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Dengue: compreender para combater

Andréa Velloso Cristina de Oliveira Maia

Conteudistas de Biologia do do CEDERJ

Pegou dengue?

Com um nome tão singelo, ninguém imagina que esta doença também é chamada de "febre quebra ossos". Quem já sofreu do mal entende bem o significado. Não tem nada de dengoso, a não ser a moleza, a fraqueza que o doente sente.

Vários e confusos são os sintomas. Os primeiros podem ser confundidos com os de um resfriado. A dengue também pode começar com uma febre alta com prostração, dores de cabeça, nos olhos, nas articulações e dores musculares. Podem surgir, ainda, manchas avermelhadas espalhadas pelo corpo, enjoo e vômitos. Os sintomas costumam aparecer de três a quinze dias depois da picada.

O vírus que causa a doença é do tipo arbovírus (transmitido por artrópodes). São conhecidos quatro sorotipos da dengue: DEN-1, DEN-2, DEN-3 e DEN-4. Cada sorotipo representa um conjunto de tipos de vírus que causam a mesma resposta imune no organismo. Assim, são reconhecidos quatro tipos semelhantes de vírus que causam o mesmo conjunto de sintomas que caracterizam a dengue. A única espécie de artrópode que comprovadamente transmite este vírus ao homem é o Aedes aegypti.

O mosquito e "a mosquita"

O Aedes aegypti é originário da África, tendo sido introduzido no continente americano durante o período de colonização. Somente a fêmea da espécie suga o sangue humano, sendo responsável pela transmissão do vírus. As fêmeas precisam deste tipo de alimentação para a maturação dos seus ovos. A postura só acontece onde a fêmea encontra água limpa, mas os ovos podem durar até 450 dias mesmo em locais secos, precisando da água apenas para eclodir e desenvolver as fases da larva até o adulto.

O ciclo de transmissão do vírus no Brasil é: Espécie humana > Aedes aegypti > Espécie humana. Após a fêmea do mosquito picar uma pessoa com dengue, o vírus vai se localizar em suas glândulas salivares, onde se multiplica durante 8 a 12 dias de incubação. A partir daí o Aedes aegypti pode transmitir a doença.

Veja mais sobre o ciclo de vida do Aedes aegypti no site: darwin.futuro.usp.br/finlay/doenca.htm

O número de mosquitos contaminados é muito maior do que o número de mosquitos que já picaram pessoas doentes. Isto acontece por causa da transmissão transovariana, em que a fêmea contaminada transmite o vírus da dengue para os ovos antes da postura, fazendo com que um percentual variável de filhas fêmeas já nasçam contaminadas.

É bom lembrar que os hábitos desta espécie de mosquito (Aedes aegypti) são diurnos, isto é, a fêmea vai se alimentar durante o dia, quando estamos em atividade e muita vezes não notamos que estamos sendo atacados. Mesmo à noite, luzes acesas podem confundir o mosquito, fazendo-o pensar que ainda é dia, portanto hora de comer!

Como se precaver?

O uso de borra de café foi divulgado pela imprensa como sendo eficaz no combate ao mosquito da dengue. Uma pesquisa realizada na Universidade do Estado de São Paulo (UNESP) havia indicado esta alternativa prática, caseira e não-tóxica. Porém a Superintendência de Controle de Endemias (SUCEN) não conseguiu comprovar a eficácia de duas colheres de sopa da borra de café para meio copo de água, no controle do vetor. Assim, o uso desta prática não está sendo recomendado pelo órgão.

Outra forma muito divulgada de profilaxia contra o mosquito é a vela de andiroba. Este sim é, comprovadamente, um método eficaz de afugentar o Aedes aegypti e outros mosquitos. A Fiocruz recomenda o uso das velas confeccionadas com sementes da planta andiroba (Carapa guianensis Aublet), e tem uma produção própria dessas velas.

Medidas de controle

O conjunto de recomendações a seguir foi reunido pela SUCEN (Superintendência de Controle de Endemias) e é de fácil execução, ou seja, são cuidados que podem e devem ser adotados pela população em suas residências e locais de trabalho para evitar a criação de larvas de Aedes aegypti.

Pratos de vasos de plantas e flores com terra

  • Eliminar os pratos, principalmente os localizados na área externa;
  • Guardar os pratos justapostos;
  • Substituir pratos por outros menores;
  • Furar os pratos;
  • Adicionar areia grossa nos pratos (ver orientação no quadro 1);
  • Emborcar os pratos sob os vasos;
  • Eliminar a água acumulada nos pratos depois de regar as plantas, e de preferência também escovar os pratos e a parede externa dos vasos.

Vasos de plantas e flores com água

  • Colocar a planta em vaso com terra.
  • Lavar e guardar o antigo vaso emborcado, ou seco ao abrigo da chuva;
  • Trocar a água 2 vezes por semana, e de preferência escovar a parede interna dos vasos e lavar com água corrente as raízes das plantas;
  • Floreiro - remover as flores e trocar a água 2 vezes por semana e, de preferência, lavar o vaso;
  • Plantas em água para criar raiz - vedar a boca do vaso com algodão, tecido ou papel alumínio, ou trocar a água 2 vezes por semana e, de preferência, lavar o vaso.

Pingadeira

  • Eliminar as pingadeiras, principalmente as localizadas em área com piso frio ou terra;
  • Adicionar areia até a borda;
  • Colocar ½ colher (sopa) de sal, toda vez que esvaziar a pingadeira;
  • Eliminar a água acumulada na pingadeiras depois de regar as plantas, e de preferência escovar a pingadeira.

Filtros ou Potes d'água

  • Mantê-los bem tampados com tampa própria, pires ou pratos e, sempre que não ficarem bem vedados, cobri-los com um pano por baixo da tampa, pires ou prato.

Caixa d'água

  • Mantê-la sempre tampada ou pelo menos telada, enquanto estiver sendo providenciada a tampa, e de preferência realizar sua limpeza.

Tambor, bombona, barril e latão

  • Em períodos sem uso: emborcar bombonas, barris e latões. Os tambores devem, de preferência, ser guardados em local coberto e quando mantidos ao relento devem ficar emborcados e ao sol;
  • Em períodos de uso: cobri-los com tampa ou "touca" (confeccionada com tela de mosquiteiro ou tecido) ou trocar a água 2 vezes por semana.

Bebedouro

  • Reduzir o número de bebedouros;
  • Trocar a água 2 vezes por semana e de preferência escovar o bebedouro, quando de tamanho pequeno;
  • Colocar peixes lavófagos ou lavar e trocar a água 2 vezes por semana quando o bebedouro for de tamanho grande e/ou fixo.

Pneus

  • Guardá-los secos em local coberto;
  • Quando precisarem permanecer ao relento, tratá-los com sal (1 copo cheio);
  • Retirá-los do imóvel, entregando-os em pontos de coleta de pneus, ou agendando seu recolhimento pela Prefeitura Municipal;
  • Furá-los, no mínimo em 6 pontos equidistantes, mantendo-os na posição vertical. Quando utilizados para balanço, é suficiente um único orifício no seu nível mais baixo.

Material removível (latas, garrafas de vidro ou plástico, potes de iogurte, margarina ou maionese, calçados e brinquedos velhos etc.)

  • Colocá-los no cesto ou saco de lixo, para a coleta rotineira da Limpeza Pública.

Garrafas de vidro retornáveis ou outras inclusive de plástico de utilidade para o responsável pelo imóvel

  • Guardá-las secas em local coberto e de preferência emborcadas ou tampadas;
  • Se ao relento, deixá-las emborcadas ou tampadas, especialmente as de plástico.

Baldes ou bacias sem uso diário

  • Mantê-los emborcados, de preferência em local coberto ou secos ao abrigo da chuva.

Bandejas de geladeira e de aparelhos de ar condicionado

  • Lavar a bandeja da geladeira 2 vezes por semana;
  • Colocar mangueira ou furar a bandeja do aparelho de ar condicionado.

Piscina

  • Em períodos de uso: efetuar o tratamento adequado incluindo cloro;
  • Em períodos sem uso: Reduzir o máximo possí vel o volume d'água e aplicar água sanitária, semanalmente, considerando o volume de água que permaneceu;
  • Para piscina sem sistema de filtragem de água, pode-se optar pela adição de sal conforme tabela anexa, não sendo necessário repetir o tratamento.

Lona para proteção da água ou segurança de piscina

  • Instalar boias (câmaras de ar de pneus) sob a lona, no centro da piscina, para facilitar o escoamento da água de chuva.

Piscina infantil

  • Em períodos de uso: lavar e trocar a água pelo menos semanalmente;
  • Em períodos sem uso: escovar, desmontar e guardar em local coberto.

Vaso sanitário sem uso

  • Mantê-los sempre tampados;
  • Caso não possua tampa, acionar a válvula 2 vezes por semana;
  • Adicionar 2 colheres (sopa) de sal, sempre que for acionada a descarga.

Caixa de descarga sem tampa e sem uso diário

  • Tampá-la com filme de polietileno;
  • Acionar a descarga 2 vezes por semana.

Plástico ou lona para cobrir equipamentos, peças e outros materiais

  • Cobrir as bordas do plástico ou lona com terra ou areia e, sempre que houver pontos de acúmulo de água, retirar o plástico ou lona e refazer a cobertura. Cortar o excesso, de modo a permitir que o plástico ou a lona fique rente aos materiais cobertos, evitando sobras no solo/piso e, sempre que houver pontos de acúmulo de água, retirar o plástico ou lona e refazer a cobertura.

Cacos de vidro no muro

  • Quebrar os gargalos e fundos de garrafas e/ou colocar massa de cimento nos locais que acumulem água.

Ocos de árvore e cercas de bambu

  • Cortar o bambu na altura do nó.
  • Preencher os ocos com massa de cimento, terra ou areia.

Calhas

  • Mantê-las sempre limpas, desentupidas e sem pontos de acúmulo de água (limpeza periódica, poda de árvores, nivelamento adequado).

Lajes

  • Mantê-las sempre limpas, com os pontos de saída de água desentupidos, e sem depressões que permitam acúmulo de água (limpeza periódica, poda de árvores, nivelamento com massa de cimento ou temporariamente com areia).

Ralos para água de chuva (subsolo e áreas externas) com rebaixamento (caixa para acúmulo de areia)

  • Telá-los;
  • Adicionar sal após cada chuva ou após escoamento de água de lavagem do local;
  • Adicionar água sanitária, ou qualquer outro desinfetante, sabão em pó ou detergente semanalmente.

Ralo de esgoto sifonado sem uso diário

  • Utilizar ralo com tampa "abre-fecha" nas áreas internas;
  • Telá-lo ou tampá-lo com algum objeto;
  • Adicionar água sanitária ou qualquer outro desinfetante (1/3 de copo), sabão em pó ou detergente semanalmente.

Caiaque e Canoa

  • Guardá-los secos em local coberto ou, caso precisem ficar ao relento, guardá-los virados para baixo.

Aquários

  • Mantê-los tampados ou telados ou com peixes larvófagos.

Copo de água do Santo

  • Tampar o copo com pano ou pires.

Bromélia

  • Regar abundantemente com mangueira sob pressão, 2 vezes por semana.

Armadilha para formiga do tipo vasilhame com água

  • Completar a água da armadilha utilizando sempre água com sal (0,5 colher de sal para cada copo d'água).

Fosso de elevador (construção)

  • Esgotar a água, por bombeamento, pelo menos duas vezes por semana.

Masseira (construção)

  • Furar lateralmente no seu ponto mais baixo quando em uso e desobstruir o orifício, sempre que necessário, ou quebrar a masseira eliminando suas laterais quando em desuso.

Se você suspeita de algum foco, ligue imediatamente para:

  • Disque-dengue: 3814-2138
  • Programa de Erradicação do Aedes aegypti: 2589-4185 / 2589-2338 / 2589-3578
  • Tele Comlurb (24h) 2566-1531

Em caso de contaminação, procure imediatamente um hospital ou posto de saúde. Não tome nenhum tipo de medicação, nem antitérmico ou analgésico, sem consultar um médico.

Referências:

  • http://www.funasa.gov.br
  • http://www.darwin.futuro.usp.br/finlay/doenca.htm
  • http://www.sucen.sp.gov.br/docs_tec/texto_cont_mec.htm
  • JAWETZ; Menilck; Adelberg. Microbiologia médica. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 1998.
  • CONSOLI, R.A.G.B.; Oliveira, R.L.. Principais mosquitos de importância sanitária no Brasil. Rio de Janeiro: Fundação Instituto Oswaldo Cruz (Fiocruz), 1994.

Publicado em 01 de janeiro de 2002