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Água de beber?

Ricardo Prado

Maestro

No site da CEDAE o consumidor carioca pode ficar sabendo que o lema da companhia é "CEDAE - A melhor água do Rio". Muito estranho, já que cariocas e quase todos os fluminenses só tem os carros pipa e a água mineral dos supermercados como alternativa de fornecimento para a água podre e fedorenta derramada pela companhia pública, monopolista e incompetente.

Água de beber, Água de beber camará

Quando Pero Vaz de Caminha reportou as terras descobertas, foi da água que ele falou:

"Andamos por aí vendo o ribeiro, o qual é de muita água e muito boa. Ao longo dele há muitas palmeiras, não muito altas; e muito bons palmitos. Colhemos e comemos muitos deles. (...) Águas são muitas; infinitas. Em tal maneira é graciosa que, querendo-a aproveitar, dar-se-á nela tudo; por causa das águas que tem!"

Desde então desperdiçamos as nossas boas águas, mas aprendemos a usá-la com precisão para falar de tudo o quanto seja importante. Vou lembrar aqui apenas alguns poucos exemplos das muitas águas da nossa música popular.

É de água que somos feitos. Não, não apenas o planeta e nossos corpos, mas o Brasil.

"Gereba, saci, caandra, desmunhas, ariranha, aranha/Sertões, guimarães, bachianas, águas/E marionaíma, arirariboia/Na aura das mãos do jobim Açu/Oh, oh, oh".

"É a chuva chovendo, é conversa ribeira/Das águas de março, é o fim da canseira/São as águas de março fechando o verão/É a promessa de vida no teu coração".

"No pátio interno há uma piscina/Com água azul de Amaralina/Coqueiro, brisa e fala nordestina/E faróis".

"Apesar de tudo existe, uma fonte de água pura/Quem beber daquela água, não terá mais amargura".

"Água de beber/Bica no quintal/Sede de viver tudo".

"Depois de exterminada a última nação indígena/E o espírito dos pássaros das fontes de água límpida/Mais avançado que a mais avançada das mais avançadas das tecnologias".

- Usamos a água para falar de amor.

"Vaca, cadela, macaca, gazela/Linda toda, toda linda ela/Toda beleza se reconhece nela/Jackie Tequila coca-cola e água/Égua, língua, mingua minha mágoa".

"Minha papoula da Índia/Minha flor da Tailândia/Chega, vou mudar a minha vida/Deixa o copo encher até a borda/Que eu quero um dia de sol num copo d'água".

"Vem me fazer feliz porque eu te amo/Você deságua em mim e eu oceano".

"Um fogo queimou dentro de mim/Que não tem mais jeito de se apagar/Nem mesmo com toda água do mar/Preciso aprender os mistérios do fogo pra te incendiar".

"Que mexe, remexe, dá nó nas cadeiras/Deixando a moçada com água na boca".

"Em vez de álcool forte/Pede água perrier/Adoro sei lá por que/Esse olhar meio escudo/Que não quer meu álcool forte/E sim água perrier".

"Para o telefone que toca:/Para a água lá na poça/Para a mesa que vai ser posta/Para você o que você gosta: Diariamente".

"Meu bem você me dá água na boca".

- Usamos a água para compreender mistérios vários e os nossos.

"Deus nos salve esse devoto pela esmola em vosso nome/Dando água a quem tem sede, dando pão a quem tem fome, ai, ai".

"Veio de Madagascar ilê ilê ilá essa lua soberana/Sobre as águas de iemanjá ilê ilê ilá neste mar de rosa branca".

"Meu amor, disciplina é liberdade/Compaixão é fortaleza/Ter bondade é ter coragem/E ela disse:/- Lá em casa tem um poço mas a água é muito limpa".

"Porque se você parar pra pensar/Na verdade não há/Sou uma gota d'água, sou um grão de areia".

"Do lado do cipreste branco/À esquerda da entrada do inferno/Está a fonte do esquecimento/Vou mais além, não bebo dessa água/Chego ao lado da memória/Que tem água pura e fresca/E digo aos guardiões da entrada/"Sou filho da Terra e do Céu"/Dai-me de beber, que tenho uma sede sem fim".

"Alta noite já se ia, ninguém na estrada andava/No caminho que ninguém caminha, alta noite já se ia/Ninguém com os pés na água/Nenhuma pessoa sozinha ia/Nenhuma pessoa vinha".

"Vamo batê lata, tonel, garrafa d'água".

- Usamos a água para falar quando não podemos falar.

"Como vai proibir quando o galo insistir em cantar/Água nova brotando e a gente se amando sem parar".

"Pois transbordando de flores/A calma dos lagos zangou-se/A rosa-dos-ventos danou-se/O leito do rio fartou-se/E inundou de água doce/A amargura do mar".

- Usamos a água quando não temos nada a dizer.

"A voz do pato era mesmo um desacato/Jogo de cena com o ganso era mato/Mas eu gostei do final quando caíram n'água/E ensaiando o vocal/quém, quém, quém, quem/quém, quém, quém, quem/quém, quém, quém, quem".

- Usamos a água para lembrar, inventar, esquecer.

"Há muito tempo nas águas da Guanabara/O dragão do mar reapareceu/Na figura de um bravo feiticeiro/A quem a história não esqueceu".

"E a fonte a cantar chuá chuá/E as águas a correr chuê chuê/Parece que alguém

Que cheio de mágoa/Deixaste quem há de dizer/A saudade no meio das águas/Rolando também".

"Pedra, padre, ponte, muro/E um som cortando a noite escura/Colonial vazia/Pelas sombras da cidade/Hino de estranha romaria/Lamento água viva".

"Infeliz da minha mágoa/Meus olhos/São poças d'água/Sonhando com seu olhar/Ela é tão rica e eu tão pobre/Eu sou plebeu/E ela é nobre/Não vale a pena sonhar".

Intervalo Comercial: Águas Brasileiras para o Mundo.

A repórter da CNN entra na casa em Cabul e, mostrando a fotografia de várias quedas d'água, diz para a câmera:

- Esta fotografia é das Cataratas de Iguaçu, no Brasil, onde há focos de terroristas do grupo de Osama Bin Laden.

Como a notícia estava baseada apenas e tão somente na existência de uma fotografia presa em uma parede, ela também poderia ter narrado:

- Esta é a casa de Omar, condutor de carroça, ou marceneiro, ou funcionário de um hotel, ou motorista de táxi, ou quitandeiro, que um dia encontrou perdida em uma caixa jogada em uma calçada de um subúrbio nos limites de Cabul a fotografia de um fantástico cenário onde a água jorra sem parar de várias cachoeiras imensas. Nunca havia visto nada tão lindo, nunca imaginou que em algum lugar incalculavelmente distante o mundo não fosse formado só de pedra, poeira e areia, e resolveu pendurar a foto na parede de seu casebre, agora destruído. Pode ser que Omar esteja preso no tráfego, ou escondido no meio da multidão lá fora e com medo de se identificar diante da equipe CNN que entrou em sua casa, ou ainda em algum lugar do deserto, olhando desolado para seu velho cavalo agora morto, vencido pelo cansaço e pela fome na tentativa absurda e tardia de fugir para o Paquistão. Mas Omar foi sempre assim, ideias ruins e atrasadas. Será que não podia ter partido quando todos partiram, e até negociado o transporte de umas trouxas daquelas lindas roupas coloridas em troca de alguma comida e água?

Mas ela também poderia ter dito:

- Esta é a casa de Omar, estudante de contabilidade que resolveu enriquecer rapidamente e foi ser sacoleiro e contrabandista de armas em uma cidade distante chamada Puerto Strosner de um país quase desconhecido chamado Paraguai. A oportunidade surgiu quando Omar conheceu Abdulla, um astuto comerciante libanês, ou sírio, ou turco, ou grego, em um café do centro de Cabul. O vistoso relógio dourado chamou a atenção de Omar que não conseguia não olhar para o pulso de Abdulla, que perguntou ao rapaz se não desejava ter um. A conversa terminou oito horas depois, em um quarto de hotel, com uma partida de heroína sendo pacientemente engolida pelo rapaz que embarcou em uma velha caminhonete pela manhã rumo ao Paquistão, de lá para Istambul, Londres, Cidade do Cabo, São Paulo e, finalmente, Foz do Iguaçu, de onde cruzou a Ponte da Amizade em um táxi, cinco mil dólares mais rico e capitalizado para uma vida de lucros e aventuras. A foto foi enviada para sua querida mãe que, tragicamente, morreu de saudade ou do susto com a primeira bomba que sacudiu sua cidade, mas que teve tempo de beijar a foto de toda aquela água tão linda do novo lugar do seu filho no mundo.

Também poderia ser:

- Esta é a casa de Omar, noivo de Amyra, com quem deve se casar um dia, quando a última de todas as guerras acabar, quando puder esquecer as armas, as mortes, a surdez causada por um obus caído muito próximo que, milagrosamente, não o matou. Quando voltar para a casa que ela cuida enquanto espera, que vigia todos os dias depois dos bombardeios, onde pregou na parede a foto das impossíveis quedas d'água, como uma janela imaginária para um mundo impossivelmente verde, úmido e pacífico.

A repórter da CNN poderia ter abandonado a responsabilidade de reportar para possibilidades ficcionais que, aos milhares, poderiam ser muito mais interessantes e verossímeis.

E segue a programação...

Mas eis que a água deu de derramar-se assim espantosamente podre. O tal nível que mede a relação entre a turbidez e a cor atingiu níveis críticos, de 1:7 quando o ideal é de 1:3. A tal Demanda Biológica de Oxigênio (DBO) serve para indicar o padrão de oxigênio na água e chegou a 70, quatro vezes acima do seu padrão. O cheiro é de BHC, um conhecido inseticida, e teria sido provocado por uma certa alga, conhecida como "Anabaena" que faz parte das cianobactérias. Ela pode provocar cirrose, se consumida por longos períodos de tempo em grandes quantidades ("Você pensa que cachaça é água..."). A polêmica é grande e técnicos e cientistas independentes suspeitam de efluentes industriais despejados nos rios que formam a bacia do Guandu por pelo menos dois pólos industriais; podem ser os lixões instalados quase as portas da estação de tratamento, como podem ser as algas das crateras nauseabundas deixadas pelos extratores de areia. Pode ser metal pesado. Enfim, a culpa pode não ser da "Anabaena" - um nome bonitinho que faz pensar em uma canção ao violão cantada sob um coqueiro enluarado em Porto Seguro para uma menina morena e sestrosa, coxas roliças e lábios de carmim - "Anabaena/O que você quis assim/Fazer de mim"... E ela olha de lado... maliciosa...

"Dona Celestina me da água pra beber/Se você não me der água vou falar mal de você".

"Traga-me um copo d'água tenho sede/E essa sede pode me matar/Minha garganta pede um copo d'água/E os meus olhos pedem teu olhar".

"Pães de Açúcar, Corcovados/Fustigados pela chuva e pelo eterno vento/Água mole, pedra dura/Tanto bate que não restará nem pensamento/Tempo rei, ó tempo rei, ó tempo rei, transformai as velhas formas do viver".

Mas sempre há mais uma culpa disponível para a especulação. A diretoria da CEDAE alega que, depois de uma seca de vários meses, as fortes chuvas de alguns dias atrás podem ter provocado uma espécie de faxina nos rios que abastecem o sul do estado e o Rio de Janeiro, trazendo para as estações de tratamento todo tipo de matérias orgânicas.

"Olha, está chovendo na roseira/Que só dá rosa mas não cheira/A frescura das gotas úmidas/Que é de Luísa, que é de Paulinho/Que é de João - que é de ninguém".

"Olha como a chuva cai/E molha a folha aqui na telha/Faz um som assim/Um barulhinho bom/Faz um som assim/Um barulhinho bom/Água nova/Vida veio ver-te".

"Água também é mar/E aqui na praia/também é margem/Já que não é urgente/Aguente e sente/aguarde o temporal/Chuva também/é água do mar lavada".

O mais grave não é esta crise da água do Rio de Janeiro. Crises semelhantes já aconteceram, pelo menos, em São Paulo e Curitiba. Grave é a sucessão insuperável de problemas nos serviços de fornecimento de água e tratamento de esgotos prestados pela CEDAE. A empresa nunca primou pela qualidade, mas nos últimos anos a CEDAE resolveu testar todos os limites da inépcia.

Nos últimos anos a população do Rio conviveu com a volta dos problemas da Lagoa Rodrigo de Freitas, cujas obras para a solução definitiva foram realizadas e, depois de inauguradas mostraram-se absolutamente ineficientes. Obras de saneamento realizadas em Nova Iguaçu foram responsáveis pelo uso de 62,4 milhões de reais indevidamente. O último verão foi marcado pelas línguas negras e manchas de algas nas praias, e o próximo promete ser pior. Desapareceram misteriosamente 20 mil toneladas de lodo residual do tratamento de esgotos do Rio entre 1998 e 2000 - como isto indica que o esgoto não foi tratado, o lodo está no fundo da Baía de Guanabara e das praias cariocas. Mas a diretoria da CEDAE informou que "o lodo, que serve como condicionador do solo, era secado e doado às plantações de coco da Zona Oeste''. Como os técnicos advertem que "a quantidade de microorganismos presente na lama torna-a altamente patogênica" e que "jogado em área seca o resíduo mantém o seu potencial poluidor podendo, inclusive, atingir os lençóis freáticos", a CEDAE deveria, neste caso, ser premiada por conseguir levar seus venenos indecifráveis também à água de coco.

"Comemorar a água podre/E todos os impostos/Queimadas, mentiras e sequestros/Nosso castelo de cartas marcadas".

O relatório sobre Desenvolvimento Humano realizado pela Prefeitura do Rio, o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud) e pelo Instituto de Pesquisa Econômica e Aplicada (Ipea) divulgado no início deste ano, apontou que a poluição hídrica é o problema ambiental mais urgente do Rio; a situação da Baía de Guanabara é crítica (que recebe 465 toneladas diárias de esgoto), como é crítica a situação do Rio Paraíba do Sul e das condições da Mata Atlântica.

Entre metais pesados, efluentes industriais, algas misteriosas, inseticidas, matéria orgânica variada, organoclorados, esgoto e lodo, o Rio de Janeiro pode ver sua água ser transformada em um líquido fedorento e untuoso, causador de cirrose, náusea, ressecamento da boca e da garganta, gastrite, diarreia e dor de cabeça.

"Aqui se está chamando as criaturas/Que desta água se fartam mesmo/às escuras/Ainda que seja de noite".

"E as águas desse rio/Aonde vão, eu não sei".

Mas o milagre está sendo operado pela CEDAE e não será sobre as águas, mas numa pasta fétida e sulfurosa, numa lama borbulhante e gelatinosa, irresponsável, imperdoável, inesquecível, que o governador caminhará sobre as praias do Rio de Janeiro.

"Do Leme ao Pontal".

Leia também: A água da Terra

Publicado em 01 de janeiro de 2002