Por uma escola desescolarizada

Mariana Cruz

O professor de História Marcelo Rollo, de 40 anos, trabalha nas redes públicas estadual e municipal do Rio de Janeiro e já teve experiências em projetos populares de educação. É um militante em defesa da pedagogia libertária, de uma educação que valorize a autonomia e esteja focada no protagonismo das comunidades escolares. Nesta entrevista, Rollo fala sobre sua experiência cotidiana em sala de aula, sua lida com os alunos, expõe uma visão crítica acerca do modelo engessado da educação atual e aponta rumos a serem tomados.

Revista Educação Pública – Quais os principais problemas que você vê na educação hoje em dia?

Tratando da educação institucional, o sistema escolar da Era Moderna nasceu na Prússia em fins do século XVIII, motivado pelos receios causados em toda a Europa pelo processo revolucionário francês, com o objetivo de “modelar” as pessoas e “formar” os cidadãos para uma vida subordinada e ordeira em sociedade. Rapidamente esse sistema se expandiu por todo o mundo ocidental. O principal problema da Educação hoje é justamente a manutenção desse modelo prussiano. No caso do Brasil, a situação trágica se amplia, pois temos a junção disso com a tradição colonizadora jesuítica. Mais de 200 anos depois reproduzimos por todo o país esse mesmo sistema que formata seres humanos para a obediência acrítica, que nega a diversidade das inteligências classificando as pessoas como “superiores” ou “inferiores” e nega a mutabilidade do mundo, das sociedades, dos indivíduos e das relações interpessoais. Logo, quando ressalto um projeto de desescolarização significa em primeiro lugar desnudar esse arcabouço histórico para que possamos construir uma outra coisa. Esse debate profundo (e necessário) precisa acontecer entre as educadoras, os educadores e a sociedade brasileira em geral.

Como é dar aula no município para os alunos do Ensino Fundamental e no estado para os alunos do Ensino Médio?

Não há grandes diferenças entre as duas redes, visto que ambos os governos possuem diretrizes semelhantes e estão inseridos na lógica estrutural de Educação que mencionei. A situação de precariedade das condições de trabalho também se repete, e o cotidiano é muito duro e desalentador, tanto na escola municipal quanto na estadual.

Apenas para começar a construir um rumo satisfatório, seria necessário um grande investimento orçamentário em Educação. Muito se fala que existem recursos e que o problema seria apenas de gestão; isso não é realidade. Também seria preciso um forte trabalho de produção de autonomia e protagonismo das próprias comunidades escolares. É preciso descentralizar, multiplicar espaços escolares menores por todas as localidades e permitir que as pessoas se empoderem do fazer e pensar esses espaços com liberdade. O ponto positivo são as crianças e jovens. Mesmo com todos os problemas sociais, os problemas de estrutura e modelo das escolas, os estudantes, tanto do Ensino Fundamental como do Ensino Médio, são, sim, interessantíssimos. Pequenas dificuldades no convívio cotidiano existem em qualquer lugar. Mas, como educador jamais fui vítima de violência por parte dos meus alunos. Estou certo de que, quando eles são tratados com respeito, eles respeitam. Foi sempre assim comigo.

Qual é o papel do docente?

Eis uma pergunta de enorme complexidade. No Brasil, a formação docente já se apresenta como o início do problema. Os professores saem das faculdades cheios de verdades, imersos numa visão hierarquizada de sociedade (e de escola) e preparados para lidar com a transmissão dos conteúdos que devem ser assimilados pelos alunos. Foi assim comigo e, regra geral, tem sido assim no país. Hoje, tudo que venho conseguindo ser como docente é resultado de uma busca pessoal de caminhos e de uma regular “autodesintoxicação” a que me submeto para deixar de ser o professor que a academia me tornou. Não questiono a aprendizagem especializada das diferentes áreas e ciências. Questiono a formação para o magistério, a formação pedagógica que deveria ser essencialmente humana! Muitos professores quase brigam quando chamados de “educadores”. Eles dizem que quem educa é a família, que são professores e que estão na escola para passar os conhecimentos aos alunos que quiserem aprender. Sou um educador e meu papel é de orientação ao aluno e de parceria com a sua família. Procuro apenas auxiliar o estudante no seu próprio percurso de aprendizagem. As pessoas não necessitam de um “mestre explicador”, como destaca Rancière. Todos são capazes, inteligentes e aprendem experimentando de maneira singular e trocando coletivamente com os outros. Se reconheço as inteligências do meu aluno, respeito os seus saberes e estabeleço relações. O modelo escolar que temos não age assim. Se não há respeito, há violência simbólica ou física. Por todos os cantos temos notícias de conflitos dentro dos espaços escolares, alguns de alta gravidade para a vida humana. E aí chegamos num segundo ponto: a escola e os docentes impõem uma padronização comportamental e de estudo que não funciona e cada vez gera mais resistência da juventude. Nesse quadro, o risco do uso de mais repressão, mais controle, mais autoritarismo, como resposta ao conflito que se estabelece, é muito grande. Por outro lado, o conflito desestabiliza o que existe e abre a possibilidade da mudança. Confesso que, quando algum colega professor me diz que o estudante tal é “rebelde” e não aceita as regras, vejo ali a possibilidade real de mudar a escola. A resistência ao modelo de escola se multiplica, sobretudo por parte dos estudantes, mesmo que a partir de uma consciência difusa. Os profissionais da Educação não podem se omitir! É preciso pensar criticamente! Por que a escola precisa ficar trancada, caso contrário os alunos “fogem”? Por que a escola deve padronizar uniforme? Por que deve existir banheiro de diretor, de professor e de aluno? Por que se padronizam os horários para o lanche, para ir ao banheiro, etc.? Por que um tempo de aula tem 45 ou 50 minutos? Por que existem aulas? Por que as bibliotecas são espaços de “castigo” ao invés de pesquisa? Por que as escolas têm sinal semelhante ao de fábricas? Por que os estudantes devem se acomodar um atrás do outro? São inúmeras interrogações que exigem bastante dos docentes. Mas estes precisam se reinventar para lidar com esses desafios.

Existe algum educador, alguma educadora que você admire e te sirva como fonte de inspiração?

Acho que devemos estar sempre abertos a conhecer coisas novas. Rubem Alves lembrava da “escutatória”, a importância de desenvolver a capacidade de ouvir o outro. Nesse sentido tenho multirreferências. O próprio Rubem, Cecília Meireles, Anísio Teixeira, Darcy Ribeiro, Paulo Freire, Nise da Silveira, dentre outros. Mais recentemente tenho aprendido muito com as contribuições do professor José Pacheco e do filósofo Jacques Rancière.

Que filmes ou livros você indicaria para professores que estão buscando novas formas de educação assistirem?

Existem muitos filmes excelentes por aí. Eu destacaria a produção brasileira Quando sinto que já sei, a coprodução norte-americana e indiana Escolarizando o mundo – o último fardo do homem branco e o filme argentino A educação proibida. Com relação a livros, tenho lido muito sobre a Escola da Ponte, de Portugal, do maravilhoso professor José Pacheco, e dois livros de Jacques Rancière que me foram muito valiosos, O mestre ignorante e O espectador emancipado.

Para terminar, o que é a escola ideal para você?

Penso que o ideal em Educação seria a utopia da escola desescolarizada. Utopia menos como sonho irrealizável do que projeto a ser construído. O genial Eduardo Galeano costumava dizer que a utopia é o que faz caminhar. Em educação precisamos caminhar para a desescolarização como projeto. As escolas precisam se tornar comunidades de aprendizagem atentas à condição de integralidade dos sujeitos, em que sejam garantidas as condições para que as crianças, jovens e os adultos aprendam que aprender é maravilhoso e divertido.

Publicado em 02 de fevereiro de 2016