Linguagem visual e Educação: rediscutindo as representações fotográficas

Nayana M. Moraes

Especialista em Mídias na Educação (UFJF), professora de Língua Portuguesa

Identificação do problema

Rediscutindo novas práticas pedagógicas inseridas no contexto social vigente, a Língua Portuguesa e a Literatura, por meio das novas imbricações hipermodernas, denotam a utilização de novos elementos tecnológicos. Pressuposta a essas vertentes, a linguagem visual entra no cerne da discussão, tendo em vista que a tecnologia engendra o cotidiano da sociedade. A fotografia é presente nas variadas camadas sociais, permitindo que o olhar seja captado e memorizado a partir de infinitas possibilidades.

Nesse sentido, o ensino da língua e dos estudos literários ainda são incipientes com relação ao uso da fotografia como elemento artístico na busca pelo conhecimento. Walter Benjamin (1955), no texto A arte na era de sua reprodutibilidade técnica, afirma:

A obra de arte reproduzida é cada vez mais a reprodução de uma obra de arte criada para ser reproduzida. A chapa fotográfica, por exemplo, permite uma grande variedade de cópias; a questão da autenticidade das cópias não tem nenhum sentido. Mas, no momento em que o critério da autenticidade deixa de aplicar-se à produção artística, toda a função social da arte' se transforma (Benjamin, 1955, p. 3).

A educação literária tradicional é muito focada nas representações do discurso a partir do texto, esquecendo-se da Semiótica trazida pela fotografia. Há, nesta área, uma visão estereotipada sobre a arte fotográfica muitas vezes enveredada pelo preconceito, ainda que seja considerada uma das sete artes contemporâneas.

No campo da ciência da arte, a fotografia possui papel de destaque nas linhas de pesquisa. Entretanto, com relação ao ensino básico, os elementos fotográficos são pouco utilizados. Uma explicação para tal ainda se refere aos paradigmas do uso do celular em sala de aula como elemento participante do ensino-aprendizagem. Em certo sentido, é compreensível essa questão, pois o aluno constrange certos profissionais no ambiente escolar. O que não é a regra de todos, mas é evidente nesses casos.

Além desse fator, professores pouco conhecem as novas plataformas e aplicativos de produção fotográfica. Por conseguinte, essas ferramentas são vistas como parte integrante do cotidiano coletivo, tornando-se pouco citadas na educação. Ainda que a pedagogia contemporânea, alicerçada por Paulo Freire e Rubem Alves, tente fortalecer que o ambiente sociocultural esteja presente nas metodologias educacionais, a produção voltada a esse aspecto ainda é muito resistente entre os profissionais, haja vista que o aluno detém certo conhecimento dessas tecnologias, ao contrário do professor, que tenta aprimorar a questão.

Dessa forma, destaca-se o papel do estudante em sala de aula. Se antes o professor era considerado o detentor e a fonte de conhecimento, hoje, com os meandros do hipertexto, o professor é um tutor na produção dos signos educacionais. Com essa relevante mudança, a problemática está na pouca visibilidade dada à tecnologia e à fotografia como obtenção da práxis pedagógica. Nesse sentido, a fotografia, como objeto permanente na vida individual do ser humano, revigora a necessidade de sua presença nas metodologias de ensino.

Fundamentação teórica

No sentido de resolver os desafios preexistentes, a educação fundamenta-se em práticas humanistas a fim de fazer com que a escola seja um ambiente de convivência social, resgatando preceitos de cidadania e igualdade. Dessa forma, as temáticas reinantes da vida coletiva são inseridas nas didáticas contemporâneas. A fotografia, adotando os significantes e significados da concepção artística, sobrepuja o pensamento escolar, rompendo os dogmas tradicionais.

Partindo da Semiótica, a teoria fotográfica reverbera não só o objeto câmera, mas também as ciências artísticas, como TV e cinema. Há vários fatores que propulsionam o tema foto. Um desses fatores é a expansão da internet e a emancipação das redes sociais. Como destaca Wagner Souza e Silva,

Com a crescente popularização de redes sociais específicas para a circulação de imagens fotográficas (não só mais estáticas mas também em movimento), tal como o Instagram, o Flickr e, mais recentemente, o Snapchat, a produção dessas imagens está quase sempre mediada por gadgets conectados, dispositivos que têm a tela como componente fundamental, que inclusive suprime a ideia de câmera entendida como uma “caixa” (com raízes etimológicas na câmara obscura renascentista) (Silva, 2014, p. 69).

As ingerências dos novos profissionais da educação permeiam a necessidade de trazer à sala de aula essas influências contemporâneas. Se do ponto de vista humanista e sociocultural o aluno é o fator primordial na elaboração das metodologias em sala de aula, nota-se que as ferramentas virtuais devem ser de grande uso, tornando a aula prazerosa e gerando aprendizagem. A percepção imagética é primordial na interpretação não só de conteúdo, mas dos elementos visuais trazidos pelo dia a dia. A Semiótica e seus signos linguísticos denotam esse critério.

Aqui tocamos num ponto que nos permite retornar à questão de onde partimos. As linguagens estão no mundo e nós estamos na linguagem. A Semiótica é a ciência que tem por objeto de investigação todas as linguagens possíveis, ou seja, que tem por objetivo o exame dos modos de constituição de todo e qualquer fenômeno como fenômeno de produção de significação e de sentido  (Santaella, 1990, p. 2).

Analisando especificamente a área de Língua Portuguesa e Literatura, a Semiótica é um campo do conhecimento essencial para o professor, pois permite que este entenda que o ensino da língua vai além do tangenciamento da palavra, ou seja, a linguagem é variável. Lúcia Santaella (1990) destaca a diferenciação entre língua e linguagem. Nesse aspecto, infere a composição fotográfica como linguagem latente nos signos visuais.

O problema enfrentado pelos professores é o pouco debate estabelecido a partir de uma grade curricular ainda do século XX. Por conseguinte, as linguagens não verbais são apenas citadas como placas e símbolos burocráticos do dia a dia. Ainda no contexto da Semiótica, Santaella (1990) fortalece o discurso da fotografia na composição do conhecimento.

Por exemplo: todas as linguagens da imagem, produzidas através de máquinas (fotografia, cinema, televisão...), são signos híbridos: trata-se de hipoícones (imagens) e de índices. Não é necessário explicar por que são imagens, pois isso é evidente. São, contudo, também índices, porque essas máquinas são capazes de registrar o objeto do signo por conexão física. A respeito da fotografia, Peirce esclarece: "O fato de sabermos que a fotografia é o efeito de radiações partidas do objeto torna-a um índice e altamente informativo". Embora o processo de captação da imagem televisiva seja diferente da fotografia, o caráter inicial de conexão física, existencial e factual nele se mantém (Santaella, 1990, p. 15).

O ensino básico é o que detém menos discussões substanciais sobre o tema e a inclusão da fotografia como ferramenta de aprendizagem. Dessa forma, fazem-se relevantes novas propostas que incentivem o uso pedagógico dessa prática tão presente na vida dos discentes, demonstrando que a Semiótica é um conjunto formulador de significados na transformação intelectual do indivíduo.

Proposta de intervenção

Como alternativa propositiva que incentive novos educadores a utilizar as ferramentas fotográficas, destaca-se o Google Fotos, aplicativo presente em todos os celulares. O Google Fotos faz backup automático de todas as fotos compactadas do celular, permitindo grande capacidade de armazenamento. Uma intervenção muito relevante é a criação de álbuns e compartilhamento de fotos. Assim, o cenário digital permite grandes possibilidades ao professor.

Na área de Língua Portuguesa, o professor poderá fazer um festival de fotografias a cada bimestre, com temas específicos. Um desses temas é a mudança da língua a partir da cibercultura, refletindo em sala sobre sua definição e os novos caminhos da sociedade. Trazendo um olhar fotográfico, cada aluno irá registrar a foto que traduz a hermenêutica do tema proposto. Nesse sentido, transforma-se a linguagem verbal em não verbal. A interdisciplinaridade é fundamental na prática pedagógica. 

A partir dessa intervenção, o festival digital permitirá o uso da tecnologia no fomento à reflexão. A partir da publicação de todos os alunos, as fotos serão votadas pelo público em geral, podendo ser familiares, professores e até desconhecidos. As plataformas multimídia incentivam o aluno a olhar a escola como parte integrante de sua vida, e não somente como um ambiente de conteúdos e regimentos. Ao final de cada festival, a escola organizará um simpósio, um momento de debate e aprofundamento do tema, algo que ocorre mais frequentemente no ensino superior e pode ser utilizado nas turmas de 8º ano ao Ensino Médio.

Durante o simpósio, serão divulgados vídeos contendo os bastidores do projeto e as fotos postadas. A Stayfilm é uma ferramenta nova na publicação e edição de vídeos; é possível compactá-la com facilidade, por isso será utilizada a fim de que a produção seja vista de forma leve e divertida.

Analisando as questões fotográficas, a Semiótica está presente neste debate estabelecendo o dialogismo entre os diversos campos do conhecimento. Outra plataforma utilizada pelos discentes é o Instagram, aplicativo de fotos e uso das chamadas hasthags. Com uma linguagem cada vez mais ágil, o Instagram é comumente utilizado para divulgação da vida cotidiana ou para questões de marketing. Muitas empresas adotaram esse aplicativo para atingir o público atual. O Instagram, no meio educacional, permite um diálogo mais acentuado com os alunos, principalmente no debate acerca de fatores sociológicos, fomentando a interdisciplinaridade.

A interdisciplinaridade, como um movimento contemporâneo que emerge na perspectiva da dialogicidade e da integração das ciências e do conhecimento, vem buscando romper com o caráter de hiperespecialização e com a fragmentação dos saberes (Schweder, 2013, p. 3).

Com uma proposta semelhante ao Google Fotos, cada aluno deverá postar uma ou mais imagens em seu aplicativo acerca do autor literário homenageado no bimestre. Na disciplina de Literatura, voltada ao Ensino Médio, a intenção é propagar a ferramenta a fim de provocar reflexão. Após a divulgação, em sala de aula, permitir com que cada aluno transmita a ideia de sua foto e a influência da imagética na propagação dessa percepção. Posteriormente, a partir do gênero “Relato pessoal”, o estudante escreverá as aprendizagens sensoriais que a atividade proporcionou, bem como o viés do escritor na sensibilização de uma geração.

Referências  

BENJAMIN, Walter. A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica. 1955. Disponível em: http://www.mariosantiago.net/textos%20em%20pdf/a%20obra%20de%20arte%20na%20era%20da%20sua%20reprodutibilidade%20t%C3%A9cnica.pdf.

SANTAELLA, Lúcia. O que é Semiótica. São Paulo: Brasiliense, 1990. Disponível em: https://docs.google.com/viewer?a=v&pid=sites&srcid=ZGVmYXVsdGRvbWFpbnxzZW1pbmFyaW9sdWNpYXNhbnRhZWxsYXxneDo0OTlkODc5ZmNlZjY1ZTZh.

SCHWEDER, Sabine; DE MORAES, Ana Carolina. A construção e uso do blog como ferramenta pedagógica interdisciplinar: perspectivas e desafios. Atas do IX Encontro Nacional de Pesquisa em Educação em Ciências. Disponível em: http://www.nutes.ufrj.br/abrapec/ixenpec/atas/resumos/R0396-1.pdf.

SILVA, Wagner Souza. Imagem e subjetividade: narrativas fotográficas confessionais e a estética da afetividade. Disponível em: http://www.ciberlegenda.uff.br/index.php/revista/article/viewFile/763/382.

Publicado em 17 de outubro de 2017