O fracasso escolar e a importância da Orientação Educacional – um diálogo necessário

Fernanda Fochi Nogueira Insfrán

Doutora em Psicologia (PPGP/UFRJ), professora adjunta (UFF)

Thalles Azevedo Ladeira

Mestrando (PPGEN/UFF)

O presente trabalho tem por finalidade abordar o fenômeno do fracasso escolar e a importância da atuação do orientador educacional nessa questão, haja vista que ele deve ser o profissional habilitado para lidar com as diversas questões que surgem no espaço escolar por parte do aluno; uma delas é a que se refere aos problemas de aprendizagem.

Esta pesquisa nasceu de uma pós-graduação realizada pelo autor durante o ano de 2018, cuja habilitação é específica para trabalhar como orientador educacional nos espaços escolares.

O orientador educacional é a figura na escola que deve prestar apoio fundamental aos professores e a toda a equipe escolar, partindo da premissa de uma gestão democrática, em que ele deve se responsabilizar por uma série de demandas que envolvem a equipe escolar de modo geral.

Cabe compreender que a gestão democrática

é entendida como a participação efetiva dos vários segmentos da comunidade escolar, pais, professores, estudantes e funcionários na organização, na construção e na avaliação dos projetos pedagógicos, na administração dos recursos da escola, enfim, nos processos decisórios da escola (Oliveira; Moraes, 2011, p. 4).

Nesse sentido, vale destacar a importância de uma gestão democrática dentro do ambiente educacional no qual o orientador educacional se inclui e o suporte que pode ser dado por essa gestão aos alunos que apresentam problemas de aprendizagem.

No que se refere mais especificamente ao trabalho do orientador educacional, cabe a ele desenvolver um trabalho estrutural com tais alunos, um trabalho que envolva seus professores, a família, a coordenação pedagógica e outros profissionais que precisarem ser mobilizados. Nesse sentido, encaminhamentos podem ser fundamentais, como para psicólogos, psicopedagogos e fonoaudiólogos, dentre outros, a fim de superar os problemas de aprendizagem e evitar o fracasso escolar – que se desdobra em evasão escolar –, dos quais muitos alunos ainda são vitimas.

É importante deixar claro que, diferente do que muita gente pensa, a culpa pelo fracasso escolar não é do aluno, tampouco dos professores e da equipe escolar; é, sim, de um sistema social que produz a desigualdade e a diferença de oportunidades que resultam em alunos que, vindos de uma realidade social de vulnerabilidade social, não encontram sentido no ambiente escolar ou não acreditam serem bons o bastante para estarem inseridos naquele espaço.

Em relação a isso, Patto (2010) sustenta a ideia de que o que é valorizado pela escola são as normas, os padrões, os hábitos e as práticas da classe dominante, e por isso qualquer aluno das zonas rurais, da favela ou de qualquer outro lugar socialmente “inferiorizado” que trouxer consigo para a escola hábitos e culturas “estranhos” à cultura hegemônica poderá ser visto como diferente e, ainda que de forma imperceptível, tornar-se-á alvo de exclusão pelos demais. Nesse sentido, muitas são as questões sociais que atravessam o ambiente escolar e desencadeiam o fenômeno do fracasso escolar, que cotidianamente ocorre em alunos pertencentes às camadas populares, levando-nos a compreender que o fracasso escolar tem classe social.

Por essa razão, reforçamos mais uma vez a importância fundamental da atuação do orientador educacional junto aos alunos com dificuldade de aprendizagem, baseando-se em um acompanhamento sistemático, cujo objetivo é fazê-los acreditar primeiramente em si mesmos, na importância da apropriação do conhecimento para a vida e para a humanização do ser humano em parceria com a instituição escolar como espaço de democratização do acesso ao conhecimento.

A orientação educacional frente ao fracasso escolar

Diante das premissas já analisadas sobre o fracasso escolar, adentraremos a sua relação com a Orientação Educacional, a fim de compreender melhor as relações que se estabelecem entre o trabalho do orientador educacional e o fenômeno do fracasso escolar, desenvolvido em alunos com dificuldades de aprendizagem. A fim de iniciar a reflexão, cabe citar Grinspun (2011), que afirma:

em termos de trajetória da análise do fracasso escolar, a Orientação Educacional se fez presente respondendo com suas atribuições aos papéis que eram devidos nos trabalhos realizados. Quando o fracasso estava centrado nas diferenças individuais, ela procurava identificar essas diferenças através dos instrumentos de mensuração (Grinspun, 2011, p. 87).

Fica claro nessa citação que em relação à trajetória de superação do fracasso escolar, o orientador educacional, ao longo de diferentes décadas, buscou resolver essa questão de diversas maneiras, com base em diferentes perspectivas que já permearam o ambiente escolar em determinados períodos históricos.

Era comum, no Brasil de até 40 anos atrás, orientadores educacionais utilizarem instrumentos de mensuração do conhecimento para compreender o fenômeno do fracasso escolar. Buscavam aplicar testes de QI para medir o nível de conhecimento dos alunos, partindo de uma perspectiva extremamente positivista de interpretação do conhecimento e altamente estigmatizadora para os alunos que eram classificados com QIs inferiores à média.

Nesse sentido, buscava-se responsabilizar os alunos pelos seus problemas de aprendizagem, afirmando que, se eles não conseguiam se adequar ao ambiente escolar, era porque não tinham nascido com grande potencial de conhecimento que lhes possibilitasse sucesso na experiência escolar; essa visão ainda está muito presente nos espaços escolares, sendo compartilhada por professores, gestores escolares e demais profissionais envolvidos.

Outra perspectiva com a qual nos deparamos até os dias atuais, mas que é completamente contrária à perspectiva crítica que estamos defendendo ao longo deste trabalho, é a do viés meritocrático. Ainda é possível encontrar facilmente muitos orientadores educacionais afirmando que os alunos que desenvolvem dificuldades de aprendizagem fazem-no porque não se esforçam o suficiente para alcançar o sucesso, deixando de considerar todas as questões ligadas ao político e ao social que atravessam as escolas e, mais especificamente, a realidade dos alunos.

Por essa razão, defendemos que o papel do orientador educacional frente ao fenômeno do fracasso escolar se dê a partir de uma postura crítica, emancipadora, que não negue as questões sociais, que não culpabilize os alunos pelo seu insucesso escolar, que não os rotule em momento nenhum pelas suas dificuldades de aprendizagem, mas que seja um parceiro do aluno, do professor, e da comunidade escolar como um todo, entendendo que o processo de ensino-aprendizagem acontece nos alunos de maneira muito particular, uma vez que eles são únicos, carregados de subjetividades e singularidades nas formas de aprender e de se apropriar do conhecimento.

Considerações finais

Frente a toda a discussão que viemos desenvolvendo em relação ao fracasso escolar e ao trabalho do orientador educacional, cabe neste momento procurar responder à pergunta que nos provoca no título desse trabalho e que de algum modo veio nos acompanhando até aqui: o que o orientador educacional tem a ver com o fracasso escolar?

Partindo do pressuposto de que cabe ao orientador melhorar o desenvolvimento dos alunos que apresentarem dificuldades de aprendizagem e ao levarmos em conta que é de sua responsabilidade o sucesso escolar dos alunos pertencentes ao seu ambiente escolar (e não apenas dos professores e/ou dos pais), afirmamos que sim, ele tem tudo a ver com o fenômeno do fracasso escolar que ocorre com os alunos de sua escola.

Desse modo, ao orientador educacional cabe a tarefa de fortalecer as relações com todos os alunos pertencentes a seu ambiente escolar e manter uma profícua relação com os professores, com os pais, com a gestão da escola e com todos os profissionais envolvidos no ambiente da escola, porque o fracasso escolar é um problema grave, que só é possível ser vencido com muitas mãos, com parcerias dos profissionais envolvidos na escola e com base em uma relação de companheirismo e afinidade com os alunos.

É importante ressaltar que não é papel do orientador educacional fazer diagnósticos acerca das dificuldades de aprendizagem dos alunos; sua atribuição é observar os fatores que estão levando o aluno a não se desenvolver como deveria e, a partir desse momento, planejar e realizar atividades que estimulem sua aprendizagem. Caso o aluno não corresponda a essas atividades, a partir desse momento caberá ao orientador, juntamente com a coordenação pedagógica, buscar auxílio psicológico, entre outros.

Em suma, este trabalho remete a questões desafiadoras, pois o fracasso escolar, como vimos, é um tema que ainda está permeado de muitos preconceitos e muitas possibilidades de interpretação, que dialogam com o senso comum na medida em que culpabilizam e rotulam o aluno pelo seu insucesso na escola, deixando de considerar o viés sociopolítico de desigualdades sociais e seus desdobramentos no ambiente escolar como fator de promoção do fracasso e da evasão escolar.

Referências

GRINSPUN, Miriam P. S. Z.  A Orientação Educacional: conflito de paradigmas e alternativas para a escola. 5ª ed. São Paulo: Cortez, 2011.

PATTO, Maria Helena Souza. A produção do fracasso escolar: histórias de submissão e rebeldia. 3ª ed. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2010.

OLIVEIRA, J. F.; MORAES, K. N. (Orgs.). Dossiê: políticas e gestão da educação superior. Goiânia: Ed. UFG, 2011. v. 36.

Publicado em 01 de outubro de 2019

Como citar este artigo (ABNT)

INSFRÁN, Fernanda Fochi Nogueira; LADEIRA, THalles Azevedo. O fracasso escolar e a importância da Orientação Educacional – um diálogo necessário. Educação Pública, v. 19, nº 23, 1 de outubro de 2019. Disponível em: https://educacaopublica.cecierj.edu.br/artigos/19/23/o-fracasso-escolar-e-a-importancia-da-orientacao-educacional-r-um-dialogo-necessario