A evolução da família: concepções de infância e adolescência

Manoel Messias Gomes

Mestre em Ciências da Educação (Instituto Superior de Educação de Brasília – ISEL)

Para a Sociologia, a família é um grupamento de pessoas cujos membros possuem entre si laços de parentesco, podendo ou não habitar a mesma casa. Por exemplo, um pai separado continuará fazendo parte da família de seu filho (mas não de sua ex-mulher), embora esteja morando em outra casa. Quando a família é composta por pai, mãe e filhos, ela é chamada de “família nuclear”. Quando outros parentes, como avós ou tios, convivem com o casal e seus filhos, essa família é chamada de “família extensa”. Os casamentos ou uniões conjugais podem ser classificados de duas formas:

  • monogâmicas – união de um homem ou de uma mulher com um único cônjuge;
  • poligâmicas – união de um homem ou de uma mulher com mais de um cônjuge.

No mundo ocidental, a poligamia é considerada ilegal, embora os meios de comunicação e a literatura sempre tenham relatado casos de pessoas que vivem conjugalmente com mais de um cônjuge.

Na perspectiva da sociologia funcionalista, a família nuclear é considerada uma unidade fundamental para a organização da sociedade, pois detém as funções de transmitir às suas crianças as regras básicas da sociedade, bem como de proporcionar estabilidade emocional aos seus membros. Porém para esses sociólogos a grande importância da família nuclear refere-se à difusão de tarefas, que permite que um dos adultos saia para trabalhar enquanto o outro cuida da casa e dos filhos. No entanto, sabemos que hoje essa interpretação é considerada conservadora, pois pressupõe que a divisão das tarefas domésticas é um dado natural. Da mesma forma, as funções ligadas à educação dos filhos, antes atribuída somente à família, são cada vez mais divididas com outras instituições como o Estado, a escola e as creches, além da influência dos meios de comunicação.

Entretanto, é preciso que se esclareça que não há uma escala evolutiva das sociedades humanas que caminham das famílias poligâmicas para as monogâmicas. Essas duas formas básicas de casamento sempre coexistiram em toda a história da sociedade humana, o que indica que não há relação de superioridade ou de inferioridade entre elas. Em alguns grupos sociais verificou-se mesmo a existência de ambas no mesmo tempo histórico. É correto afirmar que a família é uma instituição que surge das necessidades naturais do ser humano (como a procriação, por exemplo) ou uma construção cultural, embasada em regras e valores. Porém, a Antropologia tem informado que, mesmo nos mais remotos grupos humanos, existem regras que proíbem ou autorizam alguns tipos de união, como não casar com irmãos ou tios; essa prática é chamada “incesto”. Uma relação incestuosa seria uma relação proibida, ou negada, em dada sociedade.

Nos dias de hoje, estamos acostumados com o fato de cada filho ter apenas um pai. No entanto, em algumas sociedades é comum que cada filho tenha vários pais e várias mães. Nos casos das sociedades em que a poligamia é permitida, os filhos são considerados comuns e responsabilidade de todos.

O sentido de ser da família

Em sua origem latina, a palavra família provém do vocábulo famulus, que significa escravo doméstico; família é o conjunto dos escravos pertencentes a um mesmo homem. O direito romano conferia ao pai o direito de vida e morte sobre todos que viviam sob suas ordens – esposa, filhos, escravos etc. Esse tipo de instituição familiar era chamado “família patriarcal”.

Podemos encontrar exemplos de família patriarcais muito próximos de nossa história, no período colonial de nosso país. O protótipo da família patriarcal brasileira era a família latifundiária, embora esse modelo também pudesse ser encontrado nos meios urbanos entre as classes não proprietárias de terras, como os profissionais liberais, comerciantes, militares etc. No momento de organizar suas famílias, não havia dúvida de que cabia ao pai o papel principal e determinante de todas as outras relações entre mães, filhos e empregados. Nesse tipo de família, o pai era o grande proprietário: das terras, dos bens e das pessoas que habitavam seus domínios, não importando se estariam ligadas por laços sanguíneos ou não. O pai concentrava todas as decisões referentes aos destinos dos bens ou das pessoas, como chefe de um clã. As mulheres (esposa e filhas) eram figuras quase invisíveis. Saíam pouquíssimas vezes (geralmente nas festas religiosas), não apareciam para os visitantes, eram proibidas de estudar, envelheciam cedo, pois se casavam ainda meninas (em torno dos 13 ou 14 anos), tinham vários filhos. Os maridos para as filhas eram escolhidos pelo pai; o principal critério era o volume de posses do pretendente. Muitas vezes, as meninas eram obrigadas a casar com homens mais velhos, mas já estabelecidos economicamente.

Os filhos homens tinham outras funções: ao mais velho cabia herdar e administrar os bens paternos; ao segundo, cabia seguir a carreira eclesiástica. Constituía motivo de orgulho e quase uma obrigação de toda família “de bem” formar um padre. O terceiro filho deveria prosseguir os estudos na capital ou na Europa, tornando-se “doutor”, provavelmente bacharel em direito ou médico.

Esse modelo de família nuclear e patriarcal tornou-se, ao longo da nossa história, sinônimo de honra e respeitabilidade, modelo a ser seguido não só pelas elites, mas também pelas classes médias. Esse tipo de organização familiar exerceu profunda influência na formação social e cultural da população brasileira. O poderio do homem resultou em atitudes como o machismo, a subserviência da mulher, a educação diferenciada de meninos e meninas, o preconceito e o desrespeito contra os empregados domésticos, mesmo quando eles não são mais escravos.

Novas formas de arranjo familiar

Outro tipo de arranjo que tem crescido nos últimos tempos é o de famílias monoparentais – quando um dos cônjuges vive com os filhos, com a presença ou não de outros parentes na mesma casa. Nesse tipo de família há um predomínio de mulheres chefes de família. Segundo o IBGE, esse tipo de família em 1995 representava 89,6%; eram 10,4% os homens na mesma situação. Essas mulheres são predominantemente separadas ou divorciadas, o que não ocorria na década de 1970, quando eram principalmente viúvas. São muitos os fatores que têm contribuído para essa situação: aumento do número de separações e divórcios; o número de mulheres é superior ao de homens, o que justifica as relações poligâmicas; a mortalidade masculina é superior e mais precoce do que das mulheres; o aumento do número de mães solteiras etc. Os fatores econômicos e financeiros têm contribuído decisivamente para o abandono do lar, principalmente pelos homens; os conflitos constantes com a esposa devidos às dificuldades de manter a família, algumas vezes chegando à violência doméstica. São essas algumas das justificativas para o alto número de mulheres chefes de família entre as camadas populares, situação que tem chegado também às camadas médias da sociedade.

Os grupos organizados de homossexuais têm obtido importantes conquistas referentes à adoção de filhos e à permissão da utilização de técnicas de inseminação artificial. Essas conquistas, nos dias de hoje, são o anúncio do aumento da tolerância por parte da sociedade e do Estado, assim como da consolidação de valores como respeito às diferenças. Outra mudança de paradigma social é a opção que muitas pessoas fazem por viver sozinhas. Viver sozinho já não tem mais o caráter negativo de tempos atrás, em que o indivíduo que vivia sozinho era tido como antissocial, infeliz ou solitário, diferentemente de hoje, em que muitos optam por viver sozinhos para garantir sua privacidade e poder escolher o momento mais apropriado para estabelecer contato com amigos e familiares.

A condição de ser criança

Por muitos séculos, na cultura ocidental as crianças e os adolescentes eram tratados como adultos. Até o século XVII, não existia uma concepção de especificidade da infância (Ariès, 2006). Essa concepção foi sendo construída no decorrer dos séculos, considerando os aspectos sociais de cada época (mortalidade infantil, trabalho escravo de crianças, entre outros), compreendendo, portanto, as peculiaridades do ser infantil. A criança deixa de ser um miniadulto e a infância adquire novos significados.

A Idade Média, no período final do feudalismo, e o sistema político, social e econômico de tal período sofreram grande influência da Igreja; Ariès contextualiza as concepções e as posições que crianças e adolescentes foram ocupando desde a Idade Média até a contemporaneidade:

a criança a infância e a família foram entendidas de maneiras diferentes no decorrer dos tempos e sua significação pode mudar ainda hoje, de acordo com a metodologia que fundamenta sua análise, modificando seu conceito conforme o olhar que recebe, seja ele histórico, sociológico, antropológico, filosófico ou psicológico (Ariès, 2006, p. 19).

No século XV, o conceito de família diferenciava-se das características de amor, afeto e cuidado. Nessa época, segundo Ariès (2006), os pais biológicos enviavam seus filhos para outras famílias quando completavam sete anos, idade em que a criança era batizada (pela Igreja Católica) e, por conseguinte, tornava-se “imortal” (assim fixada pela literatura moralista e pedagógica), visto que era comum a morte de crianças antes dessa idade, devido aos altos índices de mortalidade infantil. Segundo Ariès (2006), era tamanho o descaso com as crianças que a Igreja Católica ponderava que a criança era pura e inocente, como um anjo; logo, se ela morresse, nasceria outra para substituí-la. Entretanto, nessa outra família à qual eram enviadas, essas crianças recebiam ensinamentos para o trabalho e para o serviço doméstico. Esse aprendizado era difundido por todos, independentemente da classe e da condição social da família. Ariès (2006) afirma que:

as pessoas não conservavam as próprias crianças em casa: enviavam-nas a outras famílias, com ou sem contrato, para que morassem e começassem suas vidas, ou, nesse novo ambiente, aprendessem as maneiras de um cavaleiro ou um ofício, ou mesmo para que frequentassem uma escola e aprendessem as letras latinas (Ariès, 2006, p. 157).

Nesse período, que se estende até o século XVIII, a criança necessitava cumprir deveres dentro da própria casa. Isto é, as atitudes que ela possuía é que demonstravam o quão educada ela era. Uma maneira de mostrar-se bem educada era a sua atitude ao servir a mesa dos pais, visitas e demais pessoas. O “serviço da mesa continuou a ser a tarefa dos filhos de família e não dos empregados” (Ariès, 2006, p. 157). Essa concepção possuía tamanho destaque que se encontrava presente até nos manuais de civilidade, como boas maneiras.

A criança e a escola: a concepção de educação

A escola, nesse momento, era limitada a alguns. Enquanto que esses privilegiados (em sua maioria clérigos e latinófonos) possuíam acesso à escola, outras crianças sequer a conheciam ou participavam da educação escolar. Com o passar do tempo, essa exceção se alterou e passou a ser vista como regra, como afirma Ariès (2006):

a escola, a escola latina, que se destinava aos clérigos, aos latinófonos, aparece como um caso isolado, reservado a uma categoria muito particular. E a escola era na realidade uma exceção, e o fato de mais tarde ela ter se estendido a toda a sociedade não justifica descrever, através dela, a educação medieval: seria considerar a exceção como regra (Ariès, 2006, p. 157).

A partir de meados do século XVII, a criança assumiu lugar central dentro da família ocidental. Nesse contexto, houve o surgimento da escola, o que antes acontecia em ambientes particulares, isto é, era ensinado pelo pedagogo em casas e para algumas crianças apenas. Nesse momento, a educação passou a ocorrer em um prédio centralizado. A criança passou a estudar em uma instituição de ensino devido à influência das transformações sociais introduzidas pelas novas formas de organização política, econômica e social, ditadas pela Revolução Científica e pela Revolução Industrial.
O ensino passou a ser ofertado de maneira técnica; ensinava-se para determinados fins, como para a equitação, para a caça ou para as armas (Ariès, 2006, p. 159). A educação, estando vinculada à escola, acabou por influenciar a relação das crianças com os pais e consequentemente com a família, passando esta a estar mais próxima da criança. “A substituição da aprendizagem pela escola exprime também uma aproximação da família e das crianças, do sentimento da família e do sentimento da infância, outrora separados” (Ariès, 2006, p. 159).

Foi a partir do século XVIII que os pais passaram a se preocupar com a educação escolar de seus filhos, começando a enviá-los a colégios distantes, nos quais permaneciam em pensionatos particulares ou na casa de seus mestres, com o intuito de receber educação. Os pais preferiam enviá-los à escola a ficar com eles em casa. Porém essa escolarização “não afetou uma vasta parcela da população infantil, que continuou a ser educada segundo as antigas práticas de aprendizagem” (Ariès, 2006, p. 160). As meninas permaneceram sendo educadas em casa, ou na de parentes, vizinhos ou outros.
Na sociedade ocidental, o século XVIII é considerado um marco para a família, pois a relação com os integrantes familiares passou a ser privada, o que antes se estabelecia como instituição pública, em que todos interferiam, como a igreja e a sociedade, entre outros. Outro marco histórico que contribuiu para a efetividade familiar foi, no século XIX, a Revolução Industrial e a migração de grandes contingentes populacionais para os centros urbanos, surgindo, a partir daí, o controle da natalidade, com as famílias passando a ter menos filhos, fazendo com que essa redução do número de filhos aproximasse mais os pais dos filhos e o surgimento da afetividade, até então inexistente. Esse sentimento se protagonizou nos séculos seguintes, tendo a solidariedade e a sensibilidade dos familiares proporcionando uma ligação afetiva de abnegação e desambição nos meios familiares.

Atualmente, a família é vista como um “sistema inserido numa diversidade de contextos e constituído por pessoas que compartilham sentimentos e valores formando laços de interesses, solidariedade e reciprocidade, com especificidade e funcionamento próprios” (Simionato; Oliveira, 2003, p. 58), assumindo, portanto, uma instituição que difere daquela configuração de pai, mãe e filhos.

A realidade da infância e adolescência no Brasil

A realidade da situação da infância e da adolescência no Brasil, em especial das classes mais excluídas da sociedade, faz-nos refletir acerca dos atos conflitantes com a lei cometidos por crianças e adolescentes. Talvez um fator que ocasione a necessidade de crianças e adolescentes entrarem em conflito com a lei é o empobrecimento das famílias brasileiras, que constitui, por si só, um aspecto imperativo e determinante na busca de “reforços” financeiros. Diversas transformações ocorridas na sociedade, como o aumento das separações conjugais, as desigualdades sociais e educacionais, regionais e raciais também obrigam os membros da família, inclusive crianças e adolescentes, a buscar condições materiais que garantam a sua existência.

Em todo o mundo, o conceito de família nuclear e a instituição casamento intimamente ligados à família passaram e passam por intensas transformações. A ocorrência mais marcante dessas transformações ocorreu no final da década de 1960. De acordo com Simionato e Oliveira (2006), naquela década “cresceu o número de separações e de divórcios, a religião foi perdendo sua força, não mais conseguindo segurar casamentos com relações insatisfatórias”. A igualdade passou a ser um pressuposto em muitas relações matrimoniais. A partir daí, surgiram inúmeras organizações familiares alternativas: casamentos sucessivos com parceiros distintos e filhos de diferentes uniões; casais homossexuais adotando filhos legalmente; casais com filhos ou parceiros isolados ou mesmo cada um vivendo com uma das famílias de origem; e, mais ultimamente, duplas de mães solteiras ou já separadas compartilham a criação de seus filhos (Simionato; Oliveira, 2006).

Essas alterações nos papéis sociais levaram a adaptações dos homens e das mulheres, não sem relutância de ambas as partes, pois, da mesma forma que foi difícil para o homem abandonar o papel de senhor absoluto do modelo tradicional de família, para a mulher foi penoso abrir mão do papel de rainha do lar, frágil e submissa, ao qual estava secularmente acostumada, e do qual comumente angariava algumas vantagens secundárias, numa espécie de poder paralelo no mundo privado (Simionato; Oliveira, 2006).

Na estrutura familiar da atualidade, as crianças são os membros mais vulneráveis às situações de conflitos no grupo e, neste sentido, estão mais expostas que os demais, justamente por não terem autonomia e capacidade plena de defesa e de resolução.

O que é ser adolescente?

Com relação aos adolescentes, a situação de vulnerabilidade é praticamente a mesma da criança, com o agravante de que, muitas vezes, eles são depositários de expectativas e esperanças de ascensão do grupo familiar, sofrem com as frustrações dessas expectativas tanto pelo contexto familiar de sobrevivência como pelo contexto de possibilidades de inserção social.

Como mencionado anteriormente, infância e adolescência não são apenas etapas cronológicas, mas sobretudo construções sociais, culturais e históricas. Ao refletir sobre a adolescência, Calligaris (2000) nos faz ver que

nossos adolescentes amam, estudam, brigam, trabalham. Batalham com seus corpos, que se esticam e se transformam. Lidam com as dificuldades de crescer no quadro complicado da família moderna. Como se diz hoje, eles se procuram e eventualmente se acham. Mas, além disso, eles precisam lutar com a adolescência, que é uma criatura um pouco monstruosa, sustentada pela imaginação de todos, adolescentes e pais. Um mito, inventado no começo do século XX, que vingou sobretudo depois da Segunda Guerra Mundial (Calligaris, 2000, p. 9).

Assim como a infância, a adolescência é também compreendida hoje como uma categoria histórica, pois, para a maioria dos estudiosos do desenvolvimento humano, ser adolescente é viver um período de mudanças físicas, cognitivas e sociais, além de psicológicas, que, juntas, ajudam a traçar o perfil dessa população. Atualmente fala-se da adolescência como uma fase do desenvolvimento humano que faz uma ponte entre a infância e a idade adulta. Nessa perspectiva, a adolescência é compreendida como um período atravessado por crises, que encaminha o jovem na constituição de sua subjetividade. Porém a adolescência não pode ser compreendida somente como uma fase de transição. Na verdade, a adolescência é também mais do que isso: é um período entre a puberdade e a fase adulta. A palavra adolescência vem do latim adolescentia, adolescer. É comumente associada à puberdade, referindo-se ao conjunto das transformações fisiológicas ligadas à maturação sexual, que traduzem a passagem progressiva da infância à adolescência. Essa perspectiva prioriza o aspecto fisiológico, quando sabemos que ela não é suficiente para se pensar a adolescência.

Ariès (2006) acredita que a adolescência também nasceu sob o signo da modernidade, a partir do século XX. Segundo esse autor, somente após a implantação do sentimento de infância, no século XIX, tornou-se possível a emergência da adolescência como uma fase com características peculiares e únicas, distinta das outras fases do desenvolvimento. Existe atualmente uma clareza teórica de que a heterogeneidade de realidades e situações impede a vivência da adolescência do mesmo modo para todos. Mas essa clareza não foi sempre presente. O pai da Psicologia da adolescência, Stanley Hall, considerava que a adolescência era a retirada dramática das crianças do paraíso da infância, se constituindo, desse modo, num período de crises, tempestades e tormentas. Ou seja: uma fase difícil, geradora de crises, um foco de patologias, um poço de sofrimento para os jovens e seus familiares.

Para a professora Ana Maria Monte Coelho Frota (2007, p. 157), em seu artigo Diferentes concepções da infância e adolescência: importância da historicidade para a sua construção, a adolescência deve ser pensada para além da idade cronológica, da puberdade e das transformações físicas que ela acarreta, dos ritos de passagem ou de elementos determinados. “A adolescência deve ser pensada como uma categoria que se constrói, se exercita e se reconstrói dentro de história e tempo específicos”.

Nessa etapa do desenvolvimento, o indivíduo passa por momentos de desequilíbrios e instabilidades extremos, sentindo-se muitas vezes inseguro, confuso, angustiado, injustiçado, incompreendido por pais, professores e por todos que o rodeiam, o que pode acarretar problemas para os relacionamentos com as pessoas mais próximas do seu convívio social. Entretanto, segundo Drummond & Drummond Filho (1998), essa crise desencadeada pela vivência da adolescência é de fundamental importância para o desenvolvimento psicológico dos indivíduos, o que faz dela, segundo esses autores, uma crise normativa.

Ainda segundo esses autores, a vivência da adolescência não é um processo uniforme para todos os indivíduos, mesmo partilhando uma cultura, pois há pessoas que passam por essa fase sem manifestar maiores problemas e dificuldades de ajustamento. Além disso, é necessário ressaltar que o processo de adolescência não afeta apenas os indivíduos que estão passando por esse período, mas também as pessoas que convivem diretamente com eles, principalmente a família, constituindo-se o processo, em sua grande maioria, difícil e doloroso tanto para os adolescentes quanto para seus pais e familiares. Por esse motivo, o diálogo nessa etapa do desenvolvimento assume papel ainda mais importante, apesar de algumas vezes o adolescente buscar se fechar em “seu mundo próprio”. Devido a essa tendência à reclusão e à busca de refúgio na fantasia e no devaneio, o diálogo com os membros da família é essencial, pois é nesse período que ele mais necessita da orientação e da compreensão dos pais, amigos e familiares em geral.

Nesse contexto, Drummond & Drummond Filho (1998) salientam que, além do recurso do diálogo, quando a família busca desde cedo estabelecer relações de respeito, confiança, afeto e civilidade entre os membros, tende a lidar com essa fase do desenvolvimento de maneira mais adequada e com menos dificuldades do que quando esses valores não são praticados. Dessa forma, atualmente, além das preocupações dos pais com a questão de como lidar com a adolescência dos filhos, ainda existem dois grandes problemas que os afligem: a iniciação sexual precoce e a questão das drogas, as quais trazem consigo as preocupações com a contaminação por doenças sexualmente transmissíveis, entre elas a Aids, uma vez que tem crescido assustadoramente o número de adolescentes infectados. Esses dois aspectos, além de todos os outros, se destacam na pauta de preocupações de pais e responsáveis, uma vez que as influências do contexto no qual os adolescentes se desenvolvem, família e ambiente macrossocial, são associadas às características de imaturidade emocional, impulsividade e comportamento desafiador que frequentemente estão presentes nessa fase do desenvolvimento humano.

Considerações finais

Considerando as mudanças ocorridas na organização social e na estrutura e funcionamento das famílias através dos tempos, bem como o papel crucial que a instituição familiar continua a exercer no processo de desenvolvimento dos indivíduos, os estudos mostram que a emergência de novas composições familiares, associada à forma como os pais foram educados e à influência de novos padrões de relacionamento interpessoal que vigoram na atualidade, tende a desencadear dificuldades na educação dos filhos; a preocupação com o desenvolvimento de crianças e adolescentes, com o modo como educá-los e orientá-los e as maneiras de conduzi-los com segurança rumo a uma adultez saudável nunca esteve tão presente nas discussões, científicas ou não, como nos dias de hoje.

Essas preocupações emergem tanto nas publicações a respeito da infância quanto nas dedicadas à adolescência. Considerando que o adolescente se desenvolve no contexto familiar e nele permanece por um período que tem se estendido cada vez mais – em países da América Latina esse período de convívio com a família de origem é maior do que o observado em outras culturas –, torna-se essencial considerar a situação familiar e o meio social nos estudos sobre adolescência (Kalina, apud Pratta, 2007).

Assim, pode-se dizer que, apesar das transformações significativas vivenciadas pela família nas últimas décadas do século XX e início do XXI, a humanidade continua depositando na instituição familiar a base de sua segurança e bem-estar, o que por si só é um indicador da valorização da família no contexto do desenvolvimento humano, apesar de toda a transformação pelas quais tem passado essa instituição.

Conforme apresentado, pode-se perceber que a família continua em transformação, não sendo possível hoje concebê-la como modelo estático e único, conforme se transforma a sociedade nas diferentes maneiras do ser e do agir da família.

Assim, acreditamos que a família desempenha papel fundamental na sociedade, não só na relação com os seus membros como lócus de afiliação e/ou de reafiliação social dos seus membros, mas também em relação ao Estado, na perspectiva de instituição social decisiva no desenvolvimento do processo de integração, inclusão social daqueles que a ela pertencem.

Referências

ARIÈS, P. A história social da criança e da família. Rio de Janeiro: Guanabara, 2006.

CALLIGARIS, C. A adolescência. São Paulo: Publifolha, 2000.

DRUMMOND, M.; DRUMMOND FILHO, H. Drogas: a busca de respostas. São Paulo: Loyola, 1998.

FROTA, Ana Maria Monte Coelho. Diferentes Concepções da Infância e Adolescência: a importância da historicidade para sua construção. Revista Estudos e Pesquisas em Psicologia, Rio de Janeiro, UERJ, v. 7, n. 1, p. 147-160, abr. 2007.

PRATTA, E. M. M. Adolescência, drogadição e família: caracterização do padrão de consumo de substâncias psicoativas e avaliação da percepção dos pais em adolescentes do ensino médio. Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-Graduação em Psicologia – Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto. Universidade de São Paulo. Ribeirão Preto, 2007.

SIMIONATO, Marlene Aparecida Wischral; OLIVEIRA, Raquel Gusmão. Funções e transformações da família ao longo da história. I Encontro Paranaense de Psicologia – ABPPPr, nov. 2006.

Publicado em 14 de agosto de 2018