A literatura no contexto tecnológico do século XXI

Alberto Hércules dos Santos Coelho Barbosa

Graduado em Letras (UCB), especialista em Educação a Distância (UFF), ensino de Leitura e Produção Textual (UFRRJ) e Educação Tecnológica (CEFET/RJ); professor da rede estadual do Rio de Janeiro

Introdução

Este artigo busca analisar as transformações que a literatura sofreu neste início de século e seus novos meios de produção e circulação, numa discussão sobre a influência da tecnologia na produção literária atual, formando uma literatura produzida exclusivamente no computador, com todas as possibilidades que ele oferece, perpassada por um discurso fragmentado e com uma individualidade diluída no coletivo, como características da pós-modernidade. O trabalho analisa o papel da crítica literária produzida quase somente no meio acadêmico hoje, além da discussão sobre o fim do livro, que em opinião inicial não acontecerá por tudo que o livro representa como entidade social.

No contexto tecnológico do início do século XXI, fomentado principalmente pela iniciativa privada em demanda de um conhecimento globalizado e de novas formas de produção, a realização cultural tem de adaptar-se às novas formas de comunicação, aos novos veículos e às variadas tendências do discurso. O processo de informatização que se atravessa tem feito com que a literatura encontre o meio digital para sua (re)produção e disseminação, tornando novos também seus temas e seu discurso, influenciados pela pós-modernidade.

A complexa sociedade deste início de século, perpassada por conceitos hedonistas e narcisistas, assiste a um processo de mudanças tecnológicas que tem seu expoente no computador e na internet, como o teve a máquina de escrever no início do século XX e a natureza no século XVIII (Lima, 2010). Esse processo, que congrega em si o popular e o erudito, que é fragmentado, que levanta questões mas não as responde, subverte convenções e caminha na ambiguidade, apresenta-se sob o signo de pós-modernidade.

Absorvendo essas características e adaptando-se ao cenário tecnológico digital em que a sociedade se insere, a literatura procura um meio de permanência e de definição.

O discurso

A crítica literária

A ambiguidade política e social da sociedade pós-moderna reflete na escrita a sua ainda incerta definição. Em meio ao caos de conceitos e de questões, a crítica literária assume a posição de exclusivamente acadêmica, perdendo sua relevância social, na visão de Terry Eaglenton (1991).

O trabalho de questionamento que a crítica desempenha precisa ser repensado na pós-modernidade, nos dizeres de Rogério Lima:

A crítica pós-moderna no Brasil, ainda em formação, precisa se debruçar sobre a tarefa do estabelecimento de uma teoria literária que busque criar condições para a compreensão das transformações pelas quais tem passado a literatura brasileira, e não só ela, mas a literatura do Ocidente como um todo, desde o século XIX. Na realidade, ela, a crítica pós-moderna, é um trabalho de reinterpretação da própria crítica, uma crítica da crítica. O que essa crítica da crítica tem por objetivo é restabelecer a ideia da literatura como forma de conhecimento, exercício da liberdade, crítica do real, mito verdadeiro, utopia, projeto. E se recolocar como diálogo, ampliação da leitura, extensão do saber e da ação da obra (Lima, 2010, p. 241).

É o trabalho de reafirmação da literatura como arte social, como meio de expressão dos sentimentos e dos anseios do homem, de suas ideologias e aspirações. A literatura como fonte de conhecimento e de alegria, “gaia ciência” de Nietzsche, de formação da cultura. O trabalho de construção da crítica pós-moderna precisa ser marcado pela reafirmação da função social da literatura como produção cultural e acadêmica.

Ao repensar o discurso literário, a crítica questiona o seu próprio caminho e parte daí para problematizar os rumos que deve tomar em meio às contradições da pós-modernidade.

O texto e o contexto

O discurso pós-moderno, em seu pluralismo de centros e em seu caos formal, produz uma mudança de postura do narrador e uma nova forma de catarse do leitor.

O romance essencialmente anarquista e subversivo com os elementos herdados do modernismo adquire um narrador imediatista, com um olhar enigmático para seu personagem e sugestivo para seu leitor. Não há imposição, há convite. O círculo fechado da narrativa abre-se para que o leitor possa olhar mais de perto, conviver, julgar.

Sob o signo do Modernismo de 1922, “as inovações atingem os vários estratos da linguagem literária, desde os caracteres materiais, a pontuação e o traçado gráfico do texto até as estruturas fônicas, léxicas e sintáticas do discurso” (Bosi, 2006, p. 345). Inova-se o fragmentário de Os condenados, de Oswald de Andrade, e as mutações de Macunaíma, de Mário de Andrade, para abolir qualquer ideia de ordem e levantar a bandeira do individualismo múltiplo em ações e sentimentos.

Anarquiza-se o modo de olhar. É o olhar para a vida, para a energia, para a experiência aberta em mil possibilidades, que não traça um especifico caminho, mas faz de todos os caminhos o caminho, a direção a ser seguida (Santiago, 1989).

Tudo caminha dentro da pluralidade de gêneros também. Rogério Lima, do ponto de vista formal, define a criação completamente pessoal e afetiva, a ponto de ser traçada “uma anarquia de gêneros, em que um romance pode ser composto por diversas formas e artefatos de comunicação: manifestos, volantes de rua, textos de comerciais, trechos de prosa poética, álbum de fotografias, desenhos etc.” (Lima, 2010).

Por uma intertextualidade tão grande e uma enorme concentração de linguagens diferentes, o romance pós-moderno ganha um lugar maior junto ao grande público, alcança mais aceitação popular, considerando também a grande produção de literaturas regionais ou direcionadas a variados grupos da sociedade.

Apesar das enormes possibilidades temáticas dentro de uma mesma obra, o discurso pós-moderno é centrado em si mesmo; o que é narrado através dele é coadjuvante do verdadeiro objeto da obra, experimental como o modernismo, mas mais aberto para o descontínuo, para o fragmentado, contrariando as literaturas clássicas fundadas na estética do símbolo.

Tais temas e tendências vão levando ao romance-ensaio, redimensionando o tempo e a visão particular do narrador na descrição do todo, fazendo da literatura um meio de questionamento através de um realismo crítico, e a escrita como um processo constante, como algo que acontece permanentemente, fora de um circuito fechado em início, meio e fim.

O narrador pós-moderno rejeita o tempo linear na condução daquilo que narra e se permite subordinar seu campo ficcional a um tempo psicológico ou mesmo internalizado, culminando no caos e no fragmento já descritos como características inerentes à literatura pós-moderna ainda em formação dentro da tecnologia reinante neste início de século.

A transformação tecnológica em fins do século XIX e início do século XX dividiu alguns dos nossos escritores quanto à reprodução do discurso. Segundo Lima (2010), em plena era da máquina de escrever o ato de datilografar encontrou grandes entusiastas em Monteiro Lobato e João do Rio, enquanto em Lima Barreto soou quase como agressão. A imprensa, que começava a modernizar-se, também viu de forma positiva a mecanização da escrita. A mecanização a que Jorge Amado preferiu não aderir quando veio acompanhada de eletricidade pela máquina de escrever elétrica, já em meados do século XX (Lima, 2010).

No início do século XXI, o computador assume o papel de produtor e reprodutor de literatura aliado à grande rede. A internet recebeu o discurso literário e permitiu a ele uma série de outras linguagens, gêneros e interatividade que suscitam questões polêmicas sobre o futuro da produção literária e do livro em especial. Questões que talvez ainda não possam obter respostas definitivas, mas um estudo atento e um olhar sem preconceito no terreno ainda incerto da pós-modernidade da era digital.

O veículo

O computador, a internet e o e-book

A relação entre tecnologia e cultura tem levado a questionamentos vários sobre a produção da literatura na esfera digital. E uma das principais questões é acerca do livro impresso e do livro eletrônico ou e-book. Da substituição do primeiro pelo segundo.

Gatto (2010) considera o livro impresso como instituição, à medida que é uma forma de socialização, criando um ambiente público e estabelecendo uma relação de hierarquia entre os indivíduos participantes. O questionamento que a autora faz é justamente sobre a demanda dessa sociedade tecnológica: a publicação impressa fez alguma coisa para adequar-se às novas perspectivas ou simplesmente estabeleceu uma fronteira com as publicações digitais?

O e-book, como conteúdo, não passa de cópia não impressa da obra literária. No entanto, sua facilidade de acesso por meio da internet é infinitamente maior e seu curto tamanho e reprodução em diversos softwares de texto permitem uma acessibilidade simples que pode ser feita por qualquer um por meio do computador, apesar de alguns possuírem uma chave de licença, limitando o acesso por questões de direitos autorais.

A internet, em seu livre acesso de introdução e extração de arquivos, possibilita grande circulação de músicas, vídeos e e-books. Em sites de relacionamento como o Facebook, por exemplo, existem comunidades especializadas em troca desses arquivos, disponibilizando links para download. Não entrando na discussão dos direitos autorais, percebe-se que clássicos da literatura e best-sellers circulam entre os leitores-internautas e constituem um arquivo digital de literatura.

Considerando a materialidade do livro impresso, que permite manuseio, anotações, cruzamento de dados etc., e principalmente na literatura infantil, com seus desenhos e suas cores e sua configuração, como instituição sem dúvida não será extinto com os e-books e a literatura tecnológica, de novos gêneros textuais saindo dos meios impressos para os digitais e em rede, posto que a tecnologia é usada como ferramenta educacional e base da cultura deste início de século.

A literatura gerada por computador e a ciberliteratura

Gatto (2010), em seu artigo, usa a terminologia de Pedro Barbosa (1998), literatura gerada por computador (LGC), para conceituar a poesia e a narrativa produzidas com artifícios variados da tecnologia digital, como hiperlinks, animações visuais e hiperespaço em mais de uma dimensão no decorrer da narrativa.

O movimento é a marca da LGC; ela acontece no processo, e a participação do leitor é cada vez maior em um espaço ilimitado e dinâmico pelos links e janelas possíveis. Os sites pessoais, os blogs e grupos online também são grandes repositórios de escritores conhecidos ou não e se proliferam cada vez mais rapidamente.

Os textos hipertextuais, ainda envolvidos na discussão de ganhar a posição de novos gêneros, como algumas modalidades de produção na internet, o e-mail, por exemplo, defendido pela professora Vera Lúcia de Menezes Paiva (2004) como novo gênero textual por ter herdado características de outros gêneros como o memorando, a carta e o bilhete, ganham grande força no cenário tecnológico da arte e agregam novas formas a outros gêneros consagrados.

Especificamente no meio digital, na produção hiperpoética, autores como Augusto de Campos (www.uol.br/augustodecampos), que já vem de uma experiência da poesia visual do Concretismo, e o cantor e compositor Arnaldo Antunes, com seu Vídeo poema, aliam tecnologia à produção e reprodução de suas obras.

Na hiperficção, autores como Marcos Palacios e Pajola Passenger trilham caminhos de experimentalismo na criação narrativa hiperficcional, que se desdobra ainda em hipernarrativa, infoensaio e netnovela (Gatto, 2010).

O computador, como protagonista disso tudo, assume, nos dizeres de Pierre Lévy (1996), uma postura muito mais importante:

Considerar o computador apenas como um instrumento a mais para produzir textos, sons ou imagens sobre um suporte fixo (papel, película, fita magnética) equivale a negar sua fecundidade propriamente cultural, ou seja, o aparecimento de novos gêneros ligados à interatividade (apud Lima, 2010, p. 254).

Considerando a maior democratização do acesso à internet e a crescente presença do computador em escolas, trabalhos, residências e lan houses, pode-se afirmar que o homem do século XXI mudou de postura em relação à arte, dinamizando-a e inserindo nela novos códigos e novos gêneros, um novo discurso dentro de um novo veículo, reafirmando assim o constante progresso por que passa a humanidade, repensando suas formas econômicas e sociais, refletindo (ou sendo refletidas) na arte, que continua a ser a expressão mais livre e verdadeira do homem como ser social e indivíduo, atravessando sempre um processo de mudança e de renovação.

Considerações finais

A literatura, como expressão e reflexo da sociedade, passou por profundas reformulações em seu discurso e em seu veículo de publicação na esfera tecnológica atual. O nascimento de novos gêneros e sua inserção em novas mídias vem trazendo grande imediatismo para a produção literária digital.

Questões como o fim do livro impresso e a perda de qualidade no fazer literário precisam, sem dúvida, de um estudo mais aprofundado e livre de partidarismos, como o precisam também as novas formas de linguagem que estão surgindo aliadas à tecnologia, restaurando e recriando velhos temas da arte e da cultura.

E, apesar da valorização individual, a literatura da era tecnológica é sem dúvida mais social, mais comunitária, comum, pública. “Moralidade é o instinto gregário do indivíduo” (Nietzsche, 2005, p. 111). A moral dessa arte digital, acessível na grande rede a qualquer tipo de público, é o agregar, o exibir, o participar.

A principal característica da literatura digital, ou ciberliteratura ou literatura gerada por computador é o adjetivo de participativa, de gregária. Acolhe-se e questiona-se esse leitor-internauta, esse indivíduo diluído no social em busca de uma expressão que a literatura oferece de forma ampla, liberta e simples, tornando-se assim sabedoria, memória, livre expressão, forma, estilo, íntima arte, em qualquer lugar e em qualquer época.

Referências

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BOSI, Alfredo. História concisa da Literatura Brasileira. São Paulo: Cultrix, 2006.

EAGLETON , Terry. A função da crítica. São Paulo: Martins Fontes, 1991.

GATTO, Sonia Melchiori Galvão. Literatura brasileira e as novas tecnologias: leitura e produção. Disponível em: www.alb.com.br/anais14/Cohilile/H113.doc. Acesso em 10 nov. 2010.

LÉVY, Pierre. O que é o virtual. Trad. Paulo Neves. São Paulo: Ed. 34, 1996. Coleção Trans.

LIMA, Rogério. Literatura na era digital. Revista da ANPOLL, Brasília, v. 1, nº 28, 2010.

MARCUSHI, Luiz Antonio; XAVIER, Antonio Carlos (orgs.). Hipertexto e gêneros digitais. Rio de Janeiro: Lucerna, 2004.

NIETSZSCHE, Friedrich. A gaia ciência. São Paulo: Martin Claret, 2005.

PAIVA, V. L. M. O. E-mail: um novo gênero textual. In: MARCUSCHI, L. A.; XAVIER, A. C. (orgs.). Hipertextos e gêneros digitais. Rio de Janeiro: Lucerna, 2004. p. 68-90.

SAMUEL, Rogel. Novo Manual de Teoria Literária. Petrópolis: Vozes, 2006.

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Publicado em 14 de abril de 2016