Tradições, cultura e misticismo nas comunidades tradicionais: ‘A antropóloga’

Glória Cristina do Nascimento

Bióloga, doutoranda do Prodema (UFPB)

Eduardo Beltrão de Lucena Córdula

Biólogo; doutorando do Prodema (UFPB)

Etnociência

A etnociência une áreas do conhecimento humano como Antropologia, Sociologia e Ciências Naturais na compreensão das relações entre as comunidades e seu ambiente (Albuquerque, 2014; Córdula; Nascimento, 2014). Nesses estudos, são registrados os conhecimentos locais, as práticas das comunidades para com o ambiente que a cerca e seus hábitos, costumes, mitos e crenças (Toledo; Barrera-Bassols, 2008). Essas comunidades são ditas locais quando não há presença de grupos étnicos; ou tradicionais quando são formadas por quilombolas ou indígenas. Essas definições passam por modificações para agregar novos grupos que possuam tradições seculares transmitidas pelas gerações e com vínculos específicos com o seu território, como por exemplo pescadores, agricultores (Diegues, 2001).

Comunidades ou povos tradicionais são

grupos culturalmente diferenciados e que se reconhecem como tais, que possuem formas próprias de organização social, que ocupam e usam territórios e recursos naturais como condição para sua reprodução cultural, social, religiosa, ancestral e econômica, utilizando conhecimentos, inovações e práticas gerados e transmitidos pela tradição (Brasil, 2007, p. 1).

Esses grupos habitam e convivem em seus territórios de forma intrínseca e interdependente a tal ponto que toda a sua estrutura social e cultural está intimamente ligada a esses locais: os territórios tradicionais.

Por sua vez, territórios tradicionais são, segundo a Política Nacional de Desenvolvimento Sustentável dos Povos e Comunidades Tradicionais (Brasil, 2007, p. 1), os "espaços necessários à reprodução cultural, social e econômica dos povos e comunidades tradicionais, sejam eles utilizados de forma permanente ou temporária".

Todo o conhecimento de uma comunidade é intitulado etnoconhecimento e está vinculado ao cosmos, corpus e práxis, que significam respectivamente crenças, mitos e ritos da comunidade (cosmos); os conhecimentos adquiridos através das gerações e transmitidos principalmente pela oralidade entre as pessoas da mesma família e entre os componentes da comunidade (corpus); e suas práticas cotidianas na comunidade e na natureza com o uso dos seus recursos (práxis) (Córdula; Nascimento, 2014; Toledo; Barrera-Bassols, 2008).

Comunidades tradicionais e etnoconhecimento

Valorizar e registrar esses conhecimentos que não se manifestam apenas em comunidades tradicionais, mas em todas as comunidades locais – urbanas, campestres, ribeirinhas, costeiras etc. – se faz necessário para perpetuar a história, a cultura, os mitos e ritos que existem e ainda se manifestam nessas localidades (Córdula; Nascimento, 2014).

A cultura pode estar permeada de conhecimentos repassados pela oralidade, que é também uma característica marcante de cada comunidade, por guardar expressões próprias e peculiares, além de nomes locais para plantas, animais, fenômenos etc. (Diegues et al., 2000; Nascimento et al., 2014). Os mitos e ritos (festividades, rituais, simpatias, cânticos etc.) estão vinculados tanto à cultura e o folclore local como as crenças espirituais (energias de cura, de influência na vida cotidiana, orações, oferendas etc.), que podem ou não ter elementos miscigenados da cultura cristã e ligados ou não à sazonalidade dos fenômenos naturais locais, como clima (estações do ano), estado do tempo no dia, as marés, a migração de animais ou agrupamentos provocados pelo período reprodutivo de algumas espécies, além das lendas, contos e causos gerados/modificados ao longo do tempo pelas gerações da comunidade (Nascimento et al.; 2014; Córdula, Nascimento, 2014; Toledo; Barrera-Bassols, 2008). A união destes forma as práticas do dia a dia das comunidades, seja na forma como procurar, coletar e preparar os alimentos consumidos, a água, as plantas medicinais, na construção de moradias, de ferramentas etc. (Albuquerque, 2014; Toledo; Barrera-Bassols, 2008).

A etnopesquisa ou etnociência trabalha principalmente com entrevistas e observação das comunidades. Essa observação geralmente é artificial; o observador não participa das atividades que está observando nem do cotidiano da comunidade. Na observação participante, o observado pode ser membro da comunidade ou passar a morar nela e ser integrado e aceito pelos integrantes, participando de todas as atividades manifestas (Albuquerque, 2014; Gil, 1994).

Portanto, a sociedade e a própria comunidade, além da sociedade civil organizada juntamente com a rede de ensino em todos os níveis e modalidades (Educação Básica, Especial, Técnica e Superior), devem valorizar, registrar e perpetuar tais saberes, práticas e crenças na imensa diversidade das comunidades que formam o país.

O filme A antropóloga

A antropóloga é um filme longa-metragem produzido no Brasil, no gênero drama. Narra a trajetória da pesquisadora portuguesa Maria de Lourdes Gomes Azevedo Ramos (Malu), com 33 anos, católica, religiosa, que veio ao Brasil, à Comunidade da Costa da Lagoa – reduto açoriano na Ilha de Santa Catarina (em Florianópolis-SC) para desenvolver sua tese de doutorado, realizando um estudo de Etnobotânica a partir do etnoconhecimento local no uso das plantas medicinais como observadora artificial.

Na ilha, onde passou a residir para ter contato e estudar a comunidade, teve contato com Carolina e seu pai. Porém a menina, cuja mãe faleceu havia pouco tempo, encontrava-se enferma e o pai, mesmo sendo médico, não conseguiu descobrir as causas, origem e o tipo de enfermidade que acometia sua filha. Ao longo do filme, a menina Carolina simpatizou-se com Malu e entre suas conversas afirmou para a pesquisadora que em seus sonhos uma bruxa vinha lhe fazer mal. Até então a antropóloga não percebeu nenhuma ligação com a comunidade, seus conhecimentos, crenças e valores.

No decorrer de sua pesquisa mediante entrevistas, descobriu, além das ervas utilizadas pelos descendentes açorianos para curar enfermidades, que a comunidade era envolta em misticismos, rituais e simbolismos (crenças). Passou então a entender que as ervas medicinais eram utilizadas em conjunto com os rituais da cultura local: na forma como eram coletadas, sua forma de utilização e o preparo dos remédios. O que ela não conseguiu perceber foi o sagrado da cultura local, já que previamente não conheceu toda a cultura da comunidade descendente de açorianos da Ilha da Costa da Lagoa. Algumas dessas plantas eram também utilizadas para afastar ou tratar enfermidades e entidades espirituais. Além de todo esse contexto, a comunidade acreditava na existência de bruxas e lobisomens, o que enriquecia sua cultura.

Em uma de suas entrevistas, descobriu que o artista português Franklin Joaquim Cascas documentou as manifestações da herança cultural dos antigos açorianos, registrando a memória para apoio a pesquisa e a educação, principalmente no aspecto da crença na existência das bruxas que supostamente atacavam as crianças da localidade. Nesse ponto o filme traz imagens reais da comunidade retratada e que foram documentadas e “resgatadas” para compor a história.

No decorrer da obra até seu final, a própria pesquisadora teve uma experiência de contato direto com um homem idoso no meio da mata. Ocorreu um diálogo entre ambos, e durante a conversa lhe foi revelado o mundo espiritual, que ela precisaria acreditar na existência desse plano astral. Porém, sem saber, foi informado a ela que o senhor mencionado e que se apresentou como o velho Delano havia morrido havia mais de 30 anos, conforme afirmação de Dona Ritinha, a benzedeira local. A antropóloga havia tido uma experiência espiritual direta numa casa em estilo açoriano que havia no meio da mata. Nesse ponto, a pesquisadora entrou em conflito consigo mesma, pois foi um evento que entrava em atrito direto com suas próprias crenças e ela custou a acreditar na experiência que vivenciou. Descobriu que há o espírito de uma bruxa atormentando a menina Carolina e que essa entidade era uma ancestral de sua linhagem familiar que morou na ilha e se tornou uma bruxa que, a partir do mundo espiritual, está afetando a saúde da criança.

Ao mesmo tempo que todos esses fatos se desenvolviam, a cultura local atraía turistas que acreditavam na existência dessas entidades espirituais. Estavam procurando participar do Grande Sabá (a festa das bruxas), que era realizado na lua cheia, um ritual místico e escondido. Pessoas despreparadas e desavisadas que não respeitavam o etnoconhecimento local podiam interferir negativamente na comunidade e trazer consequências variadas.

A antropóloga acabou tendo envolvimento pessoal, passando a observadora participante na tentativa de salvar a vida da criança (Carolina) com a ajuda da benzedeira Ritinha. Malu passou a ter que acreditar em todo o universo espiritual local para poder descobrir com o velho Delano como curar a menina Carolina. Delano a escolheu como ponte de conexão entre o mundo espiritual e o plano da realidade material.

O filme mostra que há muito mais elementos a serem investigados nas comunidades tradicionais do que a princípio se possa imaginar. O longa-metragem traz esses elementos da realidade das comunidades tradicionais, do universo do pesquisador e sua atuação profissional e os conflitos que possam existir dentro do objeto de estudo.

Realizando conexões com a etnociência, o filme mostra os elementos da conduta da pesquisa com seres humanos, principalmente em comunidades tradicionais, a falta de preparo do pesquisador no trabalho com o etnoconhecimento, o desprendimento para lidar com novas realidades e formas de convívio, além das questões conflitantes que podem ocorrer.

Considerações finais

Algumas comunidades ainda estão intimamente conectadas ao meio ambiente e aos recursos naturais locais de forma intrínseca, de forma a constituir todos os seus saberes (cosmos e corpos) e suas práticas (práxis). Esses conhecimentos podem mostrar caminhos para uma relação mais intrínseca do ser humano com a natureza. Além disso, o etnoconhecimento necessita, neste mundo moderno da era tecnológica, ser valorizado, registrado e perpetuado antes que se perca ao longo do tempo, pois a oralidade ainda é o único meio de sua transmissão entre os integrantes das comunidades e seus familiares. Portanto, se uma geração não mostrar mais interesse nesses ensinamentos, eles se perderão.

Referências

ALBUQUERQUE, U. P. (org.). Introdução à Etnobiologia. Recife: Nuppea, 2014.

BRASIL. Decreto nº 6.040, de 07 de fevereiro de 2007. Institui a Política Nacional de Desenvolvimento Sustentável dos Povos e Comunidades Tradicionais. Brasília: Casa Civil, 2007. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2007-2010/2007/decreto/d6040.htm. Acesso em 08 ago. 2015.

CÓRDULA,   E. B. L.; NASCIMENTO, G. C. C. Etnoconhecimento e a escola para um futuro sustentável. Revista Educação Pública, Rio de Janeiro, nº 07, 18 fev. 2014. Disponível em: http://www.educacaopublica.rj.gov.br/biblioteca/educacao/0420.html. Acesso em: 24 fev. 2014.

DIEGUES, A. C. et al. (org.). Saberes tradicionais e biodiversidade no Brasil. São Paulo: MMA-USP, 2000.

DIEGUES, A. C. Ecologia humana e planejamento costeiro. 2ª ed. São Paulo: Nupaub-USP, 2001.

GIL, A. C. Métodos e técnicas de pesquisa social. 5ª ed. São Paulo: Atlas, 1999.

NASCIMENTO, M. E. C.; NASCIMENTO, G. C. C.; CÓRDULA, E. B. L. Cultura e a oralidade nos contos tradicionais. Revista Educação Pública, Rio de Janeiro, nº 20, 03 jun. 2014. Disponível em: http://www.educacaopublica.rj.gov.br/cultura/folclore/0022_1.htm. Acesso em 2014.

TOLEDO, V. M.; BARRERA-BASSOLS, N. La memoria biocultural: la importância ecológica de las sabidurías tradicionales. Barcelona: Icaria, 2008.

Filmografia

A antropóloga, direção de Zeca Pires. Brasil, Imagem Filmes, 90 minutos, 2011. Disponível em: http://www.youtube.com/watch?v=q9WdkL0KFKI. Acesso em: 29 abr. 2014.

Publicado em 01 de março de 2016