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As duas forças

Pablo Capistrano

Diz uma piada que um dia Deus e o diabo estavam andando por um caminho. De repente, Deus para, se abaixa e pega no chão um pedaço de papel com algo escrito. O diabo pergunta: “O que é isso?”. Deus subitamente responde: “A verdade”. O diabo sorri, tira o papel da mão de Deus e diz: “Ótimo! Pode deixar que eu organizo ela para você”.

Gershon Scholem, um dos mais importantes estudiosos do misticismo judaico, apontava que a religião se configurava como um local de confronto entre duas forças antagônicas. De um lado, a pulsão espontânea e subversiva da experiência mística; de outro, a força reguladora da doutrina.

Quando se fala de islamismo, apenas um desses dois aspectos aparece na mídia. Desde que a Revolução Iraniana em 1979 ressuscitou a Xariá (a famosa lei islâmica), o aspecto doutrinário, normativo e mais radicalmente conservador da religião de Maomé passou a dominar nosso pequeno universo telejornalístico.

Mas pouca gente sabe o que é a Xariá ou que, por exemplo, ela não é aplicada em todos os países mulçumanos e que boa parte dos conflitos que tomam conta do Oriente Médio tem a ver com o embate entre essa antiga linha doutrinária e as legislações de países como a Turquia, que tem influência de códigos ocidentais. A Xariá se baseia em um conjunto de textos que foram escritos após a morte do profeta Maomé; seu significado em árabe é “caminho que conduz à água”.

Para quem vive no deserto, essa expressão denota algo muito importante. A ideia é de que o consenso sobressai sobre a interpretação, e isso se justifica por uma frase atribuída a Maomé: “minha comunidade nunca consentirá em erro”. Esse tipo de noção enrijeceu a interpretação do Corão (o livro sagrado dos mulçumanos) e forneceu a base de muitos dos dogmas que hoje são aplicados em forma de lei em alguns países orientais. A Xariá nasceu da mistura de alguns versos do Corão que tinham conteúdo jurídico com partes do velho Direito consuetudinário das tribos árabes do deserto e com a ideia de que não se poderia questionar uma interpretação consensual. Quem discordasse do consenso dos sábios incorreria em heresia.

Essa é a força mais conhecida, entre nós, ocidentais e simpatizantes da religião islâmica. Uma segunda força, menos popular mas igualmente importante na composição do imaginário religioso dos povos do Oriente Médio, é o sufismo.

Esse movimento, fortemente místico e subversivo, nasceu quando árabes mulçumanos tiveram contato com tradições místicas cristãs e passaram a entender que o Corão pode ser reduzido a uma única e inexpugnável ideia: todo mulçumano deveria viver a vida como se sempre estivesse na presença de Deus. Aquele amor místico que aparece nas escrituras cristãs pela palavra ágape e que Renato Russo transformou em canção no disco As quatro estações, da Legião Urbana, produziu longa linhagem de mulçumanos que punham as prescrições da lei islâmica em segundo plano e fundamentavam sua religiosidade na experiência particular, pessoal, íntima e direta de Deus, sem subterfúgios ou intermediários nem referência à autoridade institucional ou jurídica. Rabia, uma mulher santa do sufismo, apontava como Paulo apontou nas escrituras cristãs: “o amor de Deus me absorveu até o ponto em que em meu coração não resta amor nem ódio a nenhuma outra causa”.

Esse estado de suspensão da dor e da alegria, da vontade e do desejo, esse vazio fundamental ao qual todas as tradições místicas fazem referência, parece estar ligado a uma alteração da consciência cotidiana. A experiência de desarticulação dos nossos sentidos, de suspensão da configuração mental do nosso software, que põe o programa do mundo para rodar em nosso cérebro e que cria a nossa matrix (você já viu o filme, não é?) não se submete aos aspectos mais rígidos e normativos da autoridade construída pela Xariá. Por isso o movimento sufi gerou conflitos institucionais profundos com os senhores da doutrina e da moral islâmica.

O mais significativo desses mestres sufis foi o poeta persa Mawlana Jahal al-Din Rumi(morto em 1273), que escreveu um longo poema místico intitulado Masnavi (tratado pelos sufis como uma espécie de Corão em língua persa). O panteísmo desconcertante (“todas as coisas são Deus”), a busca de exercícios de controle da respiração, a repetição de frases, a busca de um domínio mental durante os exaustivos rituais coletivos de canto, dança e música apontam para semelhanças muito íntimas entre as práticas sufis e as técnicas místicas hindus.

Rumi era poeta, como Maomé foi um dia. Como poeta, ele sabia das brechas do discurso, entendia que boa parte daquilo que os homens chamam de “verdade” nada mais é do que uma construção artificial, que muitas vezes serve apenas para sustentar estruturas de poder. Música, dança e poesia são mecanismos muito mais poderosos para encontrar Deus, na leitura sufi, do que as prescrições legais da doutrina. Talvez por isso, aliado a um profundo sentimento de inclusão que toca o humano e abrange todas as raízes e todas as linhagens de pensamento, os poemas de Rumi estejam hoje espalhados por sinagogas, mesquitas, igrejas e museus em cidades como Nova York. O poeta sabe dos acenos da linguagem. Ele conhece o lugar onde Deus dorme. Ele sabe chegar a esse lugar, que fica bem no centro luminoso do coração dos homens.

“O pior dos santos é o que visita os príncipes, e o melhor dos príncipes é aquele que visita os sábios.”

“Quando estivermos mortos, não busque nossa tumba na terra, porque ela vai estar fincada no coração dos homens.”

Versão de um poema sufi traduzido para o inglês por Annemarie Schimmel:

Eu morri como um mineral e tornei-me uma planta.
Morri como uma planta e me tornei um animal.
Morri como um animal e me tornei um homem.

Porque eu devo ter medo quando a morte me tocar?
Quando fui menos por morrer?
Se mais uma vez eu devo morrer como um homem,
me elevarei
com a benção dos anjos.
Mas até por esse estado angelical
tenho que atravessar.

Tudo perece, menos Deus.

Quando eu tiver sacrificado minha alma de anjo
me tornarei aquilo que nenhuma mente jamais concebeu
Oh! Deixe-me não existir!
Pelo nada
proclamado em música
voltaremos a Ele

Publicado em 1º de dezembro de 2009

Publicado em 01 de janeiro de 2002