As culturas infantis nas instituições escolares - visibilidade e valorização

Karla J. Rodrigues de Mendonça

Professora do ensino público de João Pessoa, mestranda em Sociologia (UFPB)

Introdução

Conviver cotidianamente com o público infantil, seja no papel de professora ou mãe, traz reflexões frente a essa relação adulta com as crianças em sua diversidade. Ao analisar modo e meio em que essa relação se dá, que a princípio poderia se assemelhar a uma relação baseada em cuidados, educação e ensinamentos preparatórios para uma vida futura satisfatória e feliz às crianças.

Porém, antes de chegarmos a essa discussão, surgem dois questionamentos centrais: como a criança vê a figura do adulto nessas posições? Que imagem é refletida, que conceitos e exemplos, que comumente preocupam-se em ser repassados pelos adultos no contexto educacional e familiar, provocam nas crianças influências em sua identidade e na maneira como interpreta o mundo ao seu redor?

A necessidade de repensar a nossa prática a partir de um outro olhar pode nos fazer compreender melhor como a criança compreende a sua realidade, dando-lhe a oportunidade de expressar suas culturas, de criar e modificar o seu contexto, além de contribuir para uma possível modificação na relação entre adulto e criança dentro das instituições.

Em meados dos anos 1990, no hemisfério norte, se intensificaram os estudos relacionados à infância, tendo como ponto de partida uma visão dela com uma cultura própria, com os estudos de uma Sociologia da Infância, passando das teorias sociológicas clássicas da socialização para a compreensão da infância como uma categoria geracional, com estrutura própria, que se desenvolve em meio a relações com o âmbito social, modificando-o e o construindo (Nascimento, 2001, p. 41).

Atualmente, a Sociologia da Infância no Brasil, com seus estudos preocupados em dar visibilidade às culturas infantis dentro de nossas perspectivas históricas, políticas e sociais, pode trazer tanto para o contexto educacional como para as outras vertentes que coordenam ações ao grupo infantil, um novo olhar, não apenas como seres em desenvolvimento, mas também atores protagonistas sociais, sujeitos que produzem a própria cultura, mas que mesmo integrando a elas a cultura do adulto, possuem uma forma de particular de ser e estar em sociedade.

De acordo com Sarmento (2008, p. 24),

a Sociologia da Infância nos seus desenvolvimentos recentes propôs-se colocar a infância no centro da reflexão das Ciências Sociais. Fê-lo porque a condição social da infância é, em qualquer sociedade, bem expressiva da realidade social no seu conjunto – de algum modo, as sociedades são aquilo que propõem como possibilidades de vida, no presente e para o futuro, às suas crianças. Desse modo, o trabalho teórico e analítico sobre a infância é também uma forma de conhecer a sociedade (Sarmento, 2008, p. 24).

Portanto, estas reflexões nos mediarão na compreensão da criança quando, inserida no contexto educacional, não unicamente como aluno, mas também como indivíduo atuante em um coletivo multicultural, afirma a sua cultura e como procura garantir suas expressividades e leituras em relação ao mundo à sua volta e na interação com os adultos com que se relaciona.

Contribuições da Sociologia da Infância para o contexto educacional

Compreender definições de infância não é fácil, pois vão desde um período imaturo do ser humano e até os mais recentes estudos sociológicos, que a definem como uma categoria geracional, um grupo social, conceito reforçado por autores como Qvortrup, Corsaro e Sarmento.

Qvortrup (2010, p. 642) afirma que “a verdade é que o estudo das inter-relações entre gerações enquanto categorias estruturais será indispensável para que possamos prever e possivelmente melhorar o futuro da infância”. Esses estudos partem das culturas infantis para compreender a criança como agente social; Corsaro (2011) aborda a produção de cultura dentro da cultura de pares, isto é, nas interações estabelecidas em seu cotidiano; Sarmento (2002) traz reflexões frente a uma “gramática das culturas da infância”, refletindo sobre o jogo simbólico e o imaginário infantil.

Portanto, se a Sociologia da Infância durante os últimos anos vem trabalhando com esses conceitos em estudos científicos para contribuir com a maior visibilização da infância e emancipação da criança, para a instituição educacional colabora na reflexão como os processos educacionais estão diretamente envolvidos com esses sujeitos e como estão internalizando esses estudos para repensar suas práticas cotidianas, “reinventar a escola pública como a  casa das crianças” (Sarmento, 2002).

A Pedagogia principalmente baseada na Psicologia do Desenvolvimento de Piaget reforça o poder do indivíduo adulto, seja no papel de professor, seja no contexto familiar, para compreender que a criança necessita de estímulos para o seu desenvolvimento cognitivo, social e emocional, sendo este o responsável pela sua aprendizagem e socialização. Porém qual o contexto em que os educadores procuram desempenhar esse papel para efetivar esse desenvolvimento durante a infância? Qual o papel da criança nesse processo?

A estas últimas perguntas pode-se responder com uma frase bastante disseminada, direcionada às crianças, pelos adultos: “a única coisa que você tem que fazer é estudar”. A exigência do sucesso nos estudos, as boas notas e o bom rendimento durante a escolarização é um fator bastante presente na relação adulto-criança em idade escolar. Porém o estudante ser reconhecido como participante de uma geração com cultura específica e que dever ser visibilizada e valorizada ainda é um objetivo a ser alcançado no contexto educacional, como cita Abramowicz (2001, p. 24):

A fala da criança é uma inversão nos processos de subalternização, é um movimento político. Já sabemos que são os adultos que falam das/sobre as crianças e que isso faz parte de uma das linhas do processo de que chamamos socialização... mas a criança, ao falar, faz uma inversão hierárquica discursiva que faz falar aquelas cujas falas... não são consideradas (Abramowicz, 2001, p. 24).

Em nossa conjuntura atual, as estruturas das famílias são diversificadas e as políticas públicas estruturam as instituições escolares para o recebimento desse público que há muitos anos era participante de um contexto exclusivamente familiar. Há alguns anos a escola vem recebendo obrigatoriamente crianças que completam seis anos (Brasil, 1996), e elas iniciam sua participação e sua escolarização com uma gama de conteúdos e conhecimentos que serão processualmente analisados e avaliados pelos professores e demais profissionais.

É importante ainda ressaltar que, apesar de os objetivos principais da escola serem desenvolver as capacidades intelectuais, as crianças não deixaram suas culturas para fora da escola; elas trazem consigo suas brincadeiras, seus hábitos familiares, suas especificidades quanto a gênero, etnia, religião e classe social, e todos estes fatores as fazem sujeito de conhecimento e de cultura, muitas vezes pouco percebidas de maneira geral nesse quadro.
Qvortrup (2010, p. 640) ressalta que

podemos falar sobre a institucionalização da infância e, mais especificamente, sobre a escolarização da infância como sendo um resultado das demandas provenientes de uma economia e de um sistema de governo em transformação. Esses desenvolvimentos mudaram dramaticamente a discussão sobre a vida das crianças. Embora houvesse agentes que se esforçaram arduamente para promover a educação escolar das crianças, nos perguntamos se isso teria acontecido caso esta não tivesse sido entendida como um interesse indispensável para o comércio, para o desenvolvimento da indústria e da sociedade de forma geral, e assim por diante.

A criança está constantemente envolvida nessas transformações da sociedade. Historicamente, as gerações infantis também vão se transformando e modificando suas culturas de acordo com as mudanças sociais. A educação do ponto de vista emancipatório e constantemente inovadora, deve estar atenta a essas modificações e a cada maneira como a infância está produzindo cultura; afirmando-se em sociedade é a melhor forma de interagir com a geração adulta, cuja dificuldade é notadamente evidenciada nas aulas recheadas de conteúdos, mas com pouca participação das crianças.

Para uma escola da infância

As diferenças entre as gerações adulta e infantil são intensas, porém a falta de compreensão e diálogo poderia não ser imensa. Abramowicz (2010) enfatiza que essa visão abriria a possibilidade de se relacionar com o outro sem se prevalecer de um poder sobre o outro, de compreender o diferente, aprender com a diversidade, dando oportunidade às novas criações e invenções como possibilidade de vida, uma espontaneidade que é própria da criança, promovendo para ela um espaço não só de reprodução, mas de criação.

O espaço escolar promove a criação de novos saberes a partir das culturas infantis por aproximar os conteúdos formais do currículo à maneira criativa e curiosa do público infantil. Esse é o protagonista na aquisição dos conhecimentos e nas relações sociais mais integrativas e colaborativas que poderão vir a se desenvolver.

Abrir espaços para que esses grupos infantis troquem experiências, se organizem e interajam, proporcionará uma rotina mais democrática, com possíveis momentos de construção de suas próprias culturas. Sarmento (2002, p. 5) reflete sobre a produção das culturas infantis:

A cultura de pares permite à criança apropriar, reinventar e reproduzir a cultura que a rodeia, permite exorcizar medos, construir fantasias e representar cenas do quotidiano... E ao mesmo tempo estabelece fronteiras de inclusão e exclusão (...) que estão fortemente implicadas nos processos de identificação social.

Dessa forma, as instituições educacionais, ao repensarem sua organização e seus planejamentos de forma que valorizem o conhecimento e as culturas infantis, tendo em vista o respeito à sua multiculturalidade, proporcionarão um espaço feito pela criança e não para a criança, sendo amplamente mais significativo o desenvolvimento de suas novas aprendizagens não apenas no ponto de vista cognitivo, mas também emocional, social e político.

Considerações finais

A criança sempre traz novidades, é contemporânea, aprende e ensina constantemente uma para a outra e até mesmo para os adultos. Portanto, o ponto de vista do senso comum que afirma que o trabalho da criança é o estudo, atribuindo unicamente a ela essa exigência que prevê apenas o sucesso profissional futuro, um possível trabalho que garanta seu sustento, é atribuir à sua vida presente limitações de descobertas e vivências fundamentais para o hoje e para o seu futuro.

É primordial estar em uma escola onde a criança participe da sua escolarização em um processo integrado e colaborativo, respeitando o período geracional da infância, principalmente quanto as unidades que atendem à Educação Infantil e ao Fundamental, como instituição infantil, ao primar pelo espaço organizado e pensando na criança, mediada pelos educadores e não dirigida, tem a sensibilidade de valorizar e perceber as interpretações e ideias que se apresentam de forma criativa, imaginativa e espontaneamente curiosa por parte das crianças, prontas para trazer o novo, integrando ao presente suas constantes aprendizagens.

Referências

ABRAMOWICZ, A. A pesquisa com crianças em infâncias e a Sociologia da Infância. In: FARIA, A. L. G.; FINCO, D. (orgs.). Sociologia da Infância no Brasil. Campinas: Autores Associados, 2011.

BRASIL. LDB. Lei nº 9.394/96. Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional. Disponível em: www.mec.gov.br. Acesso em 08 mar. 2016.

CORSARO, W. A. Sociologia da infância. 2ª ed. Trad. Lia Gabriele R. Reis. Rev. Maria Letícia B. P. Nascimento. Porto Alegre: Artmed, 2011.

NASCIMENTO, M. L. B. P. Reconhecimento da Sociologia da Infância como área de conhecimento e campo de pesquisa. In: FARIA, A. L. G.; FINCO, D. (orgs.). Sociologia da Infância no Brasil. Campinas: Autores Associados, 2011.

QVORTRUP, J. A infância enquanto categoria estrutural. Educação e Pesquisa, São Paulo, v. 36, nº 2, p. 631-643, 2010.

SARMENTO, M. J. Imaginário e culturas da infância. Texto produzido no âmbito das atividades do Projeto As marcas dos tempos: a interculturalidade nas culturas da infância (Projeto POCTI/CED/2002). Disponível em http://titosena.faed.udesc.br/Arquivos/Artigos_infancia/Cultura%20na%20Infancia.pdf. Acesso em 08 mar. 2016.

______. Sociologia da Infância: correntes e confluências. In: SARMENTO, M. J.; GOUVÊA, M. C. S. Estudos da infância: educação e práticas sociais. Petrópolis: Vozes, 2008. Disponível em: http://www2.fct.unesp.br/simposios/sociologiainfancia/T1%20Sociologia%20da%20Inf%E2ncia%20Correntes%20e%20Conflu%EAncias.pdf. Acesso em 15 mar. 2016.

Publicado em 29 de março de 2016