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Cibercola

Giovânia Costa

Se a ideia da cola pode chocar os educadores, talvez eles já estejam esquecidos dos seus dias de prova. Quem nunca se viu, durante a vida escolar, sob uma pressão desse tipo, quando a cola parece ser uma ótima solução? Há os medrosos que nunca colam e se lamentam porque veem os colegas fazerem isso e conseguirem êxito. Há os que nunca precisam, mas que são solicitados a dar cola; se recusam, são rejeitados pela turma. Há até professores que brincam incentivando os alunos a preparar suas colas em papeizinhos, cada vez mais diminutos, pois, de tanto copiarem, acabarão memorizando. E também existem os que sabem colar tão bem que enganam a todos e, anos depois, se vangloriam de suas façanhas, fazendo piadinhas nos encontros com os velhos amigos.

Na verdade, o ato da cola denuncia a incompetência da própria escola, e não dos alunos, como usualmente se pensa. Ela é uma resposta espontânea a um modelo de educação em crise. Já se discutiu no Portal da Educação Pública o sistema de avaliação que funciona como mecanismo de opressão e exclusão, e não de verificação. Sob essa perspectiva, colar nada mais é do que um ato de defesa do aluno contra uma escola que não ensina, mas apenas cobra. Contra a "educação bancária", lembrando Paulo Freire, que exige a emissão dos extratos no fim do bimestre.

Ao contrário, a avaliação escolar deve ser contínua e acumulativa, e não cobrada em uma única prova ou trabalho. Também deve ser resultado de negociações diárias e transparentes, entre docente e aluno. Hoje, professores mais bem-intencionados dividem suas avaliações em diversos trabalhos, estimulam a pesquisa, buscam o diálogo se abrindo para as manifestações culturais que os alunos trazem, estimulam o uso das novas tecnologias que trazem o mundo para dentro das escolas.

Nesse contexto de abertura, de propostas de novas formas de avaliação, de estímulo ao aluno, apareceu um inimigo no processo de construção da autonomia do aluno: a cola pela Internet ou, como também é chamada, cola on-line.

Atualmente, existem centenas de sites na Internet que oferecem trabalhos prontos. Também são facilmente encontrados por meio de qualquer site de busca. Como num supermercado, os alunos encontram os trabalhos prontos, que podem ou custar poucos ou muitos reais, ou ainda, até mesmo de graça. Mas isso não diz respeito apenas a crianças e jovens dos ensinos fundamental e médio. Também existem, nesse ramo, especialistas para atender ao ensino superior - incluindo pós-graduação lato e stricto sensu -, que se oferecem para escrever monografias, dissertações e teses sobre qualquer assunto. Se até adultos supostamente comprometidos com a vida acadêmica, ou seja, futuros mestres e doutores, procuram esse "serviço", imagine o desserviço que sites como esses estão fazendo para jovens alunos dos ensinos fundamental e médio.

A reportagem "Cola on-line", publicada pela revista Época em abril de 2002, diagnosticou, naquela época, os números da roupagem cibernética de uma velha prática. Um site que oferecia trabalhos acadêmicos prontos e gratuitos, observou o jornalista com espanto, tivera, no mês anterior, 223 mil visitas. "Dona do maior acervo da América Latina, com 8,5 milhões de livros e raridades, a Biblioteca Nacional recebe 15 mil visitantes por mês", comparou ele. "Mesmo ponderando que é mais fácil acessar uma página no computador que se deslocar até a sede da biblioteca, no Centro do Rio de Janeiro, a comparação assusta. É um sinal do sucesso que estão fazendo os sites de trabalhos prontos - cujos textos vêm sendo usados pelos estudantes em colégios e faculdades."

Como escapar dessa oferta? Que defesa o professor e a escola podem ter contra isso? Desprezar a utilidade da Internet ou proibir seu uso não são ideias sensatas. Cada vez mais, o uso da Internet está se difundindo pelo mundo e espera-se que todos tenham acesso a ela. A inclusão digital e a incorporação das novas tecnologias no processo educacional são assuntos urgentes. Ocorre no país uma grande mobilização para a conscientização dessa urgência, sob pena de se perder a revolução tecnológica que o mundo atravessa. Por isso, alguns setores do país estão agindo para minimizar isso, a fim de que todas as escolas e todos os alunos tenham acesso à Rede como uma forma de inclusão.

Para contornar essas facilidades de cola cibernéticas, os professores não devem proibir ou desaconselhar a Internet como meio de pesquisa, pois o universo de informações que ela possibilita é inquestionável. Ao contrário, os professores precisam criar mecanismos de impedimento não em relação à Internet, mas sim à apropriação sem ética feita por alguns alunos. É certo que o roubo intelectual e o plágio não são, de fato, novidades. No entanto, se antes eles existiam escondidos pela vergonha ou pelo medo, agora se mostram, aperfeiçoam-se e se valorizam na cibercultura. Um dos fatores que favorecem isso é a falta de políticas para o setor, permitindo que a Internet seja um território "sem lei". A noção tradicional de território e até mesmo a de propriedade no mundo virtual são esfaceladas, por isso serão necessários novos conceitos. Espera-se, então, que esses conceitos surjam, como fruto de diálogos e debates que os educadores precisam urgentemente incentivar e dos quais devem participar.

Numa perspectiva mais imediata, é importante que o professor navegue um pouco pela Internet e acesse alguns dos inúmeros sites que oferecem, gratuitamente ou não, trabalhos, a fim de conhecer esse "movimento" que se propaga crescentemente. Além disso, o professor precisa trazer temas como pesquisa e ética para a sala de aula, pois, embora muitos não se utilizem de trabalhos prontos, um número maior de alunos acaba procedendo não intencionalmente de uma maneira aética na feitura de seus trabalhos.

O procedimento aético ocorre pois muitos alunos não pesquisam simplesmente, mas sim selecionam textos diversos pela Internet, copiam-nos e os remendam, assinando o produto final como autor, sem ao menos citar as fontes. Talvez muitos deles sequer saibam que copiar e colar é muito diferente de ler, reescrever e indicar, com justiça, a fonte. A citação dos sites pesquisados e da autoria dos textos deve ser exigida, assim como as fontes bibliográficas. Além disso, não se trata apenas de enfrentar uma forma de engodo escolar. Trata-se também de conscientizar os alunos da importância da postura ética não só em relação ao trabalho, mas também a eles mesmos.

Mas uma coisa é certa: é preciso não fazer da cola on-line um tabu e não deixar que ela impeça o professor de estimular a autonomia dos alunos. Para isso, é importante que a avaliação e seus objetivos sejam bem estruturados e, ainda, que os critérios de correção não sejam mascarados por excelentes (porém falsos) trabalhos.

A fim de exercer com eficiência o seu papel, o professor, caso possa, precisa ter um espírito de investigador e verificar as fontes citadas. Com esse cuidado, pode-se ter uma noção do caminho que os alunos fizeram na pesquisa e, desse modo, orientá-los sobre sites de conteúdo duvidoso. O envolvimento dos pais também é fundamental, pois a pesquisa pode ser bem mais eficiente e produtiva sob a orientação deles. Os pais também precisam estar atentos ao processo de copiar e colar que os filhos possam fazer ao invés de ler para reproduzir com as próprias palavras ou citar da forma adequada.

Se a cola - até mesmo em sua versão moderna, via Internet - é uma resposta espontânea a um modelo de educação em crise, que se cuidem dos sintomas. Mas, para realmente curar o doente, que se continuem investigando as causas.

Nota:

aso o professor queira conferir os inúmeros sites que oferecem trabalhos, ele deve digitar a expressão "trabalhos prontos" no site de busca Google. Outra dica é o portal "Cola on-line", no qual há links para alguns dos mais procurados sites de trabalhos prontos.

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Publicado em 01 de janeiro de 2002