O uso da internet por estudantes de Ensino Fundamental: reflexão sobre a internet como ferramenta pedagógica

Priscila Portela

Doutoranda em Educação em Ciências (UFRGS), mestre em Educação em Ciências, licenciada e bacharel em Ciências Biológicas, licenciada em Pedagogia, docente no município de Farroupilha e na rede estadual do Rio Grande do Sul

Márcia Finimundi Nóbile

Doutora em Educação em Ciências (UFRGS/RS), mestre em Ensino de Ciências e Matemática (Ulbra), licenciada em Ciências: Habilitação Matemática, bacharel em Administração de Empresas, supervisora Educacional da Secretaria Municipal de Educação de Farroupilha, professora do Programa de Pós-Graduação em Educação em Ciências: Química da vida e saúde (UFRGS)

Existe uma discussão em relação aos benefícios e prejuízos quanto ao uso da internet, principalmente entre crianças e adolescentes. Estes, muito acostumados e indireta e/ou diretamente envolvidos não só com o uso da internet, mas com todo o processo tecnológico atual, utilizando-o para os mais variados fins, podendo consultar/buscar praticamente pessoas e locais, no mundo todo – o que até pouco tempo, restringia-se a um uso bem mais moderado. Segundo Schwartz (2005, apud Nardon, 2006), “a internet está, cada vez mais, presente no cotidiano das pessoas”, principalmente na vivência dos jovens.

Mas o que é internet? Para Castells (2004, p. 16), “a internet é um meio de comunicação que permite, pela primeira vez, a comunicação de muitos para muitos em tempo escolhido e a uma escala global”. Conforme Guizzo (2002), “constituída por um grande número de redes, a internet é um sistema global de comunicação, através do qual milhões e milhões de pessoas podem se comunicar, trocar informações, recursos e serviços”.

A geração atual possui agora uma vasta e ilimitada gama de informações ao seu alcance; isso lhes traz inúmeras vantagens: mais conhecimento, informações mais rápidas e de modo mais fácil do que antigamente, interação – seja ela a curta ou longa distância – e comunicação, seja com familiares, amigos ou namorado(a); é uma geração informatizada, mais do que isso, globalizada, envolta em um mundo tecnológico.

A geração internet assiste menos à televisão do que seus pais e, se o faz, é de maneira diferente. É mais provável que um jovem da geração internet ligue o computador e interaja simultaneamente com várias janelas diferentes, fale ao telefone, ouça música, faça o dever de casa, leia uma revista e assista à televisão (Tapscott, 2010).

Em contrapartida, não há como não ressaltar as preocupações – especialmente quanto ao uso excessivo da internet por parte dos jovens, que muitas vezes ainda estão aprendendo sobre limites. Dentro desse contexto, pode-se citar alguns malefícios aos quais os jovens precisam estar atentos; exemplificando, Caetano et al. (2010), destacam o cyberbullying, a perda da privacidade, o risco de ser encontrado – pois as redes sociais mostram dados pessoais –, recebimento de material pornográfico e/ou violento, ser vítima de sites fraudulentos, além dos vírus.

Porém, o contexto atual toma ainda uma outra faceta, o aproximar-se do tecnológico ao passo que se afasta do mundo real – milhares de amigos virtuais, poucos ou nenhum na vida real. É um fato alarmante, visto o número de jovens que entram em depressão em nossa sociedade contemporânea. Vivem na era da informação, ao passo que muitas vezes veem-se envoltos pela tristeza e solidão. Quantos não são os casos de jovens deprimidos e com ideias suicidas. Nardon (2006) ressalta que as relações de afeto se tornam mais “frias”, pois a comunicação passa a ser virtual e não “ao vivo”.

De acordo com Fonte (2008), quando o adolescente não possui supervisão no acesso à internet, esta pode tornar-se mais do que um meio de acesso a informações, vindo a ser um fator que desestrutura o processo social e emocional desse adolescente. Lévy (2000) ressalta que existem dependentes da internet, que passam horas em frente ao computador – em salas de bate-papo, jogos, ou simplesmente navegando incansavelmente de página em página.

Fonte (2008) destaca ainda que existem vários indícios que mostram que o adolescente está dependente da internet: preocupação quando a internet está off-line, necessidade urgente e contínua de acessar a internet e de utilizar a internet como meio para fugir de seus problemas, sejam eles insegurança, timidez, medo, culpa ou ansiedade, entre outros.

Nessa visão, Greenfield (2011) também destaca que o uso excessivo da tecnologia estaria afastando os jovens do convívio social; mais do que isso, da vida real, prejudicando gravemente as relações humanas no futuro.

Cabe refletir: até que ponto as crianças e adolescentes estão sendo afetados positiva ou negativamente pelo uso das mídias? Não é possível uma mediação entre o mundo real e o mundo virtual? O quanto essa relação influencia suas vidas, sua saúde, seu bem-estar?

Ao pensar no quesito saúde e bem-estar, cabe refletir sobre o ritmo biológico de cada indivíduo, que atua nos diferentes ciclos, mas sincronizados entre si no corpo humano. Destacam-se os ritmos biológicos, neste artigo, nas horas utilizadas pelos adolescentes em aparelhos tecnológicos que podem influenciar a qualidade do sono e, consequentemente, a aprendizagem e demais atividades do dia a dia.

A luminosidade ao entrar no olho e atingir a retina, ativa estruturas biológicas que captam primeiro a luz, exemplificando de forma simplificada, transformando-se em impulsos elétricos, fazendo interações com outras importantes células nervosas, influenciando no ciclo vigília-sono dos adolescentes.

Retornando ao conceito e à importância do ritmo biológico, é uma predisposição intrínseca do indivíduo, que o faz sentir-se mais ou menos disposto ao desenvolvimento de suas atividades cotidianas, de acordo com o período do dia/noite. Isso o influencia, visto que, sendo um fator intrínseco, possibilita moldar alguns traços de sua personalidade no que diz respeito ao estímulo de respostas ao ambiente – conforme seu ritmo interno. Consequentemente, também possui reflexos em todas as suas ações cotidianas e no seu rendimento escolar. Segundo Wey (2010), o ritmo biológico é toda a expressão fisiológica e/ou comportamental de um ser vivo que possui periodicidade regular gerada internamente. Chaves (2010) destaca que cada indivíduo possui seu próprio ritmo.

Ao pensar que, antigamente, mais conectados ao mundo real e menos ao virtual, de certa forma respeitávamos mais nosso funcionamento interno. O que acontece atualmente é um excesso de informações – o que acarreta a desregulação de nosso relógio biológico, nos transformando em seres que vivem e agem no modo automático, que possuem suas ações regulamentadas por “máquinas”, pelo horário de dormir e acordar referente às obrigações e responsabilidades, e não ao nosso próprio organismo. Não que se deva largar tudo e viver à deriva do caos, mas, com tanto conhecimento disponível na era digital, que se busque equilíbrio entre tantas responsabilidades e obrigações e nosso lado psíquico-saudável.

Em relação aos adolescentes, torna-se um assunto muito mais complexo, visto que eles estão em constantes mudanças físicas e psicológicas, em meio ao ciclo da puberdade e permeados pelo mundo tecnológico. Necessitam de orientação, de supervisão, de barreiras que lhes mostrem certos limites. A internet é uma ferramenta indispensável no cotidiano atual; no entanto, cabe aos adultos, à família e à escola orientá-los e ter um processo de apoio aos jovens.

Entretanto, por um lado os jovens abusam do uso das mídias; por outro lado, elas são grandes aliadas desses adolescentes, principalmente como estudantes. É quando a internet se torna uma ferramenta em sala de aula, um recurso aliado – tanto do aluno quanto do professor.

Conforme Oliveira (1997), alunos e professores precisam receber incentivo a fim de que possam utilizar as novas tecnologias, com objetivo de contemplar as necessidades educacionais. Como citam Holbig et al. (2006), é uma ferramenta para pesquisa e comunicação, aprendizado e troca de ideias.

Há uma distância, no entanto, entre a visão da escola tradicional e a visão dos alunos nascidos em meio a essa tecnologia, fato esse que reflete na escola: a crise educacional gerada em decorrência de a geração Z não se adaptar frente a essa necessidade de estar o tempo todo conectada com o mundo virtual, vendo a escola tradicional como algo que não a estimula a atender suas necessidades.

Atualmente ocupando as classes de Ensino Fundamental e Médio, a "geração Z" acabou com o reinado das aulas expositivas. Já não basta intercalar conteúdos e exercícios: para atrair a atenção dos jovens, a tecnologia é a principal aliada dos professores (Cherubin, 2012, p. 1).

Conceituando historicamente, a primeira geração existente foi após a Segunda Guerra Mundial; não se têm registros de gerações anteriores. Em uma nomenclatura moderna, surgiu a geração X, formada pelos filhos dos baby boomers (expressão para definir genericamente crianças que nasceram decorrentes de uma explosão populacional): quando os soldados voltaram da Segunda Guerra, retornaram às suas famílias, sentiram-se em segurança para dar continuidade a esse convívio, o que resultou em um período com muitos nascimentos (Oliveira, 2010).

Esse grupo tem sua data localizada entre os anos de 1960 e 1980, e estava ainda um pouco longe do que hoje consideramos “a era digital”, ou seja, as crianças dessa geração não tiveram praticamente nenhum contato com uso de mídias tecnológicas. Segundo Ulrich (2004), eram omissos, sem identidade.

Na sequência, tivemos a geração Y, a segunda geração; apesar de não haver consenso entre os autores, a maior parte destaca que são indivíduos nascidos entre 1980 e meados de 1990. São os filhos da geração X e netos dos baby boomers. Eles nasceram em um período de transição, em que as multimídias, especialmente a internet, ganhou ampliação entre a grande massa populacional; dessa forma, os jovens começaram a conhecer e a interagir com as mídias. Trata-se da “geração do computador”, das facilidades, da globalização. São jovens já familiarizados com a tecnologia e tendo o imediatismo como característica (Fagundes, 2011).

Tem-se, após esse período, a geração Z, que não possui data definida. A maioria dos autores destaca o nascimento da geração Z entre 1990 e 2009. Uma geração que quer tudo “pronto” e rapidamente; são eles que mergulham no mundo virtual e sofrem grandes impactos em decorrência disso. O mundo se torna pequeno e sem fronteiras (McCrindle, 2011; Facco et al., 2015). A geração Z é a geração do imediatismo, da execução de várias tarefas ao mesmo tempo e da dificuldade em lidar com autoridade e hierarquia.

Nesse sentido, Mark Prensky (2001) ressalta que essa distinção entre professor e aluno é crítica na educação, porque estamos numa época em que todos nossos alunos são nativos digitais, ao passo que os educadores, professores, administradores e planejadores curriculares são imigrantes digitais. Mendes (2001) afirma que “os computadores nos desafiam a buscar ações inovadoras e a repensar nosso papel de educadores no atual contexto”.
De acordo com Santos (2012), os professores não estão preparados nem há infraestrutura disponível adequada. Muitas escolas com propostas tradicionais de ensino não têm uma proposta pedagógica que contemple a internet e as tecnologias, a fim de motivar os alunos, em uma aprendizagem efetiva.

Assim, conhecendo essa nova geração e as que estão por vir, é necessário mais do que nunca que o ensino passe por uma reforma revolucionária, em que o professor não seja mais um transmissor de conteúdos e o aluno, um recebedor, mas sim que os dois sejam agentes que interajam – e o professor o mediador de conhecimento.

Kenski (2006, p. 224) destaca que “há necessidade de novas concepções para abordagens dos conteúdos, novas metodologias de ensino e novas perspectivas para a ação de professores, alunos e todos os profissionais da educação”.

Segundo Lévy (1999), a principal função do professor não deve ser mais a de difusor de conhecimento, pois isso é feito de forma muito eficaz por outros meios. Sua função deve se deslocar no sentido de ser um incentivador da aprendizagem e do pensamento, do posicionamento crítico e reflexivo. O professor deve tornar-se um animador de inteligência, dos alunos que estão sob sua responsabilidade. Santos (2012) chama a atenção para o fato de que

ensinar utilizando a internet pressupõe uma atitude do professor diferente da convencional. O professor não é o informador, aquele que centraliza a informação. (...) Sua primeira tarefa é sensibilizar os alunos, motivá-los para a importância da matéria, mostrando entusiasmo, ligação da matéria com os interesses dos alunos, com a totalidade da habilitação escolhida (Santos, 2012, p. 20).

Leite (2000) afirma que, diante dessa realidade, as escolas precisam mudar seus roteiros e focar-se em trabalhar a formação de cidadãos críticos, criativos, tendo a tecnologia no seu dia a dia. Cabe à escola essa função, utilizando-a como meio de ensino-aprendizagem.

Para Bonilla (2005), as possibilidades que as tecnologias de informação e comunicação oferecem geram um contexto de dinâmicas que permitem emergir situações e atividades novas, diferentes, criativas, impensadas; dessa forma, termos uma educação muito mais significativa tanto para alunos quanto para professores. Behrens (2001) analisa:

se a escola não inclui a internet na educação das novas gerações, ela está na contramão da história, alheia ao espírito do tempo e, criminosamente, produzindo exclusão social ou exclusão da cibercultura. Quando o professor convida o aprendiz a um site, ele não apenas lança mão da nova mídia para potencializar a aprendizagem de um conteúdo curricular, mas contribui pedagogicamente para a inclusão desse aprendiz na cibercultura. Cibercultura quer dizer modos de vida e de comportamentos assimilados e transmitidos na vivência histórica e cotidiana marcada pelas tecnologias informáticas, mediando a comunicação e a informação via internet (Behrens, 2001, p. 74).

O grande desafio da escola e dos professores está em reconhecer a linguagem midiática na valorização do lúdico para o processo de aprendizagem, além do reconhecimento das estruturas cognitivas provindas de tais tecnologias, para que possa criar espaços de diálogo entre os jovens (Arruda; Siman, 2009), apresentando às crianças e adolescentes o correto e proveitoso uso da internet.

Além de Arruda e Siman, a historiadora Ramos (2011) também defende a vertente da internet como ferramenta de lazer disponível para a aprendizagem; baseada numa pesquisa que desenvolveu, percebeu que os sites de relacionamento em que os jovens vivem conectados são locais que abrem espaço para expressão e discussão de opiniões sobre múltiplos assuntos e para construção de identidades e vínculos sociais.

No entanto, para que se possa diminuir a distância entre o que as escolas tradicionais aplicam e o viés no qual devem focar sua jornada, o professor, a comunidade escolar e o sistema educacional têm o papel de motivadores a correlacionar a internet à aprendizagem e ao seu uso de forma saudável e segura, deve ter incentivo, estrutura e objetivos os quais devem ser pensados em conjunto. Dessa forma, o processo de ensino-aprendizagem ocorrerá de forma eficaz, segura e saudável. Oliveira (1997) destaca:

Para conseguir que sejam alcançados os objetivos dessa busca, o professor não pode seguir a trilha sozinho. É preciso que aqueles que administram o sistema educacional formulem estratégias que garantam ao professor capacitar-se para desempenhar novas funções, numa sociedade (e esperamos que em uma escola) que assume novas feições, marcada pelo domínio da informação e pelos recursos computacionais (Oliveira, 1997, p. 92).

Assim, não há como negar a existência e a importância da internet na educação dentro do contexto atual. Há, portanto, a necessidade de expandir a visão sobre seu uso – de forma moderada e supervisionada, acarretando, dessa forma, somente benefícios à vida dos adolescentes, especialmente no processo de ensino-aprendizagem, que eles saibam o certo e o errado, até onde podem ir sem interferir na sua saúde física e mental.

Nesse sentido, o objetivo deste estudo é investigar o acesso à internet de estudantes de escolas públicas de Ensino Fundamental e suas opiniões acerca dessa ferramenta como auxílio ao processo de aprendizagem, relacionando estudantes matutinos e vespertinos (ritmo biológico) no seu uso.

Método

O presente estudo foi realizado com 885 estudantes com faixa etária de 10 a 16 anos de idade, nível baixo e médio baixo de renda. A coleta de dados foi realizada de forma aleatória em oito escolas públicas de Ensino Fundamental do município de Farroupilha/RS. A amostra foi equivalente, no ano da coleta, a 13% dos estudantes das escolas públicas de Ensino Fundamental daquele município.

Instrumentos

O instrumento utilizado foi um questionário elaborado pelas autoras e apresentado a um grupo de estudos de pós-graduação; depois foi realizado um pré-teste com estudantes da faixa etária citada não incluídos na pesquisa, não havendo modificações do questionário. As questões foram específicas sobre o uso da internet e das tecnologias. Trata-se de questões de múltipla escolha, com lacuna disponível para outras respostas, caso não estivesse dentro das alternativas descritas. Os estudantes puderam assinalar mais de uma alternativa, se fosse o caso. O questionário contou com cinco questões de múltipla escolha e espaços abertos a comentários entre as questões. Para a identificação do ritmo circadiano, foi aplicada a Escala Matutino/Vespertino (Finimundi, et al., 2012).

Procedimentos

Após a obtenção das autorizações para realização da pesquisa, bem como a assinatura do Termo de Consentimento Informado por parte dos responsáveis, o questionário passou por um pré-teste, e depois foi aplicado em sala de aula. A análise foi baseada no total de respostas (já que um estudante poderia assinalar mais do que uma resposta na mesma pergunta).

Análise estatística

A análise dos dados foi realizada por meio do programa SPSS versão 25 - 2017. Para análise dos resultados foram realizadas tabelas de referência cruzadas de dados e análises das variáveis idade, ritmo circadiano com as questões relacionadas com o uso da internet e das tecnologias. São apresentados os dados de maior relevância e de encontro ao objetivo proposto neste artigo, pois são muitas as opções de avaliações, de análise e cruzamentos de dados.

Resultados

O total da amostra foi de 885 estudantes. As idades variaram de 11 a 16 anos, sendo 46,3% do sexo masculino e 53,7% do sexo feminino, mostrando distribuição equilibrada entre os gêneros. Do total da amostra, 565 estudam no turno da manhã e 320 estudam no turno da tarde. A população é distribuída igualmente entre gêneros nos dois turnos, com maior número populacional entre 11 anos e 14 anos. Os resultados da escala Matutino/Vespertino (2012) apontaram para 445 estudantes matutinos e 440 estudantes vespertinos. Os resultados da pesquisa em relação ao uso da internet e suas correlações foram analisados e apresentados em gráficos e tabelas no decorrer deste texto.

Tabela 1: Frequência de acesso dos estudantes à internet

Pergunta: Com que frequência você acessa a internet?

n

%

Nunca

15

1,7

uma ou duas vezes por semana

188

21,2

quase todos os dias

248

28,0

todos os dias

435

49,1

Total

885

100,0

Conforme a Tabela 1, ao serem questionados sobre a frequência em relação ao uso da internet, apenas 1,7% respondeu que nunca acessa. O número de estudantes que acessa uma ou duas vezes na semana sobe para 21,2%, os que acessam quase todos os dias são 28% e os que acessam todos os dias, 49,1%. Percebe-se que quase metade da amostra acessa a internet todos os dias, mesmo sendo estudantes de classe baixa e média baixa, onde deveria (dentro da classe econômica que se encontram) ter dificuldade de acesso diário. Ao analisar os dados dos estudantes mais detalhadamente por idade, apurou-se o resultado mostrado na Tabela 2.

Tabela 2: Frequência de acesso dos estudantes à internet, de acordo com a idade

Pergunta: Com que frequência você acessa a internet?

Idade

Nunca

Uma ou duas vezes por semana

Quase todos os dias

Todos os dias

10 anos

1,9%

32,1%

35,8%

30,2%

11 anos

4,4%

34,0%

35,8%

25,8%

12 anos

2,7%

20,9%

28,6%

47,8%

13 anos

0,5%

13,2%

21,8%

64,5%

14 anos

0,5%

15,4%

27,1%

56,9%

15 anos

0,0%

24,3%

18,9%

56,8%

16 anos

0,0%

11,1%

40,7%

48,1%

Os estudantes que menos acessam a internet (ou que nunca acessam) estão entre 10 e 12 anos, sendo os estudantes de 11 anos com maior percentual, 4,4%. Já o maior percentual de quem acessa todos os dias é dos estudantes com idade entre 12 e 16 anos; os de 13 anos são os que mais acessam diariamente, com 64,5%.

Gráfico 1: Acesso à internet de estudantes matutinos e vespertinos

Ao analisar a mesma pergunta, “Com que frequência você acessa a internet?”, classificando os estudantes como matutinos e vespertinos, conforme a Escala Matutino/Vespertino (2012), percebe-se, de acordo com o Gráfico 1, que o número de estudantes vespertinos que acessam a internet é maior que o dos estudantes matutinos, que tendem a utilizá-la em menor quantidade de dias.

Gráfico 2: Acesso em horas diárias dos alunos matutinos e vespertinos

Em relação à pergunta: “Quantas horas diárias?”, no Gráfico 2, o número de horas que os estudantes ficam conectados apresenta-se em três colunas com percentuais; as duas primeiras trazem os percentuais de matutinos e vespertinos e a última coluna informa o total da amostra. É perceptível que apenas 4,5% dos estudantes passam menos de uma hora diária conectados, ou mesmo não têm acesso. Já 39,1% dos estudantes passam menos de três horas diárias, 24,6% ficam conectados mais de três horas e 31,7% passam cinco horas ou mais conectados à rede. Ao comparar os matutinos e vespertinos, verifica-se que os matutinos (47,9% estudantes ficam menos de três horas) passam menos horas conectados que os vespertinos (41,6% estudantes ficam cinco horas ou mais).

Gráfico 3: Local e meio de acesso dos estudantes à internet

Os estudantes também foram questionados quanto ao local de onde acessam a internet; os dados do Gráfico 3 revelam que o maior percentual de acesso é pelo celular (54,7%) e em casa (computador/notebook), com 30,7%. O acesso na escola é pequeno, de apenas 6,7%. Isso vem de encontro às questões ressaltadas em questão à dificuldade de promover o uso da internet na escola como ferramenta educacional no processo de ensino-aprendizagem. Apenas 2,2% responderam ter o acesso na casa de amigos e 1,1% em lan house, o que demonstra que esse serviço não é mais um atrativo para jovens adolescentes.

Gráfico 4: Conteúdo acessado pelos estudantes

Os estudantes, ao serem questionados em relação aos conteúdos acessados, conforme o Gráfico 4, destacam as redes sociais (Facebook, WhatsApp, Twitter, dentre outros), sendo 47,3% das respostas totais dos estudantes; em seguida, destacam-se os jogos, com 41,9% do total. O Youtube aparece na terceira colocação, com 4,5% no total de respostas – já que, na maior parte das vezes, os adolescentes têm acesso a vídeos e músicas nas próprias redes sociais, como o Facebook, percentual elevado citado por eles.

O acesso a sites de pesquisa aparece com apenas 2,2%, refletindo que os estudantes não são motivados a utilizá-los, nem mesmo sentem interesse para isso; provavelmente só os utilizem para trabalhos escolares obrigatórios. É preciso fomentar nos estudantes a pesquisa – não somente com objetivo de pesquisa acadêmica, mas a fim de sanar curiosidades, buscar informações, conectar-se com diversas formas de conhecimento possíveis, disponíveis em tantos sites de pesquisa espalhados no mundo virtual.

Gráfico 5: Opinião dos estudantes sobre o uso da internet como ferramenta pedagógica

Por fim, os estudantes foram questionados se aprenderiam melhor fazendo uso da internet como ferramenta na escola. A grande maioria (60,7%) respondeu que sim. Comparando os resultados entre estudantes matutinos e vespertinos, estes apresentaram percentual maior do que os matutinos. Cabe ressaltar, no entanto, que um número significativo de estudantes respondeu “não sei” (33,4%); isso reflete a necessidade desses estudantes de serem apresentados às ferramentas tecnológicas/pedagógicas e de serem instigados pelos professores a utilizar a internet como ferramenta educativa em seu processo de aprendizagem, pois cabe ressaltar, conforme pesquisa apresentada, que a maioria dos estudantes acessa a internet, mas de forma a utilizar para a aprendizagem.

Considerações finais

Foi possível constatar que a internet está presente na quase totalidade da amostra apresentada, sendo uma ferramenta presente no dia a dia dos estudantes e que lhes fornece – dentre tantas outras possibilidades – comunicação e entretenimento.

Os resultados da pesquisa apontaram que os estudantes de 12 a 16 anos de idade são os que acessam a internet todos os dias. Ao comparar os matutinos e vespertinos, destaca-se o número de estudantes vespertinos com maior número de horas de acesso, além de um maior número de estudantes vespertinos acessar a internet todos os dias. O percentual maior de acesso se dá às redes sociais (Facebook, Whatsapp, Twitter, dentre outros) e aos jogos.

Além disso, os resultados também apontaram que mais da metade dos estudantes questionados aprenderiam melhor fazendo uso da internet como ferramenta escolar; os estudantes vespertinos foram os mais convictos. Mas cabe ressaltar que parte significativa dos estudantes respondeu que não sabia, o que é um fator preocupante, pois a amostragem foi direcionada a pré-adolescentes e adolescentes. Isso reflete que esses estudantes não possuem contato com a internet na escola e sequer são estimulados a usá-la de forma saudável e segura, visto que não têm conhecimento sobre todos os benefícios que ela pode trazer à sala de aula.

Há muitas reformas a serem realizadas no âmbito educacional, desde a adaptação de horários para estudantes matutinos e vespertinos, até metodologias mais atrativas. É imprescindível no momento atual que, frente à geração Z – envolta a um mundo tecnológico –, as aulas tradicionais abram espaço para uma reformulação na grade curricular e, com isso, para a inserção da internet ou ao menos das tecnologias pedagógicas – não só como ferramenta de apoio, mas também como base para realização de planejamentos que contemplem ideias inovadoras, que estimulem os estudantes a participar e ser mais ativos e críticos em sala de aula, a partir de algo que lhes é de comum interesse.

Buscando refletir sobre o uso da internet, seus benefícios e malefícios, as escolas precisam estar atentas à reformulação dos currículos escolares a favor do ensino; assim, ter-se-á a possibilidade de melhorias significativas no processo educacional, com ferramentas mais atrativas aos estudantes – que não estão mais adequados ao sistema tradicional de ensino – e buscar por métodos que lhes fomentem a informação e o conhecimento. Não se trata de excluir métodos já conhecidos, mas uni-los ao uso da tecnologia, a fim de que possam ser aprimorados, chegando às salas de aula com a mesma qualidade de conteúdo, porém mais atrativos e significativos à nova geração, permitindo-lhes uma gama maior de possibilidades de aprendizagem.

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Publicado em 10 de dezembro de 2019

Como citar este artigo (ABNT)

PORTELA, Priscila; NÓBILE, Márcia Finimundi. O uso da internet por estudantes de Ensino Fundamental: reflexão sobre a internet como ferramenta pedagógica. Educação Pública, v. 19, nº 33, 10 de dezembro de 2019. Disponível em: https://educacaopublica.cecierj.edu.br/artigos/19/33/o-uso-da-internet-de-estudantes-de-ensino-fundamental-reflexao-sobre-a-internet-como-ferramenta-pedagogica