O filósofo e o poeta: a gaia ciência da vida em Nietzsche e Vinicius de Moraes

Alberto Hércules dos Santos Coelho Barbosa

Mestre em Letras (UFRRJ), doutorando em Estudos de Literatura (UFF), professor da Seeduc/RJ

Poesia e filosofia são dois caminhos que, ao longo da história humana, muitas vezes se encontraram e trataram dos mesmos assuntos. Sentimentos, dúvidas e ações dos homens sempre estiveram na pauta de temas das duas; reflexões sobre o que é e como acontece a vida são motivos de especulações de poetas e filósofos.

Busco um ponto de encontro entre a filosofia de F. Nietzsche e a poesia de Vinicius de Moraes nos temas preferidos dos dois: a vida, a alegria e a tragédia de viver, a vida como obra de arte, a “gaia ciência” a partir dessa questão.

Friedrich Nietzsche

O século XIX encontrou em Nietzsche (1844-1900) um dos seus mais irrequietos pensadores. Negando os principais valores constitutivos da cultura ocidental, Nietzsche nega o platonismo, o cristianismo e o progresso científico de sua época para buscar algo mais profundo: vai à Grécia pré-socrática em busca de respostas, formula conceitos revolucionários, busca um conceito mais claro do que é a vida e tece duras críticas a esses sistemas que, a seu ver, fazem-na menos feliz.

A negação da vida presente, física, em todos os seus sentidos, em nome de uma vida futura no paraíso (como apregoava o cristianismo) e/ou em nome de uma ciência com aspirações à substituição do Deus judaico-cristão na explicação do mundo e do homem constituem os niilismos principais do pensamento de Nietzsche. Assim, em busca de algo que combatesse isso, o filósofo nega a metafísica e a procura por explicações mais altas para encontrá-las aqui mesmo, no chão da existência: a vida não pode ser avaliada por nada superior; a vida é que avalia dentro da força de cada momento em que acontece, sempre.

Está traçada a questão do eterno retorno e da afirmação da vida, que está a todo tempo em movimento, acontecendo e voltando a acontecer, da vida que está na brevidade do instante, que não pode ser negada nem sonegada. São ideias e temas que aproximam o filósofo do século XIX do poeta do século XX.

Vinicius de Moraes

Poeta, diplomata, compositor e cantor, Vinicius de Moraes (1913-1980) desenvolveu sua arte ao longo do agitado século XX, de forma um tanto agitada também: em 1933 publicou seu primeiro livro, O caminho para a distância, recheado de poemas metafísicos pintando o pecado e a mulher, como sinônimos.

Nas publicações seguintes essa tendência para o espírito foi lentamente desaparecendo e despontando em poemas mais realistas, como “Receita de mulher” e “O operário em construção”. Mas foi com a música que o poeta colocou definitivamente os pés no chão.

Em 1956, compôs com Tom Jobim as músicas de sua peça Orfeu da Conceição, inaugurando uma das parcerias mais fecundas da música brasileira e o projeto da Bossa Nova.

Na música aparece o maior ponto de encontro que essa reflexão busca: em cinco letras – Tomara, Sei lá (a vida tem sempre razão), Sem medo, Como dizia o poeta e As cores de abril, a primeira com música também de Vinicius e as outras com melodia de Toquinho – estão as maiores representações das ideias comuns de Vinicius e Nietzsche sobre a arte de viver.

A afirmação da vida

Ainda em sua juventude católica e espiritual, Vinicius lia Nietzsche com seus amigos, como registra seu biógrafo, José Castello: “devoram o Zaratustra, de Friedrich Nietzsche – que leem mais como se fosse um poema do que um tratado de filosofia” (p. 67), ao mesmo tempo que vive o conflito do espírito e da carne, desde cedo tecendo reflexões sobre o que seria realmente viver.

“Viver... é repelir constantemente para longe de si aquilo que deseja morrer”, asseverou Nietzsche em A gaia ciência (p. 57). Talvez não só o que deseja morrer, mas também aquilo que nega a vida, que busca razão em outra coisa que não seja na própria vida.

Partindo do abandono da metafísica e das questões mais superiores da existência, Nietzsche e Vinicius procuram na arte a explicação e a expressão desse conceito que poucos têm coragem de admitir:

Sei lá, a vida tem sempre razão

(Toquinho e Vinicius de Moraes)

Tem dias que eu fico

Pensando na vida

E sinceramente

Não vejo saída

Como é, por exemplo,

Que dá pra entender

A gente mal nasce

Começa a morrer

Depois da chegada

Vem sempre a partida

Porque não há nada sem separação. (...)

Do conceito negativo, ou do trágico, daquilo que parece não ter explicação ou solução, nasce a tentativa de entendimento. O que é e como se dá a vida são temas recorrentes na poesia canônica dos livros e nas letras de música que Vinicius escreveu para diversos parceiros.

Desse primeiro conceito trágico do que é viver nasce a alegria, a aprovação jubilatória da existência. Tal como o Zaratustra e o pastor, que, em convulsão, transtornado, tinha uma negra e pesada serpente na garganta, em luta para arrancá-la de lá. Zaratustra tenta se livrar dela, mas não consegue, então grita para que o pastor morda e jogue bem longe a cabeça da serpente. Zaratustra, então, narra que, após o pastor seguir seu conselho, mordeu e cuspiu a cabeça da serpente para longe e após esse ato ele ria:

O pastor, porém, mordeu, como o grito lhe aconselhava; mordeu com rija dentada! Cuspiu bem longe a cabeça da cobra; e levantou-se de um pulo. Não mais pastor, não mais homem – um ser transformado, translumbrado, que ria! Nunca até aqui, na terra, riu alguém como ele ria! (Assim falou Zaratustra, p. 168).

O riso e a alegria nascem da tragédia vivida. E esse enunciado aparece tanto para Nietzsche quanto para Vinicius na forma da arte: na forma ficcional da história contada ou na forma de versos escritos para uma melodia, como a continuação da letra iniciada antes:

Sei lá, sei lá,

A vida é uma grande ilusão.

Sei lá, sei lá,

Só sei que ela está com a razão.

Assim, é necessária muita coragem para morder a cabeça da serpente, livrar-se do conceito do trágico para afirmar uma alegria possível. Essa afirmação é que configura o instante de consciência de vida, de que se está vivo.

Em Nietzsche, o conceito de viver aparece como algo além de comer, andar, respirar. “Viver... é ser cruel e impiedoso para tudo o que envelhece e enfraquece em nós, e não somente em nós” (A gaia ciência, 2005, p. 57). Viver pressupõe coragem, força, exige ser um “super-homem” que inventa a si mesmo, que não é um suicida mas que não teme a morte ou o sofrimento, que tem a coragem de afirmar a vida em face do que ela é, do instante vivido.

É como vaticinou o poeta.

Sem medo

(Toquinho e Vinicius de Moraes)

Como é que pode, a gente ser menino

Ter sua coragem, traçar seu destino

Sem pular o muro, trepar no coqueiro

Ir no quarto escuro, mãe

Me mete medo, mãe

(...)

Mas atravesse o escuro sem medo

Atravesse o escuro sem medo.

É preciso entrar no quarto escuro para atravessá-lo sem medo. Viver é sobretudo não ter medo, não renunciar em face desse medo. Parece que Vinicius de Moraes seguiu o conselho de Zaratustra: mordeu a cabeça da serpente do protocolo, das convenções, da poesia bem comportada dos livros para cantar poemas mais leves em louvor da vida e da arte de viver.

O viver, para Vinicius, se configura mais ou menos da mesma forma: se abstém de toda negação ou renúncia para alcançar a plenitude, sem a preocupação com o futuro e com a morte:

Tomara

(Vinicius de Moraes)

E a coisa mais divina

Que há no mundo

É viver cada segundo

Como nunca mais

Reflexo das leituras de Nietzsche na juventude? É uma questão interessante. O fato é que o tema se apresenta de forma bastante semelhante no filósofo e no poeta: a afirmação da vida em todos os momentos, inclusive em face da morte. A vida é quem avalia, ela é o bem superior, é a ela que retornamos, eternamente.

A arte como resposta

Nos gregos pré-socráticos, Nietzsche encontrou a ideia da arte como mediação e da vida como movimento e transformação constantes, conjugando harmoniosamente a arte, o pensamento e o saber; conjugação essa que não se abstém da parte física, envolvida em cheiros, sabores, corpo.

Apesar de cultivarem a arte da beleza e da aparência, os gregos perceberam que a tristeza e a dor não poderiam ser evitadas. Não se pode negar o sofrimento. E, como diz o próprio Nietzsche: “o sofrimento procura sempre a sua causa enquanto o prazer mostra inclinação para se bastar a si próprio” (A gaia ciência, p. 45). Daí nasce a tragédia grega, origem do teatro ocidental: a busca da explicação do sofrimento. Como a exposição desse sofrimento como arte comove, emociona, nos distancia de nossa própria dor.

Foi isso que Nietzsche explicou:

Foram os artistas, e principalmente os do teatro, que primeiro deram aos homens olhos e ouvidos para ver e para ouvir, com algum prazer, o que cada pessoa é, aquilo que vive, e o que quer; foram eles que primeiro nos ensinaram a dimensão do herói que se esconde no homem do dia a dia, e a arte de nos encararmos a nós próprios como heróis, a distância, e, por assim dizer, simplificados e transfigurados... a arte de se “pôr em cena” diante de si mesmo (A gaia ciência, p. 80).

Assim, a arte medeia a relação do homem com o mundo e consigo mesmo: contribui para a compreensão e construção dessas imagens. A arte que medeia também o sofrimento produz alegria: separa o sofrimento da emoção na sensação do homem, que consegue, assim, abrir um espaço para riso e a alegria.

Está lançado o significado da “gaia ciência” da vida: o saber alegre, a arte como forma de conhecimento, o riso tomando forma de utilidade no viver do homem.

Esse riso e essa arte é que são, segundo José Castello, biógrafo e crítico, patentes na vida e na arte do Vinicius de Moraes, compositor:

Vinicius foi um homem sem limites, que não admitiu poupar a vida como se ela fosse um estoque limitado e frugal de emoções, que não permitiu que a avareza triunfasse sobre a generosidade. Tornou-se, com os anos, um homem abundante, que não tinha qualquer respeito por sentimentos melindrados como o medo, o comedimento ou a mesquinhez (Livro de letras, p. 13).

Despido de toda metafísica e renúncia em nome de cargos e posições sociais, o Vinicius dos sonetos metrificados e rimas ricas se encontra com o samba e entrega sua poesia a ele: entrega-se. E a arte não só medeia como é parte desse processo de entrega: “Não conseguia mais deixar a vida de um lado, a poesia do outro, porque para ele as duas sempre foram a mesma coisa” (Livro de letras, p. 15).

A música é componente do despojamento do poeta face à vida: “Porque a vida só se dá pra quem se deu/Pra quem amou, pra quem chorou/Pra quem sofreu” (Livro de letras, p. 138). Daí o afirmar que a vida tem sempre razão, que a paixão era necessária, que o sofrimento fazia parte da vida. E viver é envolver-se com a vida.

Para Nietzsche e Vinicius a arte é a ciência de viver. É a “gaia ciência”, o saber alegre, o conhecimento que ri.

O intelecto da maioria das pessoas é uma máquina pesada, sombria e rangente, difícil de pôr em movimento. Quando querem trabalhar com ela e pensar bem, chamam a isto “tomar a coisa a sério”... Oh! Como deve ser difícil para eles o pensar bem! Em se tratando disso a graciosa besta humana perde todo o seu bom humor, ao que parece: torna-se “séria”! “E onde se ri, onde se diverte, o pensamento não vale grande coisa”, tal é o preconceito desse grave animal a respeito de qualquer “gaia ciência”. Pois bem! Mostremos-lhe que se trata de um preconceito! (A gaia ciência, p. 167).

As cores de abril

(Toquinho e Vinicius de Moraes)

Sou eu, o poeta, quem diz:

Vai e canta, meu irmão

Ser feliz é viver morto de paixão

A aparente contradição entre conhecimento e alegria desfaz-se por meio das outras aparentes contradições: viver é morrer de paixão, é seguir cantando através do sofrimento.

Por esse prisma, a arte torna-se, então, uma resposta, surge como alternativa ao sofrimento, que não é negado nem disfarçado, mas posto a lume para maior significação.

É isso que reage contra o niilismo da vida em Nietzsche: a afirmação da vida, sua gaia ciência. É isso que faz com que o eterno retorno configurado em sua obra não seja uma tragédia ou algo que desmereça a arte de viver. É a junção de coragem, de arte, de força e de vontade que fazem a vida ser digna de ser vivida. É não ter medo de cantar ou de sofrer.

Talvez por isso o próprio Nietzsche tenha afirmado: “Não, a vida não me desapontou! Pois, a cada ano já passado, eu a considero mais verdadeira, mais desejável, mais misteriosa”. Talvez por isso quando, já doente e perto da morte, indagaram a Vinicius de Moraes se tinha medo de morrer, ele respondeu: “Não, não estou com medo da morte, estou é com saudade da vida”.

Tanto a afirmação da vida quanto a coragem para enfrentar a morte estão no filósofo e no poeta. Quando utilizaram a arte para compreender o mundo e os homens, encontraram uma resposta para o dilema de viver: morderam a cabeça da serpente, mataram o monstro do niilismo, da negação e da renúncia para rir, para alegrar-se perante o momento vivido.

A vida não os desapontou.

Fontes de consulta

CASTELLO, José. Vinicius de Moraes – O Poeta da Paixão: uma biografia. São Paulo: Companhia das Letras, 2005.

MORAES, Vinicius de. Livro de letras. São Paulo: Companhia das Letras, 2001.

NIETZSCHE, Friedrich. A gaia ciência. Trad. Jean Melville. São Paulo: Martin Claret, 2005.

NIETZSCHE, Friedrich. Assim falou Zaratustra. Trad. Mario da Silva. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1977.

Publicado em 03 de setembro de 2019

Como citar este artigo (ABNT)

BARBOSA, Alberto Hércules dos Santos Coelho. O filósofo e o poeta: a gaia ciência da vida em Nietzsche e Vinicius de Moraes. Educação Pública, v. 19, nº 19, 3 de setembro de 2019. Disponível em: https://educacaopublica.cecierj.edu.br/artigos/19/19/o-filosofo-e-o-poeta-a-gaia-ciencia-da-vida-em-nietzsche-e-vinicius-de-moraes