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A criança e a literatura: travessias de criação pelo saber da experiência

Rosane da Silva Gomes

Professora do Colégio Pedro II Unidade Tijuca I

Resumo

A literatura infantil já está consolidada como um ramo da produção cultural brasileira que tem oferecido um cabedal de textos de valor artístico. Os textos se abrem para as muitas possibilidades de interferência do leitor, que se potencializa, tornando-se mais conhecedor de si, do mundo e mais crítico em suas relações com a palavra escrita e/ou falada. A literatura, como uma das formas de experiência estética, propicia esta expansão: a leitura e a escrita se tornam uma linguagem que comunga, que compartilha experiências de vida e abre espaço para crítica. E também entra em contato com as especulações, e não com as certezas, usando a fantasia como meio de se experimentar a realidade. Possibilita, desta maneira, a discussão das verdades estabelecidas, abordando os conflitos, sem dirimir as divergências. Chega-se ao texto não para resolver questões, mas para ver estampado nas linhas criadas pelo escritor questionamentos que fazem parte da vida do leitor.

Os textos de Bartolomeu Campos Queirós estão sempre cheios de suspeitas e não certezas, uma composição que se inspira por cuidados. Em Até Passarinho Passa as suspeitas se agudizam em forma de ausências: na perda de um amigo querido, o vazio se abre para outras possibilidades de vida, que ultrapassem um destino finito, busca de significados mais permanentes do que é o ser no mundo.

As indagações e os suspenses são, da mesma forma, modos de construção da narrativa de Bartolomeu. Os textos, histórias tecidas pela poesia, portam lacunas, estabelecem vias de diálogo com o leitor, que é afetado pelo lirismo das palavras dispostas com desvelo. Tais sentidos lacunares propiciam um olhar mais detido, aguçado, só possível em um tempo mais demorado de se deixar levar. O espaço da escrita, composto de faltas, faz o leitor tentar achar outras maneiras de apreender o texto, estabelecendo uma postura desejante, mesmo quando o livro se acaba. É um desejo que não se extingue, pois os espaços nunca são preenchidos completamente por certezas.

Esta atitude frente aos textos literários, como as obras de Bartolomeu Campos Queirós, é proveniente de uma apreensão do conhecimento pela via estética. Pela educação estética há um deslocamento de sentidos para o que nunca foi percebido. É um movimento só possível por um saber que se constrói pela experiência, pelo contato das pessoas com os outros que estão no mundo.

Pensando a literatura como produtora de um conhecimento estético, alinhava-se, então, uma correspondência entre saber literário e o saber da experiência. Compreende-se, assim, o saber como um movimento de ser tocado, ser tomado pelo afeto. A palavra experiência na origem, tanto no grego, como no latim, tem sua raiz no vocábulo per, que significa algo que pode ser perpassado, atravessado. Nas línguas germânicas, a palavra erfahrung significa experiência, que é a forma de per em fahr, ganhando o sentido aí de estar em viagem. Na experiência, o ser está em constante travessia, construindo o caminho que tem a percorrer.

Neste sentido, o conhecimento é visto como criação, não como acumulação de informações. O conhecer que não é norteado pela conservação e acúmulo, é marcado também pela perda. Esquece, no tempo certo, o que é para esquecer, mas num outro momento retoma e recorda o que é preciso, ou seja, o caminho por-fazer.

Instaura-se uma outra concepção de tempo, neste caminho do conhecimento atravessado pela experiência. Não é o tempo marcado pela aceleração de compromissos, valorizado pela quantidade de tarefas que se colocam para serem cumpridas. É um tempo de saber como sabedoria, composto de despedidas e de reencontros.

O tempo formado em outro ritmo, transformado pela ação das perdas é vivido na poeticidade das palavras de Bartolomeu, em Até Passarinho Passa. Demonstra-se esta experiência que se transpassa pela aguda representação da morte, gerando um saber que não se caracteriza pelo preenchimento, mas pela falta. E assim, forma-se um tempo sempre aberto a um novo começo.

O conhecimento se relaciona com a vida de forma não utilitária, quer dizer, não é um mero facilitador de satisfação das necessidades e exigências do mundo moderno. Tomando-se o conhecimento por esta via de investigação, pode-se compreender melhor a ação da criação literária na experiência estética. É um saber que revela e encobre, põe sombras nos caminhos iluminados das verdades objetivas. Trata-se de um conhecimento que revela ao ser humano suas dúvidas, seus anseios, seus medos - o sentido e o não sentido da sua existência, de sua própria finitude. Um estilo de se viver, demonstrado no modo de se colocar no mundo.

A experiência advinda do conhecimento estético não está circunscrita aos objetivos a que se quer chegar, quando o leitor se depara com o texto. Seu papel é incitar a dúvida, aguçar o olhar, espreitar pelo invísivel, suspeitar das certezas. Não é um conhecimento que é previsto em seu percurso, com um caminho já determinado e controlado desde o início. Pelo contrário, sua ação desenrola-se pelo desafio, pela criação, pelas possibilidades na impossibilidade. Experiência que se regula pela liberdade, não pela delimitação.

O saber que se constrói na liberdade, conectado a um tempo que pode ser reinventado, é aquele que se produz de uma experiência singular. Ela só pode ocorrer quando se interrompe este curso acelerado e ocupado de informações. Há de se ter um espaço para o pensar com cuidado, detendo-se nos detalhes, numa atitude estética de permanecer disponível a ser afetado.

Reportando ao texto de Até Passarinho Passa, vê-se que é esta a atitude que a personagem apresenta no decorrer da obra. Sua interação com a natureza, com o que ocorria ao redor, era marcada pelo tempo interrompido para a contemplação. O texto produz no leitor esta sensação de que, suspensas as ações, a narrativa se delineia pela percepção dos elementos que compõem a cena. A personagem, como o leitor, se deixa afetar pela poesia da natureza em transformação.

O pensar toma uma dimensão maior de dar sentido ao que se é e ao que se passa com o leitor, quando se abre o conhecimento estético por meio da literatura. Jorge Larrosa, no livro Pedagogia Profana, explicita a forma como a literatura abre possibilidades para uma realidade ainda não pensada, reafirmando o seu caráter essencial do saber que se contrapõe às amarras das convenções.

A literatura que tem o poder de mudar não é aquela que se dirige diretamente ao leitor, dizendo-lhe como ele tem de ver o mundo e o que deverá fazer, não é aquela que lhe oferece uma imagem de mundo nem a que lhe dita como deve interpretar-se a si mesmo e às suas próprias ações; mas, tampouco, é a que renuncia ao mundo e à vida dos homens e se dobra sobre si mesma. A função da literatura consiste em violentar e questionar a linguagem trivial e fossilizada, violentando e questionando, ao mesmo tempo, as convenções que nos dão o mundo como algo já pensado e já dito, como algo evidente, como algo que se nos impõe sem reflexão.

A poesia resiste à subordinação e atravessa o saber conferindo-lhe a liberdade de criação. Sensibiliza o seu leitor a procurar novas formas de compreender um texto, de lhe auferir sentidos que ainda não foram descobertos, modificando sua atitude perante ao que lê.

Eu creio que aí, nessa intensificação da sensibilidade e nessa modificação da relação sensível com a experiência, é onde está a aprendizagem que poderemos encontrar na literatura, pelo menos o que, de verdade, vale a pena.

Estabelecer uma relação sensível com o mundo, poder ser afetado pelas circunstâncias que o cerca, crer que é possível criar no espaço do vazio, ter a liberdade para ir atrás de um conhecimento ainda não estabelecido são atitudes que caracterizam este saber pela experiência. E esta condição de abertura para o novo, disponível para as transformações, é uma condição também de ser criança.

Ao escrever sobre um modo de ser criança no mundo, Bartolomeu Campos Queirós também redimensiona o que é ser linguagem como literatura. Traz ao leitor uma experiência de ser criança, com o cuidado de não definir exatamente o que é fazer parte desta maneira de viver a infância. Como na forma em que a personagem principal de Até Passarinho Passa está sempre com os sentidos atentos para os eventos que compõem o cenário da varanda de sua casa. Dialogando com esta paisagem, o menino deixa-se levar por suas vivências com a natureza, sem se preocupar com certezas e determinações.

Nossa amizade com a natureza persistia acima de todas as coisas e nada nos surpreendia. Nem os mistérios, que eram tantos, tentávamos desvendar. Era bom viver em suposições e cercados de fartos acontecimentos por adivinhar. Cada dia um encanto tomava lugar de outro.

A cada dia, algo que encantava surgia na vida do menino. Este encantamento é proveniente de uma novidade que não surpreende, pois ela não é esperada. Simplesmente acontece, sem maiores inquietações. "Se não esperar, não encontrará o inesperado, sendo não encontrável e inacessível."

O que era importante, no cotidiano da personagem, era o instante suspenso que ela vivia em um tempo que não se regulava por certezas, mas pelas suspeitas. Um tempo que se incide no momento de criação, renovado a cada leitura que se faz da narrativa. O presente que não se atormenta com o passado e nem inquieta por um futuro, pois a vivência pelo instante liberta o sujeito do tempo contínuo e medido.

Este modo de pensar a criança é uma metáfora de um tempo sem a continuidade do passado, presente e futuro. É uma criança sem idade, sempre presente, enquanto devir de  uma vida possível.

Eis, desta forma, a relação entre o caráter primordial da criação na experiência estética e a atitude de ser criança, como aquela que está sempre desembaraçada das teias de um tempo crônico e de um espaço limitador. A criança abre-se para o novo, mas não para uma novidade que se produz em série, uma após a outra, num contínuo movimento de se ultrapassar o que ficou para trás. É o novo como um instante que pode ser retomado pelo desejo, pelo jogo de possibilidades lançado na incerteza. O corte provocado pela perda é também fundamental para se compreender esta interrupção do que se espera.

Pela criação, volta-se à origem. O significado do original ganha outra dimensão, aprofunda-se a noção do único como não sendo exclusivo. Esta origem não tem como papel pontuar um começo dentro de um tempo progressivo. É o desejo pela possibilidade pura, com as palavras recuperadas em sua liberdade primitiva.

A origem tem a ver, sim, é com o novo enquanto intemporal, enquanto êxtase do tempo, enquanto instante e eternidade, ou caso de queira, enquanto instante eterno ou eternidade instantânea.

Neste instante eterno, abre-se as asas para o sonho, para o que pode ser criado, para o absurdo do presente e, assim, caminha-se ruma a um espaço em que tudo é direção.

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• Leia também a resenha do livro Até passarinho Passa

Originalmente publicado nos anais do II Encontro Internacional de Filosofia e Educação, em setembro de 2004

Publicado em 01 de janeiro de 2002