Educação patrimonial: conhecer fotografando para valorizar

Ailza de Freitas Oliveira

Doutoranda em Educação (UFPB), professora de Artes Cênicas (PMJP)

Fernando Abath Cananéa

Doutor em Educação (UFPB), professor de Planejamento Estratégico, Metodologia do Trabalho Científico, Supervisão Escolar e Gestão Educacional

O passo fundante para a valorização de algo é o conhecimento. A valorização está diretamente ligada ao conhecer, para que, entendendo o que, como e para que serve, possamos contribuir em não depreciar.

O patrimônio cultural integra e pertence a toda a sociedade. Por meio dele, podemos compreender como funciona o pensar e agir dos povos, seus valores, suas referências e seus avanços. Cultura e história de um povo se reconhecem também por intermédio da observação de seu patrimônio.

Neste trabalho, vamos relatar uma experiência realizada no Ensino Fundamental II, com turmas do 6º ao 9º ano, bem como na Educação de Jovens e Adultos (EJA), com turmas do ciclo I ao IV, numa escola pública da rede municipal de ensino. Como conteúdo interdisciplinar, pautamos o patrimônio cultural; como conteúdo específico da disciplina de Arte, a fotografia.

Nossa expectativa com a reflexão sobre a prática realizada em sala de aula caminha em consonância com o desejo de ampliar o conhecimento dos estudantes – e nosso – sobre o patrimônio para promover a sua consequente valorização. Portanto, temos como lema posto “conhecer para valorizar”.

Patrimônio cultural: conceito e marco legal

O conceito de patrimônio, grafado em novembro de 1937 por intermédio do Decreto-Lei n° 25, denominava como patrimônio histórico e artístico nacional, em seu artigo 1°, os itens a seguir:

Constitui o patrimônio histórico e artístico nacional o conjunto dos bens móveis e imóveis existentes no país e cuja conservação seja de interesse público, quer por sua vinculação a fatos memoráveis da história do Brasil, quer por seu excepcional valor arqueológico ou etnográfico, bibliográfico ou artístico (p. 1).

Posteriormente, numa forma de complementação e inclusão de mais itens e características, o patrimônio histórico e artístico nacional foi denominado “patrimônio cultural brasileiro”, sua abrangência foi ampliada, reconhecendo bens imateriais e incorporando o conceito da referência cultural.

Assim, patrimônio cultural, de acordo com a Constituição Federal de 1988, em seu Artigo 216, se refere a bens “de natureza material e imaterial, tomados individualmente ou em conjunto, portadores de referência à identidade, à ação, à memória dos diferentes grupos formadores da sociedade brasileira”, o que inclui diversas formas de expressão.

Para o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), com as ampliações trazidas pela CF, incluem-se também como patrimônios culturais

as formas de expressão; os modos de criar, fazer e viver; as criações científicas, artísticas e tecnológicas; as obras, objetos, documentos, edificações e demais espaços destinados às manifestações artístico-culturais; os conjuntos urbanos e sítios de valor histórico, paisagístico, artístico, arqueológico, paleontológico, ecológico e científico (Iphan, 2016, p. 2).

O Iphan é uma autarquia federal vinculada ao fragilizado Ministério da Cultura que, no pós-golpe de 2016 fora extinto e, diante dos protestos populares, posteriormente, retomado. Tal órgão trata da preservação dos patrimônios, protegendo e promovendo os bens culturais.

Percebendo patrimônio cultural numa vertente mais ampla, nossa metodologia teve assento na interdisciplinaridade. Realizamos aulas expositivas sobre a temática, debates em equipes, palestras, exercícios escritos e visuais, aulas de campo e avaliações diversas com visitas monitoradas, registros fotográficos, análise de imagens antigas e atuais de patrimônios da cidade.

Educação Patrimonial com fotografia na Arte

Centrado no patrimônio cultural, o processo de Educação Patrimonial é concebido como conhecimento ativo de nossas heranças culturais e sua preservação. Para Horta (2016, p. 4), a Educação Patrimonial é

um instrumento de “alfabetização cultural” que possibilita ao indivíduo fazer a leitura do mundo que o rodeia, levando-o à compreensão do universo sociocultural e da trajetória histórico-temporal em que está inserido. Esse processo leva ao reforço da autoestima dos indivíduos e comunidades e à valorização da cultura brasileira, compreendida como múltipla e plural.

Percebemos essa multiplicidade em nossa cultura como algo rico e ímpar que precisa ser compreendido para ser preservado e valorizado. Na disciplina de Artes optamos por realizar um aprofundamento pautado no conteúdo Fotografia e atuamos numa fundamentação complementar, motivada pela execução do Projeto Click Maré, um concurso fotográfico.

O Projeto Click Maré é um concurso de fotografias entre estudantes promovido pela ONG Maré Produções Artísticas e Educacionais que teve o patrimônio cultural como temática na edição de 2016, que objetivou fomentar a produção de imagens sobre patrimônio. Participaram dessa edição quatro escolas distintas.

Como premiação ao estudante que obtiver o 1º lugar, a Maré entregará uma câmera fotográfica, fato que ampliou o desejo de participação dos estudantes, bem como o empenho em qualificar suas produções fotográficas, utilizando toda a técnica e a fundamentação pautadas nas aulas.

As imagens realizadas para participação do projeto foram executadas sem acréscimo de edição, tendo como suporte apenas a teoria apreendida e a criatividade. Cada estudante fotografou livremente os espaços visitados, realizando quantas fotografias desejou, e selecionou uma imagem para envio.

Como fundamentação teórica, estudamos planos fotográficos, história da fotografia nacional e paraibana, visualizamos vídeos, explanamos textos, realizamos exercícios escritos e de observação visual, além de utilizarmos jogos pedagógicos sobre o tema.

Relatando o processo metodológico em Educação Patrimonial

Iniciamos nosso reconhecimento patrimonial por nossa escola, sua estrutura física e objetos materiais. Analisamos o tombamento, sua função de registrar e sua necessidade para proteger os bens. Avaliamos e debatemos a manutenção e preservação dos patrimônios públicos existentes em nossa escola. Sobre a metodologia que compete especificamente à Educação Patrimonial, podemos considerar que

a metodologia específica da Educação Patrimonial pode ser aplicada a qualquer evidência material ou manifestação da cultura, seja um objeto ou conjunto de bens, um monumento ou um sítio histórico ou arqueológico, uma paisagem natural, um parque ou uma área de proteção ambiental, um centro histórico urbano ou uma comunidade da área rural, uma manifestação popular de caráter folclórico ou ritual, um processo de produção industrial ou artesanal, tecnologias e saberes populares, e qualquer outra expressão resultante da relação entre os indivíduos e seu meio ambiente (Horta, 2016, p. 4).

Entre as atividades realizadas no interior da escola, uma de maior empolgação entre os estudantes da EJA foi a experimentação prática dos planos fotográficos, em que todos fotografaram e foram fotografados, demonstrando na prática a compreensão sobre plano detalhe, plano médio, plano americano, plano geral e primeiro plano.


Figura 1: Imagem do material teórico, feita pelos autores

Os registros dos planos fotográficos dos estudantes foram realizados nos telefones celulares, e o envio das fotografias foi solicitado nas redes sociais. Incluímos a questão tecnológica, uma vez que são fotografias digitais e que cada dupla fotografou o parceiro; assim, o trabalho de um são as fotos do outro, e vice versa.


Figura 2: Imagem do experimento prático, feita pelos autores

Trabalhamos também a relação de confiança e parceria entre os estudantes, pois as imagens foram realizadas em duplas, mas o envio foi individual, e cada um postou as fotografias do outro, fortalecendo laços pedagógicos entre os pares.

Em outra aula, os planos fotográficos também foram observados em revistas e colados em murais correspondentes para a ampliação da aprendizagem com exercícios práticos. Utilizamos como recursos metodológicos apenas papel, cola, tesoura, revista e criatividade. Diante da empolgação das turmas, propusemos a realização aos demais professores, que por ora leem nosso relato, uma vez que tal prática é de baixo custo e alto alcance pedagógico.

Elaboramos, com papel reciclado e imagens de espaços patrimoniais da cidade, um jogo pedagógico de memória, em que os locais eram visualizados e seus nomes aprendidos, para posterior visitação presencial. Esse jogo foi experimentado em duplas.

A experiência versou desde fundamentação teórica interdisciplinar até aulas de campo em espaços patrimoniais do bairro onde a escola está inserida. Realizamos visita monitorada à Feira de Artesanato de Tambaú, ao Mercado Público do bairro, ao hotel, mercado de peixe, praça de alimentação e centro turístico com as turmas da EJA no turno das aulas, numa caminhada coletiva.

Com as turmas do Ensino Fundamental II, além dos espaços supracitados, visitamos também o centro histórico da cidade de João Pessoa, contemplando o Centro Cultural São Francisco, a Casa da Pólvora, a Igreja Matriz e a Igreja do Carmo, templos de arte barroca e do rococó ricos em detalhes culturais e possibilidades de aprendizagens.

Mesma proposta e diferentes aplicabilidades: a cruel desvantagem da EJA

Planejar o mesmo conteúdo programático para distintas modalidades educacionais é possível; no entanto, sua aplicabilidade se difere, pois para cada modalidade aparecem diferentes entraves e soluções.

As atividades planejadas no Ensino Fundamental II geralmente são realizadas com mais tempo de execução, uma vez que cada hora aula tem cinco minutos a mais do que na EJA, além de que adultos assumem outras responsabilidades além das escolares que por vezes os impulsionam a faltar aulas, o que acarreta a descontinuidade das ações e a rotatividade dos participantes.

Vale salientar que as diferenciações ocorridas no projeto que relatamos se deram nos momentos das aulas de campo com visitas monitoradas. Essas diferenciações ocorreram por vários fatores, dentre eles, a indisponibilidade de transporte para a EJA, a impossibilidade de locomoção diurna dos estudantes, por trabalharem, a ampliação da violência noturna no centro histórico e o horário de visitação nos espaços históricos não contemplar o turno da noite.

Tais aspectos reforçam a delegação de segundo plano para a EJA, discriminando e diminuindo suas possibilidades; no entanto, no momento, não nos aprofundaremos nessa pauta, valemo-nos por ora do registro de nossa indignação.

Aprendizagens que vislumbramos nas imagens: avaliando o produto final

Como produto final das ações propostas no projeto, tivemos as imagens fotografadas e enviadas pelos estudantes. Por intermédio da avaliação coletiva das fotografias pudemos perceber a aprendizagem significativa ocorrendo.

Tais visitações ocorreram numa apreciação que proporcionou a distinção entre espaços patrimoniais públicos e privados, históricos e culturais. Como exemplo, uma estudante registrou como patrimônio cultural na culinária paraibana a tapioca.


Figura 3: Imagem realizada nas aulas de campo

Outro estudante percebeu que pode considerar patrimônio cultural um personagem folclórico do bairro, um senhor que perambula pelas ruas há anos de forma diferenciada das demais pessoas, portando um saco grande que carrega nas costas, o que acarretou o pseudônimo de “homem do saco”.

Esse personagem foi fruto de vários debates nas salas após as aulas de campo: uma vez que ele é considerado folclórico no bairro também pode ser considerado patrimônio cultural?

 
Figura 4: Imagens realizadas nas aulas de campo

Uma imagem do Hotel Tambaú como exemplo de patrimônio privado ao lado de uma imagem da fachada da escola como exemplo de patrimônio público nos fez perceber a compreensão de outro estudante. Visualizamos também as esculturas presentes no Centro Turístico que também foram alvos dos flashes e citadas como patrimônios culturais do turístico bairro de Tambaú.

  
Figura 5: Imagens realizadas nas aulas de campo

Outro registro fotográfico que nos chamou a atenção foi o mar como patrimônio e a pesca, em sua forma artesanal de acontecer, registrados por outro estudante. No Ensino Fundamental II temos alguns estudantes filhos de pescadores que relataram o processo artesanal de manuseio da rede de pesca, o ritual para colocar o barco no mar e a pesca em si como algo patrimonial, por ser transmitida pelo exemplo de uma geração a outra, conforme apregoa o patrimônio imaterial.

 
Figura 6: Imagens realizadas nas aulas de campo

Considerações

Como colocamos ao longo de todo este registro, nosso objetivo ao redigir sobre o projeto se fundou em dois aspectos: primeiro, refletir sobre a metodologia, qualificando para futuras experiências; segundo, dividir os experimentos para que outros professores possam aplicá-los, adequando às realidades de seus espaços de atuação pedagógica.

Das duas etapas de nosso objetivo atingimos a primeira: estudamos, registramos e aprimoramos nosso feito. Em relação à segunda, fica a critério de cada leitor, uma vez que o desejo pedagógico pautado nos princípios freirianos de partilhar está cumprido.

Referências

BRASIL. Presidência da República. Casa Civil. Subchefia para Assuntos Jurídicos. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Disponível em http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Constituicao/Constituicao.htm. Acesso em 4 out. 2016.

BRASIL. Presidência da República. Casa Civil. Subchefia para Assuntos Jurídicos. Decreto-Lei nº 25, de 30 de novembro de 1937. Organiza a proteção do patrimônio histórico e artístico nacional. Disponível em http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto-lei/del0025.htm. Acesso em 4 out. 2016.

BRASIL. IPHAN. Patrimônio Cultural. Disponível em http://portal.iphan.gov.br/pagina/detalhes/218. Acesso em 04 out. 2016.

HORTA, Maria de Lourdes Parreiras; GRUNBERG, Evelina; MONTEIRO Adriane Queiroz. Guia básico da Educação Patrimonial. Museu Imperial/Deprom - Iphan – MINC. Disponível em: http://portal.iphan.gov.br/uploads/temp/guia_educacao_patrimonial.pdf.pdf. Acesso em 7 out. 2016.

Publicado em 06 de dezembro de 2016