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Alô, alô, mestiçagem

Liv Sovik

Professora da Escola de Comunicação (ECO)/ UFRJ

Texto apresentado no painel da IV edição dos Diálogos Contra o Racismo, no CCBB
Rio de Janeiro, 18 de novembro de 2003.

A identificação do Brasil como país mestiço foi, no início do século XX, uma resposta da autoestima brasileira à ideologia do embranquecimento, uma inovação emancipatória no discurso de identidade nacional. E continua sendo, de certa forma, quando se trata das relações com o eurocentrismo. 

Em um país mestiço, os brancos são irrelevantes, pois a questão é de misturar-se, deixar-se misturar, reconhecer-se como produto da mistura, o que, paradoxalmente, sempre é possível sem deixar de ser branco. Pois ser branco no Brasil é ter a pele relativamente clara, funcionando como uma espécie de senha visual e silenciosa para entrar em lugares de acesso restrito. O problema do branco se coloca, hoje, porque a militância cultural e política negra e as estatísticas oficiais informam que o Brasil não é só um país de mestiços, mas de negros-e-pardos, de um lado, e de brancos, do outro. 

Nesse sentido, cabe aos brancos uma renovada reflexão sobre seu lugar na sociedade brasileira, para preceder uma ação também de brancos contra o racismo. A tarefa de reflexão e ação é a que os Diálogos Contra o Racismo entre brancos e negros vêm encarando.  Pois é necessário encontrar não só formas concretas de combater o racismo juntos, mas de tirar o peso do argumento que, em um país mestiço, está tudo (relativamente) bem.

Os brancos tendemos a considerar que as "queixas" de quem está do lado de fora são chatas, feitas por quem não sabe entrar nos circuitos do poder. Agrega-se a isso o fato de que é mais fácil para os brancos a convivência passiva com hierarquias sociais racistas, muitas vezes abençoadas pelo discurso de todos serem mestiços, do que relembrar a escravidão e sua vinculação à injustiça presente, um dos principais estímulos éticos à mudança. E, ainda, os brancos resistimos a acatar a liderança negra, a ficar na sombra em um grupo racial misto e entender que não detemos o principal poder de reflexão e mobilização política nesse tema.

Algumas dessas resistências brancas estão sendo enfrentadas. O resultado desse processo de enfrentamento - por rappers, funkeiros, organizações e lideranças negras e pessoas negras na vida cotidiana - já se faz sentir, com a crescente percepção da questão racial brasileira pela classe média branca. Mas é preciso elaborar um discurso não só sobre ajustes políticos necessários; nem é suficiente valorizar a cultura negra sem discutir o lugar da branquitude nas relações raciais. É preciso enfrentar a versão conservadora da mestiçagem. Para mudar o quadro de aceitação da rotina racista, é preciso inventar uma nova versão do Brasil.

Por ser estrangeira e imigrante ao Brasil, me preocupa particularmente a necessidade de reinterpretar a mestiçagem nas relações do Brasil com o exterior, embora, em geral, ela continue a fazer sucesso como indicação da maneira diferente em que as relações raciais se encaram no Brasil. O Brasil é um lugar de sofrimento e gozo, segundo o dito popular.  "São pobres, mas sabem se divertir melhor do que a gente", diz o turista estrangeiro que visita o Brasil e enfrenta a necessidade de definir a diferença brasileira de uma forma amena, que dê conta de seu prazer em vivenciá-la e da injustiça da qual é testemunha.  Vai visitar favelas, frequenta shows de mulatas agora orientados especialmente para estrangeiros e faz, até, turismo sexual. São várias as versões de "nóis sofre mas nóis goza". O discurso mais autorizado de todos, o da filosofia francesa, diz coisa muito semelhante: o nietzscheano Clément Rosset declarou, em uma passagem pelo Rio de Janeiro, que havia aqui "uma convivência extraordinária entre a alegria e o caráter trágico da vida". E há porta-vozes brasileiros do mesmo discurso que afirmam que a Bahia é a terra da felicidade e o brasileiro um povo alegre. Carmen Miranda, com seu chapeu tutti frutti, uma branca com torço de baiana, é outra imagem da cultura brasileira colorida e alegre; seu retrato mais fiel talvez seja um desenho animado.

Enfim: a imagem do Brasil no exterior tem gênero e cor, é uma mestiça. É nesse sentido que é importante retomar a história da mestiçagem, pois ela é patrimônio cultural nacional e global. Retomar essa história implica em ver que a valorização da mestiçagem não data só das primeiras décadas do século XX. No Brasil Colônia se valorizava mestiços porque eram considerados melhor adaptados ao trabalho nos trópicos e por ter meio caminho andado entre o mal do negro e o bem do branco.  Impossível pensar o Brasil sem essa história; impossível pensá-lo sem a mestiçagem, historicamente engendrada pela violência e a dominação, assim como pela resposta que os dominados deram. 

Um exemplo de como a mestiçagem não significa fusão entre elementos iguais se encontra na máscara católica sincrética do candomblé. Essa máscara nunca aderiu completamente. Hoje, depois que a repressão oficial ao candomblé passou, entende-se que Santa Bárbara representa Iansã, mas Iansã não é Santa Bárbara: as relações são assimétricas e dificilmente o discurso identitário negro atual será reencapsulado pelo da mestiçagem. Tenho até propostas de slogans turísticos para retomar a divulgação da diferença brasileira no exterior: o Brasil é um país que parece familiar, para o turista estrangeiro, mas na verdade é difícil de entender. O Brasil é um país multivocal, tem uma cultura que abarca a ironia, a autoironia. Novas políticas culturais e de turismo que derrubem o mito da mestiçagem apaziguadora terão que lidar com essa complexidade, da qual fui lembrada quando desembarquei no Aeroporto do Galeão em agosto passado. 

Depois de sair da alfândega e atravessar a multidão de pessoas esperando o desembarque, passei perto de um balcão com vários guichês de empresas de táxi. No mais próximo estava uma mulher com cabelo preto, batom vermelho, vestida de blusa branca com um amplo decote, que se encostava no balcão. Esticou sua mão para o buraco do guichê e gritou para um homem de meia-idade, de terno e sapato brilhoso: "Venha, estou te chamaando!". Foi impossível saber o quanto era paródia, o quanto autoparódia, o quanto estratégia de vendas de comprovada eficácia. 

É preciso repensar a mestiçagem sem tentar ordenar uma cena cultural tão complexa quanto a brasileira, repensá-la precisamente para recolocar em pauta mundial a sua exuberante criatividade moderna e pós-moderna, sua potência sutil e pujança múltipla.

Leia Também: Comunicação contra o preconceito", sobre a IV edição dos Diálogos Contra o Racismo.

Publicado em 01 de janeiro de 2002