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Calçadas manchadas de sangue

Pablo Capistrano

Escritor, professor de filosofia

A ideia de que toda vida merece ser vivida é problemática. No entanto, mais problemática é a ideia de que alguém pode decidir por outro quando e como uma vida deve ser vivida, ou mesmo quando ela deve acabar. Nossa sociedade costumou-se a produzir um discurso repetitivo sobre a vida. Um discurso que reforça a ideia de que a vida humana é sagrada e de que qualquer atentado contra ela é um delito terrível, um dos mais odiosos, e que deve ser objeto da mais violenta repulsa.

No entanto esse discurso, no decorrer de 500 anos de história do Brasil, parece que se reduz a uma autojustificativa psicológica, e não se reflete num conjunto eficaz de atos que possa proteger esse bem tão "amado" por nós.

Se o nosso discurso indica que toda vida merece ser vivida e que todos os humanos devem ser tratados com justiça e igualdade, nossa prática cotidiana reflete um profundo desprezo pela vida e um grande sentimento de que existem "pessoas" e "pessoas". Nós nos acostumamos a olhar com piedade ou repulsa os moradores de rua e a usá-los como contraexemplo para assustar nossos filhos: "Estude para ser alguém na vida, senão vai acabar como eles". Nós nos acostumamos a identificar no "Zé ninguém" a sombra de nossa própria incapacidade para lidar com os abismos sociais que nós mesmos construímos.

Os moradores de rua são submetidos a uma negligencia estatal e coletiva que produz um assassinato diário, lento e sistemático. Mas nosso discurso da sacralidade da vida não se importa com a morte lenta. Isso é terrível porque, por trás da morte lenta, existe uma ampliação da morte, uma expansão da morte. Dizem que só se morre uma vez, mas o tempo da morte é variável. Numa guilhotina, a morte é rápida. O tempo da passagem é medido em segundos. Num câncer terminal, a morte pode se arrastar por dias e meses.

Para os moradores de rua existem dois tipos de assassinato. O crônico e o agudo. No primeiro caso, a morte se estende por anos e anos. Ela se pontecializa e se transfigura numa companheira constante da própria vida. A morte crônica não assusta ninguém. É tão natural e inerente ao ritmo de vida de nossas grandes cidades que desaparece na fumaça dos automóveis que engarrafam as grandes rodovias. A morte aguda não. Ela costuma a mexer com a consciência da elite brasileira e faz o discurso da sacralidade da vida ganhar as manchetes dos jornais e as pautas dos representantes do Estado. A morte aguda instiga a reação verborrágica de uma sociedade que se esconde atrás das fantasias de seu próprio discurso. É um mecanismo excelente para amaciar o ego e produzir aquela catarse de uma culpa que não deve, sob hipótese alguma, abandonar a caverna que hiberna. Por isso o choque, o pasmo, diante do massacre dos moradores de rua em São Paulo. Os fascistas que espancam mendigos são muito úteis para a nossa consciência burguesa. Estimulam o disfarce de um discurso que só serve para aliviar nossa própria culpa.

Se as calçadas de São Paulo não tivessem amanhecendo sujas com o sangue dessas sombras sem rosto que habitam nossas esquinas, a morte continuaria placidamente a edificar seu reino, lento, sistemático, imperioso. Mas o sangue que suja as ruas perturba nossa paz de espírito. E, só após a prisão dos assassinos, vamos poder voltar a dormir tranquilamente o sono dos justos, porque a morte dessas pessoas vai voltar a ser lenta, larga, asséptica, sistemática e invisível, como nunca deveria ter deixado de ser.

Publicado em 01 de janeiro de 2002