Discurso emancipador e identidade em "Negritude – usos e sentidos", de Kabengele Munanga: uma proposta de resenha

João Paulo da Silva Nascimento

Licenciando em Letras: Português e Literaturas de Língua Portuguesa (UFRJ)

Josué Gabriel de Freitas Kahanza Zito

Licenciando em Letras: Português-Latim (UFRJ)

A obra Negritude – uso e sentidos, de 1988, de autoria do escritor, professor e pesquisador congolês Kabengele Munanga, objetiva introduzir a temática da negritude em face de sua complexidade interpretativa, ora favorecida pela história cultural da colonização de África, ora pelo desconhecimento das premissas epistemológicas do movimento de resistência que constitui. Para fins de estruturação didática da temática, o livro divide-se em seis capítulos que organizam linearmente a construção da argumentação proposta: Introdução, Condições históricas, Tentativas de assimilação dos valores culturais do branco, O negro recusa a assimilação, Diferentes acepções e rumos da negritude e Críticas. Não se distinguem, pois, história e movimento social autoafirmativo, na medida em que a definição do conceito de negritude implica, necessariamente, compreender o performativo social negro em uma lógica de mundo pormenorizada em relações opressoras entre colonizador e colonizado.

No capítulo introdutório, Munanga discute a negritude como um caminho por meio do qual negros e negras regressam às suas origens socioculturais em movimento de recusa à imposição da cultura colonizadora que lhes fora imposta. No entanto, ao definir assim a negritude, torna-se imprescindível a discussão do ponto condutor à necessidade de rompimento em busca do regresso, isto é, a relação antecedente de racismo justificado pela lógica eurocêntrica norteadora de ações imperialistas do homem branco.

Conforme apontado por Said (1993), em uma relação de dominância imperialista, o discurso do poder emerge sustentado por uma lógica falaciosa de benevolência, na qual o colonizador desempenha uma espécie de “boa ação” ao tornar outros povos subalternos à sua própria cultura. No caso de África não seria diferente, pois, apesar de essa benevolência vir travestida pelo discurso científico, filosófico e religioso, não importaria o quão aproximado da cultura do colonizador o africano estivesse; nada o poria em posição de equidade, uma vez que sua naturalidade por si só já o destacaria negativamente em um mundo forjado pelo eurocentrismo. Por isso, o autor afirma que o cerne da negritude, ou seja, a retomada da origem, de alguma maneira, existiu em todos os locais de dominância, ainda que não fosse nomeada.

No segundo capítulo, Munanga debate as condições históricas que perpassam a trajetória da negritude como movimento de resistência e autoafirmação cultural, elencando aspectos relativos à sociedade colonial, à sociedade colonizada, aos discursos pseudojustificativos e aos mitos e estereótipos criados para categorização inferior dos colonizados. Nesse sentido, deve-se tratar de negritude compreendendo efetivamente que ela surgiu em vias das condições coloniais e das legitimações veiculadas discursivamente, a fim de se contrapor à concepção de missão civilizadora do Ocidente difundida em tom messiânico por nações europeias, que pressupunha uma distinção entre colonizador e colonizado pautada em superioridade e inferioridade.

Por essa razão, postas as demandas para suprir um imperialismo tanto de mercado quanto histórico/ideológico, Munanga aponta a recorrência ao discurso como maneira de justificar o genocídio cultural e racista que marca a história da África Colonial. Dentre essas legitimações redutoras da figura do negro em níveis ontológico, epistemológico e teológico, destacam-se o discurso cristão (como o mito camítico e a missão civilizadora), o discurso científico racista (por exemplo, a teoria da degeneração fundamentada no clima, proposta inicialmente por Heródoto) e os estereótipos do negro como um ser naturalmente perverso, preguiçoso e retardado intelectualmente. Além disso, mesmo o discurso cientificista e a vertente filosófica iluminista do século XVIII contribuíram para o fortalecimento dessas estigmatizações ao fortalecer uma generalização do negro com base em falácias e características físicas consideradas comuns por eles. Diante disso, promulga-se a ideia de que o homem branco é o protótipo e, ao fazê-lo, busca-se uma explicação científica – e já racista, diga-se de passagem – para o negro, considerando-o um exemplo atípico e, portanto, inferior.

Com base nesse apanhado histórico, o terceiro capítulo traz à tona uma questão crucial para entender a negritude em sua extensão sígnica: a tentativa de assimilação dos valores culturais do colonizador – nesse caso, o homem branco europeu. Trata-se de um embranquecimento pensado como tal para que seus alvos fossem desumanizados e, por meio de uma tentativa infame e mentirosa de integrá-los, consumados pela cultura dominante, para que se tornassem mais suscetíveis à exploração. Esse embranquecimento discutido por Munanga – o qual parece perdurar até os dias contemporâneos – consiste de um apagamento da cultura negra na expectativa de se adequar aos valores culturais brancos, na expectativa de adquirir estatuto semelhante ao do colonizador no mundo. Como exemplos dessa assimilação ressaltam-se a adesão parcial e/ou total ao uso das línguas dos colonizadores, a manutenção de relações afetivas entre homens brancos e mulheres negras e a tentativa de adequação ao modo de vida europeu.

Após ter sofrido inúmeras humilhações, ter se submetido aos prazeres sádicos do homem branco, ter se descaracterizado física e mentalmente para apresentar uma falsa assimilação da cultura, política, moral e ética difundidas pelo colonizador europeu, o homem negro se vê/viu obrigado a sair em busca de suas origens renegadas, fazendo de suas amargas experiências  um bastião no qual se sustentará, a fim de reencontrar sua integridade psíquica e somática que, há pouco tempo, fora brutalmente surrupiada.

Para isso, é fundamental que um olhar introspectivo seja projetado a partir dos descendentes daqueles que foram arrancados de sua pátria, proporcionando um ambiente no qual os seus agentes desempenharão papéis centrais nas atividades que sejam de extrema importância para o processo de emancipação e de retorno simbólico ou efetivamente concreto ao continente africano. Os herdeiros do péssimo legado deixado pela colonização e pela escravidão terão que se comprometer com seus iguais, com os quais somarão forças, a fim de superar os resquícios da ação do homem branco europeu que insistem em assolá-los quotidianamente.

Grupos presentes nos territórios dominados pelos brancos europeus buscam se emancipar totalmente dos legados horrendos e catastróficos ditados pela ação do colonizador, apropriando-se de uma lógica autônoma que permita a criação de maneiras primordialmente negras de pensar e de conceber o mundo que os cerca, o que configura uma tentativa de reconstrução da autossuficiência que o homem branco também usurpara do homem negro. Quando o homem negro obtiver êxito na reconstrução da atmosfera da qual fora retirado, será capaz de reconstituir cabalmente sua dignidade originária.

O homem negro deixa de ocupar o lugar de objeto incognoscível criado pelo imaginário branco para ser sujeito plena e perfeitamente cognoscível de suas próprias produções, tomando partido de sua trajetória individual e amando suas atribuições intelectuais e corporais, que foram e que, lamentavelmente, ainda são menosprezadas. O projeto difamatório das atribuições negras ainda reverberam/ecoam na vida dos negros que herdaram as lutas e o desprezo direcionado aos seus antepassados.

O movimento da negritude, cujo objetivo primário foi desmistificar o mito da assimilação, põe em destaque, segundo Munanga, os efeitos das ações propagadas pela discriminação do homem branco em detrimento do homem negro, no qual os agentes nocivos (homens brancos com alto grau de periculosidade) devastaram um continente inteiro e deixaram suas etnias órfãs, apoderando-se de suas riquezas materiais e imateriais sem se importar com as drásticas consequências de seus atos danosos. Apesar de ter sido veementemente repelida, a cultura negra e diaspórica floresce e busca refúgio nos solos inóspitos que os colonizadores, a muito contragosto, foram obrigados a deixar.

A luta do movimento da negritude consolidar-se-á por meio de suas raízes singulares, observando que o negro só poderia ser verdadeiramente emancipado por meio de mãos negras. O colonizador de pele alva em hipótese alguma cogitava a respeito dos males irreparáveis que estava impondo aos homens de pele escura. Se não houvesse uma iniciativa negra que contrastasse com as punições do homem branco direcionadas ao homem negro, ainda poderíamos estar sob os dogmas do governo colonizador e escravagista.

A identidade, a fidelidade e a solidariedade foram as bases para a identidade cultural negra africana, sobre as quais os protagonistas da negritude se debruçaram com o intuito de engendrar os sustentáculos do movimento da negritude. Os objetivos primeiros do movimento serviram de suporte para a construção do próprio entendimento do que é ser negro e de como enfrentar as adversidades que acompanham a tonalidade da pele.

Então, o que seria a negritude propriamente dita? Segundo Munanga, a negritude é o sentimento que nos liga secretamente a todos os irmãos negros do mundo, que nos leva a ajudá-los a preservar uma identidade comum. A negritude é tudo aquilo que diz respeito à raça negra; é a consciência de pertencer a ela e de se entender como um ser que está devidamente relacionado a ela, uma vez que traços físicos e até mesmo mentais indicam uma herança negra ou negroide (habitantes fora de África que compartilham traços físicos com os habitantes desse continente).

Para Munanga, é fundamental a percepção do conceito de negritude intimamente ligado ao significado sociocultural de classe, visto que alguns autores subestimam esse aspecto, tendo em vista o fator racial inerente ao conceito de negritude. As ofensas direcionadas a pessoas negras não são puramente relacionadas ao âmbito sociocultural, mas também ao âmbito racial, donde a grande diferença entre oprimidos negros e outros. Não se pode desconhecer que o mundo negro, no seu conjunto, vive uma situação específica, sofrendo discriminação baseada na cor.

Os conceitos tratados anteriormente não nos deixam negar o quão importante é entender as correntes que buscam um esclarecimento para o que acontece e continua acontecendo com o povo negro, valendo-se de elementos históricos, filosóficos, antropológicos para chegar perto de um denominador comum que seja minimamente suficiente para reconstruir a história de um povo que fora (e ainda é) historicamente discriminado. Embora o assunto não seja de fácil esgotamento, encerraremos nossas discussões, aguardando que outros agentes deem continuidade aos caminhos que foram abertos e trilhados até o presente momento.

Referências

MUNANGA, Kabengele. Negritude – usos e sentidos. 2ª ed. São Paulo: Ática, 1988. Série Princípios.

______. Uma abordagem conceitual das noções de raça, racismo, identidade e etnia. Palestra proferida no 3º Seminário Nacional de Relações Raciais e Educação – Penesb/RJ, em 5 de novembro de 2003.

SAID, Edward. Cultura e imperialismo. São Paulo: Companhia das Letras, 1993.

Publicado em 19 de novembro de 2019

Como citar este artigo (ABNT)

NASCIMENTO, João Paulo da Silva; ZITO, Josué Gabriel de Freitas Kahanza. Discurso emancipador e identidade em “Negritude – usos e sentidos", de Kabengele Munanga. Educação Pública, v. 19, nº 30, 19 de novembro de 2019. Disponível em: https://educacaopublica.cecierj.edu.br/artigos/19/30/discurso-emancipador-e-identidade-em-rnegritude-r-usos-e-sentidosr-1988-de-kabengele-munanga-uma-proposta-de-resenha