Avaliação escolar como prática mediadora

Rebecca Faria da Silva

Especialista em Psicopedagogia Clínica e Institucional (Faculdades Integradas Simonsen)

Avaliar é uma característica intrínseca do ser humano, uma prática diária em sua vida; assim, é uma atividade cotidiana, acontece a todo momento. Em âmbito educacional, a avaliação constitui-se como peça chave do ensino e da aprendizagem; é um processo complexo, cuja formulação de objetivos exige juízo de valor, garantindo o alcance dos resultados.

O termo avaliar tem sido associado a preparar provas, exames, atribuir notas, repetir ou passar de ano. O educando tende a ser considerado um ser passivo e receptivo, e o processo de avaliação se resume a julgar a memorização dos conteúdos e transmissão de informações prontas. Entretanto, a prática de avaliar não deve estar concentrada em apenas uma prova, mas sim numa variedade de observações feitas pelo professor durante toda a trajetória escolar dos alunos.

O ato de avaliar a aprendizagem está relacionado profundamente ao processo de ensino; portanto, deve ser conduzido como mais um momento em que o aluno está aprendendo. Segundo Vasco Moretto,

o aluno coloca suas energias em busca do sucesso, normalmente associado a uma boa nota. Se é essa a cultura estabelecida, por que não aproveitá-la e transformar a avaliação em mais um momento de construção de conhecimento? (Moretto, 2007, p. 10).

Observa-se que o primeiro passo para a transformação é dar à avaliação e a seu processo um novo sentido, transformando-a em um momento para o aluno refletir e demonstrar o que sabe, mostrar que adquiriu competências como estudante e não apenas se preocupar com a média das notas que precisa alcançar para evitar a reprovação.

Uma característica muito comum no ensino é o uso da memorização. Geralmente as instituições mais tradicionais apelam para essa metodologia sem contextualização ou significado, obrigando os alunos a decorar conteúdos por força da repetição. Dessa forma, são “adestrados” a reproduzir modelos e informações sem, no entanto, compreender seu sentido. Apesar de estarmos numa era de tecnologia avançada, em que é possível encontrar informações armazenadas e de livre acesso, há quem queira obrigar os alunos a copiar e ouvir passivamente a fala do professor e reproduzir o que decorou nas provas.

O foco se sintetiza na aquisição de conteúdos vinculados às apresentações já trazidas pelo aluno de seu contexto social e político. O ensino visa à acumulação e reprodução de informações por meio da habilidade de memorização e reprodução de informações e a aprendizagem limita-se à capacidade de repetir a informação transmitida. Porém os rumos da educação voltam-se para um novo foco: o desenvolvimento de competências em vários campos do saber que tenham real significado para a vida dos educandos. Ainda segundo Moretto, diante dessa nova perspectiva,

o professor precisa, em primeiro lugar, conhecer bem os conteúdos pertinentes à sua disciplina. Em seguida, precisa ter as habilidades necessárias para organizar o contexto da aprendizagem, escolhendo estratégias de ensino adequadas. Na escolha dessas estratégias ele deve levar em conta os valores culturais de seu grupo de alunos e dirigir-se a eles com uma linguagem clara, precisa e contextualizada (Moretto, 2007, p. 25).

Além de conhecer o conteúdo específico de sua disciplina, o professor competente no ensinar necessita identificar os assuntos relevantes tendo em vista o contexto dos alunos, estabelecer relações significativas entre sua disciplina e outras, escolhendo estratégias adequadas à sua prática. Nessa perspectiva, o saber social faz com que o aluno interaja no contexto escolar e deixe de ser apenas um receptor de informações para ser um elaborador de representações. Nesse contexto, o professor está presente como mediador, facilitador do processo de aprendizagem. “Fica claro então que o professor não é transmissor de conhecimento e sim aquele que prepara as melhores condições para que sua construção se efetue” (Moretto, 2007).

Nesse aspecto, a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (nº 9.394/96) redimensiona a visão sobre os procedimentos de avaliação de modo geral, com o enfoque de transformação frente ao desafio contínuo de educar. Em seu Art. 24, aborda a avaliação na Educação Básica:

V – a verificação do rendimento escolar observará os seguintes critérios:
a) avaliação contínua e cumulativa do desempenho do aluno, com prevalência dos aspectos qualitativos sobre os quantitativos e dos resultados ao longo do período sobre as eventuais provas finais.

Nota-se, portanto, que o ponto de partida é o enfoque qualitativo da avaliação, libertando o sujeito de condicionamentos determinados. Assim sendo, o docente deve valorizar todo o processo de aquisição de conhecimento dos discentes, não apenas acrescentando ao final do ano letivo em seus registros a nota final de somente uma única avaliação. Uma reflexão sobre isso pode até mesmo levá-lo, em alguns casos, a mudar de procedimentos e se adequar a novas formas de avaliação além da prova escrita.

Observa-se ainda que a LDB usa a expressão “verificação do rendimento escolar”. Verificar significa comprovar; rendimento pode ser entendido como eficiência relativa a determinada tarefa. Então, de acordo com a Lei, cabe às instituições educacionais comprovar a eficiência dos alunos nas atividades, ou seja, avaliar o êxito alcançado no processo de ensino-aprendizagem.

Para medir qualquer coisa, é preciso dispor de instrumentos precisos como régua e balança, porém para a avaliação não existe um instrumento preciso, porque se trata de avaliar não um objeto concreto e observável, mas sim um processo humano e gradativo. Portanto, é importante que a avaliação ocorra de forma contínua, que possa captar o desenvolvimento do educando, com o objetivo de diagnosticar a situação de aprendizagem em relação à programação curricular. Como prática de investigação, a avaliação deve, de forma dialógica, identificar os conhecimentos construídos e as dificuldades.

O erro, por sua vez, passa a ser considerado uma pista que indica que o aluno está relacionando os conhecimentos que já possui com os novos que estão sendo adquiridos ao longo do processo de aprendizagem. A avaliação, sob o enfoque psicopedagógico, se apropria da função prognóstica, avaliando o conhecimento prévio dos aprendentes, e adquire a função diagnóstica porque, por meio dela, pode verificar as reais causas que impedem a aprendizagem do aluno.

Funções e instrumentos da avaliação escolar

A avaliação da aprendizagem tem sido estudada desde o início do século XX; é caracterizada pela utilização de testes ou provas escritas para medir as habilidades e aptidões dos discentes, atravessando as seguintes fases:

  • Mensuração – nesta etapa, a preocupação é relacionada à elaboração de ferramentas ou instrumentos para verificar o rendimento escolar. O professor tem papel estritamente técnico. Exames e questionários eram indispensáveis ao progresso dos alunos.
  • Descritiva – a busca primordial desta fase era a melhor compreensão dos objetivos da avaliação e a definição de padrões e critérios classificatórios com relação aos objetivos esperados por parte dos educandos. É nesta fase que surge o termo “avaliação educacional”.
  • Negociação – nesta fase, o enfoque passa a ser a avaliação vista de um paradigma construtivista como processo educativo comprometido com a garantia da aprendizagem do aluno, por meio de relações partilhadas e cooperativas dele e do professor.

Hoje observa-se que, na maioria dos casos, a avaliação é vista como um momento terminal do processo educativo, relacionado a procedimentos conclusivos como a prática de provas finais em determinado período do ano letivo. Em seu conjunto, vem sendo considerada um ato de julgamento, transformando-se numa prática coletiva angustiante. Assim, é importante analisar suas funções no processo avaliativo: formativa, somativa e diagnóstica.

  • Formativa – tem como função informar o professor e o aluno sobre os resultados da aprendizagem no desenvolvimento das atividades escolares. É utilizada durante o decorrer do ano letivo. Busca constatar se os objetivos pretendidos estão sendo devidamente atingidos. Dessa forma, o discente passa a reconhecer seus erros e acertos, assim como o educador tem o papel de observá-los para possibilitar a localização de deficiências ou erros, assim como a correção e a recuperação deles.
  • Somativa – o foco desta avaliação é determinar o grau de domínio do aluno em uma determinada área de aprendizagem. Também chamada função creditativa, permite aprovar ou consentir ao estudante uma qualificação pela aprendizagem realizada. Portanto, esta função tem como propósito aperfeiçoar o processo de ensino com base em classificar os alunos ao final de um período de estudos de acordo com os níveis de aproveitamento individuais.
  • Diagnóstica – tem como objetivo identificar, analisar as causas de repetidas incapacidades na aprendizagem. Essa modalidade propicia informações acerca das capacidades do educando antes do início do trabalho com conteúdos. Sua busca fundamenta-se em pré-requisitos que devem ser alcançados em conhecimentos com relação a aprendizagens anteriores que servirão de base para as atuais e futuras, assim como a análise de dificuldades apresentadas a serem trabalhadas.

A avaliação da aprendizagem deve ser orientada por instrumentos variados; a coerência não pode ser esquecida, pois deve ser consistente com os objetivos e metodologias e atividades do currículo escolar, considerando os aspectos cognitivos, afetivos e sociais, assumindo características escritas ou orais.

A avaliação é o instrumento que promove a aprendizagem do educando e do educador. “O aluno ensina ao aprender e o professor aprende ao ensinar” (Freire, 2009). Avaliar é, acima de tudo, promover o conhecimento de mundo tanto do discente quanto do docente, é servir de ponte entre essas duas partes para que se realize a verdadeira aprendizagem.

Destaca-se, como objetivo geral, analisar o papel sócio-econômico-político-cultural da avaliação escolar com perspectivas coerentes com a realidade do educando, identificar dificuldades encontradas em seu desempenho, investigar os instrumentos de avaliação e suas consequências no contexto escolar e apontar possíveis alternativas para que esse momento ocorra de forma interativa entre professor e aluno.

Diversas modalidades de avaliação podem ser empregadas na escola, com instrumentos variados; o mais comum deles, em nossa cultura, é a prova escrita. É fundamental que o professor possa aproveitar a correção da prova como preciosa oportunidade para que os alunos identifiquem suas principais dificuldades e possam desenvolver melhores habilidades e compreender determinados conceitos. Outra boa alternativa seria permitir que os alunos reelaborem as questões da prova, de modo que possam recuperar as falhas anteriores.

As provas que seguem a linha tradicional se caracterizam pela exploração exagerada da memorização. Essa técnica tem o seu lugar no processo de aprendizagem, desde que seja acompanhada de compreensão significativa da matéria analisada como objeto de estudo. Porém questões que enfatizam o ato de decorar repetitivo e mecânico, como os questionários, apelam para a memorização pouco significativa, sem análise ou explicação.

Sob a perspectiva construtivista, a ênfase está na contextualização, ou seja, dar sentido à questão elaborada. Por exemplo, durante uma interpretação de texto, é preciso que o aluno busque apoio no enunciado para responder à questão. O melhor seria se esta tivesse algo a ver com seu cotidiano, para que o aluno possa fazer uma ligação entre o que aprende na escola e sua vida diária. Para tanto, se faz mister a inclusão de problemas reais sobre temas atuais que tenham relevância para a compreensão de mundo, contribuindo para a reflexão do estudante sobre o contexto histórico em que vive.

Dessa forma, o professor, numa avaliação, pode mesclar esses tipos de instrumentos por elaborar questões mais simples e objetivas, porém relacionadas à aquisição de conteúdos fundamentais para o aprendizado da disciplina, fazendo contextualização, obviamente de forma distinta das questões transitórias encontradas nas provas mais tradicionais, cuja resposta depende de uma simples descrição de informações, muitas vezes aprendidas de cor sem muito significado para o estudante em seu contexto diário.

Segundo Hoffmann (2008), as transformações de avaliação são multidimensionais, pois avaliar envolve valor e envolve pessoas. Quando se avalia uma pessoa, observa-se o que se sabe sobre ela, o que se conhece, ou seja, a relação que se tem com tal pessoa. Avaliar é muito mais que conhecer o aluno superficialmente, é reconhecê-lo como pessoa digna de respeito e interesse. O professor tem de estar preocupado com a aprendizagem do aluno, porque só assim poderá intervir ajudar e orientá-lo.

O aprender envolve o interesse, a curiosidade do aluno, sua autoria como pesquisador escritor e leitor. Envolve seu desenvolvimento pleno; assim, é preciso perceber a aprendizagem nessas múltiplas dimensões. Ainda segundo Hoffmann, a expressão “avaliação mediadora” tem como objetivo salientar a importância do papel do professor no sentido de observar o aluno para mediar, ou seja, refletir sobre as melhores estratégias que visem promover sua aprendizagem.

Medir é verificar extensão, quantidade, volumes e outros atributos de objetos e fenômenos, expressados em escalas ou graus numéricos. A medida, o uso de notas, reforça um mecanismo de competição e seleção na escola. Dessa forma, a postura do professor deve estar comprometida com a concepção do erro construtivo, considerar o conhecimento produzido pelo aluno em processo de superação. A criança aprimora sua forma de pensar o mundo à medida que se depara com novas situações, novos desafios e hipóteses. A posição que se estabelece entre professor e aluno deve ser à base do diálogo, conforme Freire (1986, p. 125) apresenta:

O diálogo é a confirmação conjunta do professor e dos alunos no ato comum de conhecer e reconhecer o objeto de estudo. Então, em vez de transferir o conhecimento estatisticamente, como se fosse posse fixa do professor, o diálogo requer uma aproximação dinâmica na direção do objeto.

Dessa forma, a ação mediadora é uma postura construtivista na educação em que a relação dialógica de troca de discussões possibilita entendimento progressivo entre professor e aluno. O conhecimento dos alunos é adquirido com a interação, com o meio em que vivem e as condições desse meio, vivências, objetos e situações que estabelecem relações de forma evolutiva. Compreender essa evolução é assumir compromisso diante das diferenças individuais dos alunos.

Quanto ao erro, na concepção mediadora da avaliação entende-se que a correção de tarefas conjuntas com os alunos é um elemento positivo a se trabalhar numa continuidade de ações envolvidas. O momento da correção passa a existir como momento de reflexão diante das hipóteses constituídas pelo aluno, não por serem certas ou erradas, problematizando o diálogo, trocando ideias.

Assim, para que uma instituição possa desenvolver esse trabalho, para que possa construir uma cultura mediadora tão necessária na atual prática docente, é preciso que se fundamentem princípios muito mais do que se transformem metodologias. É importante que exista uma avaliação a serviço da ação, uma investigação sobre a aprendizagem do aluno, promovendo sua melhoria.

A avaliação é muito mais que o conhecimento de um aluno; é o reconhecimento desse aluno. Portanto, cada aluno é importante em suas necessidades, em sua vivência, em seu conhecimento. Cabe ao professor e a todo o sistema escolar planejar essa ação avaliativa como projeto de futuro, encaminhando propostas pedagógicas para auxiliar os alunos em suas necessidades, procurando atender esse aluno de acordo com a perspectiva da avaliação mediadora.

Referências

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Sites pesquisados

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Publicado em 30 de maio de 2017