Educação voltada para a cidadania

Francisco Marcos Alves

Licenciado em Filosofia (UCPE); especialista em Metodologia do Ensino de Filosofia e Sociologia (Uniasselvi)

Introdução

Este artigo tem por objetivo tratar a temática que está em voga em toda a sociedade: a Educação voltada para cidadania. O que motivou este trabalho foram os inúmeros conflitos presenciados e apresentados por alguns colegas a respeito da relação entre educação e a prática cidadã. O porquê e o para quê da educação são temas de nossas rodas de conversa, algo que faz parte de nosso cotidiano: dos bancos da universidade às filas de banco. Desenvolvemos uma pesquisa entre autores que embasam este diálogo. Eles propõem linhas mestras de raciocínio que possibilitam uma autocrítica ao sistema educacional e apresentam caracteres para a construção de um elo entre aquilo que é ensinado com o que é vivenciado. Mais do que ensinar o que está previsto em cada disciplina, a escola precisa incutir nos que estão engendrados no processo de ensino-aprendizagem características que favoreçam o seu bom relacionamento com a sociedade.

Desde as grandes civilizações, a educação é um ponto de questionamento em todas as sociedades. Essa inquietude social e pessoal levou à elaboração deste artigo a partir de pesquisas entre autores que versam sobre este tema: Educação voltada para a cidadania. Para Rosa (2001, p. 58-59), a educação

é a felicidade que resulta do desenvolvimento harmônico das tendências de um ser, do exercício da atividade que o especifica. A atividade específica do homem é a inteligência, a razão. A suprema felicidade do homem está na contemplação da verdade mais alta e inteligível. Elemento para alcançá-la é a virtude, conquista da liberdade sobre os apetites irracionais, submissão da atividade prática aos ditames da razão, hábito de escolher em tudo o justo meio, evitando assim o extremo como defeito – ambos viciosos – de uma qualidade. A moral aristotélica é, pois, um eudaimonismo racional.

Mas nem sempre a educação segue essa concepção da felicidade racional aristotélica; pelo contrário, os sujeitos são engendrados numa espécie de sistema de formas, ou seja, são aperfeiçoados no que é exigido pelo sistema naquele momento. É necessário ir avante dessa perspectiva e ter uma concepção crítica da educação. Para Duarte Jr. (1985, p. 73), “consciência crítica significa uma capacidade de escolha, uma capacidade crítica para não apenas se submeter à imposição de valores e sentidos, mas para selecioná-los e recriá-los segundo nossa situação existencial”.

Embora seja bastante questionada a função da educação, não podemos negar que a sua finalidade na sociedade se resume a princípios basilares; Read (1986, p. 18) afirma que

todas as palavras de uso possível para expressarmos o propósito da educação: ensino, instrução, criação, disciplina, aquisição de conhecimento, aprendizagem forçada de maneiras ou moralidade – todas elas se reduzem a dois processos complementares que podemos descrever com propriedade como “crescimento individual” e “iniciação social”.

É clara a incumbência que há para a educação: deve estar voltada para a construção da cidadania, e a responsabilização para a promoção dela que é do Estado e da família. Estes elementos é que irão permear todo o artigo, levando à compreensão de que a discussão requer bastante atenção e atualização permanente para que não caiam em desuso as práticas educacionais e percam a sua efetividade em nossa sociedade.

A educação, direito de todos e dever do Estado e da família, será promovida e incentivada com a colaboração da sociedade, visando ao pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho (Constituição Federal de 1988, Art. 205).

Educação e cidadania

Educação e cidadania são dois temas bastante discutidos; no entanto, falta uma conexão necessária entre os dois. Mas como se dá a relação entre essas duas esferas? De onde partimos? Nessa perspectiva, partimos da educação e não podemos, nesse contexto, pensar em uma educação que seja mera reprodução de conhecimentos que foram produzidos no passado e que se reproduzem de geração em geração (Freire, 1987).

Não é de estranhar, pois, que nesta visão “bancária” da educação os homens sejam vistos como seres da adaptação, do ajustamento. Quanto mais se exercitem os educandos no arquivamento dos depósitos que lhes são feitos, tanto menos desenvolverão em si a consciência crítica de que resultaria a sua inserção no mundo, como transformadores dele. Como sujeitos (Freire, 1987).

O diálogo entre professor e aluno, o conhecimento científico e aquilo que o indivíduo traz de suas experiências são a base para que a educação aconteça. O professor, pela sua experiência no processo, dá as coordenadas, como o oráculo que impulsionou o filósofo Sócrates com as seguintes palavras: “Ó homem, conhece-te a ti mesmo e conhecerás os deuses e todo o universo” (Chalita, 2016).

A educação promove o ser humano, fazendo-o conhecer aquilo que são seus pensamentos e suas atitudes, e, consequentemente, as implicações sociais e pessoais que eles têm. A relação que o homem tem consigo e com o conhecimento o torna protagonista na sua própria história e confere-lhe autonomia.

O que quero dizer é que a educação nem é uma força imbatível a serviço da transformação da sociedade porque assim eu queira, nem é a perpetuação do status quo que o dominante decrete. O educador e a educadora críticos não podem pensar que, a partir do curso que coordenam ou do seminário que lideram, podem transformar o país. Mas podem demonstrar que é possível mudar. E isso reforça nele ou nela a importância de sua tarefa político-pedagógica (Freire, 1996).

“A educação para a ética prepara o ser humano para o equilíbrio de aceitar que não devem prevalecer as vontades individuais; a cidadania, afinal, não é um direito solitário – é a arte da convivência social” (Chalita, 2016).

O homem ético tem por meta a cidadania, e para que seja ético é preciso que ele seja educado, e “através de sua permanente ação transformadora da realidade objetiva os homens, simultaneamente, criam a história e se fazem seres histórico-sociais” (Freire, 1987).

Conclusão

A educação tem por essência a perspectiva emancipatória, ou seja, confere ao indivíduo a possibilidade de chegar àquilo aonde ele poderia chegar por meio da educação. Essa visão um pouco platônica, mas não reducionista, confere-nos a visão daquilo que porventura poderá ser a educação na vida das pessoas se aplicada e construída corretamente. É necessário que as pessoas sejam capazes de construir a sua própria história em consonância com o projeto pelo qual se constrói em harmonia com a sociedade.

A família e o Estado têm a responsabilidade no projeto de educar, algo assegurado por lei; por isso deve ser sempre vigiada pela própria sociedade, a fim de que os responsáveis não fujam de suas competências. Se um dos dois não cumpre suas obrigações, possivelmente teremos sérios prejuízos, já que a vida em sociedade é um todo. Se uma das partes não vai bem, o todo também não poderá estar.

Segundo Aristóteles, o homem que não quer viver em sociedade ou é um deus ou uma besta. Ou seja, um deus por ser autossuficiente e não depender de ninguém para sobreviver; uma besta por não ser capaz de discernir que sem a sociedade fica inviável a existência. Daí o nosso olhar crítico para a conjuntura da educação e para a sociedade: a educação se faz necessária para que os indivíduos sejam capazes de se estabelecer como seres sociais.

As escolhas são necessárias para que se efetive a educação para a cidadania. É preciso adotar uma postura. É preciso conscientizar sobre direitos e deveres, lutando pela justiça e não servindo a conjecturas ideológicas que não sejam estas. É algo urgente e gritante a necessidade dessa transformação. É algo que atinge várias estruturas: educacional, política, social e econômica. É preciso parar de exigir apenas direitos, mas ser capaz de também vivenciar os deveres frente à sociedade.

Referências

BRASIL. Constituição Federal, Art. 205.Disponível em: http://www.jusbrasil.com.br/topicos/1241734/artigo-205-da-constituicao-federal-de-1988.

CHALITA, Gabriel. O papel do professor na construção da cidadania. Disponível em: http://www.chalita.com.br/index.php/o-escritor/textos/item/227-o-papel-do-professor-na-constru%C3%A7%C3%A3o-da-cidadania.html. Acesso em: 12 abr. 2016.

FREIRE, Paulo. Pedagogia do oprimido. 17ª ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987.

______. Pedagogia da Autonomia. Saberes necessários à prática educativa. 25ª ed. São Paulo: Paz e Terra, 1996.

READ, Herbert. A redenção do robô. São Paulo: Summus, 1986.

ROSA, Maria da Glória de. A história da educação através dos tempos. São Paulo: Cultrix, 2001.

Publicado em 27 de setembro de 2016