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Ciência, tecnologia e interesse público

Sergio Henrique Martins

Redator

Ciência e Tecnologia (C&T) são uma espécie de chave para a intervenção cada vez maior do Homem na Natureza. A História nos mostra o quanto, com exemplos de impacto, da eletricidade à energia atômica, da vacina à clonagem, do avião aos satélites. E eles mudaram tão profundamente a existência humana, que podemos considerá-los fundamentais à civilização. Neste caso, vale destacar a declaração de um respeitado cientista, o astrofísico norte-americano Carl Sagan, dada numa entrevista (VEJA. A vida fora da Terra. São Paulo: Ed. Abril, 27 de mar., 1996, (29) 13, pp. 84-90.): "(...) sem os avanços técnicos na agricultura, nas ciências médicas e na tecnologia quase todos os habitantes do planeta Terra estariam agora mortos".

Além disso, os conhecimentos científicos e tecnológicos têm uma aura de respeitabilidade, chegando a servir como referenciais sobre o que é real. Isto se verifica, por exemplo, na constituição de provas jurídicas por métodos como autópsias, análises químicas, estudos balísticos ou exames de DNA; nos dados estatísticos e conceitos econômicos que justificam as administrações de governos e empresas; e mesmo no hábito de muitas pessoas recorrerem a noções de Psicologia para interpretarem suas vidas - referir-se a ego, inconsciente, trauma, neurose, já virou lugar comum no discurso cotidiano.

Portanto, Ciência & Tecnologia representam um imenso poder. E aí surgem as questões: quem o exerce, e para quê? Importantíssimas, pois Ciência & Tecnologia podem estar sujeitas a interesses que desconsiderem o bem-estar coletivo e até o contrariem. A História prova isto. Basta-nos lembrar o Nazismo, que tanto buscou revestir sua ideologia racista com interpretações de informações científicas quanto utilizou o aparato tecnológico alemão na sustentação de seu regime totalitário e, muito pior, na operacionalização do genocídio.

Os fatos históricos também mostram que a tentativa de resposta às questões sobre o poder tecno-científico constitui uma das maiores discussões sóciopolíticas das últimas décadas. Elas se intensificaram após a Segunda Guerra - a qual, de forma contundente, mostrou ao Mundo o quanto Ciência & Tecnologia podiam servir a propósitos destrutivos.

Nem mesmo a recuperação econômica do Pós-Guerra conseguiu apagar na civilização a desconfiança nas atividades envolvendo esses saberes como promotoras de bem-estar. Desde então, elas vêm alternando o status de progresso com o de ameaça. Eis alguns casos:

  1. ao mesmo tempo em que a energia nuclear tinha utilidade reconhecida na Medicina, seu uso em larga escala em armamentos passou a alimentar medos coletivos de destruição planetária e a gerar mobilizações sociais de protesto;
  2. a própria aplicação da fissão atômica para produção alternativa de eletricidade foi inicialmente recebida com entusiasmo pela opinião pública. Depois, passou a ser seriamente questionada, e até combatida, em função de seus riscos ambientais;
  3. o consumo de cigarros era admirado, associado a um estilo de vida de "sofisticação", "civilidade" - ao menos sua exploração estética, comum no Cinema e na Propaganda, nos dá essa impressão. Hoje, no entanto, a pressão social contra o fumo é fortíssima, baseada em pareceres médicos que associam o cigarro a sérios problemas de saúde;
  4. através de seus produtos, as técnicas industriais têm trazido conforto e praticidade ao dia-a-dia. Porém, tanto a indústria quanto o modus vivendi nela baseado sofrem constantes acusações públicas, de poluírem o ambiente em todos os níveis (físico-químico, biológico e até psicossocial).

Nestes exemplos, é evidente a noção de que o emprego de tecnologias novas e mesmo as estabelecidas pode ameaçar a segurança e até a sobrevivência do Homem. E não se trata de uma concepção supersticiosa, de um medo irracional de pessoas não versadas em C&T e incapazes de aceitar o que não compreendem. O próprio Carl Sagan chegou a dizer, na mesma entrevista de 1996: "Nós, os humanos, é que estamos numa situação cada vez mais frágil. É provável que a esta altura de nosso desenvolvimento tecnológico estejamos criando uma civilização incompatível com a vida no resto do planeta".

Em resposta a esta situação vêm exatamente os debates sobre os fins do poder sobre C&T, apoiados por movimentos sociais como o antinuclear e o ambientalista. Envolvem principalmente os grupos mobilizados e os ligados a instituições políticas, econômicas, acadêmicas. E são amplos, tratando do desarmamento mundial e da biossegurança às políticas de pesquisa, da ética em experimentos médicos ao impacto de novas tecnologias no mercado de trabalho.

Um bom exemplo desta discussão é a Eco-92, conferência das Nações Unidas que reuniu em 1992, no Rio de Janeiro, 117 chefes-de-Estado em torno de problemas ambientais. Ela também inspirou encontros paralelos, como o Fórum Global, importantes por destinarem-se a políticos, empresários, artistas, pesquisadores, militantes dos movimentos sociais, religiosos, representantes de culturas indígenas, entre outros atores sociais de diversas partes do globo. Todos vieram se manifestar a respeito de uma longa série de temas envolvendo conhecimentos científicos e tecnológicos: fontes de energia alternativa, exploração mais racional de recursos naturais, patrimônio genético da Natureza, controle de poluentes, entre outros que implicam noções de Biologia, Física, Química, Engenharia etc.

Um exame de registros de todos os eventos logo expõe a principal característica dos debates: o estabelecimento de uma relação do desenvolvimento tecno-científico com sistemas políticos e econômicos, expresso no constante questionamento da autoridade sobre Ciência e Tecnologia  e de seus modelos para a exploração de tais conhecimentos.

Neste ponto, é muito importante ressaltar a influência de Ciência e Tecnologia no reconhecimento de versões do real - à qual nos referimos no início deste texto. Não raro, os grupos que discutem o poder sobre C&T apresentam trabalhos científicos e pareceres de especialistas para sustentar seus argumentos. É o caso de estudos divulgados por militantes antinucleares, que projetam o congelamento de toda a superfície terrestre após uma guerra atômica mundial e consideram muito remotas as chances de sobrevivência do Homem, reforçando o discurso pacifista. É também o caso de pesquisas que negam a dependência química de nicotina, nas quais a indústria do cigarro se apoia para se defender do movimento antitabagista.

Assim, saberes tecno-científicos atuam como fatores de determinação de outros saberes da mesma espécie, e isto reforça o seu poder legitimador. No entanto, pode também enfraquecê-lo, porque revela limitações de tais conhecimentos. Afinal, quando servem a ambas as posições de um conflito, não contribuem para a resolução deste, mostrando um caráter ambíguo. A informação científica, portanto, está à deriva num mar de ideologias - ela pode ser objetiva, mas suas interpretações, não. Talvez por isto a comunidade acadêmica se divida quanto à atitude a tomar diante das questões sobre o poder da Ciência e da Tecnologia, dependendo da inclinação política de cada um de seus integrantes. Assim, Linus Pauling, Prêmio Nobel de Química, ganhou também o da Paz, por atuar em campanhas pró-desarmamento. Por outro lado, o Nobel de Química James Watson, chegou a declarar: "O cientista de ponta não pode pensar muito em custos sociais ou aspectos éticos, pois, se ele refletir, não avança." (VEJA. Dolly, a revolução dos clones. São Paulo: Ed. Abril, 05 de mar., 1997, (30) 09, pp. 92-99. A declaração consta na página 97.)

Concluímos esta breve caracterização da presença de Ciência e Tecnologia no mundo contemporâneo chamando atenção para a opinião pública em meio aos debates e disputas de poder. Claro, nas sociedades regidas por ideais democráticos, o apoio da coletividade é decisivo. E hoje, com as sociedades de maior influência cultural, econômica e política - norte-americana, europeias... - caracterizadas pela adesão à democracia, e a globalização nestes campos de atividade, o aval público tem alcance mundial.

Além disso, pelos próprios princípios democráticos, a participação nessas discussões é de interesse público. Populações inteiras têm sua existência determinada material e intelectualmente por Ciência e Tecnologia. Devem também ter o direito de conhecê-las e de opinar - quando não de decidir - sobre sua produção e aplicação.

Publicado em 01 de janeiro de 2002