Qual é o meu lugar? a busca feminina pela inserção profissional, educacional e reconhecimento social

Tamires Rezende de Souza

Graduada em Pedagogia (Faculdade de Belford Roxo)

Cíntia Borges de Almeida

Doutoranda em História da Educação, professora e orientadora da (Faculdade de Belford Roxo)

Introdução

O tema abordado surgiu a partir do interesse em entender o modo de vida das mulheres, conciliando jornadas múltiplas e diversas em suas trajetórias. Partimos do desejo de observar como essas mulheres, que distribuem seu tempo em funções e atuações como donas de casa, mães e profissionais em diferentes campos de trabalho e conseguem conciliar estudo e especialização acadêmica aos afazeres cotidianos, como casa, trabalho, filhos, maridos; retratando a multiplicidade das funções assumidas por elas e a força de vontade de cada uma dessas mulheres em enfrentar as necessidades e demandas sociais. Isso nos leva a questionar o que é, efetivamente, uma barreira, limitação ou empecilho sobreposto ao desejo, à necessidade de inserção e aceitação social no campo profissional, mas também a vontade de encontrar na educação uma oportunidade maior no trabalho e um caminho mais seguro para buscar melhores expectativas de vida.

A partir de vivências particulares, observamos a presença de mulheres das mais variadas idades, das mais diferentes classes econômicas e culturais que assumem diversos lugares na composição de suas famílias. No entanto, em sua maioria, essas mesmas mulheres precisam trabalhar, estudar e cuidar da casa, dos filhos, de pais adoentados, entre outras experiências notórias que compõem a multiplicidade das relações e das posições assumidas por elas. Ao notá-las, despertou-se o intuito de dar luz a essas mulheres, assim como à história que marcou a trajetória e a presença feminina no mercado de trabalho e na vida acadêmica.

As adversidades vivenciadas durante o labor diário, no saber conciliar a vida fora e dentro da universidade, possibilitaram a percepção da dificuldade dessas mulheres nessa dupla ou tripla jornada de vida, fosse ao mercado de trabalho, na formação educacional ou na condução e organização de suas casas e famílias.

Sabendo que elas são reclamadas nesses distintos ambientes sociais, profissionais e de formação, deve-se ainda frisar outra dificuldade, que se trata de um complexo entendimento de que a vida acadêmica exige um pouco mais do que elas foram demandadas quando terminaram sua formação secundária, tendo em vista, também, que algumas já o concluíram há longo e distante tempo, dificultando suas concepções educacionais, mergulhadas em mudanças, tecnologias, novas demandas e exigências, o que, de certo modo, causa problemas e dificuldades em adaptação. Porém, com o passar do tempo, é necessário que essa adaptação aconteça, já que as cobranças não serão diminuídas ou atenuadas por essas questões. Logo, essas mulheres precisam de uma nova ressignificação de vida e postura para driblar esses percalços e enfrentar a tripla jornada que configura suas vidas.

De acordo com o Censo Demográfico de 2000 (IBGE, 2000), a sociedade brasileira passou por profundas transformações demográficas, socioeconômicas e culturais nos últimos 20 anos, mudanças que repercutiram intensamente nas diferentes esferas da vida familiar. Nessa direção, a vida da mulher também tornou-se um campo de mudanças. Se nos anos 2000 essas transformações já eram perceptíveis, o que dizer dos dias atuais? Sim, há uma nova configuração de mulher.

Se, por muito tempo, a mulher ficou restrita a determinados segmentos sociais e profissionais, essa constatação não pode ser apontada e limitada com tanta solidez nos dias atuais. Visualmente, já é possível observar a mudança feminina. Historicamente, não será diferente. A mulher mudou. Com toda complexidade existente nessa afirmação, bem como com diferentes modos de exclusão e preconceito ainda enfrentados por ela, podemos e devemos destacar as mudanças na vida e na trajetória da mulher.

No entanto, vale rememorar que essa mudança foi uma conquista árdua e que ainda não se encontra em sua plenitude. A história permite observar distintos espaços e cenários que presenciaram a exclusão feminina do processo de escolarização, bem como do mercado de trabalho, no qual ela foi subjugada por muito tempo.

Até o início do período imperial, em 1822, não havia preocupação com a educação formal feminina na colônia. A família era “conduzida pelo homem, sendo portanto patriarcal, seguindo o modelo português” (Borges, 1980, p. 19). Essa configuração não pode ser pensada como algo engessado e que não tinha suas particularidades e exceções. Porém trata-se de um modelo geral para pensar a participação feminina nesse contexto.

Deve ser enfatizado que, nesse período, a maioria das mulheres vivia para a família, cuidando da casa, dos afazeres cotidianos; elas eram as responsáveis pela maioria das questões que circunscreviam o interior de suas casas. O século XIX é marcado pela predominância do homem nos trabalhos assalariados. Cabia a eles sair para trabalhar fora e trazer o capital para a família. No entanto, às mulheres competiam os afazeres domésticos, não somente restritos para o seio familiar, mas, ainda, aos diferentes trabalhos manuais, braçais e administrativos que envolviam o cotidiano de suas casas: cozinhar, lavar, passar, educar seus filhos e cuidar das despesas, entre outros.

As dificuldades encontradas pela mulher foram inúmeras. A elas eram negados direitos sociais, mas também direito de circular por determinados lugares, frequentar outros pertencimentos, fazer parte de uma rede de sociabilidade que, por muito tempo, fará parte principalmente dos costumes masculinos. Sob um discurso moral e religioso, a presença feminina esteve restrita num espaço público que, apesar de coletivo, não recebia ou via com bons olhos a participação da mulher.

Se a circulação feminina era uma questão problemática, o que dizer da educação e da escolarização? Uma significativa parcela da população feminina, quando recebia instrução, estava submetida à educação doméstica ou a uma instrução de primeiras letras (Vasconcelos, 2003). A educação das jovens de famílias tradicionais não formava opiniões ou pensamentos reflexivos. Em sua maior parte, essas jovens se limitavam à educação moral, religiosa, aos conhecimentos básicos de ler e contar, à música, poesia; conhecimentos que possibilitassem que elas se inserissem em grupo social condizente com o posicionamento econômico e cultural de suas famílias.

Mas e o trabalho? Pensar em trabalhar, muitas vezes, consistia em um desprestígio a suas famílias. Era ir contra uma sociedade moldada pelos pensamentos masculinos.
A partir do final do século XIX, o cenário começou a engatinhar para uma pequena mudança. Nota-se uma brecha e uma inserção feminina em dois campos profissionais distintos. O principal deles foi na área da educação. O perfil da mulher foi se modificando. Agora, elas também eram educadoras, professoras primárias. Inseriam-se no magistério e viam nele uma oportunidade de liberdade e independência (Louro, 1997). A elas já era permitido o trabalho, desde que fosse uma extensão de seu papel no lar. Nessa direção, as profissões de professora e enfermeira eram comumente bem vistas pela sociedade. Seu universo de leitura se expandiu e proporcionou uma mudança de vida (Louro, 1997). Nesse período surgem os principais movimentos feministas.

Existiam “muitas dificuldades a serem enfrentadas pelas mulheres” (Louro, 1997). Foi a partir de 1930 que a mulher começou a ter maior participação social e mais espaço no campo trabalhista e educacional. Mesmo com uma sociedade brasileira machista e patriarcal, “as mulheres conquistaram o direito à participação no Ensino Superior e na atividade política nacional” (Louro, 1997, p. 15).

Vemos, nesse momento, a mulher conquistando seu espaço, tendo um pouco mais de voz ativa; com o passar do tempo, não aceitando mais ser controlada pelos homens. Era necessário fazer valer seus direitos de cidadãs, fosse pelo direito do voto, pela inserção nas mais diferentes atribuições e cargos trabalhistas, fosse pelo direito de ampliar seus conhecimentos e se inserir em todos os níveis de escolarização já oferecidos e frequentados pelo público masculino. Os movimentos feministas tiveram grande influência nessas lutas e conquistas.

Segundo Castillo-Martín e Oliveira (2005), os movimentos feministas surgiram em 1948 em Nova York, durante a Convenção dos Direitos das Mulheres. Tratava-se de um desenvolvimento filosófico e político que visava em primeira instância a igualdade de gênero e a garantia dos direitos civis (Castillo-Martín; Oliveira, 2005). Foi principalmente a partir desse mesmo período que as mulheres conseguiram ampliar seus direitos à escolarização, votar e atuar em grandes áreas profissionais, fazendo com que se sentissem úteis e realizadas sem depender completamente dos homens que as cercavam.

Cargos políticos, que antes eram algo inimaginável, nesse novo cenário passam a ser mais uma conquista feminina, juntamente com o voto e com os empregos públicos. Entre as décadas de 1960 e 1970, aquelas mulheres que somente viviam para a casa davam voos maiores, conquistavam a liberdade de caminhar com suas próprias pernas. Como salientam Rodrigues e Marques (1982), “a dona de casa, mãe e esposa tinha agora outras ocupações”. Assim, as conquistas obtidas na luta pela emancipação feminina passaram a ser vistas como conquistas de civilização, que os homens deviam ampliar em próprio interesse, por ser uma condição do progresso humano” (Rodrigues; Marques, 1982, p. 5).

Junto às conquistas femininas surgia um novo desafio para essas mulheres: saber conciliar o cuidado e a atenção com sua casa e família e poder dedicar-se ao estudo e ao trabalho. Essa tripla jornada compunha o enredo e a narrativa da história da mulher na sociedade.

A presença da mulher no mercado de trabalho e na universidade

A discussão em torno dessa dupla participação feminina pode ser mais bem compreendida a partir das análises apontadas por alguns autores, que serão mencionados a seguir. Correa (2004) destaca a dupla jornada como um dos motivos de a mulher ainda não ter alcançado conquistas equivalentes às do homem no mercado de trabalho, já que ela continua responsável pelas atividades do lar, aspecto a que atribui a maioria dos casos de doenças profissionais.

Nessa direção, Adriane Vieira e Graziele Amaral (2013) ressaltam que “a inserção da mulher no mercado de trabalho, ao mesmo tempo que traz alguns avanços, contrasta com certos atrasos sociais” (Vieira; Amaral, 2013, p. 406). A título de exemplo, observa que, apesar de a mulher estar atingindo um nível de formação educacional superior ao do homem, há evidentes desníveis salariais entre homens e mulheres, além de uma divisão desigual da carga de trabalho familiar.

A participação feminina no mercado de trabalho representa para a mulher um grande desafio, em função de seu papel na esfera privada continuar sendo referência no âmbito efetivo emocional. A conciliação entre a esfera familiar e o espaço da produção é uma questão central para as mulheres. Nesse sentido, “a principal responsabilidade que elas se autoatribuem é o acompanhamento dos filhos e do funcionamento da casa” (Hirata, 2002, apud Vieira; Amaral, 2013, p. 409).

Pierre Bourdieu, ao analisar um dos seus conceitos principais, ajuda a pensar o tema. A análise do discurso das mulheres relativo à conciliação da vida pessoal e da profissional, ou seja, ao seu habitus, revela que elas muitas vezes não se dão conta dos aspectos simbólicos dessa dominação; ao contrario, elas se sentem intimamente gratificadas por estarem trabalhando e estudando (Bourdieu, 1999).

A tripla jornada da mulher é percebida como um novo desafio que a mulher coloca para si mesma. “Isso pode vir a ser um peso, mas pode se transformar numa escolha. A autora Adriane Vieira compara a mulher a um beija-flor. Ao de se tornar um beija-flor, que trabalha com velocidade, mas procura fazer isso com tudo com leveza, sem peso, sem obrigação” (Vieira; Amaral, 2013, p. 411).

Essa mesma autora ainda acrescenta que, para muitas mulheres, o ideário é o de ser beija-flor. Isso significa serem “ágeis, bem-sucedidas em todos os papéis, mas com leveza e sem perder a feminilidade”. No entanto, essa “conciliação” não se dá sem tensões e conflitos. “A vontade de estabelecer relações verdadeiramente iguais não é o suficiente para que mudanças aconteçam” (Vieira; Amaral, 2013, p. 413), pois o caminho para a verdadeira transformação das relações de dominação se dá fundamentalmente pela transformação radical das condições sociais de produção da tendência do dominado a adotar o ponto de vista dos dominantes (Bourdieu, 1999).

De acordo com Vieira e Amaral (2013), entende-se que a mulher, para ser um beija-flor, precise entender que conciliação de tudo que possa acontecer, como nervosismo, ansiedade, tristeza e até mesmo aquele cansaço de imaginar que tudo envolve o trabalho dela, a casa, o emprego o marido, os filhos, e o estudo, tudo isso faz parte do cotidiano daquela que, mesmo com todas as adversidades, procura um futuro melhor para ela e para a sua casa, escolhendo percorrer um caminho diferente das demais e tirar de vez esse rótulo de que mulher só serve para cuidar da casa.

A partir das observações sinalizadas pela autora, podemos entender que a aceitação da mulher na sociedade deve partir do seu próprio reconhecimento como agente social. Posterior a isso, que ela se coloque em posição atuante e de resistência. Para que mulheres e homens sejam vistos e aceitos como iguais perante a sociedade, é necessário ampliar a discussão em torno das questões de gênero, mas também compreender a legalidade que os coloca em uma mesma constituição como cidadãos partícipes, com deveres e direitos a serem garantidos pelas instâncias governamentais. Por fim, há a necessidade de uma ressignificação no conceito de humanidade, para que todos os sujeitos sejam vistos e respeitados como pessoas, independente do sexo, com os mesmos direitos, valores e aceitação social.

A difícil tarefa da valorização profissional e reconhecimento social

Atualmente, a proporção de mulheres brasileiras com títulos acadêmicos de nível superior é maior que a de homens. A parcela da população feminina adulta com diploma é de 12%, enquanto chega a 10% a masculina. No entanto, esse dado sofre uma inversão no mercado de trabalho. Quando se analisam as pessoas que atuam em funções de nível superior, 91% dos homens estão empregados, enquanto 81% das mulheres ocupam postos profissionais (Orsi, 2012).

Assim, há um descompasso brasileiro entre a proporção de mulheres formadas e de mulheres empregadas. Em média, “32% das mulheres adultas dos países membros têm nível superior, ante 29% dos homens (Orsi, 2012), mas “as taxas de emprego das mulheres são menores que as dos homens, sem exceção, em todos os países da OCDE (Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico).

Sobre as observações em torno da renda dos homens e mulheres dos países analisados pelo relatório, o Brasil ainda é, aquele onde o diploma universitário mais agrega renda: um brasileiro formado em Curso Superior pode esperar ganhar em média 2,5 vezes mais que um brasileiro que tenha apenas completado o Ensino Médio e quase três vezes mais que um cidadão sem Ensino Médio completo (Orsi, 2012). No entanto, essa relação não se mantém na mesma proporção para as brasileiras com a mesma formação.

De acordo com o Censo Demográfico (2000) do IBGE, a sociedade brasileira passou por profundas transformações demográficas, socioeconômicas e culturais nos últimos 20 anos, mudanças que repercutiram intensamente nas diferentes esferas da vida familiar. A tendência que mais se destaca quanto às formas de organização doméstica foi a redução do tamanho das famílias (Bruschini; Lombardi, 2003, p. 2).

O que tais dados sugerem? Vemos que está cada vez mais notória a mulher em busca de espaço nos campos de trabalho. Ela pensa em estabilidade financeira, em ter seu emprego, uma profissão. Hoje nota-se gradualmente a inserção feminina em campos antes não ocupados. Hoje, ainda que passe por provações e inúmeras restrições, a mulher tem mais abertura para lutar pelos seus direitos e reivindicar um espaço melhor na sociedade a partir dos seus estudos, a partir dos seus direitos. É nessa perspectiva que a mulher abdicou de ter filhos antes de ter sua vida estabilizada.

Seguindo a análise, as autoras Adriane Vieira e Graziele Amaral recuperam os atrasos sociais vivenciados pela mulher (Vieira; Amaral, 2013). Assim, corrobora-se a existência de uma sociedade que exclui a participação feminina e a enxerga submersa ao papel de esposa, mãe e dona do lar, consagrando este como “verdadeiro” rótulo da mulher.

É na cotidiana vida familiar que se processa a socialização da força de trabalho, apta em todos os níveis de seu existir (corpóreo, psicológico etc.) para exercer a plenitude de sua realização enquanto criadora de valor na produção capitalista (Magalhães, 1997, p. 29).

De acordo com os dados trazidos por Abramo em 2000, a década de 1990 apontava que “metade das mulheres trabalhadoras se concentrava em seis ocupações: empregadas domésticas, balconistas, vendedoras ou comerciantes por conta própria, costureiras, professoras do Ensino Fundamental e empregadas em funções administrativas” (Abramo, 2000, apud Magalhães; Silva, 2010, p. 186).

Comparado à década mencionada, o ano 2000 já sinalizava mudanças bastante significativas na ocupação de outros espaços. No ano 2000, segundo Bruschini (2000), as principais mudanças na participação das mulheres no mercado de trabalho vinham ocorrendo nas ocupações técnicas, científicas, artísticas e assemelhadas. Nessa direção, as autoras Magalhães e Silva (2010) também destacam inserções diferenciadas mais atualmente. Dentre tais ocupações, ressaltam as seguintes: arquitetura e odontologia (170% de aumento do percentual feminino), medicina (137%) e jornalismo (146%). Nas ocupações jurídicas houve o maior aumento no período pesquisado. “Tais mudanças demonstram que atividades de grande prestígio têm presença feminina. Nesse processo, vale citar cargos de gerência e chefia nas empresas, bem como proprietárias, com aumento da ordem de 218%” (Magalhães; Silva, 2010, p. 185).

Vale destacar que as mulheres estão a cada dia tomando seu lugar nas diferentes esferas sociais, sejam elas educacionais e profissionais, buscando respeito e participação nas agências culturais, sociais, econômicas e políticas. Porém ainda nota-se uma constante luta pela sua inclusão, aceitação e por sua igualdade na sociedade.

Pode-se perceber o quão difícil é a jornada da mulher. Percebemos, em alguns casos, a chamada à mulher para o mercado de trabalho porque a mão de obra é mais barata, considerada por muitos como menos reivindicativa, bem como vista e apontada como mais produtiva, despendendo menos recursos para seu empreendedor. É o exemplo da mulher comparada ao beija-flor. Em contrapartida, “as mulheres representam atualmente grande contingente no contexto das universidades brasileiras; sua inserção vem crescendo significativamente, tanto como discentes quanto como docentes” (Rago, 1998, p. 1). No entanto, para Perrot (2007, p. 16), “em muitas sociedades, a invisibilidade e o silêncio das mulheres fazem parte da ordem das coisas, mas elas vêm rompendo com esses padrões.

Mais uma vez nos indagamos: qual o lugar da mulher? Esse questionamento levou-nos a refletir acerca do espaço ocupado pela mulher em diferentes momentos da sociedade brasileira. Por muito tempo, não desconsiderando que até os dias atuais ainda haja restrições, a mulher esteve subjugada e a ela era atribuído um lugar secundário, de menor prestígio, visto e considerado pela sociedade como um pertencimento desqualificado. Essa distinção entre o lugar, o papel e a função feminina causa uma construção de estigmas quanto à capacidade física, moral e intelectual desse gênero. É uma discussão posta e amplamente discutida em nosso contexto social. São injustiças, desigualdades, violências, imposições, negações das mais variadas formas possíveis, que atribuem à mulher um lugar de coadjuvante em sua própria história.

Cotidianamente esbarramos em casos de discriminação moral, assédio e violência sexual, desigualdades e coações no ambiente de trabalho. Ainda que, ao longo desses anos, a mulher tenha conquistado espaço, não é possível silenciar sobre as opressões e injustiças que ela vivencia no seu dia a dia.

Até poucas décadas atrás, o direito ao voto, o direito de ingressar na carreira política, a oportunidade de se escolarizar em todos os níveis de formação eram discursos pouco vislumbrados pelas mulheres, não por desinteresse, mas por falta de oportunidade, porque a elas eram negados tais “benefícios”.

A nosso ver, o preconceito contra a mulher, dentro e fora da esfera escolar, é inadmissível e assustador. Em pleno século XXI, ainda precisamos lutar por respeito e reconhecimento, pois somente o fato da existência de uma constituição federal que legitimamente garante os mesmos direitos a homens e mulheres não impede que o desrespeito e a violência simbólica enfrentados por elas diariamente sejam uma constatação.

O que dizer de uma sociedade que tenta silenciar a voz de mulheres em cargos de poder, com palavras de baixo calão, com ofensas e agressões morais, desprestígio, com exposição de suas vidas íntimas, em constantes tentativas de desqualificá-las? O que estamos inferindo e questionando consiste no desrespeito travado durante todo o processo social.

A reflexão sugerida serve para pensarmos como a mulher, independente do cargo ocupado, continua e permanece sendo avaliada, primeiramente pelo seu gênero e, por último, por suas aptidões, por seus conhecimentos e por seu caráter.

Vivenciamos um machismo exacerbado em todos os lugares que frequentamos. Somos submetidas ao medo de andar sozinha, à insegurança de reivindicar nossos direitos, ao desespero de sermos assediadas moral e fisicamente, dentre tantos sentimentos que demonstram a submissão do lugar de mulher.

O que leva um homem a pensar que tem o direito de encostar seu corpo no nosso sem prévio consentimento? O que faz ele tratar uma mulher com inferioridade no trânsito, atribuindo a esse lugar um espaço masculino? O que permite um homem ou mesmo outra mulher creditar a esse sexo as obrigações domésticas e o cuidado do lar e dos filhos? Qual direito tem uma sociedade inteira de decidir sobre a roupa que podemos vestir, o lugar que podemos frequentar, a música que podemos ouvir e, a partir dessas escolhas, julgar-nos ou apontar-nos como mais ou menos respeitáveis?

No mercado de trabalho, não se pode negar que as mulheres têm conquistado seu espaço. No entanto, infelizmente, o preconceito nas empresas ainda existe. A ocupação de cargos de menores hierarquias é tomado principalmente por mulheres. Os mais baixos salários também são direcionados a elas.

E as atribuições domésticas, a responsabilidade com a formação e a criação dos filhos? Por que, na grande maioria das famílias, a mulher ocupa esse papel de zeladora enquanto ao homem se atribui o lugar de guardião da autoridade e da subsistência? Acreditamos que essa dicotomia também está fortemente traçada por construções sociais machistas. Os papéis devem ser os mesmos. Ambos devem cuidar de sua família, na formação moral, na organização da rotina doméstica e no sustento de seus membros.

São muitas as negações. São constantes os momentos de distinção social. Solapam, forjam, sabotam nossas conquistas e nosso reconhecimento na sociedade. Lutamos, resistimos e, ainda assim, querem calar a nossa voz. Porém, ao expor nossas fragilidades, ao anunciar nossa trajetória, ao apresentar a nossa história, intentamos mostrar que, muitas outras vezes, fomos apontadas como inferiores e fomos injustiçadas, perseguidas, maltratadas. Mas resistimos e continuamos enfrentando. Lutando pela oportunidade de votar, de trabalhar, de estudar. E permaneceremos resistindo e batalhando por mais direitos e pela chance de um dia não sermos mais vistas como menores ou menos valiosas. Continuaremos lutando por nossas vidas e pelo direito de sermos o que quisermos, porque lugar de mulher é onde nós quisermos. Não decidam por nós aquilo que temos a capacidade de escolher e decidir sozinhas. O que pedimos é apenas respeito.

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Publicado em 07 de fevereiro de 2017