Intimidação sistemática (bullying): reflexões e dicas de elaboração de projeto antibullying

Luciano Luz Gonzaga

 Doutorando em Educação (UFRJ), professor da Seeduc-RJ

Denise Rocha Corrêa Lannes

Professora associada do Instituto de Bioquímica Médica Leopoldo de Meis (UFRJ)

O bullying ou intimidação sistemática é uma forma de agressão intencional que envolve um poder assimétrico entre o(s) agressor(es) e a vítima (OLWEUS, 2004). No Brasil, o bullying passou a ter maior relevância a partir de dois eventos consecutivos: em 2003, no interior de São Paulo, quando um jovem de 18 anos invadiu uma escola, ferindo oito pessoas. E em 2004, no interior da Bahia, quando um estudante de 17 anos foi armado para a escola, matando um colega que o intimidava e a professora de quem não gostava.

Em pesquisa realizada com mais de 1.230 escolares, Ricardo Rech e seus colaboradores (2013) buscaram traçar um perfil dos perpetradores e das vítimas. Nessa pesquisa, constataram que os insatisfeitos com a imagem corporal apresentaram mais do que o triplo de chances de serem vítimas e quase o dobro de chances de serem agressores em relação aos satisfeitos.

Segundo Lopes Neto (2001, p.47), os agressores apresentam algumas características peculiares, como: “habitualmente são populares, assumem atitudes agressivas contra os adultos, possuem plena satisfação em causar danos e sofrimentos aos outros e aprendem a usar o poder com a intenção de dominar os colegas”.

Alguns especialistas afirmam não existir um fator específico para se tornar uma vítima em potencial. No entanto, os gays apresentam alta potencialidade de serem vítimas de bullying nas escolas, culminando na evasão ou sofrendo ataques violentos por parte do(s) agressor(es) (Gearhart; Zhang, 2014).

Assim, partindo dessa premissa, Gonzaga, Velloso e Lannes (2014, p. 116) buscaram identificar as representações sociais[1] de estudantes do Ensino Médio acerca da homossexualidade e puderam constatar uma “crença indefinida, limitada a pensamentos preconceituosos e equivocados sobre gênero e sexualidade, bem como a conflitos internos que podem ser manifestados sob as diferentes formas de violência”, como, por exemplo, o bullying homofóbico.

O que a escola deve fazer?

Para a professora Isabel Alarcão, há uma maneira de a escola resolver diversos problemas, seja de ordem pedagógica ou interpessoal. Para isso, a escola precisa ser capaz de “pensar a si própria, sua missão social e sua organização e se confrontar com o desenrolar da sua atividade em um processo heurístico simultaneamente avaliativo e formativo” (2001, p. 25).

Na opinião de Tavares (apud Alarcão, 2001, p. 32), é condição sine qua non que as relações interpessoais estejam em plena harmonia, pois “é nessa trama que as pessoas são, conhecem, sentem, agem, aprendem e vivem”; são, portanto, fundamentais na elaboração de programas antiviolência.

Então, como criar um programa antibullying?

“Os programas antiviolência implantados nas escolas determinaram significativas reduções nas taxas de bullying, que variaram de 20% a 80%” (Lopes Neto, 2011, p. 62). Assim, algumas dicas são necessárias (ver Figura 1):

a)  é preciso mudar a cara da escola. Segundo Freire (1997, p. 35), “não se muda a cara da escola por um ato do secretário”, mas é possível a partir da convergência de ideias advindas de grupos heterogêneos.

b)  uma vez tendo essa convergência, é fundamental que todos tenham o poder da palavra. Destarte, será possível confrontar diferentes pontos de vista, aprofundar ideias e revelar sentimentos (Alarcão, 2001).

c)  existindo o poder da palavra, surge o momento de criar as regras de convivência. É importante esclarecer que, quando os estudantes se tornam ativos nesse processo, a tendência é que eles comecem a assumir essas regras como suas e, consequentemente, passem a se esforçar para cumpri-las (Ortega; Del Rey, 2002).

d) havendo as regras de convivência, surge a necessidade de obter um sistema de registros de ocorrências que, por sua vez, deve permitir o monitoramento dos comportamentos antissociais e garantir que os incidentes não serão negligenciados (Lopes Neto, 2011)

A negligência ou a inoperância dos registros de ocorrência irão comprometer todo o trabalho, induzindo a vítima ao desacreditar na eficácia do programa.

Na impossibilidade da escola para resolver o problema sozinha, a equipe escolar deve envolver outras instituições, como o Ministério Público, o conselho tutelar e a delegacia de polícia, que poderão dar os suportes legais às ações pedagógicas (Fante, 2005).


Figura 1. Passos para a realização de um projeto antibullying.

No Brasil, o bullying tem sido alvo de intensos estudos de pesquisa há mais de 20 anos. Entretanto, somente em 2015 foi sancionada a Lei nº 13.185, em que fica instituída a criação de programas de combate à intimidação sistemática em todo território nacional.

Assim, ansiamos que este texto possa efetivamente conduzir à reflexão acerca de uma forma de violência invisível e cada vez mais recorrente em nossas unidades escolares. Acreditamos o quanto é importante discutir e pensar em práticas de prevenção e de enfrentamento.

Referências

ALARCÃO, I. (org). Escola reflexiva e a nova racionalidade. Porto Alegre: ArtMed, 2001.

FANTE, C. Fenômeno bullying: como prevenir a violência nas escolas e educar para a paz. Campinas: Verus, 2005.

FREIRE, P. Pedagogia da autonomia: Saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 1997.

GEARHART, S.; ZHANG, W. Gay bullying and online opinion expression testing spiral of silence in the social media environment. Social science computer review, v. 32, nº 1, p. 18-36, 2014.

GONZAGA, L. L.; VELLOSO, A.; LANNES, D. As representações sociais acerca de gay entre estudantes da periferia do Rio de Janeiro. Interthesis, v. 11, nº 2, 2014.

JODELET, D. Representações sociais: um domínio em expansão. In: JODELET, D. (org.). As representações sociais. Rio de Janeiro: EdUERJ, 2001.

LOPES NETO, A. A. Bullying: saber identificar e como prevenir. São Paulo: Brasiliense, 2011.

NETO, N. T. As implicações do bullying no desenvolvimento afetivo das crianças nos anos iniciais. Monografia, 66f. Salvador, 2011. Disponível em: http://www.uneb.br/salvador/dedc/files/2011/05/MONOGRAFIA-NEUZA-TINOCO-NETO.pdf. Acesso: 28 abr. 2016.

OLWEUS, D. Bullying at school: Prevalence estimation, a useful evaluation design, and a new national initiative in Norway. Association for Child Psychology and Psychiatry Occasional Papers, nº 23, p. 5-17, 2004.

ORTEGA, R.; DEL REY, R. Estratégias educativas para a prevenção da violência. Trad. J. Ozório. Brasília: Unesco/UCB, 2002.

RECHA R. R.; HALPERNB, R.; TEDESCO, A.; SANTOS, D. F. Prevalence and characteristics of victims and perpetrators of bullying. J Pediatr (Rio J), v. 89 (2), p. 164−170, 2013.

TAVARES, J. Relações interpessoais em uma escola reflexiva. In: Escola reflexiva e a nova racionalidade. Porto Alegre: ArtMed, 2001.

[1] Teoria que informa a organização e direciona o funcionamento cognitivo do grupo, orientando suas ações e posicionamentos (Jodelet, 2001).

Publicado em 27 de setembro de 2016