A Química da Copa: trabalhando conceitos do ensino de Química à luz do tema gerador Copa do Mundo

Nathália de Souza Abreu

Mestre em Biologia Marinha (UFF), especialista em Ensino de Ciências (UFF), especialista em Biologia Marinha e Oceanografia (Faculdades Integradas Maria Thereza)

Introdução

Os temas geradores são propostas de ensino pautadas na teoria dialógico-dialética do ensino, que, na perspectiva de Paulo Freire, significa que deve haver diálogo para que haja educação (Corazza, 2003), uma troca de significados entre alunos e professores, contrapondo-se ao que Freire chama de “educação bancária”, a mera transmissão unidirecional de conhecimentos (professor-aluno), em que o professor deposita conteúdos a serem aprendidos em alunos dóceis e receptivos (Rodrigues, 2010).

O tema gerador possibilita o seu desdobramento em diversos temas, promovendo novas ações, reflexões, críticas e discussões (Freire, 2007). Para esse autor (1987), o tema gerador deve estar inserido no dia a dia do aluno, no ambiente em que vive ou em atitudes de seu cotidiano, carregado de bagagem cultural.

Trabalhar temas geradores possibilita articular trabalho pedagógico e a realidade sociocultural dos educandos, o desenvolvimento dos estudantes e seus interesses, bem como conhecimentos historicamente acumulados (Kramer, 1989).

Uma proposta diferenciada de trabalho, abordando a Química de maneira contextualizada, pode ser a melhor alternativa para motivar os alunos ao aprendizado.

O presente trabalho teve como objetivo despertar o interesse pela Ciência por alunos do Ensino Fundamental pelo projeto A Química da Copa, relacionando o conteúdo programático ao tema Copa do Mundo. A escolha do tema justificou-se pela relevância do evento e pelo interesse dos alunos pelo futebol.

Metodologia

O projeto envolveu alunos do nono ano do CIEP 051 Municipalizado Anita Garibaldi, em São Gonçalo-RJ.

Em uma primeira etapa, foi realizado levantamento dos conhecimentos prévios dos alunos sobre a relação ciência-futebol. As respostas dadas serviram como eixo norteador para o prosseguimento do projeto. A segunda etapa envolveu uma apresentação de slides (Química e o Futebol, 2014) envolvendo a relação entre Química e futebol. Na terceira etapa, foi proposta a confecção da Tabela Periódica da Copa, envolvendo símbolos dos elementos e nomes das seleções participantes da Copa do Mundo. Por exemplo: Brasil - Br = bromo; As = arsênio; I = iodo.

Para abordar as ligações e reações químicas, foi proposta a confecção de modelos moleculares e de distribuição eletrônica, além de cartazes abordando a relação entre Química e elementos característicos da Copa do Mundo. Nessa etapa, o trabalho foi dividido nos seguintes eixos:

  • Química da euforia;
  • Química do gramado;
  • Química da bola;
  • Química da rede;
  • Química do uniforme e chuteiras;
  • Química do barulho;
  • Química da taça;
  • Química das cores.

Todos os trabalhos foram confeccionados em sala de aula.

Resultados e discussão

Durante a confecção da Tabela Periódica da Copa (Figura 1), os alunos tiveram contato com os símbolos e elementos. Além disso, a atividade estimulou a utilização da tabela periódica, visto que os alunos precisavam procurar os elementos correspondentes aos nomes das seleções.

Os elementos utilizados na tabela foram classificados em metais (verde), não metais (amarelo), gases nobres (azul) e hidrogênio (rosa). Além disso, foram classificados de acordo com o estado físico encontrado na natureza, sendo representados pela cor da letra em cada retângulo: sólido (preto), líquido (azul), gasoso (vermelho). Os elementos artificiais foram representados por letras amarelas.


Figura 1: Tabela Periódica da Copa

Na etapa de confecção de moléculas foram utilizados palitos, bolas de isopor e tinta. Cada elemento químico foi representado por uma cor: carbono (preto), oxigênio (azul), hidrogênio (branco), nitrogênio (vermelho) e cloro (verde).

Para o modelo de distribuição eletrônica foram utilizados feijões, que representavam o número de elétrons em cada camada. Para a confecção dos cartazes, foram utilizadas algumas imagens presentes na apresentação de slides (www.agracadaquimica.com.br).

No eixo “Química da euforia”, foi confeccionada a molécula de dopamina; o cartaz abrangeu as transformações que ocorrem na torcida durante os momentos de euforia (Figura 2).


Figura 2: Cartaz do eixo Química da Euforia

Na “Química do gramado”, foram abordados os aspectos da fertilização da grama com o uso de superfosfato triplo, cloreto de potássio e sulfato de amônio. Além disso, foi abordada a reação de fotossíntese; para isso, foram confeccionadas as moléculas de dióxido de carbono, água, glicose e oxigênio (Figura 3).


Figura 3: Cartaz do eixo Química do gramado

No eixo Química da bola, foi confeccionada a molécula de cloreto de vinila, que origina o policloreto de vinila, utilizado na confecção das bolas de futebol (Figura 4). Utilizou-se também um cartaz mostrando a evolução das bolas de futebol ao longo do tempo, desde as bolas de couro até as sintéticas atuais.


Figura 4: Cartaz do eixo Química da bola

Na Química da Rede foi confeccionada a molécula de náilon, material utilizado na fabricação das redes (Figura 5).


Figura 5: Cartaz do eixo Química da Rede

No eixo Química dos Uniformes e Chuteiras, foram confeccionados dois cartazes: um referente à evolução dos modelos e tecnologias utilizadas nos uniformes; o outro, referente à tecnologia das travas das chuteiras. Nos uniformes, enfatizou-se o uso de garrafas PET na confecção de uniformes, salientando a importância da reciclagem. Em relação às chuteiras, foi confeccionada a molécula de propileno, que origina o polipropileno, utilizado na fabricação desses materiais (Figura 6).


Figura 6: Cartaz do eixo Química dos Uniformes e Chuteiras – as travas

No eixo Química do Barulho, utilizou-se a molécula de etileno, que origina o polietileno, utilizado na fabricação de cornetas e vuvuzelas, muito utilizadas pelos torcedores de futebol (Figura 7).


Figura 7: Cartaz do eixo Química do barulho

Na Química da Taça, enfatizou-se o elemento ouro e sua distribuição eletrônica (Figura 8).


Figura 8: Cartaz do eixo Química da Taça

O eixo Química das Cores abrangeu as tintas utilizadas na pintura corporal, hábito muito comum nos estádios de futebol; além das cores dos fogos de artifício, representados pelos elementos utilizados em sua fabricação (Figuras 9 e 10).


Figura 9: Cartaz do eixo Química das Cores – pinturas e fogos de artifício

Figura 10: Cartaz do eixo Química das cores – distribuição eletrônica dos principais elementos utilizados na fabricação de fogos de artifício

De acordo com Penteado e Kovaliczn (s/d), existem evidências de que o professor precisa ser criativo dentro da sala de aula, conquistando a atenção do aluno, permitindo a presença do diálogo durante as aulas, melhorando a qualidade do ensino. No presente trabalho, a abordagem dos conteúdos químicos de maneira diferenciada permitiu relacionar o componente curricular do nono ano ao cotidiano dos alunos por meio do tema gerador futebol.

Os resultados mostraram participação efetiva dos alunos, além de motivação e interesse pela relação entre ciência e futebol e pelas atividades propostas. A motivação dos alunos é considerada pelos Parâmetros Curriculares Nacionais como essencial para a construção do conhecimento (Brasil, 1998). Ainda segundo os PCN, o interesse do aluno pelo tema abordador é fator de suma importância para alcançar aprendizagem significativa (Brasil, 1998). Essa motivação pode ser observada na realização de atividades diferenciadas e do ensino por temas geradores, como no presente estudo.

Para Matos (2009), é possível propiciar aos estudantes aulas mais atraentes e motivadoras com base na elaboração de modelos com a utilização de materiais de baixo custo. Neste estudo, todas as atividades diferenciadas utilizaram materiais acessíveis às escolas públicas.

Considerações finais

Constatou-se que a abordagem do conteúdo curricular de Química por meio do tema gerador Copa do Mundo possibilitou o protagonismo dos alunos no processo de aprendizagem, além de despertar o interesse pela Ciência.

Referências

BRASIL. Ministério da Educação e do Desporto. Secretaria de Educação Fundamental. Parâmetros Curriculares Nacionais – terceiro e quarto ciclos do Ensino Fundamental: Ciências Naturais. Brasília: MEC/SEF, 1998.

CORAZZA, S. M. Tema gerador: concepções e práticas. Ijuí: Ed. Unijuí, 2003.

FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido. 17ª ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987.

______. Pedagogia da Autonomia. 35ª ed. São Paulo: Paz e Terra, 2007.

KRAMER, S. Com a pré-escola nas mãos: uma alternativa curricular para a educação infantil. São Paulo: Ática, 1989.

MATOS, C. H. C.; OLIVEIRA, C. R. F.; SANTOS, M. P. F; FERRAZ, C. S. Utilização de modelos didáticos no ensino de Entomologia. Revista de Biologia e Ciências da Terra, v. 9, nº 1, 2009.

PENTEADO, R. M. R.; KOVALICZN, R. A. Importância de materiais de laboratório no ensino de Ciências. Disponível em: http://www.diaadiaeducacao.pr.gov.br/portals/pde/arquivos/22-4.pdf.  Acesso em 20 jun. 2014.

QUÍMICA E O FUTEBOL. Disponível em http:// www.agracadaquimica.com.br/quimica/arealegal/slides/309.pps. Acesso em 29 maio 2014.

RODRIGUES, M. F. A temática da energia proposta através de temas geradores para a sexta série do Ensino Fundamental. Dissertação (Mestrado em Ensino de Física), Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2010.

Publicado em 16 de fevereiro de 2016

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