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Desafios, limites e possibilidades do Fórum Social Mundial

Cândido Grzybowski

Sociólogo, diretor do Ibase

O Fórum Social Mundial está indo para a Índia. De 16 a 21 de janeiro, a hoje cidade de Mumbai - Bombaim, ainda, para muitos - vai ser o epicentro do encontro mundial anual da emergente cidadania planetária que se opõe à globalização neoliberal e às lógicas de dominação que a alimentam, como o imperialismo, o terror e a guerra. Alarga-se, sem dúvida, a amplitude do apelo do Fórum de que "um outro mundo é possível". Já que não dá para todo mundo ir ao Fórum Social Mundial, seja lá onde se realizar, ele mesmo tenta uma ousada empreitada de ir ao mundo sem perder raízes, pois em 2005 estaremos novamente em Porto Alegre. E depois? Bem, depois é depois. Até aqui o Fórum Social Mundial tem surpreendido no modo como se desenvolve. A tarefa agora é ir à Índia e extrair daí o máximo de energia para alimentar a mobilização e a capacidade de intervenção dos múltiplos atores sociais que buscam um mundo de liberdade e dignidade para todos os seres humanos do planeta. Está aí o desafio central.

Qual é exatamente a força que move o Fórum Social Mundial? Qual o seu segredo? O que significa ser parte dele? A resposta talvez seja simplesmente sonhar que é possível, agir acreditando nas potencialidades da própria ação, buscar com os outros e outras, na igualdade de nossas múltiplas diferenças, as possibilidades de mudar relações, processos e estruturas que oprimem e excluem. A experiência mais radical participando do Fórum Social Mundial é sentir-se num espaço de liberdade de pensar, falar, propor, de ser ouvido e respeitado por isto. Ele é um alegre, colorido e barulhento fórum para pensar a ação que desenvolvemos no local em que vivemos, transformando-nos em parte de um poderoso movimento mundial de cidadania. É o encontro da diversidade do que somos, o espaço do confronto de ideias em base a princípios e valores éticos compartidos, uma universidade da cidadania em construção.

Mas o Fórum Social Mundial é, também, uma encruzilhada para onde confluem contradições, tensões e lutas sociais que permeiam as diferentes sociedades civis do mundo e demarcam os limites e possibilidades dos processos históricos contemporâneos. A divergência, a falta de consenso, o não pensamento único, mesmo criando muito ruído e não permitindo definir propostas e agendas comuns, são a base da vitalidade do Fórum Social Mundial. Ele deixará de ser o que é no momento em que eliminar de si as fontes das divergências, da falta de consenso, da multiplicidade de pensamentos e modos de pensar.

Dito isto, é possível examinar mais atentamente os principais desafios que tem o Fórum Social Mundial neste momento em que o evento principal se realiza na Índia. Para ser mundial o Fórum precisa galvanizar o mundo, alimentar-se das forças mais vivas das diferentes sociedades civis, nos marcos da Carta de Princípios, tendo a recriação da globalização em bases radicalmente democráticas e sustentáveis como horizonte. Apesar de ser contra a globalização neoliberal e engajar-se num pensar outra globalização, outro mundo, é forçoso reconhecer grandes déficits no processo do Fórum Social Mundial.

Um primeiro e contraditório déficit do Fórum reside precisamente em sua globalidade. Tal déficit pode ser diagnosticado em termos geográficos e em termos sociais e culturais. O Fórum Social Mundial é, sem dúvida, mundial, mas não suficientemente. Países e regiões inteiras estão pouco ou nada presentes no processo. A ida à Índia atende a tal desafio. Afinal, a população do país é duas vezes a da América Latina, e a Ásia representa metade da humanidade. Precisamos ir também à África, ao Leste Europeu, à Ásia profunda, ao nosso vizinho Caribe. Os Fóruns Regionais respondem, em grande medida, a tal desafio. Precisamos, porém, ser mais ousados. Estamos ousando com o mergulho em Mumbai. Precisaremos extrair todas as lições disto, examinar com coragem as possibilidades e limites do que significa e radicalizar o processo, sem perder a bússola e os portos seguros que vão sendo conquistados.

Em termos socais e culturais, o deslocamento geográfico do Fórum Social Mundial resolve em parte, mas não de forma fundamental, o déficit que enfrentamos. Precisamos reconhecer, pois esta é a nossa contradição, que somos uma elite da militância cidadã. Os setores mais populares e excluídos, mesmo organizados em movimentos sociais e redes, não participam expressivamente do Fórum Social Mundial, seja porque lhes faltam meios econômicos para participar ou porque o Fórum, com sua dinâmica, não os cativa. Ou será outra a razão da ausência de uma significativa participação popular urbana nas edições do Fórum em Porto Alegre? Mas o déficit social pode ser visto também de outro ângulo. A juventude se faz presente de forma muito importante no Fórum Social Mundial... mas fica como que confinada no Acampamento da Juventude, dada a nossa incapacidade de dar conta de sua problemática. Será que a realização do Fórum na Índia vai nos ajudar a enfrentar tal problema?

Isto me remete ao que chamo de déficit temático do Fórum Social Mundial. Somos novos como forma de encontrar-nos, mas parecemos velhos nas temáticas que elegemos para discutir centralizadamente. Isto se reflete na enorme contradição entre os grandes eventos no interior do Fórum e as múltiplas atividades livres, autogeridas, que os delegados participantes realizam. De um lado, uma persistente presença de um velho estilo de política de esquerda, um tanto repetitivo e oco em seu discurso. De outro, uma pujança anárquica, incapaz de condensar-se em torno a temáticas comuns, que tirem partido da diversidade de visões, de experiências, de condições e de propostas. No processo que nos leva à mundialização do Fórum Social Mundial, ao menos a consciência do problema político que representa a escolha da temática, com todos os seus limites e possibilidades, começa a emergir.

O terceiro grande déficit do Fórum Social Mundial é de ordem política. Realizamos um ato plenamente político, mas parece que tememos as suas consequências. Pior, estamos emaranhados num falso debate que confunde a necessária politização do Fórum - no desabrochar das múltiplas contradições que lhe dão vida e razão de ser - com a sua partidarização. É claro que o Fórum Social Mundial é uma forma de fazer política e, em si mesmo, incide nos processos políticos. É claro, também, que por esta mesma razão o Fórum é alvo de disputa partidária em seu interior. Até aí nenhum problema. O problema seria ou será no momento em que o Fórum Social Mundial for área hegemônica de alguma força político-partidária. Em sendo isto, exclui as outras forças e mata-se a si mesmo. Existe tal risco? Sem dúvida! Mas aqui vale a pena lembrar alguns aspectos do que o Fórum permite para ver onde está o seu potencial inovador em termos políticos, que não podem ser confundidos com partidos. No último Fórum, em Porto Alegre, o grande abraço público entre israelenses e palestinos participantes, revelando a busca da unidade com respeito da diferença, é um ato simbólico do novo modo de fazer política que o próprio Fórum Social Mundial quer alimentar. Também na Índia, uma sociedade clara e profundamente partidarizada, a ampla composição do Comitê Organizador Indiano revela um passo além, um sentido radicalmente político de superar divisões, mesmo que ainda restem importantes segmentos opostos a isto realizando o Fórum MR2004 (Fórum Mumbai Resistance 2004), em Mumbai.

Querer eliminar contradições do interior do Fórum Social Mundial e torná-lo um espaço e processo mais homogêneo no enfrentamento do neoliberalismo é pretensão de certas forças de inspiração político-partidária clássica de esquerda. Diria que até tal luta no interior do Fórum é legítima e merece respeito, dados os marcos de suas visões e valores. Mas destruidora da novidade do Fórum Social Mundial, do que ele tem de potencialidades para alimentar um movimento amplo e diverso da cidadania mundial na construção de outro mundo. O risco não reside em quem busca isto, mas em todas as outras organizações e movimentos desistirem de exercer o seu papel de contraponto. Afinal, o conflito, em particular a luta democrática de ideias, é o que move as sociedades sem destrui-las. É como espaço de conflito democrático que o Fórum Social Mundial precisa ser preservado para continuar sendo o que é. Sejamos radicalmente políticos como conjunto no processo do Fórum e que cada qual busque o seu partido para realizar o que pensa ser necessário e possível, na sociedade em que vive. Para que isto aconteça é necessário, sem dúvida, que todos e todas que acreditam que outra política seja possível e seja condição de outro mundo não esmoreçam em sua luta. E sigamos em frente...

Rio, 06.01.04

Publicado em 01 de janeiro de 2002