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Clonar ou não clonar? Eis a questão...

Cristina de Oliveira Maia Denise Lannes

Conteudistas de Biologia da Extensão do Cecierj

A clonagem de seres humanos é um dos temas científicos mais em pauta na mídia, ultimamente. O assunto já causou muita discussão apesar do pouco conhecimento sobre o tema, não só pelo público leigo como pelos próprios cientistas que trabalham na área.

A clonagem e a produção de transgênicos de diversas espécies são práticas que já acontecem há décadas. Mas, agora, chegando ao domínio público, viraram temas de calorosos debates, com direito a críticas e defesas veementes, embora nem sempre corretas, cientificamente falando.

Segundo Franklin Rumjanek, professor do Departamento de Bioquímica Médica da UFRJ, o termo "clone" foi cunhado em 1903 pelo botânico Herbert J. Webber, que pesquisava hibridação de plantas no Departamento de Agricultura dos Estados Unidos. O significado do termo, definido pelo próprio Webber, é "uma colônia de organismos que, de modo assexuado (sem intervenção de sexo), deriva de apenas um progenitor".

Já o professor Francisco Salzano, do Departamento de Genética do Instituto de Biociências da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, lembra que devem existir, circulando pelo Brasil, nada menos que 800 mil clones! Como a frequência do nascimento de gêmeos monozigóticos em nosso país é de cerca de cinco por mil, e temos uma população de 160 milhões de pessoas, é só fazer as contas. Na verdade, a formação de gêmeos monozigóticos (ou idênticos) não é senão um processo de clonagem. Uma célula (ou um conjunto delas) em desenvolvimento a partir da célula-ovo (zigoto), formada pela união do óvulo com o espermatozoide, separa-se da outra (ou do outro conjunto) por razões desconhecidas, resultando em dois ou mais indivíduos geneticamente idênticos. E ninguém, segundo o professor Salzano, "questiona se esses gêmeos têm individualidade, alma ou outras bobagens".

Nos anos 70, iniciaram-se os experimentos de clonagem com animais sexuados, com variados graus de sucesso.

A clonagem de mamíferos sempre foi um problema. Em 1984, o pesquisador David McGrath e o imunologista iugoslavo Davor Solter, por exemplo, chegaram a anunciar que os recursos técnicos da época estavam esgotados: "A atividade diferencial dos genomas materno e paterno e os resultados apresentados aqui sugerem que a clonagem de mamíferos através de simples transferência nuclear é biologicamente impossível."

Porém, o interesse pelos clones renasceu agudamente em 1997, com a clonagem histórica da ovelha Dolly - um clone autêntico, por ter sido gerada a partir de uma célula somática (já diferenciada) de um doador adulto - deflagrando um intenso debate que prossegue até os dias de hoje.

Esse tipo de clonagem provocou sensação devido à percepção imediata de que o processo poderia em pouco tempo ser realizado com o ser humano, o que compreensivelmente inflamou a imaginação popular.

Em janeiro de 2001, um seleto grupo de cientistas comandado pelo cipriota-americano Panayiotis Zavos, ex-professor da Universidade de Kentucky, e por um pesquisador italiano, Severino Antinori, anunciaram o objetivo de clonar um ser humano.

Em 08 de maio de 2002, Antinori, especialista em fertilização humana, declarou que três mulheres estão grávidas de cópias humanas. De acordo com o cientista, as mulheres grávidas passaram recentemente por uma ultrassonografia que não revelou problemas em seus fetos.

Contudo, o médico Panayiotis Zavos, antigo parceiro de Antinori, lançou dúvidas sobre as supostas gestações, dizendo que nenhuma pessoa da equipe original continuava no projeto. "Não acredito no que ele disse", afirmou a um jornal de Chipre. Zavos agora tem um projeto independente do de Antinori (Antinori diz supervisionar três gestações de clone - 08/05/2002 - 22h11, da Reuters. Folha de São Paulo)

Um aspecto essencial no debate sobre a moralidade da clonagem em humanos, segundo Volnei Garrafa - presidente da Sociedade Brasileira de Bioética (gestão 2001-2004) e do 6o Congresso Mundial de Bioética (Brasília, 30/10 a 03/11/2002) -, diz respeito à vulnerabilidade dos futuros indivíduos geneticamente idênticos. Os críticos mais radicais usam este e outros argumentos para classificar os avanços da ciência como perigosos.

É impossível, entretanto, imaginar nossa sociedade como eterna ou imutável. Por outro lado, os benefícios decorrentes do progresso científico precisam ser alcançados. Resta então agir - e permitir a continuidade das pesquisas - com prudência e tolerância, sabendo respeitar os limites entre o necessário e o possível.

Saiba mais sobre o tema lendo, na íntegra, os textos dos autores citados acima na Revista Ciência Hoje, edição especial sobre clonagem, disponível no endereço: http://www.uol.com.br/cienciahoje/ch/ch176/clone.htm.

Publicado em 01 de janeiro de 2002