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Reflexões - pensamentos como eles aparecem

Regina Yolanda

Ilustradora

Um leitor tem o direito, cada vez mais, de interpretar, de sua própria maneira, o texto que lê. O ilustrador, então, seleciona o que mais forte se apresenta na história: cria, inventa, aproveita o seu direito de selecionar o que mais lhe agrada para mergulhar na interpretação gráfica e, muitas vezes, recriar algo além do texto.

A conversa entre os dois criadores do texto e da imagem é muito importante para o desenvolvimento do objeto livro. Sinto falta da participação dos ilustradores, muitas das vezes também criadores do projeto gráfico, no desenvolvimento da totalidade do produto.

Venho acompanhando a publicação de alguns livros sobre a vida e obra de artistas famosos. Em alguns, há a separação de partes da totalidade da obra do artista, com o objetivo de tentar ajudar a análise individual. Ora, a parte isolada de uma imagem feita por outros danifica e fragmenta a compreensão da realidade, tanto em artes visuais como em Literatura, em música, em drama... É uma intromissão no mecanismo perceptivo do sujeito. É a ele que cabe o interesse e o direito de fazê-lo, mesmo titubeando e errando aqui e ali.

Como é rico o conjunto das diferentes maneiras de observar a obra de arte! Trata-se de semelhante problema com a leitura e a escrita. Ensinar as partes e não oferecer o todo, percebe somente a criança que já está acostumada a lidar sempre com o todo visualmente - livros, jornais, televisão e tem convivência com gente que usa tudo isso diariamente. Aquele que não está acostumado ficará sempre sem compreender a mecânica do processo, a não ser em casos especiais.

Embora se afirme que todas as crianças saibam que a escrita represente tudo o que dizem, suponho que ainda alguns não reconheçam essa ligação nesse imenso país de mais de 170 milhôes de habitantes.

Há vinte anos ainda me lembro de receber um adolescente do outro lado da Baía de Guanabara. Quando eu o ajudava a empunhar melhor o lápis, houve um momento em que ele me olhou fixo e exclamou " Ih!". Só naquele momento descobrira a ligação entre o desenho da escrita significando o que faláramos. Deixei de escrever sobre isso porque muita gente pensara tratar-se de fantasia minha.

Nunca mais tive casos assim, mas, quem sabe, ainda aconteça por esses cantos imensos e não conhecidos do país.

Acompanho bem o que acontece com todas as campanhas para que o livro chegue à criança.

Finalmente, foram recém-selecionados livros para que os alunos levem para a sua casa. Vivi todos os anos, como diretora de escola pública e de outra, particular, a experiência de receber livros didáticos de várias editoras. Alguma vezes, pedi que os professores fizessem a análise dos mesmos. Outras, não, porque não tínhamos, naquele ano, um grupo que concordasse com a tarefa.

Sempre que os livros didáticos chegavam a Paquetá, nós os aglomerávamos e, num dado momento, à hora da saída, eu pedia que fossem ao Gabinete, a fim de receber um livro.

Palavras são significativas, mas as cenas que todos os anos nós, pelo menos um grupo, observávamos, eram lindas, daquelas para a gente não esquecer jamais. Abraçavam o livro, ou o colocavam embaixo do braço e simplesmente iam para casa.

Na escola particular, na Pereira da Silva. No caminho do Pereirão, o mesmo acontecia. Num belo dia de cada ano, acumulávamos os livros didáticos sobre um caixote em frente do portão e continuávamos a nossa lida. À hora da saída, nenhum restava. Uma emoção sempre nos tocava sem palavras.

O livro, além dos meios de comunicação, mesmo os que priorizam a imagem - ele, O LIVRO, estará presente com suas qualidades de sedução, do prazer, do perder-se na leitura, de permitir as pausas individuais e para o devaneio.

Publicado em 01 de janeiro de 2002