A Arte aplicada ao ensino de Biologia: confecção de modelos didáticos de microrganismos

Andréia Santos Silva

Doutoranda em Ciências e Biotecnologia, mestre em Ciências, especialista em Ensino de Ciências e Biologia, licenciada em Ciências Biológicas e professora da rede estadual de ensino do Rio de Janeiro

Nayhara Marylin Fraga

Mestre em Memória Social, especialista em Mídias na Educação, licenciada em Artes, bacharel em História da Arte e professora da rede estadual de ensino do Rio de Janeiro

Introdução

No Brasil, a utilização de modelos didáticos educacionais foi incorporada entre o início da década de 1950 até meados da década de 1980. Atualmente, para alguns alunos, determinados temas da área de Ciências e Biologia têm sido vistos como assuntos incompreensíveis. Muitas vezes, os métodos de ensino utilizados pelos professores para abordagem desses temas complexos não têm ajudado o aluno em seu processo de aprendizagem, fazendo com que eles não tenham uma aprendizagem significativa (Pereira et al., 2015).

Na Educação Básica, o ensino de microrganismos é parte integrante dos conteúdos de Ciências Naturais em todos os níveis, estando presente quando do estudo de Citologia, Ecologia, Saúde, Ciclos biogeoquímicos, Genética e Biotecnologia (Brasil, 1998). Sendo assim, se torna de suma importância uma abordagem mais dinâmica, de forma que seja lecionada com metodologias que venham descomplicar os conteúdos, assumindo estratégias de ensino mais claras e objetivas (Silva; Neto, 2015).

De acordo com Barbosa e Barbosa (2010), uma peculiaridade no ensino de microrganismos refere-se à necessidade de atividades que permitam a percepção de um universo totalmente novo, o dos organismos infinitamente pequenos. Essa vivência deve ser suficientemente significativa para promover mudança de hábitos e atitudes por parte daqueles que participam do processo de aprendizagem e assimilação de conteúdos relacionados ao assunto.

Nesse sentido, o uso de modelos e o desenvolvimento de atividades lúdicas podem auxiliar o professor a despertar o interesse dos alunos pela matéria, pois a visualização se torna mais fácil, de modo que os alunos possam interagir com o material, facilitando a compreensão dos conteúdos ministrados. Além disso, a aula torna-se mais prazerosa, motivando os alunos a participar e se envolver no processo (Hermann; Araújo, 2013).

A utilização de ferramentas para tornar o processo de aprendizagem dos conceitos mais efetiva e dinâmica é importante, pois a dinamização dos meios de ensino-aprendizagem pode contribuir para o melhor aprendizado dos estudantes tanto quando se proporciona o maior envolvimento dos alunos quanto na reestruturação da prática em fuga ao tradicionalismo, este muitas vezes exacerbado, que pode contribuir negativamente no aprendizado dos alunos (Melo; Carmo, 2009).

Desse modo, o ensino de microrganismos no contexto das aulas de Ciências e Biologia é muito desafiador, principalmente pela falta de recursos disponíveis, que acabam muitas vezes limitando o conhecimento dos assuntos ministrados em sala de aula. Portanto, é fundamental que o docente busque mecanismos que facilitem a aquisição do conhecimento e a interação com o aluno, apresentando novas alternativas como instrumento motivador para o aprendizado dos conceitos básicos em estudo.

A relação entre Arte e Ciência

Será possível aproximar dois campos aparentemente tão distintos quanto a ciência e a arte? Na realidade, as aproximações entre esses dois campos do conhecimento são bem maiores do que se imagina habitualmente. As concepções artísticas e científicas são coerentes, levando a interpretações semelhantes a respeito do funcionamento do universo. Artistas e cientistas percebem o mundo da mesma forma, apenas representam-no com linguagens diferentes (Reis et al., 2006).

Artes e Ciências demonstram que podem trabalhar juntas, ressignificando o processo de ensino-aprendizagem dentro de uma dimensão mais global, em que o aluno é levado a desenvolver diversas competências e habilidades necessárias para a educação do século XXI. Como afirma Silva (2014),

o diálogo entre a Ciência e a Arte pode ser um importante instrumento para ruptura das visões dogmáticas e cristalizadas de uma prática instrumentalista, insensível ao belo, à delicadeza, à policromia e à polifonia das vozes, que se permita experimentar as diversas singularidades.

Além do mais, a Arte envolve criatividade e comunicação por meio de suas diferentes linguagens e apresenta um viés com a Ecologia, que envolve organização sistêmica e possui qualidades relacionadas entre os diversos elementos que a compõem. No século XXI, intensifica-se o pensamento ambiental e a reciclagem alia-se à arte com o intuito de reaproveitamento de materiais pelas diferentes formas artísticas, surgindo então a produção crítica e criativa amparada nas relações de equilíbrio e respeito ao meio ambiente (Palhaci et al., 2012).

De acordo com Silva (2014), o encontro entre a arte e a ciência poderá trazer diferentes formas de vivenciar o conhecimento cientifico clássico, tirando dele sua produção de um saber inquestionável. Diante disso, a aproximação entre o saber cientifico e a arte produz certo tipo de deslocamento que nos direciona para algo maior, permite experimentar diferentes linguagens e técnicas, amplia as conexões com outros saberes, mergulha no mundo dos sentidos, produz estranhamento e paradoxos (Silva, 2014).

Assim sendo, visando aproximar esses dois campos do conhecimento (Biologia e Artes) em uma perspectiva integradora e mais sustentável, o objetivo do presente trabalho foi construir modelos de microrganismos (bactérias, protozoários, vírus, fungos e algas unicelulares) a partir de tecidos descartados, a fim de utilizá-los como recursos didáticos nas aulas de Biologia, para facilitar o aprendizado, bem como difundir a relação da Ciência e da Arte no espaço escolar.

Metodologia

A atividade foi desenvolvida com alunos da 2ª série do Ensino Médio do Ciep 449 –Governador Leonel de Moura Brizola – Brasil-França durante as aulas de Ateliê Científico (disciplina não descrita na grade curricular comum que tem o objetivo de reforçar o ensino da língua francesa via ensino de Biologia) e Artes. Vale ressaltar que a escola oferece ensino intercultural bilíngue, voltado para o ensino da língua francesa e da Biologia. Essa atividade foi desenvolvida em cinco etapas, descritas a seguir.

Contextualização

Inicialmente foi realizada uma abordagem teórica na aula de Ateliê Científico dos diferentes tipos de microrganismo presentes no ambiente e suas principais características morfológicas e fisiológicas. Nas aulas de Artes, foram abordados conceitos e métodos sobre os tipos de modelagem existentes. A partir dessa abordagem, os alunos optaram por trabalhar com uma modelagem caricata, mais lúdica, menos realista, porém respeitando as características dos microrganismos e explorando todos os detalhes possíveis.

Seleção dos microrganismos e levantamento do material

Os alunos fizeram o levantamento do material necessário para confecção dos modelos e selecionaram os gêneros e/ou espécies de microrganismos que seriam confeccionados, levando em consideração os micróbios mais frequentemente estudados e o nível de dificuldade para sua confecção. Como base para a modelagem foram utilizadas imagens ilustrativas retiradas do site Giant microbes que foram adaptadas de acordo com o interesse dos alunos. Também foram utilizadas imagens dos livros de Biologia e Microbiologia para os estudantes terem a noção da imagem realista.

Levantamento bibliográfico

Após a definição dos microrganismos que seriam confeccionados, os alunos fizeram pesquisa bibliográfica durante as aulas de Ateliê Científico a fim de obter as informações biológicas acerca dos micróbios em estudo. Essas informações foram pesquisadas nas línguas portuguesa e francesa.

Oficina

A oficina para confecção do material ocorreu durante as aulas de Artes e Ateliê Científico, de forma integrada. Nesta etapa, os alunos foram divididos em grupos. Foram necessárias seis aulas para a confecção de dez modelos de microrganismos. Além dos tecidos, foram utilizados outros materiais para compor os detalhes, como espuma para preenchimento, feltro, fitas, linhas e “olhos”, além de papelão para confecção dos moldes (Figuras 1 e 2).


Figura 1: Preparação dos moldes.

Figura 2: Confecção dos modelos.

Produção do catálogo

A ultima etapa foi a produção de um catálogo demonstrativo, desenvolvido durante uma aula integrada de Artes e Ateliê Científico. Os alunos produziram um fichário, utilizando papelão, e reproduziram com desenhos os microrganismos confeccionados durante a oficina. Os desenhos receberam fichas bilíngues, em português e francês, contendo as informações biológicas dos microrganismos (Figura 3).

A fim de avaliar a relevância do material produzido como ferramenta didática para o ensino da Biologia, o trabalho foi apresentado durante a X Feira de Ciência, Tecnologia e Inovação do Estado do Rio de Janeiro (X FECTI), realizada em 2016, com público-alvo de professores e alunos da Educação Básica das redes pública e privada (Figura 4).

 


Figura 3: Ficha representando o Herpesvírus sp.

Figura 4: Catálogo apresentado durante a X FECTI.

Resultados e discussão

Com essa interação entre Ciência e Arte, buscou-se confeccionar modelos de microrganismos utilizando como base diferentes tipos de tecidos, que seriam descartados, visando à produção de materiais para serem utilizados nas aulas de Biologia e áreas afins.

Foram confeccionados dez modelos dos seguintes microrganismos: Penicillium sp. (fungo), Euglena sp. (alga unicelular), Leishmania sp. (protozoário), Escherichia coli, Helicobacter pylori, Mycobacterium tuberculosis, Vibrio cholerae, Listeria sp.        (bactérias), Herpesvírus sp. e Ebolavírus sp. (vírus), que estão na Figura 5.

 

 

 


Figura 5: Modelos de microrganismos confeccionados durante a oficina.

Durante todo o processo de confecção dos modelos, os alunos foram assessorados pelas professoras de Artes e Ateliê Científico, que deram todo suporte. A proposta pedagógica dessa atividade, de caráter interdisciplinar, contribuiu bastante para desenvolver as habilidades artísticas, cognitivas, linguísticas e cientificas dos alunos, colaborando para despertar uma nova concepção ambiental, norteada pela arte.

Além de todo o enfoque teórico e prático sobre os assuntos pertinentes à Arte e ao ensino da Microbiologia, no âmbito da Biologia, essa interação também promoveu durante o processo de criação dos modelos a consciência ecológica, voltada para o reaproveitamento de materiais, o que pode favorecer não somente a escola, mas toda a sociedade.

É importante ressaltar que a arte e a ciência apresentam características singulares, tanto no que se refere à metodologia quanto à estética, porém ambas se incubem de trazer ao mundo percepções, olhares e reflexões que alteram a maneira de encarar o conhecimento e a maneira de se relacionar com o mundo (Silva, 2014). Essa percepção ficou explicita durante a apresentação do trabalho na X FECTI (Figura 6), em que a materialização dos microrganismos permitiu uma contextualização mais concreta da relação entre os microrganismos e o cotidiano, não somente por parte os alunos, mas também do publico em geral, revelando a importância da aproximação entre essas duas áreas do conhecimento que, apesar de distintas, se complementam. Essa observação corrobora as ideias de Girard-Dias e colaboradores (2013), que defendem que a materialização física para fins didáticos e interação tátil abre um novo caminho para a divulgação cientifica e aproxima o espectador da realidade.


Figura 6: Apresentação do trabalho na X FECTI.

A arte sempre teve um papel preponderante na busca de um contato harmônico com o conhecimento cientifico (Silva, 2014). Nessa perspectiva, o uso de estratégias didáticas que aproximam de forma integrada e articulada essas áreas do conhecimento contribui para desvendar novas habilidades artísticas e desenvolver competências cientificas e linguísticas. Segundo Silva e Gomes (2017), trazer um enfoque tanto teórico quanto prático a partir de um conteúdo preestabelecido é de suma importância, promovendo o acesso à informação de forma mais atraente e participativa, contribuindo não somente para aprimorar um novo idioma, mas ajudar o aluno a construir cultura científica.

A literatura traz diversos estudos sobre a importância da utilização de modelos didáticos em sala de aula. De acordo com Pereira et al. (2015), os modelos didáticos são ferramentas fundamentais para o processo de ensino-aprendizagem, pois se caracteriza como uma importante e viável alternativa para auxiliar em tal processo por favorecer a construção de um conhecimento significativo. Diversos autores demonstraram a relevância do uso de modelos no aprendizado de diferentes assuntos complexos da Biologia, como Genética (Justina; Ferla, 2006), Imunologia (Corpe; Mota, 2014), junções intracelulares (Ferreira et al., 2013) e divisão celular (Braga et al., 2009), refletindo a necessidade de sempre buscar estratégias que visam superar as dificuldades de aprendizado embutidas nos componentes curriculares das Ciências Biológicas.

Apesar de existirem modelos de microrganismos sendo comercializados em sites e lojas estrangeiras a preços elevados, não foram encontrados registros na literatura sobre a utilização desses modelos no campo educacional. A proposta de materialização dos microrganismos mostrou ser uma estratégia bem eficiente na contextualização dos conteúdos, rompendo com o modelo tradicional de ensino focado principalmente no livro didático. Assim sendo, foi possível minimizar o grau de abstração embutido no contexto microbiológico, tentando suprir com modelos representativos as lacunas oriundas da falta de recursos e materiais eficazes que permitam explorar um mundo que é invisível aos olhos humanos.

Dentro dessas perspectivas, a busca de um ensino integrador que articule os conteúdos de Biologia e Arte contribuiu para um ensino mais eficaz e inovador, facilitando o aprendizado. A criação e o uso de modelos artísticos de microrganismos para fins didáticos, materializando as imagens apresentadas nos livros e na internet, podem auxiliar professores e alunos no processo de ensino-aprendizagem, promovendo a contextualização do conteúdo de forma tátil e viável.

Conclusão

A atividade contribuiu significativamente para desenvolver as habilidades manuais e artísticas, despertando a criatividade e o interesse pela Arte no campo da modelagem; contribuiu também para aprimorar os conhecimentos sobre microrganismos, além de estreitar a relação interpessoal, pelo trabalho desenvolvido em grupo. Os alunos foram parte integrante e fundamental na construção dessas ferramentas, que serão utilizadas por eles e para eles, sendo possível estabelecer um diálogo que garantisse uma articulação eficiente entre as duas áreas do conhecimento, a fim de garantir a assimilação dos conteúdos de forma mais atrativa, lúdica e dinâmica, além de contribuir para a popularização da ciência.

Referências

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Publicado em 30 de maio de 2017