Lições do passado, desafios do presente: apontamentos sobre Problemas da Literatura Infantil

Jussara S. Pimenta

Doutora em Educação (UERJ), mestra em Educação (PUC-Rio) e professora do Departamento de Ciências da Educação (UNIR)

A leitura é uma das formas mais eficientes de aprendizagem, que supera os recursos audiovisuais tão presentes na atualidade. Pela leitura, temos acesso aos conhecimentos das diferentes áreas, o que faz com que ela tenha um lugar especial na formação tanto do educador quanto do educando. Dificilmente um estudante terá desempenho satisfatório em Matemática, Geografia ou História se não souber interpretar um texto. No entanto, os textos, em suas diversas formas (literária, formativa e informativa), não têm sido apresentados de maneira compreensiva e crítica, o que compromete todo o trabalho que se tem tentado fazer nas escolas.

O que se percebe é que a forma como se trabalha a leitura em muitas das nossas escolas contribui para que o estudante não tenha gosto nem interesse pelos livros, principalmente quando alcançam os níveis posteriores do Ensino Fundamental e o Ensino Médio. E se os estudantes não têm desenvolvido o gosto e o hábito de leitura, talvez seja pelo conteúdo das leituras, pela forma como o texto se apresenta e pelas habilidades necessárias (atenção, concentração, perseverança) e até mesmo pela falta de motivação. Para vencer tais dificuldades, necessária se faz a introdução de novas formas de abordagem da Literatura Infantil na escola e, caso esta já exista no currículo, incrementar a dinâmica das aulas de forma a proporcionar e promover a participação ativa dos estudantes, inclusive com leituras condizentes com as suas possibilidades cognitivas.

O despertar do interesse pelos livros passa obrigatoriamente pelos primeiros anos e pela escolarização. As crianças que não puderem beneficiar-se desse estímulo estarão certamente prejudicadas em relação às demais que, pelo meio familiar e escolar, descobriram a leitura. Assim, os adultos têm papel decisivo na iniciação, que poderá transformar-se em prazer ou desprazer quase que definitivos (Yunes; Pondé, 1988, p. 56).

Algumas dessas questões já faziam parte das indagações de alguns educadores nos primeiros anos do século XX. Em 1949, Cecília Meireles proferiu em Belo Horizonte uma série de palestras sobre o tema que foram reunidas em um livro a fim de integrar a “Coleção Pedagógica” da Secretaria de Educação do Estado de Minas Gerais, em 1951. Logo no início da obra, Cecília esclarece que o trabalho não tem a pretensão de delimitar e resolver todos os problemas que envolvem a Literatura Infantil, mas apenas “insistir sobre a sua importância e alguns de seus variados aspectos”.

A partir dessa proposta, a autora ocupou-se, ao longo dos 19 capítulos – curtos, porém recheados de significado –, da definição da Literatura Infantil como aquela que costuma ser aprovada pelas crianças, independente ou não de ser endereçada para elas.

Costuma-se classificar como Literatura Infantil o que para elas (crianças) se escreve. Seria mais acertado, talvez, assim classificar o que elas leem com utilidade e prazer. Não haveria, pois, uma Literatura Infantil a priori, mas a posteriori (Meireles, 1979, p. 19).

Ela chama a nossa atenção para o fato de que a falência da Literatura Infantil se deve, quase que exclusivamente, à falta de percepção, sobretudo de pais e educadores, que julgam e classificam o livro infantil, que é de sua “invenção e intenção”, como adequados às crianças a partir do seu próprio ponto de vista, ou seja, para o caráter utilitário (e, portanto, prejudicial e desastroso) da Literatura Infantil, a quem se atribui a transmissão de valores, hábitos e comportamentos socialmente úteis. Ela salienta que esse caráter preparatório esvazia a Literatura Infantil de seus aspectos estéticos, afetivos e cognitivos, qualidades que são valorizadas pelas crianças e que, se não são encontradas nos livros, faz com que elas procurem atividades que lhes proporcionem mais prazer e significado.

Um livro de Literatura Infantil é, antes de mais nada, uma obra literária. Nem se deveria consentir que as crianças frequentassem obras insignificantes para não perderem tempo e prejudicarem seu gosto. Se considerarmos que muitas crianças, ainda hoje, têm na infância o melhor tempo disponível da sua vida; que talvez nunca mais possam ter a liberdade de uma leitura desinteressada, compreenderemos a importância de bem aproveitar essa oportunidade. Se a criança, desde cedo, fosse posta em contato com obras-primas, é possível que sua formação se processasse de modo mais perfeito (Meireles, 1979, p. 96).

Outro ponto relevante desenvolvido pela autora é a distinção das várias categorias de livros infantis, dentre eles os livros didáticos, que são destinados às crianças, mas que, embora contenham histórias e gravuras, não podem ser considerados literários, “pois o que se tem em vista é o exercício da linguagem” e acabam por perder “grandes possibilidades para a imaginação”. Enumera, utilizando sobretudo citações contidas nas obras de escritores lidos e reconhecidos mundialmente como sendo livros que foram "escolhidos" pelas crianças de todas as épocas, ressaltando o fato de que alguns desses sequer foram escritos para crianças, como Robinson Crusoe, O Barão de Münchkausen, Viagens de Gulliver, dentre outros. Por outro lado, admoesta para a existência de outros que foram escritos para crianças e que por excesso de moralismo ou insipidez foram ignorados por elas:

em lugar de se classificar e julgar o livro infantil como habitualmente se faz, pelo critério comum da opinião dos adultos, mais acertado parece submetê-lo ao uso – não estou dizendo à crítica – da criança, que, afinal, sendo a pessoa diretamente interessada por essa leitura, manifestará, pela sua preferência, se ela satisfaz ou não. Pode até acontecer que a criança, entre um livro escrito especialmente para ela e outro que o não foi, venha a preferir o segundo (Meireles, 1979, p. 27).

A literatura oral é outro item fundamental na análise da autora que, segundo ela, foi relegada por nossa civilização moderna, “em que ninguém mais conversa (...) e as lições da vida parece emanarem só do cinema e do rádio”. Passados sessenta e sete anos, outros apelos, como a televisão, o videogame, o computador, a internet, o telefone celular e todos os seus recursos etc. são acrescidos ao cinema e ao rádio como interferências no convívio humano, “que supria a falta de bibliotecas”, às narrativas orais e aos contos de fadas proporcionados às crianças antes de dormirem. E acrescenta:

Por esse caminho, recebe a infância a visão do mundo sentido, antes de explicado; do mundo ainda em estágio mágico. Ainda mal acordada para a realidade da vida, é por essa ponte de sonho que a criança caminha, tonta do nascimento, na paisagem do seu próprio mistério (Meireles, 1979).

Ela faz ainda uma série de considerações pertinentes à importância da escolha criteriosa dos livros, a partir da preferência das crianças, segundo sexo e idade; sugere a pais e professores a necessidade da organização de bibliotecas infantis, “visto não existirem mais amas nem avós que se interessem pela doce profissão de contar histórias”. Em 1934, Cecília foi responsável pela organização da primeira biblioteca pública infantil brasileira, localizada no Pavilhão Mourisco, na enseada de Botafogo, no Rio de Janeiro (Pimenta, 2011). Embora não se refira a essa experiência, é enfática ao asseverar a importância das bibliotecas para a formação e do leitor, sobretudo para subsidiar o prazer da leitura:

As bibliotecas infantis correspondem a uma necessidade da época e têm a vantagem não só de permitirem à criança uma enorme variedade de leituras mas de instruírem os adultos acerca de suas preferências. Pois, pela escolha feita, entre tantos livros postos a sua disposição, a criança revela o seu gosto, as suas tendências, os seus interesses. Compõem-se as bibliotecas infantis de todos os livros clássicos e dos que se vão incorporando a essa coleção. Deviam ser anotadas as preferências das crianças sobre essas leituras, para informação dos que se dedicam ao estudo do assunto (Meireles, 1979, p. 111).

Mas se tece ao longo dos capítulos a sua crença nas possibilidades infinitas das bibliotecas e da leitura na vida das crianças, nem tudo é conto de fadas, e a autora expressa sua melancolia, aliás uma das características mais marcantes de sua obra literária, quando afirma, no capítulo intitulado “Onde está o Herói?”, sua perplexidade ante a modernidade (?), em que os escrúpulos nada significam, época em que os “bons são considerados tolos”, em que os “maus caminham de triunfo em triunfo, sem anjo, fada ou justiça que lhes intercepte o caminho”, em que a indústria do livro explora “um público aparentemente indefeso e evidentemente copioso” e que, diante de todo esse quadro, quando os heróis se tornaram bandidos “é desanimador pensar nos benefícios da Literatura Infantil” e ela se pergunta: “que leituras daremos às crianças deste século?”.

A presente obra representa um avanço na discussão do tema, preocupação de outros educadores, alguns contemporâneos da autora; porém, segundo Abgar Renault, que faz o prefácio da primeira edição, ninguém o fez com tanta sensibilidade, conhecimento e graça poética. Deve-se ressaltar que, apesar de todas essas qualidades estéticas e artísticas, há assuntos recorrentes e repetitivos (como no caso dos livros prediletos das diferentes gerações de crianças que se tornaram famosas). Se faltam sugestões de recursos metodológicos que incentivem as práticas escolares, precisamos admitir que este não é o objetivo da obra, embora exija melhor articulação entre literatura e ensino. Elas ficam difusas ao longo da obra; se problemas são, ficam minorados, como já afirmado, pela riqueza com que os demais temas são discutidos pela autora e também por estes serem assuntos que têm sido problematizados pela experiência, necessidades e pesquisas dos educadores ao longo do processo histórico.

Referências

LOBO, Y. L. Memória e educação: o espírito victorioso de Cecília Meireles. RBEP, Brasília, v. 77, n. 187, p. 525-545, set./dez. 1996.

MEIRELES, Cecília. Problemas da Literatura Infantil. 3ª ed. São Paulo: Summus; Brasília: INL, 1979. 119p.

PIMENTA, Jussara Santos. Leitura, arte e educação: a Biblioteca Infantil do Pavilhão Mourisco (1934-1937). Curitiba: CRV, 2011. 170p.

YUNES, Eliana; PONDÉ. Leitura e leituras da literatura infantil. São Paulo: FTD, 1988.

Publicado em 25 de outubro de 2016