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Autoconsciência do horror

Pablo Capistrano

Escritor, professor de filosofia

Semana que passou as imagens continuaram a assombrar o mundo. Novas cenas de abusos e espancamentos apareceram nas páginas do jornal The Washington Post, para o desespero dos defensores da liberal democracia norte-americana.

Desta vez a coisa foi pior. Os abusos estavam acontecendo também dentro de casa. No sistema de prisões dos EUA. Imediatamente lembrei de um sonho que tive anos atrás. Andava ansioso por uma imensa e complexa estrutura de metal brilhante, bem lustrado. Parecia, às vezes, um palácio, às vezes uma construção incrustada numa montanha alta. Num determinado momento, entrei numa sala escura e comecei a cair, cair e cair. Caí como só se cai em sonhos, sem se machucar. Quando senti a superfície do chão sob os meus pés, percebi que estava numa sala escura, iluminada por um foco de luz circular. No canto da sala, olhava para mim uma entidade azul, com sete ou oito braços, uma coroa de luz e um sorriso de uma malignidade espantosa. Não preciso dizer o estado em que acordei naquela noite, nem o fato de ter de esperar o galo cantar e os primeiros raios do sol de Natal molharem meu travesseiro para voltar a dormir. Pesadelos são assim. Materializam, de modo escandalosamente sinistro e real, os pavores que guardamos dentro da alma.

Contei o sonho a uma amiga psicóloga, e ela me disse que essa entidade era a minha sombra. Não aquela que aparece quando a gente fica de pé, debaixo do sol, mas uma sombra psíquica. Pelo que eu entendi, minha amiga estava tentando falar de um dado psicológico que supostamente todos temos. Guardada em algum lugar de nossa mente se encontra a imagem de tudo aquilo que nós negamos, que nós escondemos dos outros e de nós mesmos. A força que nós desejamos, mas não temos coragem de aceitar, e que existe em nós. Ela me disse que, geralmente, a gente projeta a sombra no outro, repreendendo, condenando, aquilo que o outro mostra sem pudor e que, em nós, é tão doloroso, vergonhoso. Aulas de psicologia junguiana à parte, parece que a democracia liberal norte-americana agora encontrou a sua sombra. As marcas dessa sombra podem ser vistas pela Internet, pela TV, nos jornais do mundo todo. Dizem que reconhecer a própria sombra é sinal de maturidade. Que identificar no outro o que o incomoda - e checar se esse incômodo vem do outro mesmo ou de dentro de você - é um passo importante para a compreensão da nossa própria natureza. Não sei se isso é balela. Só sei que, vez ou outra, a democracia liberal de Jefferson, Paine, Franklin, Whitman, Ginsberg, Thoreau e tantos outros gênios libertários se pega em flagrante, realizando, promíscua e clandestinamente, o ritual sombrio, tantas vezes usado como subterfúgio para condenar as práticas políticas dos outros países.

A guerra que está em jogo nos dias de hoje não é uma guerra só de bombas, é uma guerra eletrônica de ideias sobre o mundo de mitologias políticas herdadas, de um lado, do iluminismo europeu do século XVIII e, de outro, das práticas humanas imemoriais. A mitologia da liberdade burguesa, tão defendida e propagada pelos povos "civilizados", tem uma sombra que, como a entidade azul de meu sonho, vez ou outra bota o seu cínico sorriso para fora, para cuspir na cara do mundo, a autoconsciência de que o terror pode ser um parceiro inseparável dos homens. Um parceiro que não vive só na casa dos outros, mas que pode também estar escondido debaixo da pia da nossa própria cozinha.

Publicado em 01 de janeiro de 2002