Teoria e prática da avaliação da aprendizagem escolar

José Luis Monteiro da Conceição

Mestre em Educação

Nos últimos anos, a avaliação tem se tornado um instrumento de grande importância na prática docente. Nota-se que poucos a utilizam como forma de ajudar o desenvolvimento da aprendizagem do aluno, averiguar os pontos fortes e fracos, observar se realmente os objetivos propostos estão sendo alcançados. Por outro lado, têm-na como forma de punição, autoritarismo, retenção, vingança, instrumento de poder, medida e controle.

Às vezes tem-se a avaliação como uma espécie de acerto de contas por todas as formas incoerentes que o aluno apresentou durante o momento de aprendizagem: indisciplina, discussão com o professor etc. O que se observa a partir daí é uma profusão de significações que aponta para a polissemia que envolve o termo avaliação.

Apesar de a avaliação mostrar vários aspectos, não é fácil trabalhar com um tema tão complexo, alvo de crítica, discussão e debate por parte dos estudiosos que pesquisam sobre a avaliação da aprendizagem escolar, pois exige esforço, determinação, responsabilidade, compromisso, dedicação, competência, habilidade, acompanhamento, orientação, mediação constante do avaliado, mas é uma forma que ajuda a repensar a prática pedagógica do professor e a aprendizagem dos alunos, permite a tomada de decisões diante do que foi analisado. Implica uma reflexão para a melhora de toda a comunidade escolar. A avaliação observa se o produto atende às qualidades desejadas, se a produção foi eficiente e assim por diante. É um trabalho minucioso que requer conhecimento quando se trata de avaliar alguém nos aspectos quantitativos ou qualitativos.

Para Libâneo (1994, p. 195), a avaliação é

uma tarefa didática necessária e permanente do trabalho docente, que deve acompanhar passo a passo o processo de ensino e aprendizagem. Através dela, os resultados que vão sendo obtidos no decorrer do trabalho conjunto do professor e dos alunos são comparados com os objetivos propostos, a fim de constatar progressos e dificuldades e reorientar o trabalho para as correções necessárias. A avaliação é uma reflexão sobre o nível de qualidade do trabalho escolar tanto do professor como dos alunos. Os dados coletados no decurso do processo de ensino, quantitativos ou qualitativos, são interpretados em relação a um padrão de desempenho e expressos em juízos de valor (muito bom, bom, satisfatório etc.) acerca do aproveitamento escolar. A avaliação é uma tarefa complexa que não se resume à realização de provas e à atribuição de notas. A mensuração apenas proporciona dados que devem ser submetidos a uma apreciação qualitativa. A avaliação, assim, cumpre funções pedagógico-didáticas, de diagnóstico e controle em relação às quais se recorrem a instrumentos de verificação do rendimento escolar.

A avaliação está presente no viver da humanidade em diversos ambientes: na família, espaço inicial do convívio social, e em outros espaços como grupos religiosos, associações de bairro, movimentos sociais e principalmente na escola, um ambiente “consagrado”. Em se tratando deste último local, há grande preocupação quando se trata de avaliação, pois há os descaminhos e contradições com o que se diz na teoria e o que se executa na prática. Observa-se que existe uma distância bastante acentuada. Dizendo melhor, fala-se tanto em avaliação processual na teoria, mas quando chega à prática esse processual fica só no papel.

O professor é o mentor de todo o trabalho e tem a incumbência de promover para os seus alunos um ensino de qualidade, facilitar a aprendizagem, conduzir as aulas de maneira dinâmica, prazerosa, aguçar nos alunos o poder de argumentação, interativa e questionadora, orientação didática adequada, acompanhamento nas atividades propostas, ser eficiente e eficaz na disciplina que ministra e mostrar domínio do conteúdo. Até esses pontos, no que diz respeito à educação, tudo bem. Não há problema algum que seja explanado, mas faz-se necessário refletir acerca do sistema avaliativo, até porque é um instrumento que não pode faltar nas instituições escolares e o que se observa é a contradição do que se diz na teoria com o que se aplica na prática.

Infelizmente, o discurso é puramente utópico sobre a avaliação na teoria, embeleza qualquer práxis pedagógica do educador. Esse tipo de discurso nos mostra a avaliação como processo contínuo, instrumento de socialização de saberes; cada um deve ser avaliado de acordo a sua realidade sociocultural, respeitando a sua identidade. É uma avaliação que visa ao crescimento do aluno e possibilita a melhoria da educação.

A avaliação, dessa forma, tem uma função prognóstica que avalia os conhecimentos prévios dos alunos, considerada a avaliação de entrada, avaliação de input; uma função diagnóstica, do dia a dia , a fim de verificar quem absorveu todos os conhecimentos e adquiriu as habilidades previstas nos objetivos estabelecidos (Hamze, 2007, p. 1).

A avaliação, no discurso teórico, quebra todos os paradigmas da educação bancária, retira a forma de ensinar pela memorização e mecanização dos conteúdos, dando lugar a um ensino inovador e criativo. Ao invés de punir o aluno, coloca no lugar o diálogo, a reflexão e a busca de resoluções de problemas da melhor maneira possível. A avaliação tem sinônimo de ajudar, auxiliar para a construção da aprendizagem. A avaliação é uma verdadeira oportunidade de o aluno mostrar todo seu envolvimento durante o fazer pedagógico do professor.

Essa contradição fez-me refletir um pouco mais sobre a avaliação que se dá nos interiores das escolas, pois quando se fala em avaliação geralmente pensamos em julgamento, algum tipo de teste, prova, algo que julgue a competência de alguém sobre determinado assunto. Na verdade, pensar na possibilidade de mensurar o conhecimento, capacidade física ou artística de alguém por meio de um momento que envolva uma prova, teste, concurso é admitir a imprecisão e a falha do sistema que vive para os fins e dificilmente leva em conta todo o processo, sem mencionar outros fatores que envolvem o resultado de uma avaliação, como emoções, problemas familiares, doenças, limites.

É preciso saber quais causas levam os professores, na sua maioria, a apresentar um discurso sobre a avaliação e uma prática totalmente fora da sua realidade.

Estudar essa dicotomia pode ajudá-los a selecionar melhor os instrumentos avaliativos pensando sempre primeiro na promoção do aluno e não na retenção e/ou exclusão. Ajudará também trazer maior conhecimento para que venha associar teoria e prática, modificando o seu processo de avaliação, buscando melhorar o aprendizado do aluno, valorizar o aluno e o seu conhecimento de forma continuada. Além disso, o professor terá a oportunidade de saber o que é avaliação e verificação, que caminhos deverá seguir para o sucesso de todos os envolvidos, o que fazer com alunos que não tiveram sucesso durante o fazer pedagógico, ter a avaliação da aprendizagem escolar como um processo e não um fim e entender principalmente que os aspectos qualitativos avaliativos devem se sobressair aos quantitativos, conforme prega a atual Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDBEN 9.394/96).

Luckesi escreveu como os agentes da educação devem começar as mudanças na prática avaliativa escolar:

o educador que estiver afeito a dar um novo encaminhamento para a prática da avaliação escolar deverá estar preocupado em redefinir ou em definir propriamente os rumos de sua ação pedagógica, pois ela não é neutra, como todos nós sabemos. Ela se insere num contexto maior e está a serviço dele. Então, o primeiro passo que nos parece fundamental para redirecionar os caminhos da prática da avaliação é assumir um posicionamento pedagógico claro e explícito. Claro e explícito de tal modo que possa orientar diuturnamente a prática pedagógica no planejamento, na execução e na avaliação (2005, p. 42).

O autor chama a atenção de que se faz necessário renascer a função diagnóstica da avaliação nas práticas pedagógicas do professor, pois esse tipo de avaliação dará novos rumos, novas propostas, novas estratégias didáticas para o desenvolvimento e a aprendizagem dos alunos. Salientamos ainda que a avaliação tem o papel de auxiliar tanto o professor como principalmente o aluno a tomar consciência de suas ações, permite que tenham posicionamento crítico, reflexivo e saibam se realmente estão progredindo diante das dificuldades encontradas na sala de aula.

Ao contrário do que se observa e se prega, na prática de muitos professores o uso da avaliação passa a ser nomeada instrumento de tortura, pressão e controle do comportamento. Segundo Ferreira (2004, p. 9),

o professor, então, tendo observado o “mau comportamento” dos alunos, sente-se tentado a ameaçá-los com a arma poderosa da avaliação, dizendo que irá tirar-lhes pontos, chamará os pais, irá colocá-los para fora da sala, encaminhá-los para a coordenação etc. Nessa concepção, o mais comum é o professor, não conseguindo motivar o aluno para o trabalho, começar a usar a nota como instrumento de pressão para obter disciplina e participação, contribuindo assim, para a sua alienação.

Pode-se dizer que uma avaliação com esse intuito tem como objetivo maior aniquilar o próprio aluno. É não possibilitar a aprendizagem. É uma avaliação que não contribui para o desenvolvimento. É uma avaliação que não enxerga nem sabe que cada aluno apresenta suas concepções, ideologias e características diferentes.

Para Oleques (2009),

antes mesmo de aplicar uma avaliação, seja ela quantitativa ou qualitativa, é necessário que os professores reflitam sobre as seguintes indagações: que problema(s) o aluno está enfrentando em relação aos conteúdos? Por que não consegui chegar ao resultado esperado? A metodologia de trabalho está realmente ajudando o aluno a aprender?

Acredita-se que eles, conseguindo responder a esses questionamentos, farão na sua prática uma avaliação que valha a pena. Uma avaliação justa e necessária.

Referências

FERREIRA, Luciana Almeida Severo. Avaliação: os professores sabem seu real significado. Dissertação (Especialização em Gestão Educacional). Centro de Educação, Universidade Federal de Santa Maria. Santa Maria, 2004.

HAMZE, Amélia. Avaliação escolar. Brasil Escola, 2007. Disponível em: http://pedagogia.brasilescola.com/trabalho-docente/avaliacao-escolar.htm. Acesso em 16 maio 2015.

LIBÂNEO, José Carlos. Didática. 2ª ed. São Paulo: Cortez, 1994.

LUCKESI, Cipriano Carlos. A avaliação da aprendizagem escolar 17ª ed. São Paulo: Cortez, 2005.

OLEQUES, Rose Carla Mendes. Avaliação da aprendizagem escolar: o papel da avaliação e sua utilização pelo professor na sala de aula. Maio 2009. Disponível em: www.partes.com.br/educacao/avaliacaoaprendizagem.asp. Acesso em 14 fev. 2015.

Publicado em 14 de abril de 2016