A velha casa

Hugo Maddalena Junior

A velha casa ainda continuava de pé: imponente, na sua mudez, e impotente, na sua nudez, acomodada sobre as glórias de um passado não muito distante. Um passado que, ela se lembrava muito bem, nas festivas tardes de sábado e nos acontecimentos familiares mais solenes, conferira-lhe a falha impressão de eterna opulência, de prolongada satisfação.

Agora ela não sentia mais tal alegria. Lembrava-se desses momentos, plenos de realização, com ares de soberana decadente, consolada pelos louros do sucesso que, um dia, desfrutou e presenciou.

Hoje, lá estava ela...

Ainda mantinha, ao menos procurava manter, a imponência dos bons tempos, mas revestida por um evidente sentimento de humilhação. Assemelhava-se a um centenário monumento de bronze, esquecido e empoeirado, que teimasse em tentar ganhar vida...

Suas paredes caiadas de branco – antes imaculadas; hoje, encardidas – continham rabiscos e manchões profanos. A porta, imensa, trabalhada em toda a sua extensão pelas mãos vigorosas de competentes artesãos, obra do mais puro barroco colonial, revelava já sinais de desuso e, em alguns cantos, saltavam aos olhos pequenas esfoliações, maculando o envelhecido jacarandá.

Decadente e humilhada...

Na abóbada, de telhas que outrora foram vermelhas e uniformes, podia-se ver, em diversos pontos, o resultado dos duros e cruéis golpes desferidos pelo tempo: grandes buracos disformes espalhados por todo o telheiro. Buracos que, nos dias de vento e chuva, deixavam nu e desprotegido todo o seu valioso interior, que, ex-aposento de nobres e senhores fidalgos, hoje, amarelado, estava à disposição de qualquer pretensioso pequeno burguês.

E, no entanto, ela continuava de pé, iludida pelos seus sonhos de grandeza...

A velha casa era, antes de tudo, nobre. Seu sangue era, antes de tudo, azul. A decadência doía-lhe na alma, mas seu orgulho era ainda mais forte e cego.

Restavam-lhe os sonhos...

Sim, ela continuava de pé, perdida displicentemente em recordações, a poucos instantes do amanhecer de um novo dia, que, ela sabia, seria igual a todos os outros: humilhante. Desavisadamente e sem entender, ela olhava para o que restava do que já fora um suntuosíssimo jardim...

Ambos, a velha casa e o jardim, somente cacos de luxúria e suntuosidade.

A manhã se aproximava e ela permanecia estanque, com a mesma atitude resignada e contemplativa... humilhada.

Finalmente, a manhã se fez presente, intensa, devolvendo luz e vida à região, entorpecida pela noite. Mas nem os fulminantes raios de sol conseguiriam iluminar aquela velha casa. Ela permaneceria ofuscada pelas trevas, pelo breu de sua situação irreversível. Trevas vindas do seu pensamento...

Clareava.

O dia já se fazia sentir pelos ruídos vindos das ruas... ruídos de pessoas saindo, de carros passando, ruídos de vida.

E a velha casa mantinha-se alheia a esse mundo.

Longe...

Mas, para espanto da velha casa, desacostumada à presença humana, alguns homens surgiram em bandos silenciosos pelo terreno adentro e, em frente ao portão principal, carcomido pela ferrugem, estacionaram alguns carros e máquinas.

Como antigamente...

Por um instante, sua memória brilhou e a esperança, num fluxo curto e jovial, subiu-lhe à cabeça. Quem sabe? Pode ser que... de novo...

A velha casa lembrou-se dos bailes de sábado e sonhou com a sua ressurreição. Não seria mais uma morta viva... viveria.

Os homens, musculosos e de maneiras aparentemente rudes, vestiam grosseiros macacões de brim surrado e calçavam grotescas e enlameadas botinas de borracha sintética. Mas a velha casa não via nada disso. Via, isso sim, nobres senhores de preto e belas senhoras engalanadas em alegóricos vestidos de baile. Em suas costas, fortes e espadaúdas, podia-se ler, em letras douradas: Astória Demolidora. Moviam-se devagar e sem entusiasmo; afinal, era apenas mais um serviço, igual a tantos outros que costumavam fazer.

Publicado em 05 de novembro de 2019

Como citar este artigo (ABNT)

MADDALENA Jr., Hugo. A velha casa. Educação Pública, v. 19, nº 28, 5 de novembro de 2019. Disponível em: https://educacaopublica.cecierj.edu.br/artigos/19/28/a-velha-casa