Exemplos de recursos tecnológicos para o ensino de Matemática a alunos com necessidades educacionais especiais

Agnaldo Esquincalha

Professor da Faculdade de Formação de Professores, Departamento de Matemática (UERJ)

Para as pessoas sem deficiência a tecnologia torna as coisas mais fáceis. Para as pessoas com deficiência, a tecnologia torna as coisas possíveis. 
Radabaugh (1993)

Introdução

A formação docente, permanente, deve dar conta de instrumentalizar o professor com as chamadas tecnologias assistivas. Esse termo é utilizado para identificar todo o arsenal de recursos e serviços que contribuem para proporcionar ou ampliar habilidades funcionais de pessoas com alguma necessidade especial e consequentemente promover vida independente e inclusão (Bersch, 2013). A pesquisa nessa área, em particular no que tange à Matemática, ainda está engatinhando, mas é urgente, dada a necessidade de inclusão dessas pessoas por questões humanitárias, éticas e instituídas por legislação internacional. Recursos didáticos digitais que explorem a Matemática por diferentes sentidos, multimodais, começam a surgir e aparecem como uma tendência que merece a atenção de todos.

Como já mencionado, o termo “tecnologias assistivas” (TA) é relativamente novo. Bersch (2013) traz algumas tentativas de conceituá-lo nos documentos oficiais que tratam da acessibilidade de pessoas com necessidades especiais facilitada por tecnologias. Ficamos com a definição adotada oficialmente no Brasil a partir de 2008:

Tecnologia assistiva é uma área do conhecimento, de característica interdisciplinar, que engloba produtos, recursos, metodologias, estratégias, práticas e serviços que objetivam promover a funcionalidade, relacionada a atividade e participação, de pessoas com deficiência, incapacidades ou mobilidade reduzida, visando sua autonomia, independência, qualidade de vida e inclusão social (Brasil, SDHPR, 2008).

Portanto, a partir do conceito oficialmente instituído, as tecnologias assistivas não estão diretamente associadas, em sua origem, às tecnologias digitais. No entanto, a cada dia surgem mais recursos digitais desenvolvidos com o intuito de propiciar acessibilidade adequada ao público com necessidades educacionais especiais.

Ao longo deste texto apresentamos alguns recursos digitais desenvolvidos para facilitar a vida e o processo educacional de alunos com diferentes necessidades especiais. Não focaremos aqui nos conceitos de tecnologia assistiva como órtese e prótese, a saber recursos que apoiam uma função (como óculos, por exemplo) ou a substituem (como o braço mecânico), respectivamente. Nosso olhar será mais longitudinal e informativo do que aprofundado e reflexivo, dada a urgência de disseminação de informação na área nos tempos em que vivemos.

Exemplos de tecnologias assistivas para o ensino de Matemática

Geller e Sganzerla (2014) trazem reflexões de professores sobre tecnologias assistivas e o processo de ensino e aprendizagem de Matemática. O foco do trabalho das autoras está nas tecnologias assistivas voltadas para os deficientes visuais. Apresentam ampliadores de tela, leitores de tela, recursos táteis e equipamentos para leitura e escrita braille, além de softwares que permitem a construção de gráficos táteis, como o Monet, por exemplo. A maior parte dessas TA é gratuita e multiplataforma, muitas inclusive disponíveis para dispositivos móveis como tablets e celulares. As autoras entrevistaram professores de Matemática que fazem uso de algumas das TA apresentadas e todos indicam seu sucesso como facilitador da aprendizagem matemática por parte de seus alunos deficiente visuais.

Existem dois tipos de tecnologias assistivas que se destinam a auxiliar indivíduos com baixa visão e cegueira, respectivamente os ampliadores e os leitores de tela. Os ampliadores são aplicativos que ampliam toda ou parte da tela do computador ou dispositivo móvel; os leitores, são programas que leem a tela e, normalmente, podem ser controlados por atalhos no teclado. Apesar da grande utilidade desses recursos, os símbolos matemáticos e as imagens em geral ainda se constituem em problema, pois são lidos por pouquíssimos desses softwares e, ainda assim, como falhas que dificultam a compreensão do usuário cego. A Figura 1 apresenta os principais leitores de tela.


Figura 1: Principais leitores de tela.
Fonte: Adaptado de Geller e Sganzerla (2014, p. 121).

Apesar de o Dosvox ser um sistema operacional, também está incluído na ilustração acima, pois tem em suas funcionalidades um sintetizador de voz. Segundo seu site oficial, no Núcleo de Computação Eletrônica da Universidade Federal do Rio de Janeiro,

o Dosvox é um sistema para microcomputadores da linha PC que se comunica com o usuário através de síntese de voz, viabilizando, desse modo, o uso de computadores por deficientes visuais, que adquirem assim um alto grau de independência no estudo e no trabalho. O sistema realiza a comunicação com o deficiente visual através de síntese de voz em português, sendo que a síntese de textos pode ser configurada para outros idiomas. O que diferencia o Dosvox de outros sistemas voltados para uso por deficientes visuais é que no Dosvox a comunicação homem-máquina é muito mais simples e leva em conta as especificidades e limitações dessas pessoas. Ao invés de simplesmente ler o que está escrito na tela, o Dosvox estabelece um diálogo amigável, através de programas específicos e interfaces adaptativas. Isso o torna insuperável em qualidade e facilidade de uso para os usuários que vêm no computador um meio de comunicação e acesso que deve ser o mais confortável e amigável possível (UFRJ/IM/NCE, 2017).

A Figura 2 apresenta os principais aplicativos ampliadores de tela utilizados atualmente.


Figura 2: Principais ampliadores de tela.
Fonte: Adaptado de Geller e Sganzerla (2014, p. 121).

Ainda com foco no trabalho com deficientes visuais, Silva et al. (2013) apresentam o ambiente dinâmico Geometrix, concebido para ensinar Geometria a esse público por meio de uma placa com sensores de toque e controle por câmeras acoplada a um computador e controlada por um software desenvolvido para interpretar os movimentos dos dedos do usuário no reconhecimento de percursos e figuras geométricas na placa. Segundo os autores, os resultados do uso desse ambiente indicam aprendizado de Geometria por parte dos sujeitos pesquisados e também que o Geometrix pode ajudar deficientes visuais a aprimorar seus posicionamentos espaciais. Os autores destacam ainda que, de forma comparativa, sua utilização tem uma performance assaz superior ao ensino tradicional em sala de aula para deficientes visuais (Silva et al., 2013). A Figura 3 ilustra a arquitetura desse ambiente.


Figura 3: Arquitetura do Geometrix.
Fonte: Silva et al. (2013, p. 69).

Dantas, Pinto e Sena (2013) discorrem sobre o elemento educacional digital BEM – Blind, Education and Mathematics, desenvolvido para a formação matemática de crianças com deficiência visual como um jogo eletrônico de tabuleiro para motivá-las durante o processo de aprendizagem das operações básicas. Segundo os autores, o jogo pode ser controlado pelo teclado e seu objetivo principal é

excluir todos os números presentes nesse tabuleiro no menor tempo possível, já que existe um cronômetro que calcula o tempo de cada operação. Por se tratar de um AO voltado para videntes e pessoas com deficiência, além de possuir uma interface gráfica clara e amigável, todas as ações realizadas pelo jogador são sintetizadas por voz e retornadas para essas pessoas (p. 441).


Figura 4: Interface do BEM.
Fonte: Dantas, Pinto e Sena (2013, p. 441).

Ainda com foco em deficientes visuais, Sganzerla e Geller (2014) propuseram uma adaptação do material dourado para ensino de contagem, utilizando um sistema com motores de passo controlados por computador, o Contátil. Esse recurso tecnológico permite a leitura de número por meio de uma caixa em que podem “surgir” mecanicamente a barra que representa a dezena, se apresentada de forma completa, ou um número de unidades, se apresentada parcialmente, uma placa representando uma centena, se apresentada de forma completa, ou uma quantidade de dezenas, se apresentada parcialmente, e o cubo representando uma unidade de milhar ou unidades de centena, se apresentado parcialmente. A Figura 5 permite compreender melhor como isso acontece.


Figura 5. Contátil.
Fonte: Sganzerla e Geller (2014, p.7).

São raras as pesquisas em tecnologias assistivas para o ensino de Matemática com foco em público diferente dos deficientes visuais. De modo geral, o que existe para outras áreas também está aquém do esperado, por vezes contemplando a alfabetização e relações com o corpo humano.

Merecem destaque os aplicativos gratuitos para dispositivos móveis, como Hand Talk, ProDeaf e VLibras, que traduzem automaticamente texto e áudio para a Língua Brasileira de Sinais (Libras), mas que têm um repertório matemático deveras limitado, quase estritamente reduzido a “quadrado”, “círculo” e “triângulo”. Apesar da limitação no que toca à Matemática, a utilidade desses programas para facilitar a comunicação entre surdos e ouvintes em situações mais gerais é inegável, ainda que não substitua a necessidade de todos os profissionais da área educacional de aprender Libras.

Algumas pesquisas têm explorado o desenvolvimento de ambientes virtuais para o ensino de Matemática a alunos com diferentes tipos de necessidades educacionais especiais. Merece destaque o trabalho de Malaquias (2012), que desenvolveu um software denominado VirtualMat, que consiste em um jogo baseado em realidade virtual para o ensino de conceitos lógico-matemáticos para alunos com deficiência intelectual. Infelizmente, trabalhos desse tipo ainda são pouco frequentes.

Considerações finais

Como se pôde perceber, a maior parte das pesquisas nacionais no campo da Educação Matemática Inclusiva que exploram o uso de tecnologias assistivas ainda foca o trabalho em pessoas com deficiência visual, mas cabe ressaltar que esses recursos também podem ser utilizados por videntes e por pessoas com outras necessidades.

Por outro lado, merecem destaque as tecnologias assistivas desenvolvidas no âmbito do grupo de pesquisa Rumo à Matemática Inclusiva, pois se preocupam com o caráter multissensorial dos recursos construídos, de modo a estimular os sentidos visual, auditivo e tátil em muitas dessas tecnologias, como na MusiCALColorida, por exemplo, uma calculadora utilizada para trabalhar os conceitos de números racionais e irracionais, de modo que cada algarismo corresponda a uma cor e a uma nota musical, permitindo que as casas decimais possam ser reconhecidas pela recorrência visual ou sonora, no caso dos racionais, ou por sua ausência, no caso dos irracionais.

Cabe ainda ressaltar que existem aplicativos matemáticos disponíveis para dispositivos móveis que, mesmo não tendo sido desenvolvidos para pessoas com necessidades educacionais especiais, podem ter seu uso adaptado para o trabalho com surdos, deficientes visuais, deficientes intelectuais, autistas e pessoas com dificuldades motoras.

As pesquisas na área das tecnologias assistivas que utilizam recursos digitais para ensino e aprendizagem de Matemática ainda são escassas, mas seu desenvolvimento e a adaptação do que já existe é uma demanda urgente e oficialmente instituída e que precisa fazer parte das discussões e preocupações dos educadores matemáticos e profissionais da área de desenvolvimento tecnológico.

Referências

BERSCH, R. Introdução à Tecnologia Assistiva. 2013. Disponível em: http://www.haasfretes.com.br/arquivos/introducao-tecnologia-assistiva.pdf. Acesso em 20 set. 2016.

BRASIL. Secretaria Nacional de Promoção dos Direitos da Pessoa com Deficiência – SNPD. Tecnologia assistiva. 2008. Disponível em: http://www.pessoacomdeficiencia.gov.br/app/publicacoes/tecnologia-assistiva. Acesso em 06 dez. 2012.

DANTAS, A. L. P.; PINTO, G. R. P.R.; SENA, C. P. P. Apresentando o BEM: um objeto de aprendizagem para o processo educacional de crianças com deficiência visual e videntes nas operações básicas de Matemática. 2013. Disponível em: http://www.br-ie.org/pub/index.php/sbie/article/view/2522. Acesso em 20 set. 2016.

GELLER, M.; SGANZERLA, M. A. R. Reflexões de professores sobre tecnologias assistivas e o processo de ensino e aprendizagem de Matemática. Acta Scientiae, v. 16, nº 4, 2014.

MALAQUIAS, F. F. O. Realidade virtual como tecnologia assistiva para alunos com deficiência intelectual. Tese (Doutorado em Engenharia Elétrica). 2012. 112p. Universidade Federal de Uberlândia. Uberlândia, 2012.

RADABAUGH, M. P. NIDRR's Long Range Plan - Technology for Access and Function Research. 1993. Disponível em: http://www.ncddr.org/rpp/techaf/lrp_ov.html. Acesso em 20 set. 2016.

SGANZERLA, M. A. R., GELLER, M. Contátil: (re)adaptação do material dourado para deficientes visuais. Cinted – Novas Tecnologias na Educação, v. 12, nº 2, 2014.

SILVA, L. F.; BORGES, J. A.; LIMA, C.; SOARES, A. B. Ensinando Geometria a deficientes visuais: o ambiente dinâmico Geometrix. Revista Brasileira de Informática na Educação, v. 21, nº 2, 2013.

UFRJ. Instituto de Matemática. Núcleo de Computação Eletrônica. Dosvox. Disponível em: http://intervox.nce.ufrj.br/dosvox/intro.htm. Acesso em: 20 mar. 2017.

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Publicado em 02 de maio de 2017