A importância do educador físico no Núcleo Ampliado de Saúde da Família de São Gonçalo

Marcelo Bittencourt Jardim

Mestrando profissional em Ensino de Educação Básica (UERJ - PPGEB/CAp), especialista em Psicomotricidade Educação e Clínica (IBMR), bacharel e licenciado em Educação Física (Unipli), com aperfeiçoamento acadêmico em Educação Pública (Cecierj) e Saúde Coletiva: SUS (UFRJ)

A Educação Física é uma ciência ligada ao estudo e às atividades de aperfeiçoamento, condicionamento físico, qualidade de vida, atividades educacionais, manutenção e reabilitação da saúde do corpo e mente do ser humano, além de ser fundamental no desenvolvimento do sujeito como um todo (Jardim, 2016).


Figura 1: Atendimento terapêutico na Unidade de Saúde da Lagoinha, em São Gonçalo; a paciente é amputada do membro inferior, agora com prótese.

A Educação Física tem amplos objetivos, como prevenção e cura de enfermidades num contexto terapêutico, sendo fundamental na formação básica da criança, principalmente em locais de risco, devido à sua atuação no contexto biopsicossocial, no conhecimento corporal dos sujeitos, sejam crianças, adolescentes ou adultos, que é o conhecimento do próprio corpo, em suas possibilidades de ação e intervenção social (Jardim, 2016).


Figura 2: Atendimento terapêutico de deambulação

O trabalho com deambulação visa recuperar equilíbrio estático e dinâmico, ritmo e alongamentos dos membros superiores e inferiores para sua flexibilidade. É a capacidade de as articulações se moverem com grande amplitude de movimento articular e muscular dos sujeitos (Jardim, 2015).

O principal propósito do trabalho é conscientizar os pacientes e discentes nas atividades: por que faz a atividade, para que faz a atividade. Isso contribui para a qualidade de vida, da saúde e do pensamento crítico (reflexão) a respeito das atividades, descartando o fazer por fazer (Jardim, 2016).

A conscientização da importância do coletivo, o grupo, o ambiente e o relacionamento com os colegas é de grande valor para a vida social de crianças, adolescentes e pacientes que residem em locais de risco e vulnerabilidade social (Jardim, 2016), gerando autonomia para eles.

A Educação Física funciona também como terapia psicomotora nas comunidades. É preciso entender a realidade cultural e social do paciente, e não somente tratar como um objeto. É preciso escutar, é preciso falar. É preciso, estar disponível para o outro e, acima de tudo, estabelecer um tipo de diálogo para estimular o paciente a desenvolver as atividades de práticas corporais (Jardim, 2015), estimulando pelas atividades de Educação Física os aspectos básicos da Psicomotricidade.

Os elementos psicomotores são: lateralidade, percepção de tempo e espaço, percepção óculo pedal e manual, coordenação motora global e fina, ritmo e equilíbrio.

No aspecto afetivo-social, destacam-se a interação e a socialização (relação social). O principal foco do trabalho é o cognitivo-intelectual, psicológico, emocional, para estimular nos pacientes e nos discentes o pensamento crítico-autônomo para elaboração de estratégias durante as atividades físicas e educacionais (Jardim, 2016).

Um fator importantíssimo que é pouco divulgado nos trabalhos de Educação Física e saúde nas escolas, academias, em atendimentos personalizados e em grupos é a adaptação neural no treinamento funcional dos sujeitos, que faz toda a diferença em pacientes e discentes.

Segundo Alex Souto Maior (2003), quando o sujeito apresenta dificuldade de coordenação no começo do exercício é porque seu cérebro não está preparado para o movimento. Ou seja, o cérebro não reconhece o exercício proposto e o movimento não está bem coordenado motoramente. Quando o indivíduo tem êxito no movimento e no exercício, seu cérebro está adaptado ao movimento e consegue executar bem o movimento por causa da adaptação.


Figuras 3, 4 e 5: Atendimentos em Unidades de Saúde de São Gonçalo nos bairros Coelho e Lagoinha

Qualidade de vida na Educação Física é buscar o equilíbrio psíquico, físico e social durante seu cotidiano ao longo de sua vida pelas atividades físicas, em que são respeitadas as necessidades e limitações dos pacientes e das crianças, objetivando um crescimento pessoal (bem-estar físico, mental e social), sem lesões (Jardim, 2015).


Figuras 6 e 7: Atendimentos terapêuticos psicomotores a idosos no bairro Salgueiro: Marinha e a crianças no bairro Legião.

Deve ser priorizada a saúde – que é a condição equilibrada de bem-estar físico, emocional, espiritual, social, com ausência de doenças, incapacitações e de disfunções. “Qualidade de vida é a promoção da saúde, é a arte de ajudar as pessoas a mudar seus estilos de vida para atingirem uma saúde plena” (Nahas, 2010).

Atividades físicas de condicionamento aeróbico podem ser desenvolvidas por meio de programas de caminhadas e corridas; treinamento funcional; elaboração de circuitos com ou sem objetos das unidades de saúdes; ginástica laboral, atuando de forma preventiva e terapêutica – alongamentos e sua flexibilidade e relaxamento das tensões do cotidiano (Jardim, 2015).

Com isso, são dados estes benefícios aos pacientes e crianças envolvidos no trabalho de atividades físicas:

  • Prevenir a fadiga muscular (cansaço e a tensão);
  • Corrigir vícios posturais;
  • Promover a sociabilidade;
  • Melhora da condição física geral;
  • Promover o autoconhecimento orgânico (seu corpo);
  • Diminuir a procura ambulatorial;
  • Aumentar o ânimo e a disposição para o cotidiano;
  • Melhorar a qualidade de vida do paciente e das crianças;
  • Prevenir as doenças por traumas cumulativos (levantar carga excessiva e de forma errada).

No serviço público municipal em São Gonçalo, procuramos atender de forma digna aos pacientes e alunos que chegam para os atendimentos sem muita instrução. Frequentemente vêm até nós pessoas com as seguintes características:

  • Sujeitos com muita tensão devido aos locais de risco e vulnerabilidades sociais, ansiedades, problemas posturais, dores articulares nos membros superiores, inferiores e na coluna vertebral;
  • Sujeitos obesos, com deficiências congênitas ou adquiridas, com pressão arterial alta, que fazem usos de medicamentos controlados; fumantes que tiveram câncer, com depressão, transtorno de pânico e doenças psicossomáticas: fibromialgia; e,
  • Crianças e adolescentes com envolvimento no tráfico de drogas.

Esse trabalho surgiu para estimular os profissionais a não deixar de atender os pacientes e alunos por causa de ausências de material nas unidades de saúde de São Gonçalo e nos estabelecimentos de ensino para desenvolver atividades físicas adaptadas de treinamentos funcionais, valorizando cada paciente na sua individualidade, especificidade e como sujeito que chega para o serviço público esperando acolhimento, atenção, carinho; resumindo, afeto do profissional que é o servidor público da unidade de saúde da família em locais de risco e vulnerabilidade social.

As fotos a seguir mostram o desenvolvimento do circuito funcional.

Agachamento na cadeira (fortalecimentos para as musculaturas e articulações, para os músculos do quadríceps - vastos: mediais, laterais, intermediários e reto femoral, tibial anterior, gastrocnêmio, músculos isquiotibiais: bíceps femoral, semitendinoso – seguido por tendões e semimembranoso – seguido por membranas, glúteos: mínimo, médio e grande e, as articulações da perna e coxa; bíceps simultâneo com halteres) - movimentos: concêntricos (encurtamento) e excêntricos (alongamentos); corrida – aeróbio (cardiovascular); flexão de cotovelo; alongamento da musculatura do pescoço (esternocleidooccipitomastoideo); relaxamento com o paciente deitado em decúbito dorsal depois das atividades.




Figuras 8 a 10: Movimentos do circuito funcional

Conclusão

As atividades com exercícios físicos ajudam os pacientes e os discentes na interação social, psicológica e emocional, na autoestima e no condicionamento físico, estimulando a promoção da qualidade de vida dos cadastrados da rede municipal de educação e saúde de São Gonçalo. A disponibilidade corporal do educador físico faz toda a diferença nos atendimentos.

Por isso é importante o trabalho do educador físico com coerência na sociedade, na rede municipal de educação e na saúde do município de São Gonçalo, coordenada pelo Núcleo de Apoio à Saúde da Família (NASF) e pelo Programa da Saúde na Escola (PSE).

Quero agradecer aos pacientes pela assiduidade nos atendimentos e que fazem a cada dia de trabalho uma felicidade para mim, sempre mostrando a esperança, o carinho, a confiança que depositam no meu trabalho e o amor de estar em lugares carentes de materiais; o que potencializa nosso trabalho e a melhora dos usuários são as verdadeiras intenções, atitudes, nossa disponibilidade e meu acolhimento, pelos alunos de várias faixas etárias. Aprendo muito com todos e ensino com muita dedicação o que me foi trazido ao longo de minha formação e carreira.


Fotos 11 a 15: Atendimento terapêutico psicomotor a idosos e crianças na comunidade Salgueiro – Marinha, em São Gonçalo, na unidade de saúde.

Figura 16: Carteira funcional do autor

Referências

JARDIM, Marcelo Bittencourt. Amor que educa: o afeto como instrumento primordial na atuação do educador físico com crianças e jovens de comunidades carentes. Rio de Janeiro: Kimera, 2016.

JARDIM, Marcelo B. O personal trainer como terapeuta psicomotor. EFDeportes.com, Revista Digital, Buenos Aires, 2015a.

JARDIM, Marcelo B. Promoção da saúde e qualidade de vida através de exercícios aos colaboradores em plataformas marítimas de petróleo no Brasil. EFDeportes.com, Revista Digital, Buenos Aires, 2015b.

MAIOR, Alex Souto. A contribuição dos fatores neurais em fases iniciais do treinamento de força muscular: uma revisão bibliográfica. Motriz, v. 9, nº 3, p. 161-168, 2003.

NAHAS, Markus Vinicius; GARCIA, L. M. T. Um pouco de história, desenvolvimentos recentes e perspectivas para a pesquisa em atividade física e saúde no Brasil. Revista Brasileira de Educação Física e Esporte, v. 24, nº 1, p. 135-148, jan./mar. 2010.

Publicado em 12 de dezembro de 2017