetivas da cultura estão entrando em colapso, como resultado de mudanças estruturais e institucionais. O próprio processo de identificação, pelo qual nos projetamos em nossas identidades culturais, tornou-se mais provisório, variável e problemático.

Ou seja, nossa identidade cultural está diretamente ligada ao que somos e como vemos o mundo. Ela começa a ser moldada quando nascemos e é construída até o momento em que morremos. Os valores e as normas que estão ligados a uma cultura dentro de uma sociedade ou comunidade comum podem variar e até mesmo serem contraditórios: alguns grupos de indivíduos podem basear suas experiências de vida em sua religiosidade, enquanto outros se baseiam em uma visão puramente científica do mundo. As pessoas participam de várias identidades simultaneamente, em combinações às vezes conflitantes, como ser mulher, pobre, homossexual e negra ao mesmo tempo. É válido também dizer que essa identidade muda com a forma como o sujeito é interpelado ou representado e que sua identificação nem sempre é automática; ela precisa ser conquistada e pode ser alienada politicamente.

Acredita-se, no entanto, que, em vez de falar de identidade como coisa acabada, deveríamos falar de uma identificação, de um processo; essa identidade nunca é plena dentro dos indivíduos; ao contrário, ela precisa ser “preenchida” e desenvolvida. Nossa identidade não é nem genética nem hereditária; ao contrário, é formada e transformada no interior de uma representação. A nação torna-se, nesse processo formador de identidade, uma comunidade simbólica em um sistema de representação cultural. E a cultura nacional é um discurso ou modo de construir sentidos que influencia e organiza tanto as ações quanto as concepções que temos de nós mesmos.

Considerações finais

Quando se fala em “valores”, vêm à nossa mente milhares de assuntos e questionamentos. Poderíamos, todavia, falar dos valores no mundo contemporâneo que se diz estar em crise. Mas antes mesmo que nosso país entrasse nessa crise de “valores” todos os outros já viviam essa realidade. Enquanto existirem homens nesse ou em qualquer lugar do mundo, os valores humanos sempre estarão em crise, pois nós, humanos, estamos longe de sermos perfeitos e nenhuma geração estará satisfeita com os procedimentos realizados ou com os seus valores. Sempre haverá alguma coisa que se deixou de fazer ou que ficou mal-feita/resolvida. Sendo assim, vemos que muitas lutas que foram deixadas a meio e que as gerações seguintes retomaram, mas também não completaram. O que ontem foi hoje já não é mais, mas amanhã poderá ser novamente, para tornar a não ser no dia seguinte.

Pois bem, o mundo parece avançar, mas a cada três passos que o homem dá para a frente, recua cinco ou mais; assim, quando pensam estar progredindo, na realidade estão retroagindo. É difícil pensar assim, então veja que, nunca como hoje, a vida no planeta esteve tão ameaçada, apesar de toda a tecnologia de ponta que o homem se gaba de ter inventado; mas é justamente devido a essa tecnologia que o mundo está à beira de um imenso abismo, e, afirmam os cientistas, mais do que aquilo que possamos imaginar.
Em seguida, após levantarmos alguns questionamentos, penso que deixamos pontos para reflexão: que mundo é esse em que vivemos? Que valores são os nossos? O que queremos fazer de nós? Que mundo queremos deixar aos nossos filhos?

Todos esses questionamentos estão na nossa capacidade; quando digo nossa, penso na capacidade dos educadores (pais, encarregados de educação ou professores) de ensinar os jovens a raciocinar e refletir, mais do que de obrigá-los a acumular conteúdos e matérias.

Uma das muitas maneiras é começar por fazer uma pergunta simples, como: se desaprovas que cuspam no teu prato de sopa, deves cuspir no prato de sopa de quem contigo come à mesa ou na mesa ao lado? Assim, essa será a primeira noção de respeito, que irá ao encontro do ditado que diz ‘não faças aos outros o que não gostaria que fosse feito com você’.

Com essa noção faremos um jovem pensar e assim obrigá-lo a um certo raciocínio; a partir deste poder-se-á fazer grandes voos no que diz respeito ao sentimento de respeito pelos outros seres (humanos e não humanos), pelos seus direitos humanos e não humanos e pelos valores intrínsecos ao homem.

Com isso, é de fundamental importância que os educandos estejam não somente se especializando como se atualizando e correspondendo à realidade das crianças e jovens dentro e fora da escola, tentando por sua vez acompanhar essa “modernidade” que desconstrói a importância dos valores, implicando também o desrespeito aos Direitos Humanos, que vêm sendo feridos.

São pormenores como esse que acreditamos que fazem grandes diferenças entre as mentalidades, pois acreditamos que devemos ouvir sempre as crianças e os adolescentes. Conversando com eles sobre esses e outros assuntos que julgamos pertinentes, porque neles a questão da ética, dos direitos, dos deveres, das obrigações, dos valores, encontra-se no seu estado mais puro, sem grandes influências, sem os vícios e sem as imperfeições que os adultos possuem, induzidos por um patético complexo de superioridade, acreditando que devem sempre impor o seu modo de pensar, muitas vezes preconceituoso.

Referências

BAUMAN, Zygmunt. Modernidade líquida. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001.

BAUMAN, Zygmunt. O mal-estar da Pós-Modernidade. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998.

BECK, Ulrich; GIDDENS, Anthony; LASH, Scott. Modernização reflexiva. São Paulo: Editora Unesp, 1997.

HALL, Stuart. A identidade cultural na Pós-Modernidade. 6ª ed. Rio de Janeiro: DP&A, 1998.

Publicado em 19 de janeiro de 2016