“Uno da Química”: conhecendo os elementos químicos por meio de um jogo de cartas

Thaís Petizero Dionízio

Doutoranda em Química (IQ/UFRJ)

Introdução

A Química, como ciência natural, está presente em diversos processos do cotidiano a que o aluno é exposto diariamente e nem percebe. Isso ocorre na maioria das vezes pelo fato de os estudantes não terem um aprendizado contextualizado e significativo durante as aulas. O ensino tradicional, pautado em quadro e giz, decoração de fórmulas, regras e conteúdo acaba sendo maçante durante a aprendizagem e, em consequência, desmotiva os alunos, ao invés de aguçar sua curiosidade e despertar seu interesse pela disciplina, em que muitos deles só buscam a aprovação e não estabelecem um contexto do conteúdo ministrado em sala de aula com o seu dia a dia (Castro et al., 2015).

Atualmente têm surgido inúmeras metodologias didáticas na tentativa de facilitar o ensino-aprendizagem de Química no nível médio. Abordagens lúdicas, experimentais, midiáticas, dentre outras, têm sido aplicadas em sala de aula e auxiliado os professores na prática pedagógica (Castro et al., 2015; Oliveira et al., 2015; Oliveira; Soares, 2005; Santos; Michel, 2009; Dionízio; Dionízio, 2013; Dionízio et al., 2012). Esses recursos chamam a atenção do aluno e estimulam seu interesse pela Química.

De acordo com Soares (2008), um jogo é tido como educativo quando possui o intuito de atingir conteúdos específicos utilizados no meio escolar. Segundo Kishimoto (1996), o jogo possui funções lúdicas e educativas, que devem estar em equilíbrio. Se a função lúdica for prevalecente, então não passará de um entretenimento; se a função educativa predominar, será apenas um material didático. Portanto, deve haver cuidado na confecção de um jogo para que nenhuma função venha extrapolar.

Os Parâmetros Curriculares Nacionais para o Ensino Médio (1999) auxiliam os professores em sua prática docente diária e servem de suporte ao planejamento de suas aulas. O aluno é parte ativa no seu processo de aquisição de conhecimento, enquanto o professor é o mediador do processo. Como o jogo estimula e cria um ambiente de aprendizado ao aluno, dá oportunidade ao professor de ampliar os seus conhecimentos, a relação aluno-professor se estreita e o conhecimento é propagado e motivado via atividade, pode ser considerado uma metodologia suplementar na prática docente.

Isto posto, foi criado um jogo denominado “Uno da Química” (Figura 1) com a finalidade de familiarizar os alunos de 1º ano do Ensino Médio com os elementos químicos e algumas de suas características. O jogo aborda o conteúdo de tabela periódica de maneira lúdica e criativa, estimulando o interesse e melhorando a afeição dos alunos pela disciplina. Como a maioria dos alunos conhece o Uno (jogo de cartas desenvolvido por Merle Robbins), o entendimento e a aplicação dessa proposta metodológica ficam facilitados.


Figura 1: Cartas do jogo.

Metodologia e regras

O Uno da Química é um jogo de baralho composto por 138 cartas; 118 são simbolizadas por elementos químicos (Figura 2) e 20 são especiais (Figura 3).


Figura 2: Exemplos de cartas simbolizadas por elementos químicos

Figura 3: Exemplos de cartas especiais

O baralho é dividido nas cores azul, vermelha, verde e amarela, representando os subníveis s, p, d e f, respectivamente. A carta de elemento químico traz características como nome, símbolo, período, família e o subnível (Figura 4).


Figura 4: Carta de elemento químico com o significado

Devem participar no mínimo 2 jogadores e no máximo 10.

O objetivo é ser o primeiro jogador a ficar sem cartas na mão.

Cada jogador recebe sete cartas. O restante do baralho é deixado na mesa com a face virada para baixo; então vira-se uma carta do monte. Essa carta, que deve ser de elemento químico, fica em cima da mesa servindo como base para que o jogo comece. O jogador à esquerda do que distribuiu as cartas inicia o jogo, que deve seguir em sentido horário. Os jogadores devem jogar, na sua vez, uma carta de mesmo subnível (cor), período ou família do elemento representado na carta que está na mesa. Exemplo: se a carta inicial for Na (sódio), o primeiro jogador deve jogar sobre ela a de outro elemento que também pertença ao subnível s (carta azul), da mesma família (família 1) ou de mesmo período (3º). Estas informações constam da carta. O jogador seguinte faz o mesmo, dessa vez valendo como base a carta colocada pelo jogador anterior.

Importante: Ao jogar sua penúltima carta, o jogador deve anunciar em voz alta, falando “Química". Se não fizer isso, os demais jogadores podem obrigá-lo a comprar mais duas cartas. A rodada termina quando um dos jogadores zera as cartas na sua mão.

Cartas especiais produzem diferentes efeitos durante o jogo:

  • +2: o jogador seguinte apanha duas cartas e passa o seu turno ao próximo jogador;
  • Bloqueio: o jogador seguinte perde a vez;
  • Inversão: o sentido de jogo inverte-se. Se o jogo está no sentido horário, quando jogada uma carta "Inverter", joga-se em sentido anti-horário;
  • Curinga (carta com as 4 cores): pode ser jogada durante qualquer momento do jogo, independentemente da carta que se encontra no topo de descarte. O participante que jogar essa carta escolhe a próxima cor do jogo (verde, azul, vermelho ou amarelo);
  • Curinga +4: o jogador seguinte apanha quatro cartas do baralho e perde sua vez de jogar; o jogador que a descartou escolhe a próxima cor do jogo (verde, azul, vermelho ou amarelo). Essa carta só deverá ser jogada quando o jogador não possuir nenhuma outra carta que possa usar. No entanto, se o jogador prejudicado desconfiar que o primeiro jogador está “blefando”, pode pedir para conferir a mão dele; se estiver certo, o jogador que jogou terá que apanhar as 4 cartas como punição. Caso a jogada tenha sido legal, o jogador que desconfiou deve apanhar seis cartas.

Referências

DIONÍZIO, T. P.; DIONIZIO, J. C. P. Investigações no ensino de Química e Física: uma abordagem cotidiana. Anais 53º Congresso Brasileiro de Química, 2013.

DIONÍZIO, T. P.; NASCIMENTO, R. S.; CASTRO, D. L.; MONTEIRO, C. V. O.; PINTO, K. G. A.; JESUS, V. L. B.; SOUTO, Kelling Cabral. Soluções eletrolíticas como tema de uma atividade do Pibid em uma escola da Baixada Fluminense. Anais do 52o Congresso Brasileiro de Química, 2012.

CASTRO, D.L.; DIONIZIO, T.P.; SILVA, I. G. Na trilha dos elementos químicos: o ensino de Química através de uma atividade lúdica. Revista Brasileira de Ensino de Química, v. 10, n. 1, p. 46-58, 2015.

OLIVEIRA, A. S.; SOARES, M. H. F. B. Júri químico: uma atividade lúdica para discutir conceitos químicos. Química Nova na Escola, n. 21, p. 18-24, 2005.

OLIVEIRA, J. S.; SOARES, M. H. F. B.; VAZ, W. F. Banco Químico: um jogo de tabuleiro, cartas, dados, compras e vendas para o ensino do conceito de soluções. Química Nova na Escola, v. 37, n. 4, p. 285-293, 2015.

SANTOS, A. P. B.; MICHEL, R.C. Vamos jogar uma SueQuímica? Química Nova na Escola, v. 31, n. 3, p. 179-183, 2009.

SOARES, M. H. F. B. Jogos para o ensino de Química: teoria, métodos e aplicações. Guarapari: Ex-Libris, 2008.

Publicado em 17 de julho de 2018