Sonho de professor

Esteban L. Moreno

Mestre em Química (UFBA), doutor em Ciências (UFRJ), professor associado da Fundação Cecierj

Chegaram de forma espontânea, como tantos outros antes. Mal pediram licença e foram sentando.

– Pode guardar a sandália?!
– Claro! – Acenei positivamente, não muito convicto, mas era praxe.

Eles eram muitos, um bando de 5 a 6 jovens. De cara chamou a atenção um que estava de cueca preta, apenas. Como era quase da cor da pele, parecia estar sem roupa, sem contudo se importar. Mas por que se importar?! Era uma linda manhã de domingo e tudo cheirava à vida sobre as areias do Arpoador. Entre um banho e outro, permaneci como sentinela a cuidar de suas sandálias desmilinguidas e do quase nada a mais que trouxeram.

Aos poucos demonstraram fome, como tinham! Repartimos como velhos amigos o nosso lanche; desta vez a gratidão era mútua. Bem se sabe que aquele que doa é por vezes mais feliz do que o que recebe. E para completar a farra, apareceu um bolo surpresa, da filha de uma amiga que resolvera comemorar o aniversário na barraquinha de surfe. A epifania estava completa. Então veio o lixo. Fora espalhado sobre a areia; parecia como eles, não ter dono ou local. Indicamos-lhes o procedimento, com carinho, nós mesmos servindo de exemplo. Apenas um deles pareceu entender o ritual proposto. Devia ter uns catorze ou quinze, não sei ao certo, mas ele pegara o lixo e mostrara aos outros o cuidado necessário com o local.

Passei a observar os passos de meu pequeno herói civilizador. Não era o mais velho, tampouco o mais novo; era tão bagunceiro quanto os outros e suas roupas igualmente esquálidas, com o mesmo sorriso branco, ofuscante, e o jeito despojado de quem sabia na simplicidade curtir ao máximo aquele momento. Mas ele tinha algo a mais, pensei; fiquei empenhado em desvelar. Sem demora, na primeira oportunidade lancei-lhe a isca.

– Qual o seu nome? De onde vem? Onde estuda? – metralhei impiedosamente.

Devolveu-me com calma. Prossegui aumentando o desafio.

– Com o que sonha? – minha curiosidade por vezes é indiscreta.
– Sei lá – respondeu, e continuou, desconcertando-me em cheio.
– Quem é você?
– Professor – respondi-lhe, diferentemente do que usualmente diria.
– De quê?
– De Química, ora!
– Detesto Química – disse, atirando-se para trás, como quem ouve um palavrão ou vê uma cena proibida.
– Quase ninguém gosta – retruquei, com perfeita noção de causa.
– Mas gosto de meu professor de Ciências, ele é legal – disse.
– Que bom! – pensei alto.
– Mas não entendo nada...
– Que pena – pensei baixo.

Seus cúmplices se aproximaram para chamá-lo para outros atrativos, o motim a meu pequeno interrogatório estava próximo. Não havia alternativa senão um ataque direto.

– Talvez você não entenda de Ciências porque ainda não relacionou ao que está ao seu redor. Esta areia, por exemplo, você sabe do que é feita? Por que não pode comê-la como farinha?
– Olhe! – desafiou-me um deles – mas nós podemos comer, eu mesmo comi hoje.
– Uuuuuu! - o bando ululava.
– Verdade, vi vocês atirando areia na cara um do outro, também chegou aqui. Por sorte, eu estava com a boca fechada. Mas se entrasse, do mesmo jeito que entrou, iria sair, e iria sair marrom.

A imagem fora certeira, os temas escatológicos são um golpe infalível para os jovens. Expliquei-lhes o pigmento que dá cor ao cocô.

– Estercobilina, estercobilina... – balbuciavam!

Apoderei-me ainda mais, sentia que podia ir além.

– Ocorre que a areia tem dentro dela muitos átomos de silício que fazem uma ligação forte com o...
– O que átomo? – Acertou-me no queixo, metaforicamente, claro. Já sabiam o que era sexo e outras tantas “palavras” de adulto, mas de átomo nunca ouviram falar.
– Átomo é o que compõe tudo que está ao seu redor – expliquei, apontando. – Desde as estrelas, suas mãos, o ar que respiramos, o céu azul. É tão pequeno que não conseguimos ver com os olhos, mas sabemos que existem e há vários tipos. E todos nós compartilhamos os mesmos.

Passei a explicar-lhes o branco das nuvens e das ondas, o azul do céu, a beleza da natureza e o mistério das coisas que ainda não sabemos. E pelo breve momento que consegui lhes prender o brilho dos olhos, fui o que sou e aquilo que aprendi a gostar de ser: um professor. E como tudo que tem começo termina, a aula findou. Eu estava satisfeito, havia muito mais sentidos para nutrir além da minha pequena canga. Meu aluno dileto, o primeiro desta prosa, mostrou-se empolgado para um próximo encontro. Convocou a tropa e todos assentiram: no próximo domingo sem falta continuaríamos.

E assim me preparei para o domingo seguinte, cheio de expectativas, municiado de pequenos cristais de rochas que lhes daria, uma bússola e uma miríade de exemplos de minha recém-acesa soberba de professor. Mas dessa vez ninguém foi me jogar areia.

Se você os encontrar, por favor, diga-lhes que estou lá, todos os domingos pela manhã, aguardando em frente ao Posto 8, para um dedo de prosa.

Publicado em 16 de fevereiro de 2016