Por que ler Carolina Maria de Jesus: ecos da escrita de si como resistência e protagonismo feminino na literatura brasileira

João Paulo da Silva Nascimento

Faculdade de Letras (UFRJ)

Danielle Reis Araújo

Escola de Belas Artes (UFRJ)

Primeiras reflexões: Carolina Maria de Jesus

Ao se tratar de cultura brasileira, sua história, marcos, instâncias sincrônicas e diacrônicas, inevitavelmente a heterogeneidade mostra-se no mínimo sugestiva ao debate, haja vista o fato de o contexto diversificado precedente às interações socioculturais vividas no país ser, muitas vezes, posto propositalmente no lugar da irrelevância. Isso posto, nota-se que os fundamentos da cultura brasileira, sobretudo de viés estético literário que se constitui foco da análise em questão, não resguardam, em princípio, fins categóricos com relação aos aspectos culturais observados, mas, contrariamente, expõem uma visão mais bem ordenada acerca das incontáveis contribuições aliadas aos porquês de determinadas sucessões na história literária. Uma figura que exemplifica isso no âmbito da literatura brasileira moderna é a escritora brasileira Carolina Maria de Jesus, a qual, por sua obra, afincou um legado preclaro à historiografia da literatura brasileira, na medida em que se opôs aos estigmas padronizados e permitiu uma refutação do ponto de vista de maior notoriedade em seu tempo, renunciando a seu lugar de fala de dupla condição minoritária: a condição feminina e a condição favelada.

Possuidora de uma estilística de escrita naturalmente própria, a figura de Carolina Maria de Jesus traz à tona questões de representatividade na literatura brasileira, uma vez que dispõe da máxima que subverte de forma explícita o cenário habitual de dominância e protagonismo masculino na literatura. Há, na obra e vida da autora, uma relação dialógica capaz de integrar peculiaridades evidentes e rotineirismos comuns provenientes de um mesmo ponto de partida, cuja marca sobressalente expressa a máxima do lugar de fala como pressuposto à quebra de paradigmas nada obsequiosos à construção de uma literatura que de fato possa ser predicada pelo termo “brasileira”. Dessa forma, põe-se a figura de uma mulher negra, residente em favela – aspecto tipicamente brasileiro, diante da discrepância socioeconômica proveniente de uma história social de isonomia ínfima – em concomitância à sociedade elitista, misógina e racista, como modelo das evidências do que pode a literatura em vias de resistência e protagonismo.

A figura de Carolina Maria de Jesus, portanto, não se restringe às significâncias que desempenhara somente na década em que se promulgou como diferencial e inovação na literatura brasileira, como também retém aspectos de ressignificação estética vivificativos quanto aos holofotes centrais por que perpassava o fazer literário, atribuindo-lhe um apetrecho substancial à revolução cultural de democratização da representatividade pela qual se luta cotidiana e incansavelmente. Assim, tece-se uma análise estética e simbólica da imagem emblemática da escritora, a qual, além de reclamar pormenores sociais por unicamente ter seu refúgio à arte literária conhecido pela massa, foi capaz de fomentar questões a respeito de problemas culturais emergentes valendo-se da arte literária que lhe era natural e construindo um espólio transcendental e oportuno à discussão a respeito dos fundamentos da cultura literária brasileira no que se refere à escrita feminina.

Escrita de resistência: Casa de Alvenaria (1961) em foco

Em Casa de Alvenaria, publicado em 1961, Carolina Maria de Jesus narra seus dias em contexto de transformação advinda de sua entrada no universo literário como uma escritora oficial através de um gênero que oferece inferências e peculiaridades: o diário. Nesse sentido, sua escrita é dada por meio da primeira pessoa, isto é, uma escrita dotada de particularidades, tanto no que se refere ao manejo dos aspectos linguísticos quanto no que se refere à propriedade e notoriedade do exposto. Por isso, Carolina Maria de Jesus, no curso de sua obra, cria um ambiente intimista capaz de relacionar espaço x tempo, tempo x corpo feminino que escreve e a voz de um eu que se autorrepresenta à borda dos fatos.

O claro imo de Carolina Maria de Jesus em Casa de Alvenaria é dado, sobretudo, pelo efeito da escrita em primeira pessoa, a qual propicia inferências posteriores sobre a obra, influenciando estritamente a análise do texto. Esse primeiro ponto, por si só, já se mostra relevante, ousado e facilmente remissível a um ato de coragem, tal qual um grito implícito que paira em busca de alguém que o ouça, visto que, ao manter-se em primeira pessoa, Carolina parece lutar pela sua representatividade social. Em outras palavras, é possível perceber que a primeira pessoa, especificamente nessa obra, revitaliza um olhar intrínseco capaz de reportar o leitor ao maior acesso aos pensamentos rasamente acessíveis da autora, que se refugia justamente na narrativa como meio de conceder-se existência em oposição a um padrão inverso.

No entanto, esgotar o valor da primeira pessoa em Casa de Alvenaria pressupõe abandonar resquícios de ordem interpretativa dos fatos vividos pela autora, o que, evidentemente, não é a intenção deste trabalho. Salienta-se, desse modo, o valor da primeira pessoa como local de fala de maior propriedade estilística salutar, subjetiva e funcional em uma obra, o que Carolina Maria de Jesus bem ilustra, pois, dentre muitas coisas, utiliza as vantagens dessa pessoa do discurso a fim de colocar-se à margem de todo um cenário repressor, para explicitar o quão valorosa pode ser a crítica literária se produzida com demasiada subjetividade de alguém que se predispõe ao abandono da visão do centro. Isso, dentre muitas coisas, cria uma narrativa que leva em consideração formações discursivas catárticas denunciadoras da realidade vivida no Brasil por mulheres negras à época, dialogando com a visão de Barthes (2002), para quem

a narrativa está presente em todos os tempos, em todos os lugares, em todas as sociedades; a narrativa começa com a própria história da humanidade; não há, nunca houve em lugar nenhum povo algum sem narrativa; todas as classes, todos os grupos humanos têm as suas narrativas; muitas vezes essas narrativas são apreciadas em comum por homens de culturas diferentes, até mesmo opostas: a narrativa zomba da boa e da má literatura; internacional, trans-histórica, transcultural, a narrativa está sempre presente, como a vida.

Com base nessa perspectiva crítica potencialmente recôndita no ato de escrever em primeira pessoa, depreende-se que a ordenação das ideias, sensações e aferições de Carolina Maria de Jesus vão ao encontro da formulação de uma crítica à proposta de vida elitista cerceada pelos cânones sociais opressores de seu tempo. Em Casa de Alvenaria, porém, além da presença do teor crítico, a escrita em primeira pessoa, convencionalmente representada pela fala do eu, demonstra precisamente instâncias epifânicas da autora, evidenciando o modo como ela recebia – e digeria, diga-se de passagem – a mudança recorrente à sua volta pelo crescimento de sua notoriedade literária, o que se explica à luz do favorecimento do próprio gênero em que escreve.

O diário, então, permite ao escritor uma mudança na condução de representações, visto que este pode trazer a seus escritos aspectos da realidade precisa, à medida que se faz personagem e escritor, representação e representador, ao mesmo tempo. Ou seja, a figura de Carolina Maria de Jesus não só consolidaria uma crítica graças ao uso desafiador da primeira pessoa, como representaria, por si só, um emblema de refutação de ideais, uma marca de resistência também afetada pela arte e a capacidade tipicamente humana de manejá-la na conjugação de suas narrativas de resistência.

A personificação de Carolina Maria de Jesus como semblante da própria força de resistência contemplada pela enunciação em primeira pessoa, ao apresentar as considerações mais polidas da autora com relação ao mundo à sua volta, demonstra a forma como subscrevia as circunstâncias de opressão vividas. Estar à borda em Carolina Maria de Jesus significa manter-se seguramente consciente de seu lugar de fala, bem como de sua personalidade, o que, espontaneamente, cria uma relação de repúdio ao comportamento do centro – lugar de privilégios alheios à favela e, portanto, às pessoas socialmente estigmatizadas pelo racismo institucional que residem nela. Tal perspectiva pode ser confirmada, por exemplo, com base no modo como a autora relata a maneira como outrem reage demasiado estranho ao adquirir conhecimento de que seu nome consta na autoria de um livro ou quando algum motorista tem de levá-la a casa e se espanta com o lugar periférico largado às traças. Neste último episódio, inclusive, o desabafo solerte de Carolina Maria de Jesus propõe uma atmosfera reflexiva atrelada ao espanto alheio e à dificuldade de aceitação de sua figura, mostrando a barreira redobrada para uma mulher negra, de baixa renda e moradora da favela alcançar determinada posição correlacionada à arte.

Além dos benefícios da escrita em primeira pessoa, é possível perceber também uma outra relação atuante durante o enredo de Casa de Alvenaria: a questão de espaço x tempo. No que se refere ao espaço, o que se vê é a figura de Carolina Maria de Jesus passando por um momento de revolução que se define precisamente no equilíbrio entre local de origem, favela, e local de prestígio, situações convenientes formais decorrentes do sucesso de publicação. A autora, embora aparente estar empolgada com os novos alcances, mostra-se muito consciente do lugar de sua fala, o qual de certa forma lhe oferecera o estopim à revolução e em momento algum o renega. Assim, quanto ao espaço de voz e inserção de Carolina Maria de Jesus, torna-se fácil inferir como a representatividade da favela é dada pela evidência da imagem da escritora, visto que, ao comparecer às entrevistas nas emissoras, dialogar com membros da elite brasileira e no fim de cada dia retornar à casa na favela, a mulher leva a imagem estigmatizada e predestinada ao relento social à posição crucial para que o espaço ganhe notoriedade.

Nesse processo representativo, porém, o tempo põe-se aliado ao espaço, a fim de favorecê-lo em prenúncio. O tempo em Carolina Maria de Jesus, mais do que mero agente em que se concebem experiências, significa presságio de expectativas com relação à relevância da legitimação da figura da mulher negra favelada. Essa proposição, por sua vez, retoma aspectos transcendentais da história de vida da autora, posto que traz à tona o modo como a literatura corroborou a mudança de sua introspecção, evidenciando o modo como os impactos mostraram-se positivos. Partindo das palavras de Todorov (1989), que considera que

a literatura pode muito. Ela pode nos estender a mão quando estamos profundamente deprimidos, nos tornar ainda mais próximos dos outros seres humanos que nos cercam, nos fazer compreender melhor o mundo e nos ajudar a viver. Não que ela seja, antes de tudo, uma técnica de cuidados para com a alma; porém, revelação do mundo, ela pode também, em seu percurso, nos transformar a cada um de nós a partir de dentro.

Faz-se coerente atribuir ao tempo o encargo da mudança em Carolina Maria de Jesus, pois graças a ele a literatura mostrou-se oportuna na medida em que a autora passara por momentos de instabilidade em sua vida na favela. Dessa forma, em Casa de Alvenaria, é possível enxergar um contraste temporal na fala de Carolina que bem ilustra a máxima de Todorov (1989) exposta acima, como o exemplificado pelas passagens “O João gostou da comida e gritou: – Viva a Dona Carolina! Sorri. Ele olhou-me por longo tempo e disse-me: – Por estes dias temos comida e a senhora não precisa chorar. Eles estão alegres porque comeram” (p. 16) e “Mas agora que temos o que comer em casa, ele transformou-se: deixou de ser João Bruto para ser João Gentil. É que a fome deixa as pessoas neuróticas” (p. 16).

Ademais, não somente a relação espaço x tempo mostra-se por inteiro atrelada à mudança em Carolina Maria de Jesus, como também a relação que se dá entre tempo e corpo que escreve. A escritora, posto isso, pode ser vista como um corpo que dialoga com outros durante o curso de Casa de Alvenaria, pois seu apreço pelo local sobre o qual escreve e no qual se insere é capaz de expor a forma como a própria Carolina Maria de Jesus enxerga a questão da unidade. Desse modo, o corpo, ao mesmo tempo que escreve, apresenta-se vitalício à condução da arte rumo às classes oprimidas, fundindo-se com elas em um cenário comum partilhado de igual maneira. O corpo, em face do tempo, ou em si mesmo, em linhas gerais, desconstrói objeções severamente impostas à literatura e refuta o seu caráter representativo ao sucumbir a uma escrita tão peculiar quanto a de Carolina Maria de Jesus.

Então, por que ler Carolina Maria de Jesus?

Em síntese, convém ressaltar que a obra de Carolina Maria de Jesus, sobretudo a tratada em questão, Casa de Alvenaria, oferece subsídios a diversas interpretações acerca da condição feminina e favelada no recorte sincrônico da história brasileira da década de 1960. Percebe-se que a escritora não só revolucionou o espaço de autoria na literatura brasileira como também agregou uma nova tendência à arte literária, uma vez que sua performance literária e seu local de fala explicitamente marcado soaram como uma nova tendência precursora da literatura marginal.

Graças a seu subjetivismo estético natural e desprovido de quaisquer artificialidades formais recorrentes na academia, pode-se dizer que a figura de Carolina Maria de Jesus representa um emblema da cultura brasileira, pois, por seu legado construído na literatura, foi capaz de denotar e transpor às páginas de seus livros a realidade vivida não só pela mulher negra e periférica, mas também por toda uma massa social minoritária. Por isso, não é desapropriado dizer que a autora mostra-se à frente de seu tempo, além de preclaradamente audaciosa por insurgir aos cânones tanto sociais quanto literários através da condução da imagem da mulher negra na arte brasileira ao âmago da visibilidade. Na verdade, Carolina demonstra o verdadeiro escopo da luta por notoriedade, já que, além de mesclar ideários feministas e antirracistas, prova que a literatura brasileira também pode e deve ser feita por mulheres negras moradoras de favelas.

De maneira geral, julgamos conveniente apontar que Carolina Maria de Jesus está para a literatura brasileira assim como Homero está para a literatura ocidental. A única coisa, no entanto, que os distingue é a veracidade com que a escritora estabelece seu performativo literário em dialogismo tamanho com outras tantas reivindicações sociais. Afinal, Carolina Maria de Jesus nada mais é do que a evidência daquilo que o Brasil tem em abundância: milhares de narrativas femininas, negras e estereotipadas caladas com a força da opressão. Torcemos, pois, para que, assim como Carolina, essa voz sedenta por literatura, subjetividade e outros tantos aspectos da ordem do desconhecido introspectivo, não se cale perante o medo de revolucionar na tentativa de instituir um cenário literário mais plural.

Referências

BARTHES, Roland. A aventura semiológica. São Paulo: Martins Fontes, 2002.

BOSI, Ecléa. Memória e sociedade: lembranças de velhos. São Paulo: Companhia das Letras, 1994.

CANDIDO, Antonio. O direito à literatura. In: CANDIDO, Antonio. Vários escritos. Rio de Janeiro: Ouro sobre Azul; São Paulo: Duas Cidades, 2004.

JESUS, Carolina Maria de. Casa de alvenaria: diário de uma ex-favelada. Rio de Janeiro: Paulo de Azevedo, 1961.

TODOROV, Tzvetan. A literatura em perigo. Trad. Caio Meira. 3ª ed. Rio de Janeiro: Difel, 2010.

Publicado em 03 de setembro de 2019

Como citar este artigo (ABNT)

NASCIMENTO, João Paulo da Silva; ARAÚJO, Danielle Reis. Por que ler Carolina Maria de Jesus: ecos da escrita de si como resistência e protagonismo feminino na literatura brasileira. Educação Pública, v. 19, nº 19, 3 de setembro de 2019. Disponível em: https://educacaopublica.cecierj.edu.br/artigos/19/19/por-que-ler-carolina-maria-de-jesus-ecos-da-escrita-de-si-como-resistencia-e-protagonismo-feminino-na-literatura-brasileira