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A Insegurança no Coração do Império

Cândido Grzybowski

Sociólogo, diretor do Ibase

Diariamente, estamos sendo bombardeados com os tais índices da Bolsa de Valores. Tanto por cento para cima, tanto por cento para baixo, num confuso vai-e-vem de difícil compreensão para leigos. Claro, depois de tanto diferentes jornalistas e analistas insistirem, sabemos que as Bolsas estão em queda e que um certo pânico se espalha pelo mundo afora. Já não é mais o tal efeito Argentina, nem o efeito eleitoral interno, capaz de ser captado por um novo termômetro financeiro, o Lulômetro, que conseguem explicar o momento de certo pânico no ar. Em termos muito diretos e simples, parece que o "cassino global", que subjugou a economia real nestes tempos de globalização, está ele mesmo em enormes dificuldades. Se num primeiro momento muita gente sentiu uma ponta de satisfação em ver finalmente os especuladores perdendo dinheiro, logo, muito logo, foi se instalando uma certeza de que toda está dança confusa das Bolsas não é coisa boa, não. O sentimento que aflora é algo difuso e distante, como se a gente antevisse a volta da instabilidade e da inflação, com a sua pesada conta sobre os de sempre, setores intermédios e classes populares. Como não dá para fazer muita coisa, a gente deixa para lá e volta a discutir os problemas mais imediatos, como o desemprego e a precariedade do trabalho, ou a maré montante da violência e do crime organizado nos grandes centros urbanos.

Que diferença entre o que se passa aqui e o que vem ocorrendo nos EUA! Aliás, para nós do Brasil é difícil imaginar o tamanho do impacto que tem a queda da Bolsa na população dos EUA e o estrago que está produzindo, em especial na psicologia coletiva, especialmente após o fatídico 11 de setembro de 2001. As pessoas falam com certa angústia sobre a poeira e o cheiro que cobriram Nova York durante meses após os atos terroristas contra as torres gêmeas do World Trade Center, a lhes lembrar a agressão contra cada um que aí mora. De algum modo, a onda se espalhou pelo país muito rápido, carregada pelo sentimento e identidade com as vítimas e, sobretudo, pelo belicismo guerreiro de Bush e da elite que com ele tomou conta do poder imperial dos EUA. Hoje, porém, ao sentimento de insegurança diante de um mundo desconhecido de terroristas ousados vem se somar um sentimento ainda mais profundo de insegurança econômica, com a quebra das Bolsas e a desconfiança nas grandes empresas e nos seus executivos.

Também, não é por menos. Nos EUA, mais de metade da população tem dinheiro aplicado em ações das grandes corporações. Não se trata de uma pulverização de capitalistas, especulando nas Bolsas, como gostariam os arautos do neoliberalismo. É um investimento tipo poupança para o futuro, através de fundos de pensão. Trata-se de tentar garantir uma aposentadoria, já que o sistema público de proteção social - o Wellfare State - nunca se desenvolveu nos EUA como nos países da União Europeia. Agora, com a queda, a exuberância dos anos recentes, do "sonho americano" em realização, dá lugar a uma sensação de perda e empobrecimento. O quanto isto vai afetar a economia real saberemos em muito breve. O certo é que as ações americanas perderam aproximadamente US$ 7 trilhões nos últimos dois anos. Amigos me relatavam casos de ações que valem hoje 10% de seu valor de compra dois anos atrás. Na prática, a americana ou americano médio - que vive do seu salário, come seu hambúrguer cheio de maionese e ketchup ao meio dia no McDonald ou fast food equivalente mais próximo, tem um ideal de casa própria e carro novo a cada três anos - está mais pobre e muito, mas muito mais, inseguro.

O que significa a insegurança se instalando no coração da alma norte-americana? Nunca é demais lembrar a posição ímpar dos EUA como nação imperial, com o ultra unilateralismo da administração Bush. Ter hegemonia econômica, militar e política, com um povo que se sente ameaçado, não é boa coisa. A obsessão por identificar inimigos externos fica exacerbada e pode compensar frustrações internas. Aliás, alimentar isto parece ser uma estratégia privilegiada de Bush. Já se discute abertamente nos EUA a necessidade de fazer logo a nova guerra contra o Iraque como forma de fazer face à onda que solapa a confiança interna. Será que estamos mesmo condenados a ver a lógica do terror e da guerra se impor?

Publicado em 01 de janeiro de 2002