O uso de paródias musicais no ensino de Zoologia: Platyhelminthes

Maíra Moraes

Docente universitária (UVA)

Daniel Faustino Gomes

Aluno do Programa de Pós-Graduação em Zoologia (UFRJ)

Jean Carlos Miranda

Docente universitário (UFF)

É recorrente na literatura a necessidade de desenvolvimento e utilização de ferramentas didáticas que rompam o “ensino tradicional”, ainda muito presente na Educação Básica, centrado na figura do professor como transmissor de conhecimentos tidos como prontos e acabados, e o aluno como receptor passivo (Almeida; Oliveira; Aquino, 2017). Como preconiza a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional nº 9.394/96 (Brasil, 1996), a diversificação e a inovação das práticas pedagógicas aplicadas em sala de aula são fundamentais no estímulo à participação dos alunos como sujeitos ativos no processo ensino-aprendizagem.

Nesse sentido, destacam-se as atividades lúdicas, que estimulam a criatividade, a socialização e o desenvolvimento cognitivo (Silva et al., 2017). Além disso, essas atividades desempenham importante papel na abordagem de temas abstratos e de difícil compreensão (Menezes et al., 2015; Lima et al., 2018), como os tratados em Zoologia, um campo da Biologia que se constitui no estudo da diversidade animal existente no planeta (Miranda; Costa; Gonzaga, 2016; Almeida; Oliveira; Aquino, 2017).

Segundo Miranda et al. (2015), “a música é uma arte universal e tem como característica unir as pessoas, estreitando os relacionamentos; tal condição facilita e motiva a aprendizagem”. As paródias são ferramentas que podem facilitar a memorização de informações a partir do uso de melodias conhecidas (Trezza; Santos; Santos, 2007), além de despertar o interesse pelo assunto abordado (Luna et al., 2016).

Nesse sentido, as paródias podem ser importantes no ensino de Zoologia, que apresenta conteúdo bastante denso, sendo considerada por muitos alunos uma disciplina difícil devido à grande quantidade de “nomes complicados”.

Este trabalho é o relato de uma atividade com o uso de paródias musicais com turma de graduação em Biologia de uma universidade privada do Rio de Janeiro. A atividade teve por objetivo estimular nos graduandos (futuros professores) o desenvolvimento de recursos didáticos para subsidiar aulas de Biologia no Ensino Médio.

Material e métodos

A atividade foi desenvolvida em três turmas da disciplina Acelomados e Pseudocelomados do curso de Ciências Biológicas da Universidade Veiga de Almeida no primeiro semestre de 2017. Participaram da atividade 59 alunos, organizados em grupos com quatro ou cinco componentes cada. Por serem objeto de estudo da disciplina, os Platyhelminthes foram definidos como tema para a elaboração de paródias musicais, as quais deveriam abordar aspectos relacionados à sua anatomia e fisiologia. Os alunos tiveram liberdade para escolher o estilo musical e as paródias foram gravadas em vídeo. Posteriormente, os vídeos foram apresentados em sala de aula, às vésperas da realização das avaliações da disciplina, como forma de revisão do conteúdo.

Resultados e discussão

Foram produzidas dez paródias de diferentes estilos musicais, com destaque para o funk, com quatro (Tabela 1). Esse destaque pode ser resultado de maior identificação do público participante da atividade com esse estilo musical e os elementos culturais presentes nele.

Tabela 1: Paródias produzidas pelos alunos, separadas por turma, estilo, título e interprete da música original

  Estilo Título da música Intérprete
Turma 1 Reggaeton Despacito Luis Fonsi
Axé Milla Netinho
Turma 2 Rap À procura da batida perfeita Marcelo D2
Funk Bum bum tam tam MC Fioti
Desenho infantil Temos que pegar Pokémon
Pop Blood Sweat & Tears
Turma 3 Pop El mamut Chiquitito El Bando
Funk Você partiu meu coração Nego do Borel
Funk Quando ela bate com a bunda no chão MC Kevinho
Funk Deu onda MC G15

Cabe ressaltar que foram utilizadas músicas que fizeram sucesso à época da realização da atividade, sendo muito tocadas nas rádios; por isso, eram do cotidiano desses alunos, como: Bum bum tam tam (MC Fioti), Quando ela bate com a bunda no chão (MC Kevinho) e Despacito (Luis Fonsi) (Quadro 1). A música Temos que pegar (tema de Pokémon) não é uma música que toca nas rádios, mas é de um desenho e um jogo infantis (Pokémon) também presentes no cotidiano dos participantes da atividade. Além de músicas atuais, também foi criada uma paródia a partir da música Milla, que, apesar de ter sido lança em 1996, ainda é muito tocada.

Durante o desenvolvimento da atividade, observou-se uma mudança de atitude em alguns alunos, até então não tão participativos nas aulas “convencionais”. Luna et al. (2016) observaram que, em aulas teóricas, os alunos se comportavam com timidez e resistência quanto à interação, porém, quando da utilização de uma paródia, perceberam aumento do interesse dos estudantes pela atividade, o que motivou uma participação natural e instantânea.

O processo de ensino-aprendizagem requer dos educadores inovações, recriação e diversas maneiras que prendam a atenção dos educandos para que possam assimilar o conteúdo ministrado, uma vez que muitos se sentem cansados da escola e não têm interesse em assistir aulas enfadonhas que, por vezes, abordam temas que não fazem sentido em suas vidas fora do âmbito acadêmico.

Quadro 1: Cinco das paródias criadas pelos alunos participantes da atividade

O envolvimento e o empenho de alunos envolvidos com atividades de criação de paródias também foram observados por Almeida et al. (2017), que destacam a importância da utilização de ferramentas e atividades de ensino que despertem a curiosidade e o senso crítico dos estudantes. Nesse sentido, é possível afirmar que a utilização de paródias pode contribuir para o alcance desse objetivo, já que para a execução desse tipo de atividade o aluno deve ter domínio sobre o assunto, sendo capaz de analisar e discutir questões acerca do tema apresentado de forma divertida e prazerosa.

Diversos autores (Azevedo, 2001; Miranda, 2002; 2003; Rodrigues et al., 2005) encontraram resultados que corroboram a utilização de paródias musicais como importante ferramenta na construção/consolidação do conhecimento. Como afirmam Luna et al. (2016), paródias musicais são uma ferramenta didática relevante no processo de ensino-aprendizagem.

Atividades utilizando ferramentas não tradicionais, como a apresentada neste trabalho, são importantes, pois, de acordo com Miranda (2002; 2003), possibilitam a reflexão sobre o papel social do aluno na divulgação do conhecimento científico, dinamizam as aulas, despertam o interesse e sua criatividade, promovem sua socialização e auxiliam no aprendizado, permitindo que desempenhem um papel mais ativo nos estudos.

Considerações finais

A atividade mostrou-se eficiente no que tange ao estímulo à criatividade, ao trabalho em grupo e ao desenvolvimento e aplicação de ferramentas didáticas que motivem os alunos na busca por conhecimento, tornando-os cada vez mais ativos e participativos.

Cabe ressaltar que sua utilização em turmas de um curso de licenciatura pode despertar nos graduandos, futuros professores, o interesse pelo desenvolvimento e pela aplicação dessa e outras ferramentas com metodologia ativa em suas aulas no processo de transmissão/aquisição de conhecimentos.

Referências

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Publicado em 27 de agosto de 2019

Como citar este artigo (ABNT)

MORAES, Maíra; GOMES, Daniel Faustino; MIRANDA, Jean Carlos. O uso de paródias musicais no ensino de Zoologia: Platyhelminthes. Educação Pública, v. 19, nº 18, 27 de agosto de 2019. Disponível em: https://educacaopublica.cecierj.edu.br/artigos/19/18/o-uso-de-parodias-musicais-no-ensino-de-zoologia-platyhelminthes