Poesia: desaprendizagem da entrega

Bianka Barbosa

 

Mas significar é pouco quando se trata de dar às lembranças a sua atmosfera de sonho.
Bachelard

 

Começo afirmando que poesia é a liberdade de dizer não.

Não acredito na palavra fatigada de ser forma. Essa que os estudiosos dissecam e pensam realmente conhecer. Não acredito na palavra que insiste em se explicar, como vemos à venda nos botequins escolares do mundo. Também não acredito nos homens que, por tédio, se cansaram de si mesmos e divulgam certezas como se a vida fosse apenas o que seus olhos veem dela.

A negação me traz a liberdade de ser toda em palavra, por saber que no fundo negar não é só empreendimento de dicotomias e escolhas racionais com fins definidos. Mas, em sendo “não”, faz vigorar o sim como assunção da posição a que sou convocada a ser. Com isso, meia palavra, meio ambiente, partido político ou cara-metade não passam de falácias. O que há em verdade é inteireza: movimento de internação que me faz ser o que sou. A dificuldade de sermos o que somos está na liberdade criativa exigida pelo não. Pois “não” pode até significar proibição, mas não se limita apenas a isso. Ao nascer do dia, tal palavra nasce outra, nova, por ser inaugural. Na diferença que ela encena, somos convidados a vigorar com o tempo, com o nosso tempo. Tempo esse que, depois de nos esculpir em travessia, nos viscera a possibilidade de sermos um não em sentido. Aqui, o não deixa de ser apenas proibição para ser recolhimento em terra do que somos: deveniência.

É na impossibilidade de nos retermos que somos instantes-já de palavras em corpo. A corporeidade de cada corpo registra em vida o sendo que cada um é. A corporeidade de cada corpo deflagra a origem de nossas águas-rios-travessia: mar-poesia. Pertencimento que nos faz ser-com a primeira palavra, “quando a criança garatuja o verbo para falar o que não tem” (Barros, 2003, p. 337). Talvez por isso o homem habite poeticamente o mundo, pois “é a poesia que traz o homem para a terra, para ela, e assim o traz para um habitar” (Heidegger, 2001, p. 169). Habitar não é apenas a ocupação de um espaço, mas o convite de deus para em roda sermos, com todo o resto, seu samba. Poesia é o instante que nos convoca a sambar com deus sobre o infinito.

Nesse sentido, poesia é mais do que mera manifestação artística. É, na verdade, a forma mais bela de experienciação do real ofertada por ele próprio ao homem. Somente porque a poesia vigora, podemos retornar ao originário de ser homem: humanidade. Pois não é o homem que, por intermédio da erudição, pode corresponder ao apelo da poesia, mas alguém que se deixa enlaçar por seus gestos: o poeta. O poeta é um ser ferido por Apolo, por isso, seu olhar “é nítido como um girassol” (Pessoa, 2007, p. 34). Portanto, é preciso deixar claro que poeta não é um fazedor de versos qualquer, mas aquele que está no aberto, sendo-o em inteireza. Ser poeta é ser o comungar que encena o desencontro de existir.

Poesia é terra fecunda de luz por todos os lados. O sol não penetra a terra. Na verdade, ele penetra a si mesmo à medida que a ama: empenho de amor por si próprio. Seus raios vão ao encontro da terra por saberem que seu devir é o de não-ser-sendo seu interior incandescente de vulcão: brotamento de cor na superfície. Só por isso conseguimos olhar, tocar, cheirar, saber o gosto e ouvir. Tudo que nos atravessa é o sendo da luz. Isto é, convocação para deitarmos o corpo na realidade, saber a verdade e ser feliz (Pessoa, 2007, p. 52). Daí que a realidade se torna, para nós, insuportável, ou seja, impossível de ser encaixada em suportes.

As coisas deixam de ser coisa qualquer para serem iridescência em som e perfume, sendo o corpo que somos. O que como, toco, cheiro, sinto o gosto, olho é todo o sendo do próprio real, do próprio sol, da própria luz. Quando verdadeira, porque interna, toda e qualquer palavra é luz: possibilidade incessante de, em se penetrando, fazer-se brotar. O que chamamos de terra, na verdade, é a outridade do sol. Só por isso ele pode ser com ela: reunião: poesia. De modo que a tolice racional das dicotomias não passa de palavra desusada em boca de criança mimada.

Como aponta Bachelard, não podemos confundir o tempo justaposto da razão ao tempo das coisas, dos outros e da vida. E aqui acrescento: não podemos confundir as imposições racionais ao nosso próprio tempo, ao que nos é interno e verdadeiro e que ninguém mais tem e é. Pois ser em cronologia não se trata apenas de participar do real a partir de fatos sucessivos ou evolutivos, mas de estarmos em diálogo com nós mesmos. A cronologia do tempo nos convida ao diálogo à medida que é única e inaugural em cada corpo. Por exemplo, meus 26 anos somente eu os tenho e sou. Desses 26, outros tantos o comporão e compõem. Cada ano passado e/ou vindouro não apenas me fez ou fará prosseguir como será o vigorar em mim do tempo que me cabe dentro da vida-experiência que sou, isto é, que me foi oferecida.

Fico às vezes pensando se cronologia não seria, na verdade, a forma encontrada pelo real de estar sendo em oferenda no meu corpo. Se não fosse isso, não fariam sentido as datas de aniversário, por exemplo. Nesses momentos, nos oferendamos em nós, de nós e para nós mesmos. Nesses momentos, ritualizamos a própria movimentação manifesta do real. Em meu ritual, “ele (o real) adormece e eu deito-o. Levo-o ao colo para dentro de casa / E deito-o, despindo-o lentamente / E como seguindo um ritual muito limpo / E todo materno até ele estar nu” (Pessoa, 2007, p. 50). Talvez seja essa a beleza de sermos em cronologia: calendário que nunca chega ao fim. O convite de Cronos é o de sermos seus tecelões e, como diz a canção, caminharmos em história “bordando areia com luz de candeia para nunca se apagar” (Sá, 2007). Daí todo poeta ser poeta de seu tempo, do seu regaço.

Nesse sentido, a confusão dos tempos apontada por Bachelard encena na verdade um pensar já “doente dos olhos” (Pessoa, 2007, p. 34), isto é, um olhar que não permite enlaçar essência e existência. Tabu intelectual dos que não sabem se desfazer em amor.  É na confusão que está a beleza do tempo, ou seja, estar em fusão com, misturado. Com o quê? Com o próprio tempo. Os gregos já haviam percebido tais gestos e, por isso, conceberam minimamente três tempos: Aion, a eternidade; Kairós, o instante-já de irrupção do próprio; e Cronos, iridescência em diálogo que nos inscreve em ser o devir do próprio tempo. No confundir do tempo, somos ambivalência, a saber, tensão entre ser e não-ser, sendo. Fundidos, com todo o resto, dentro do tempo desaprendemos a nos formar em desencontros. Talvez, por isso, “as antíteses congraçam” (Barros, 2010, p. 340), ou seja, nos fazem reconciliar com o mistério que nos possibilita ser: poesia.

A poesia está em todo lugar, dizemos. Mas os lugares não a reduzem em suas aparições. É interessante, no entanto, perceber que ao afirmarmos isso geralmente pré-selecionamos os melhores lugares onde consideramos de fato acontecer poesia. Pobres de nós que trazemos a alma vestida! Os lugares só o são porque habitam poesia. Pois a poesia não está nem em todos os lugares nem em lugar algum. A poesia é o lugar. Daí que todo homem é um lugar escaleno, feixes de iluminuras: abertura de escritos em luz, pela luz e a partir da luz. Ser poeta é ser vigor de poesia. Talvez, por isso, a poesia esteja sempre no escuro regaço das fontes (Cf. Barros, 2010, p. 339): habitação aonde todo poeta-lugar irá se regar de si mesmo.

O que não sei fazer desmancho em frases.

Eu fiz o nada aparecer.

(Represente que o homem é um poço escuro.
Aqui de cima não se vê nada.
Mas quando se chega ao fundo do poço já se pode ver o nada.)

Perder o nada é um empobrecimento

(Barros, 2010, p. 343).

Como diz o poeta, “ninguém consegue fugir ao erro que veio” (Barros, 2010, p. 374). Pois errar é o caminho de estar sendo em errância, isto é, possibilidade de sermos com o nada que forjamos aparecer. Para dentro das dicotomias possíveis, nos deparamos com a ambivalência da errância de sermos um erro. Erro não por sermos ausência de acerto, mas presença de possibilidade. É no erro que encenamos a possibilidade do sem motivo. É em erro que “já se pode ver o nada”.

Diante da errância não há medida prévia ou fim a ser conquistado. Medida, em errância, é comunhão em cortejo. Nele, carregamos nossos primórdios num andor (Cf. Barros, 2010, p. 339) e somos convidados a amanhecer de formas diferentes. Em errância, louvamos o nada por saber que tudo o que somos parte dele. Daí que, quando dizemos rotineiramente que não somos nada, o equívoco não está na presença de sermos o nada, mas no entendimento desse nada como niilismo. Na verdade, não sermos nada pinta em corpo o reconhecimento de que não somos o nada, ou seja, de que não podemos ser o nada. Não é à toa que experienciamos diariamente a angústia. Pois, no fundo, sentimos sem saber que é o nada quem nos é. A isso damos o nome de desaprendizagem.

O convite da poesia chega até nós como canto e encanto, que nos clama nudez. Instante em que o corpo pode ser ele mesmo nas fagulhas do se ver. Pois não basta ver. É preciso ser o que se vê. Toda palavra, porque poesia, é abismo de se ser indizível. A experienciação disso é desaprendizagem à medida que faz do aprender um brincar. No brincar, a criança se permite ver sempre de forma inaugural porque ela é a inaugurabilidade do real encarnada, isto é, potência pulsante que se deixa arrastar pelo arrastão que a atrai. Não é à toa que toda criança não só imagina ser várias coisas, elas o são. Dizer-se uma princesa não é apenas, por comparação ou objetivo determinado, tornar-se uma, mas reconhecimento em si de que realmente é possibilidade de e para possibilidade. A criança brinca porque sabe em corpo que todo nascer é já estar lançada no aberto das questões: experiência. Tensão de ser um limite no aberto, que impulsiona para e a partir do não limite. Brincar é cantiga a perfumar: aprender, aprender, aprender até desaprender. Nesse ritual, somos lançados no nada que nos possibilita assumir posições no horizonte.

Por isso, desaprender nunca exclui ou inclui o aprender. Desaprendizagem é vigor máximo de aprendizagem. No que desaprendemos, transbordamos em novas palavras “antes mesmo que sejam modeladas pelas mãos” (Barros, 2010, p. 339). Erramos a escrita por, no fundo, sermos como o sem porquê da rosa: destinar que lampeja em pele as linhas tortas de deus.

Aprendizagem é gramática. Desaprender é o cultivar que permite à gramática desabrochar poesia. Manoel de Barros sabe disso e, por isso, em Gramática expositiva do chão (1990), aponta que a gramática é também uma possibilidade manifesta do real. A corporeidade de todo o corpo é em si gramatical, isto é, possibilidade de devir que a faz, no incorporar de seus gestos próprios, regurgitar seu estado inicial de forma para irromper em formas de compor silêncios. E é exatamente isso que os versos do poeta coreografam para nós. Seus versos são chão fecundo e acolhedor, que permite à gramática própria de cada palavra irromper em luz. A mesma luz de que falamos há pouco. Talvez por isso Manoel de Barros afirme que seus versos são iluminuras.

O problema está em acreditarmos na dualidade do real como gerador de oposições quando, na verdade, seu desabrochar é essencialmente fraterno, porque generoso. O real é abertura em liberdade de caminhos e descaminhos a serem atravessados pelos e nos homens, de modo a permiti-los ser um sendo, cada um a seu tempo e modo próprios. Pois, como diz Caeiro:

O universo não é uma ideia minha.
A minha ideia do universo é que é uma ideia minha.
A noite não anoitece pelos meus olhos,
A minha ideia da noite é que anoitece por meus olhos.
Fora de eu pensar e de haver quaisquer pensamentos
A noite anoitece concretamente
E o fulgor das estrelas existe como se tivesse peso
(Pessoa, 2007, p. 63).

O que identificamos por paradoxos, que aparentemente encenam extremos não dialogais, é na verdade o movimento essencial do próprio real: o repousar, que em se dançando, fraterna. Ou seja, acontecência de abertura como possibilidades de travessias. Ser em travessia diz o empenho de reconquista da gênese, do originário, do nada criativo, que em dança nos religa ao abandono do sagrado. Aqui, a possibilidade não é apenas um ensejo de opções ao nos depararmos com a encruzilhada de estar sendo. Mas ela própria (a encruzilhada), à medida que nos lança para a humanidade que nos reúne e nos desfaz ser a essência-existência que somos: homens-humanos: um a caminho da poesia.

A maior riqueza do homem é a sua incompletude.
Nesse ponto sou abastado.
Palavras que me aceitam como sou – eu não aceito.
Não aguento ser apenas um sujeito que abre portas, que puxa válvulas, que olha o relógio, que compra pão às 6 da tarde, que vai lá fora, que aponta lápis, que vê a uva etc.
Perdoai.
Mas eu preciso ser Outros.
Eu penso renovar o homem usando borboletas
(Barros, 2010, p. 374).

Lançar-se em entrega requer desprendimento visceral, isto é, desconsciência de nossa incompletude. Talvez por isso tenhamos tanta dificuldade em lidar com poesia. Empenhado em raciocinar, ou seja, se alimentar apenas das palavras ditadas pela razão, velha caduca que já não sabe mais o que diz por não se permitir ter e ser em infância, o homem acabou por deixar de lado o pensamento: gorjeio de pássaros a fazer poesia no abismo. Resultado: transformou os dias em trabalho; trabalho em obrigações; obrigações em coisas que o afastam do viver; vida que, aos poucos, não consegue perceber o sentido de se ser. Com isso, o homem racionalmente concebido se coloca como um ente à parte de todos os outros, à medida que nega a questão essencial: a inaugurabilidade e inapreensibilidade do real.

Talvez por isso seja tão valiosa a presença dos poetas e dos loucos neste mundo. Com eles, aprendemos a transvê-lo e somos convidados a mergulhar em sua coisidade, isto é, simplicidade de ser apenas coisa a brincar de esconde-esconde com os conceitos. Os filhos da razão ficam tontos quando se deparam com a multiplicidade de verdes de uma floresta; as possibilidades de som do azul; ou ainda as palavras exaladas das flores em formas de aroma. A tentativa de achá-las no meio da brincadeira é o mesmo que explicá-las ao infinito, por não perceberem que tudo o que buscam está dentro de si mesmos e acontece em comunhão com tudo, sendo tudo, pois são pura entrega.

Toda entrega é coreografia, em papel, de ser verso.

Dentre todas as definições, a que mais chama a atenção, ao buscarmos a significação da palavra “verso”, é aquela que diz: “face oposta à da frente” ou “lado oposto ao principal” (Houaiss, 2009). Isso ocorre porque estamos acostumados a lidar com as palavras por intermédio de um corredor que as separa do pensamento. Não percebemos que dicionários existem para nos fazer pipocar até sairmos do estado de milho e brilharmos como nuvem na pele de uma pipoca.

Versos: “face oposta à da frente”. De imediato, temos que os versos, para além de comporem as linhas de um poema, são o que nele não se pode ver. Pois ser sua face oposta significa ser justamente o que no aparecer vigora. Sendo assim, a palavra “verso”, como todas as outras palavras, carrega em seu interior significações iridescentes de sentido. Daí que se torna preciso o desversar do verso, ou seja, superação do conceito criado para dizê-lo não de modo a afastá-lo, mas trazendo-o para perto, com cuidado, até nos desnudarmos em sua cor. No fundo, o que interessa em um verso é o fato de ele ser vigor de reverso.

Para tanto, torna-se fundamental descompreender essa oposição à medida que se paisagiza no horizonte em desdobramentos de luz. Ou seja, “face oposta” será concebida por nós como “face desdobrada”, habitação do encoberto, por ser ele próprio. Diante disso, temos que os versos são o vigorar do encoberto, do velado, que se dá a ver como coreografias de palavras desenhadas nas folhas do papel: repouso que consuma o destinar do movimento.

Com o afetar de um verso, lançamo-nos no indizível de nós. Ficamos perplexos como G. H. diante da gosma da barata (Cf. Lispector, 1998, p. 77). Daí a sensação de água a escorrer pelo corpo depois do impacto de um verso. Quando pensamos retê-lo em nós, já se foi. Esse ir, no entanto, não enseja uma partida definitiva, como fim-impossibilidade, mas movimenta um permanecer, um enraizar e carregar. Pois é evidente que, assim como a água ficou em nós, fomos com ela: compomos presença.

“Com um lenço branco digo adeus / Aos meus versos que partem para a humanidade” (Pessoa, 2007, p. 87). Pois partir é sempre um retornar: teimosia poética de repetir, repetir até ficar diferente (Cf. Barros, 2010, p. 300). Versos são o resguardo, a “face oposta” ou desdobrada dos homens-palavras postos como aparência à sua frente, que os conduzem à essência do que são: humanos. Humanidade diz a essência do homem. Nesse sentido, humano não é apenas um atributo de “ser”, como se mostra na expressão “ser humano”, mas coreografa, ou seja, faz movimentar no repouso, a diferença de ser-no-mundo que é o homem. Ser humano significa ser porto onde a canção pode, em repousando, seguir seu fluxo.

Por isso, todo o versar implica salto: doação em círculos de não saber. Limite que nos convida a fecundar os sentidos com o sentido; e experienciar a acontecência de movimento que desde si mesmo move a si própria: vida. “E não sou alegre nem triste” (Pessoa, 2007, p. 87), pois alegria e tristeza são apenas adjetivos: palavras intrometidas que tentam dar conta do substantivo verbal presente em toda a realidade. Além do mais, “esse é o destino dos versos” (Ibidem, loc. cit.): viver a morte da semente.

É preciso chupar as palavras até encontrar as sementes. Depois, deixá-las secar ao sol até esturricar. Pegar os grãos e, com todo o cuidado, repousá-los ao seu lado. De joelhos ao chão, olhá-las com verdade. Pois, no fundo, sabe que em breve estará a morrer com elas. Cavar a tumba. Cobri-las com respeito e beijar-lhes a face. Aguardar. No irromper da poesia, a morte, a partida, o fim são apenas o início para a desaprendizagem da entrega, pois “esse é o destino dos versos” (Ibidem, loc. cit.).

O olhar-entrega do poeta compreende todo o agir como processo de cuidado, cultivo, cultura originária do encoberto no desencoberto. Por isso, para ele, não há mistério nas coisas, pois não há separação. A poesia vigorante em todo poeta convida a perceber em pele que a comunhão do que é (essência) e do como é (aparência) simplesmente existe como brotamento de chão no seio do real. Não é à toa que todos os seus sentidos são terra fértil para irrupção de paisagens: versos.

Todo poeta é em si o vigorar da entrega: chamamento para ser o filho de Eros: o jardineiro da palavra. Palavra é a entrega que aceita tudo. Palavra não é apenas código linguístico, mas pura doação e recolhimento. A palavra não é mensageira de nada. A palavra é a mensagem. Portar no resguardo de estar sendo a palavra em corpo é habitar o destino de ser jardineiro. Há, no entanto, uma diferença fundamental entre o jardineiro e o agricultor. Diferença ontológica que fará dos homens habitação-experiência de dois mundos de ver distintos.

Comecemos pelo segundo. O agricultor é aquele cujo empenho se concentra em fazer do tempo da razão o tempo das coisas, dos outros, da vida e de si próprio. A semente para ele não importa. O importante é o resultado que esta o trará ou não. Aqui, nasce o esquecimento racional do processo de ser. O olhar do agricultor não vê. Apenas encena o passar o olho, a saber, o ignorar prepotente que desconsidera o processo. Seus objetivos são claros e, com isso, a terra não fecunda, antes violenta em vidas sem grão. O alimento em suas mãos é produto e a realidade nascida e enlatada parte para as estantes mercadológicas do seu mundo com um fim único: ser apenas o niilismo de lucrar. Riqueza vazia que envenena e faz adoecer quem a consome. Para um agricultor, ver é intervir e, por isso, poesia para ele é coisa de sonhador. Toda a sua prática agrícola faz movimentar o tédio de quem não sabe ainda ver o mesmo não como sendo a mesma coisa, mas como irromper incessante da primeira vez.

Por ouro lado, o jardineiro é pura entrega: espera pelo recolhimento do nada. Para ele, não há motivos no plantio, por saber que os pássaros, o chão e a semente se encarregam de o ser em amor. Sua única tarefa é regá-los de si mesmos e deixar desabrochar, com o cuidado que lhe foi permitido, o que são. O jardineiro, ao contrário do agricultor, não se utiliza de remédios de fazer engordar palavras, pois sabe que cada palavra comporta os gestos do universo em massa, peso, volume e medida próprios. Cada uma já é em si toda a realidade. De modo que, para ele, basta sentar-se aos pés do chão e aguardar pelo grande dia. Dia de finalmente ser em palavra: em poesia: desaprendizagem de ser todo entrega.

Referências

BACHELARD, Gaston. Os devaneios voltados para a infância. In: ______. A poética do devaneio. São Paulo: Martins Fontes, 2001.

BARROS, Manoel. Escritos em verbal de ave. São Paulo: Leya, 2011.

______. Poesia completa. São Paulo: Leya, 2010.

______. Memórias inventadas (infância). São Paulo: Planeta, 2003.

______. Gramática expositiva do chão (Poesia quase toda). Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1990.

FOGEL, Gilvan. Notas sobre o corpo. In: CASTRO, Manuel Antônio de (org.). Arte: corpo, mundo e terra. Rio de Janeiro: 7Lettras, 2009.

______. O desaprendizado do símbolo (a poética do ver imediato). In: CASTRO, Manuel Antonio de (org.). Permanência e atualidade da poética. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 2007, p. 39-51.

HEIDEGGER, Martin. “...poeticamente o homem habita” e “A coisa”. In: ______. Ensaios e conferências. Trad. Emmanuel Carneiro Leão et al. Petrópolis: Vozes, 2007.

PESSOA, Fernando. Poemas de Alberto Caeiro. Porto Alegre: L&PM, 2007.

Publicado em 26 de abril de 2016