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Desafios metodológicos da produção historiográfica moderna do cérebro de obra

Prof. Dr. Eduardo Marques da Silva

Em todo o mundo têm sido criados institutos de pesquisa, programas de estudos e laboratórios de estudos historiográficos do tempo presente que lutam por uma maior atenção ao seu fazer científico.

Um dos principais responsáveis pela produção de trabalhos com novas perspectivas é o Instituto de História do Tempo Presente de Paris, um laboratório de estudos e pesquisas criado pelo CNRS, na França, e dirigido pelo professor François Bédarida. Esse instituto reúne um grupo de historiadores que sistematizaram as principais questões teóricas e metodológicas sobre a abordagem histórica do passado recente. A verdadeira revolução holística passava entre nossos valores e apareciam (e aparecem) elementos novos como a emoção, que precisa ter seu lugar no interior e na trajetória dos fatos, desafiando a historiografia a encontrar ferramentas para abordar, com maior precisão, seu complexo desenho humano.

Entre nós ainda existem os que cavalgam em uma envelhecida razão concreta, na crença de uma desvalorizada razão sensível. Infelizmente, alguns dos reducionistas, marcados pela visão economicista da história, não conseguem reconhecer que tal desafio científico se fez presente. Não dá para insistir em fazer “do poder da crítica a crítica do poder”, apenas. É na crença que a nascente de tudo continua sendo o fato que advogamos novas ferramentas, mais adequadas ao trabalho do historiador.

O fato é o elemento principal de nossa história, mas, alguém ou algo teria que acontecer para se cuidar dos ruídos dele e nele. O desafio está principalmente no campo social e, obviamente, pertenceria a um corpo da velha prática de construção histórica, a qual estaria sempre em construção.

Tivemos nomes respeitáveis que nos alertaram sobre o esquecimento da história. Goethe dizia: “Quem é firme em seus propósitos molda o mundo ao seu gosto”. Há muito que historiadores do quilate de René Rémond e outros estão a nos sugerir que “a reintegração do tempo presente” faz varrer da visão da história os últimos vestígios do velho positivismo. Não seríamos tão radicais, mas é necessário que estejamos alerta para uma palavra: Pense. O historiador do tempo presente sabe o quanto sua objetividade se apresenta frágil! E ainda que seu papel não seja, como dizia ele, o de uma chapa fotográfica, que se contenta em observar apenas fatos, ele contribui sim, para construí-los.

Para Rémond, a história do tempo presente evoca a importância da contingência e do fato. Perde o antigo sentido da logicidade perfeita e permanente. Diz ele que “frequentar a história do tempo presente talvez seja uma boa precaução, o meio mais seguro de nos resguardarmos da tentação que sempre nos espreita de introduzir no relato do passado uma racionalidade (considerada) estranha”. Constitui-se assim, num “bom remédio contra a racionalização a posteriori contra as ilusões de ótica (...) que a distância e o afastamento podem gerar”.

François Bédarida, que teorizou sobre o tempo presente com uma crise política, afirmava: “o retorno vigoroso da história e da memória, uma busca ansiosa de identidade, a crise dos paradigmas das ciências sociais, enfim, um presente cheio de incertezas em relação a si mesmo e ao futuro num mundo que não sabia mais se iria desembocar em Prometeu ou em Pandora” (grifos nossos).

O historiador Roger Chartier, no final do século XX, sublinhava a especificidade de uma história “não (como) uma busca desesperada de almas mortas, (...) mas um encontro com seres de carne e osso que são contemporâneos daquele que lhes narra as vidas”. Definitivamente concordamos. Para ele, essa característica conferia ao historiador do tempo presente uma especificidade digna de nota.

Ele é contemporâneo de seu objeto e, portanto, partilha com aqueles cuja história ele narra as mesmas categorias essenciais, as mesmas referências fundamentais. Ele é, pois, o único que pode superar a descontinuidade fundamental que costuma existir entre o aparato intelectual, afetivo e psíquico do historiador e o dos homens e mulheres cuja história ele escreve (grifos nossos).

Chartier via como vantagem o que costumava ser encarado como problema por uma historiografia mais tradicional, sobre o que vinha a ser a proximidade temporal. No Brasil de então, fazer uma história do tempo presente implicaria se voltar para os anos de regime militar, o que certamente não convinha, por razões óbvias. Historiadores, cientistas sociais, cientistas políticos e ficcionistas tinham revisitado, na época, os fatos, com o objetivo de trazer à tona seus aspectos relevantes. Mas, ainda obscurecida por razões que a própria razão cartesiana praticada desconhecia, ou insistia na questão de fazê-lo, tudo ficava igual.

Verificávamos que questões como a eficiência e ineficiência dos modelos de educação, a partir da ótica de microcenários sociais (municípios de periferia), foram todos abalados pelas transformações tecnológicas de um mundo da globalização e cibernético. Interessamo-nos por verificar como reagiram as docências frente à leitura dos movimentos de sociedades de periferia, diante do desafio de se organizar em rede, partindo de uma realidade como a nossa.

Como se comportaria a escola de inclusão social cidadã diante do desafio de produzir o novo homem para um mundo globalizado? Pegando-nos completamente desarmados, pois não dominávamos sequer as violentas transformações do jogo do capital. O mercado de trabalho começava a sucumbir à razão concreta, substituída pela cada vez mais qualificada presença da razão sensível e do cérebro de obra. Como se comportaria essa escola? Atuando com imensas dificuldades numa geografia social de periferia, onde quase tudo se apresentava em situação de precariedade? Como proceder diante do desafio de formar profissionais em áreas de economia subcapitalizada e população de maioria extralegal? Certamente uma nova maneira de olhar tudo no todo, em seus diálogos, seria fundamental e somente o tempo presente, no calor da hora, seria muito pouco e difícil para tal tarefa.

Um novo caminho é buscar as respostas hoje a tudo aquilo. As consequências se anunciavam preocupantes; a juventude sofria a tragédia dos tempos, e a implantação de políticas eficientes na inclusão ou reinclusão da população de periferia era urgente. Tudo que se pensava em fazer esbarrava no politicamente correto. Os relacionamentos entre educação/comunidade do entorno eram resistentes e, às vezes, conflituosos. A comunidade geralmente era composta de pessoas que viviam uma experiência de longevidade e na obsolescência, causada pelo desemprego/emprego informal. Seus vários tipos de conflitos marcavam uma sombria sensação de absoluta exclusão social.

Sabemos que a realização de pesquisas e as publicações de trabalhos durante essa fase das sombras serviram ao futuro balanço histórico de toda uma existência. Geração que, envelhecida, ainda saboreia extemporaneamente toda uma geração de bravos dessa história do esquecimento, da luta da burguesia mimeticamente festejada. Isso em um país que não teria superado muitos dos velhos hábitos escravistas, com grupos que permaneciam na mais absoluta exclusão social e sociocultural, comprometendo a construção da nascente cidadania.

As dramáticas revelações que vieram à tona iluminaram aspectos sombrios daquele passado recente e permitiram que, uma vez acertadas as contas, muitas tragédias pessoais seriam solucionadas. Como os atestados de óbito dos muitos dos desaparecidos que, após frequentarem porões da ditadura, apareceram. Apareceu uma variada literatura referente à luta armada no interior do Brasil, vários depoimentos autobiográficos, como O que é isso companheiro?, do escritor Fernando Gabeira; Os carbonários, de Alfredo Sirkis e até o Combate nas trevas, do historiador Jacob Gorender, militante e fundador do PCB histórico que é, a nosso ver, a obra analítica mais importante sobre a experiência de luta armada no Brasil.

Outros livros: o de Emir Sader, O Anjo Torto, Esquerda (e Direita) no Brasil, que procura resumir e classificar a trajetória da esquerda brasileira durante os anos dos militaresno poder, até a abertura nos anos oitenta. Contudo, tardiamente se retomarão questões como a pós-escravidão; os trabalhos eram variados, mas os olhares acabaram sendo poucos para a sua grandiosidade e presença entre nós. Temos, a título de citação, o jornalístico trabalho Abusado: o dono do Morro Dona Marta, de Caco Barcelos, que só apareceria no século XXI, apresentando o grito dos excluídos em meio a uma temerosa síndrome do crime e da criminalidade na cidade. Como ele, outros ficaram na sombra, como Viração: experiências de meninos na rua, de Maria Filomena Gregori.

Contudo, existe um período ainda pouco explorado pela literatura e pela historiografia: é o período pós-luta armada, os anos da distensão e do processo de abertura política das décadas de setenta e oitenta.

Cada povo “esculpe seu destino de acordo com sua expressão cultural, (...) cada sociedade possui uma estrutura que se destina a esculpir a sua forma de viver”, já dizia Werner Geiser. Esses diálogos, provavelmente por um rápido envelhecimento da metodologia historiográfica, ainda não conseguiram ser lidos. Daí nossa preocupação em buscar novos pensadores em História, com novas ferramentas. Seus diálogos precisam de decodificações, classificações, conceituações mais voltadas para seu tempo.

Sabemos que estudar os anos setenta, no Brasil, não constitui nenhum comportamento pífio. Trata-se de voltar-se a um quadro de grande força, marcado pela vivência cotidiana de um confronto político que se dava em diferentes e variados níveis, conflito entre uma ditadura e os adeptos de uma mais verdadeira distensão, que se fez lenta e gradual, como vaticinaram os do poder. Na sociedade, tínhamos a disputa por espaços possíveis e/ou do possível, da mídia às ruas, reduto verdadeiro do dialogo do tudo no todo, que advogamos ao olhar científico.

Grandes campanhas, como a luta pela anistia ou contra a carestia mobilizaram a sociedade. Foram fortes, principalmente, os sindicatos de trabalhadores assalariados de classe média, como bancários, professores, jornalistas etc. Mas não nos esqueçamos de que era apenas a classe médiaque conduzia a dança do tudo no todo. As lutas políticas que pressionavam contra os limites da legalidade não olhavam para os excluídos sociais. Além disso, havia uma produção política e teórica feita não apenas nas universidades mas também nos movimentos organizados e uma influência de ideias e práticas políticas inovadoras que vinham do cenário internacional. Era este o pano de fundo da década de setenta. Na historiografia surgiria Claudio Vieira com a obra A história do Brasil são outros 500, que levantou muitas questões polêmicas, audaciosas e novas.

Os anos setenta, no Brasil e no mundo, foram palco de uma tentativa de reinventar a política no capitalismo. Tínhamos uma postura que, em grande parte, era herança dos anos sessenta e, particularmente, de 1968. Alguns marcos históricos e políticos haviam modificado profundamente o que se tinha de ideia da política que se deveria praticar. Logo se assistiria à queda da URSS pondo uma pá de cal na já longeva Guerra Fria. Alterava-se a forma de participação política e da esquerda se comportar. Após a invasão de Praga, a Rebelião de Maio de 68 em Paris e a Revolução Cultural Chinesa, mudanças significativas foram encapsuladas às noções de política e de o que verdadeiramente seria pensar a esquerda. Para a juventude, intelectuais e militantes, tais acontecimentos representaram marcos de uma significativa ruptura com o conceito de esquerda e sua prática política. Mas o toque de qualidade nas pesquisas que se faziam estremeceria o saber por aqui. Questões como a pós-escravidão, a delinquência, a violência, os corpos socioculturais autônomos etc. foram, até certo ponto, relevadas da história sociocultural praticada. Aqui só interessava uma leitura econômica, como se essa fosse a panaceia de todas as questões da historiografia.

Vemos em A tale of two utopias. The political journey of the generation of 1968, de Paul Berman, a descrição do espírito de 1968, que se espalhou pelos anos 1970, nos EUA e na Europa Ocidental, marcado por uma visão otimista do futuro que advinha da crença de que profundas mudanças estavam ocorrendo e uma nova sociedade emergiria desse processo. Berman sintetizou tais mudanças em quatro grandes revoluções principais:

  • a revolução de costumes e padrões de comportamento, que abarcaria as variadas revoltas estudantis;
  • as ocupações de imóveis;
  • o movimento negro;
  • a liberação sexual, o movimento feminista e o movimento gay. uma revolução que chamou de zona espiritual, por causa entrada em cena de uma nova pratica de religiosidade ou, como preferimos chamar, uma nova sensibilidade.

E não podemos esquecer que vivíamos um momento marcado pelo uso desenfreado de drogas lisérgicas, sem falar do fascínio de algumas experiências e vitórias comunistas no campo ideológico, antes do desaparecimento da URSS e os seus reflexos sentidos especialmente por Cuba, China e Vietnã. A possibilidade de contestação do comunismo soviético ecoou na “Primavera de Praga”, em 1968, na Checoslováquia. Essas quatro revoluções tornavam possível o sonho de um socialismo genuíno, crível e não-corrupto, não-tirânico e ditatorial, não-estalinista e ultrademocrático. Dizia Berman sobre a questão:

A triste e velha escolha entre uma civilização democrática, no Ocidente, que parecia ter vendido sua alma para o capitalismo, e uma civilização soviética, no Leste, que certamente perdera sua alma para a burocracia, parecia finalmente uma coisa do passado. E julgou-se que uma nova alternativa para a humanidade estava muito próxima.

Apesar de reunir elementos muito diferentes e aparentemente díspares, essas quatro revoluções apontavam para uma mesma direção: a ideia de uma transformação global e radical da sociedade, que escaparia dos vícios tanto do capitalismo como do socialismo soviético. Esse espírito contestatório que se originou em 1968 reunia elementos diferentes que apontavam para uma mesma direção: a ideia de uma revolução com novo sentido e novo conteúdo. Nascia um novo historiador, com uma nova maneira de olhar para tudo. O professor Luiz Alberto de Oliveira modernamente denomina “Valores deslizantes” e afirma que, no Brazil multicultural, a historiografia sociocultural recheava as observações de surpresas e novidades para as produções científicas no trato da composição social popular da cultura brasileira, principalmente. Do exterior e do nosso entorno, muitas vezes sem que entendêssemos direito, Upton Sinclair, Charles Lamb, Walter de la Mare, P. G. Wodehouse, H. G. Wells evidenciavam a insignificância do trabalhador. Era a época da impessoalidade absoluta nas relações entre trabalho e capital. O interesse estava no quantitativo, em coisas como a produtividade, fazendo com que o humano ficasse cada vez mais posto de lado. Surgiu, então, a mulher para dominar esse cenário, trazendo um novo jeito de enfrentar desafios.

A ideia expressou-se politicamente na militância da dissidência tanto quanto pela heterodoxia de comportamentos sociais. Eram corpos calados, como afirmara a professora Maria Tereza Turíbio Lemos, em sua tese Corpo calado: imaginário em confronto, quando, no estudo da sociedade mexicana, observava seu corpo religioso como algo único e interveniente no todo da cultura daquele povo. Porém, em tempo presente, os sinais de corpos calados se reverberaram e foram particularizados em distinção e qualificação. Não nos esqueçamos de que não se pode comparar com os tratados pela professora Lemos. Estamos falando e aplicando apenas o conceito – e não a época histórica por ela observada. Porém, aqui, as favelas também se apresentam com novidades e distinções notórias, que, no cultural, diferem da ordem social instituída. Nesses corpos calados cresceram verdadeiras sociedades paralelas, como afirmara o professor Schmitt.

No mundo todo surgiam organizações dissidentes das matrizes propagadas, então comunistas e, mais adiante, os movimentos alternativos. Eram movimentos de minorias, de grupos sociais e socioculturais, que enfatizavam a diferença, a pontualidade e a especificidade, com desenho e presença surpreendentes, como podemos constatar pela sua história social. Tal fato se tornaria mais evidente com o passar do tempo presente e o registro de sua história.

Esse foi um fenômeno mundial. As décadas de 1960-1970 foram efervescentes. Em todo lado surgia uma nova publicação. Como a New Life nos EUA, a Gauche Proletarienne na França, Il Manifesto e Lota Continua dos italianos. Todos eram novos e faziam uma ácida crítica aos partidos comunistas, de onde, inclusive, tinham se originado. Nesse mesmo período o Brasil assistia ao surgimento de um grande número de organizações dissidentes, produto de sucessivos rachas do velho PCB e de grupos independentes. As avalanches que representaram aquilo que a História chamou de Revolução Comunista ainda estavam presentes em pequenos sinais posteriores. Em que pese toda a sua extemporaneidade, não devemos deixar de fazer menção ao seu processo de luta e valiosas contribuições para a composição de nossa consciência nacional.

No Brasil e no mundo, o tudo, introjetado, assimilado no verdadeiro todo durante os anos 1970, fazia os movimentos marcarem presença como movimentos específicos e de minorias políticas surdas. Entre eles, talvez o movimento de mulheres tenha sido o mais organizado e o que conseguiu alcance e grau de interferência no dia a dia da vida social, nacional e internacional.

Para um estudo da trajetória dos jornais, notadamente os de esquerda, o livro do jornalista Bernardo Kucinski, Jornalistas e revolucionários, nos tempos da imprensa alternativa é fundamental. Em cada um dos três blocos do livro havia uma variedade intrínseca no que concerne aos conteúdos, propostas e posições. A riqueza das propostas, durante os anos 1970, alinhava-se à multiplicidade do movimento social e político.

Muitos periódicos de esquerda representavam a busca de novos espaços por parte de seus jornalistas, que eram bastante cerceados em sua atividade profissional, tanto na pequena quanto da grande imprensa. Também se sentiam assim muitos intelectuais, artistas e estudantes universitários empenhados na resistência ao regime. A imprensa representou não apenas um fenômeno jornalístico, mas um fenômeno político. Representava uma das mais importantes possibilidades de luta política. E representava também a difícil convivência entre o que era legal e o ilegal, o que era público e o verdadeiramente clandestino.

A maioria dos jornais de esquerda acabava por causa dos impasses políticos. Os principais periódicos da década de setenta eram: O Pasquim, Opinião, Movimento, Versus eEm Tempo. Saía do anonimato Jacob Gorender, historiador brilhante e de grande visibilidade econômica. Dentre suas publicações citamos Combate nas trevas. A esquerda brasileira: das ilusões perdidas à luta armada. Seus escritos – apesar da unilateralidade de sua visão presa ao marxismo e ao oportuno reducionismo da visão economicista paradigmática – deu-nos grande contribuição para que percebêssemos que se deixava de lado o jogo do tudo no todo holístico, alertando-nos sobre ver tudo pelo olhar da razão cartesiana. Apresenta uma consistente narrativa e uma fina visão historiográfica das transformações da história internacional. Toda a sua obra foi, como o é ainda, de grande peso para o melhor entendimento do tempo presente.

Do exterior chegavam os trabalhos de Eric Hobsbawm, como O novo século, uma entrevista dada a Antonio Polito onde diz que “o historiador pode tentar identificar os elementos relevantes do passado, as tendências e os problemas. Por isso, é preciso (...) que nos arrisquemos a fazer previsões, mas tomando certos cuidados”. Diz ainda que, “precisamos entender que, na prática e por princípio, grande parte do futuro é inteiramente inacessível”. O autor completa dando a entender que os acontecimentos devem ser lidos com a seriedade merecida pela história: “creio que são imprevisíveis os acontecimentos” únicos e específicos, ao passo que o verdadeiro problema para os historiadores é entender o quão importantes eles são ou podem ser “às vezes, podem se mostrar significativos do ponto de vista da análise, mas nem sempre é assim”.

Era uma história que se mostrava desarmada para o enfrentamento da novidade que representava o mundo da estranha combinação e dos diálogos entre razão concreta, o tudo, e razão sensível, o todo. Sobre o fenômeno da globalização o entrevistador perguntava a Hobsbawm: “Não só a paisagem social e política mudaram nesses últimos anos do século XX, mas também a paisagem cultural. Pelo menos no que toca ao Ocidente, as pessoas tiveram de aprender a viver em condições completamente diversas daquelas a que estavam acostumadas (...). Indivíduos mudam de domicílio e país com muito mais facilidade, têm acesso permanente à informação em escala planetária e dispõem de um poder de compra que seus antepassados nunca teriam sonhado. Em sua opinião, essas pessoas são também mais felizes? A resposta se baseava no que T. Jefferson chamou de busca da felicidade, que seria uma motivação geral dos seres humanos, pelo menos na época moderna. Porém, seria dificílimo julgar o quanto, na realidade, essa aspiração seria real. Como poderia ver tal fenômeno? De que maneira o faria? Certamente o brilhante historiador estava municiado das velhas ferramentas de um modelo de verdade científica e não mais seria capaz de ler com a convincente precisão a nova realidade. Contudo o aguçamento científico o fez crer, pelo menos, que se tratava de “Tempos interessantes...”, que se apresentavam com o advento da globalização e sua novidadeirainfotecnologia.

Em 2002, Hobsbawm publicaria uma obra muito mais elucidativa da complexificação que o tempo presente e sua leitura traziam: Tempos interessantes: uma vida no século XX. Esse trabalho, praticamente uma autobiografia de quem viveu intensamente, ajudaria a entender melhor a segunda metade do século XX. Era premente não mais se ater a uma análise apenas quantitativa, mas dispor de um olhar científico, que se via definitivamente desafiado.

A imprensa feminista tinha as peculiaridades e a complexidade da época, pela confusão terminológica no século do não, que trazia, imbricadas, classificações mal definidas e pessimamente lidas, principalmente após e como consequência da Revolução Sexual, que havia mudado o comportamento das mulheres. A imprensa feminista, a imprensa homossexual e a imprensa negra tiveram um papel fundamental na constituição e no desenvolvimento desses movimentos nos anos 1970/1980.

Entre os mais destacados jornais feministas, citamos o Brasil Mulher e Nós Mulheres, na década de 1970; e Mulherio, dos anos 1980. Entre os periódicos do movimento negro se destacavam: Tição, Simbá e Koisa de crioulo, nos quais faziam valer suas vozes e onde se podia avaliar como estavam os ânimos dos crioulos em suas lutas sociais inoculadas, sem objetivação, até então, para o entendimento de seu tempo.

Em meio a tais grupos, consonantes com seu tempo histórico, existiam outros grupos de vozes não ouvidas, como o homossexualismo masculino, que agora, na pós-escravidão, obtêm dignidade e respeitabilidade cidadã. Este grupo já possui presença marcante entre nós e habita o nosso sociocultural de inigualável multiculturalidade.

Oficiosamente, esses personagens traziam um toque de que havia muito mais a ver com o imbricamento do tudo e no todo. Eram muitos corpos socioculturais autônomos da pós-escravidão fluminense que se estruturavam na vida livre. Mas, enquanto formas empáticas de associação grupal, eles causavam espanto e temor à moralidade praticada pela elite da mimese. Não eram culturas institucionalizadas ainda, mas formas culturais definidas por uma solidariedade pautada pela empatia, substitutas da forma de um social racionalizado. E o Estado não os via, o que até seria bastante conveniente para o momento sociopolítico. Existiam, então deveriam ter a história contada.

Segundo Michel Maffesoli, nesses grupos

o sexo, a aparência, os modos de vida, até mesmo a ideologia são cada vez mais qualificados em termos (trans... meta...) que ultrapassam a lógica identitária e/ou binária. Em resumo, e dando a esses termos a sua acepção mais estrita, pode-se dizer que assistimos tendencialmente à substituição de um social racional por uma socialidade com dominante empático.

Esses corpos (Katz e Bavcar) que se formavam na exclusão social (Forrester) identificavam pessoas e ações dentro do seu universo social, oriundo de um caldo de cultura paralela à sociedade oficial do Rio de Janeiro. Formavam, em conjunto, um mundo de singularidades tanto sociais e econômicas quanto religiosas. Demarcavam seu espaço de poder, hierarquizando-o e, estabelecendo sistemas de subordinação e proteção.

Quanto ao Estado, Adauto Novaes, em Crise do Estado-Nação escreve:

Sabe-se que (...) o Estado liberal sobrepõe-se à vontade dos indivíduos, legitimando a violência, expressão da vontade de uma classe. (...) Ora, soberania popular (...) torna-se problema se pensarmos que é quase impossível atribuir esse papel de soberano sem transformar o povo em uma entidade homogênea ou em uma suposição abstrata investida, ao mesmo tempo, de uma aura metafísica e de uma missão implicitamente e muitas vezes explicitamente religiosa e, em consequência, susceptível de justificar todas as repressões em seu nome. (...) Talvez seja isso que faz sua essência, desde que não exista uma referência última a partir da qual a ordem social possa ser concebida de fundamentos, de sua legitimidade, e é na contestação ou na reivindicação daqueles que são excluídos dos benefícios da democracia que esta encontra sua força mais eficaz. O Estado é a negação da ideia de uma política selvagem.

A área geográfica de domínio desses corpos – que eram os velhos cortiços e são as atuais favelas – exprimia e concentrava os indicativos de sua coesão e força. Como, nos dizeres de Novaes, “Sabe-se que (...) o Estado liberal sobrepõe-se á vontade dos indivíduos, legitimando a violência, expressão da vontade de uma classe”. Segundo Maffesoli,

trocas de sentimentos, discussões de botequins, crenças populares, visões de mundo e outras tagarelices sem consistência que constituem a solidez da comunidade do destino.

A ideia de corpo aparece de formas diversas e muitas delas com grau múltiplo de volatilização. Os antigos capoeiras possuíam uma representação mais definida e consistente, tinham ordem interna e regras comuns, criavam um universo consuetudinário. Essas características faziam lembrar que o grupo era antes de tudo um corpo sociocultural autônomo, e este era maior do que a própria individualidade. Entretanto, o grupismo, como registra A. Berque, difere do gregarismo. Nele, cada membro se esforça para servir ao interesse da corporação, mantendo-a coesa. Neste particular, o capoeira, expressava isso pelo comportamento. Mesmo vindo de outro morro acabava forçado a proceder de acordo com as regras locais.

Os anos 1970 reuniram, também, publicações de uma clara contracultura, que revelava no Rio de Janeiro um grupo de poetas e literatos conhecidos como os poetas de mimeógrafo, artistas malditos. Produziram-se muitas revistas e jornais culturais de debate de ideias. Entre eles estava o Beijo de circulação em 1977-78. Profundamente ligado a postura teórica de extrema vanguarda, fazia uma crítica à esquerda tradicional. Algumas publicações se declaravam alinhadas a uma política do corpo e ganhavam leitura e vida nova, tanto no individual quanto no coletivo social. Uma das pioneiras foi a revista Rádice no Rio, de 1977 a 1981. Um pouco mais tarde, chegou o jornal Luta e Prazer, editado no início dos anos 1980 no Rio de Janeiro e em São Paulo. Tínhamos uma extensa lista de jornais do movimento estudantil, publicações da Igreja, vinculadas às pastorais e à Teologia da Libertação onde se destacavam religiosos como Leonardo Boff; os Cadernos do Ceas, editados na Bahia; outros ligados à luta indígena, como Borduna, Nimuendajú e as primeiras publicações ecológicas brasileiras, como a Folha Alternativa, publicada em 1979.

Esse tipo de imprensa porta-voz de grupos e movimentos específicos – ou de minorias, tanto numéricas quanto políticas – constituiu-se em uma fonte diferente da grande imprensa. Não tinha a mesma sistematicidade, não tinha a mesma tiragem nem o mesmo público. Era diferente também no padrão de notícia e na forma de apresentação. Não se preocupava em cobrir os acontecimentos diários nem tinha a mesma estrutura financeira. A sua especificidade constituía uma fonte privilegiada para a história das mentalidades. Suas análises revelavam-se extremamente ricas para a história das ideias: se não nos esclarece acerca do que realmente representou no cenário político da época, ela nos dava, em contrapartida, a visão dos movimentos que representava sobre eles próprios, a sociedade e a época em que viviam.

Os principais debates dos anos 1970-80, as principais questões políticas e teóricas, as grandes polêmicas, as tendências artísticas e culturais, tudo está nas páginas da imprensa alternativa. Da dívida externa à reforma agrária, das grandes campanhas nacionais – pela anistia, por eleições livres e diretas, pela constituinte, contra a carestia – ao boom da literatura latino-americana, dos debates sobre o aborto e a sexualidade com roupa nova, a luta contra a tortura dos anos de chumbo, ela revelava um país de profundas mudanças.

A questão maior era afeta à educação; ela é que teria a tarefa de operar transformações no sentido de uma efetiva inclusão sociocultural, pois a cartesiana mão de obra no mundo do trabalho de então já teria seus dias de esplendor contados.

A imprensa alternativa ainda é um tipo de fonte historiográfica que não teve todo o seu potencial explorado pelos historiadores. Está carecendo de melhores leituras, que tenham as características e o compromisso com a visão multilateral, que não sejam unívocas e unilaterais nem apegadas a visões de um economicista da cosmovisão.

Temos agora um valioso avanço para as pesquisas da história do tempo presente. É a descoberta que pode ser uma contribuição valiosa tanto para a história social quanto a sociotecnologia, pré-integração da história oral moderna com novas ferramentas para a historiografia. É outro tipo de procedimento metodológico.

David Le Breton, professor de Antropologia da Universidade de Estrasburgo, França, autor, entre outras obras, de L’adieu au corps, Anthropologie du corps et modernité e Du silence, apresenta o que acredita ser inovações que se dariam com a separação do corpo carnal do espírito humano com o advento do computador, da internet e sua infomotricidade:

Sem sair do seu quarto, fiel à injunção pascalina, é possível lançar-se nas correntezas do Rio Verdon, na Provença, surfar nas ondas de um spot do México, caçar leões em uma floresta equatorial, despir a mulher dos seus sonhos num jogo erótico, antes de arrastá-la num tórrido amplexo virtual, dialogar durante horas com ciberamigos do outro lado do mundo, dos quais se conheçam apenas o pseudônimo e as reações textuais que expressam, participar de um jogo de RPG com parceiros invisíveis, tornar-se um cavaleiro medieval com um punhado de apaixonados pela mesma época etc. É possível viver em uma cidade virtual, com apartamento, profissão, lazer, vizinhos, amigos, ir a uma sala de espetáculos, informar-se sobre o caminho com outros internautas que vão para lá etc. É possível assistir a partos transmitidos ao vivo, e a própria morte não escapa mais à net. Um site canadense permite acompanhar um funeral por meio de uma câmara conectada à rede. Outro site, criado por doentes e seus familiares, foi concebido como uma sepultura virtual onde figuram as efígies de pessoas falecidas e os epitáfios redigidos por suas famílias ou por internautas de passagem. As páginas consagradas aos desaparecidos apresentam fotos ou textos. É possível também depositar flores virtuais sobre os túmulos. (...) Dispensando o corpo, todas as metamorfoses são permitidas: tornar-se uma pedra que rola, um violino, um salmão que sobe um rio, um piloto de avião etc. Uma coisa liga-se à outra, toda separação foi abolida. (...) Se o computador é uma oportunidade para portadores de deficiências motoras, limitados em seus movimentos, a inércia motora que ele provoca (...) é fonte de ambiguidade. Com o passar do tempo, o corpo transforma-se num estorvo, excrescência desastrosa do computador.

Nós, que nas últimas décadas utilizamos em larga escala recursos de pesquisa como: entrevistas, relatos autobiográficos, depoimentos pessoais, histórias de vida etc., podemos nos preparar para a revolução que se avizinha. Esses recursos eram específicos da antropologia, mas, nos últimos anos, têm contribuído para historiadores, sociólogos, cientistas políticos e outros pesquisadores, construindo um campo interdisciplinar. Uma área fecunda que buscaria compreender melhor o homem em sua dimensão social e histórica, sociocultural e sociotecnológica, a partir de relatos vivos, em termos de memória, oralidade e praticidade de vida. Ainda nem tocamos efetivamente em questões candentes como a pós-escravidão, a complexidade de nosso comportamento, a paulatina obsolescência de nossa crença na mão de obra, já sendo substituída pelo cérebro de obra.

Os historiadores, acostumados a trabalhar com os mortos e seus registros, passaríamos a organizar os registros de personagens vivos, entrevistas e depoimentos. Uma nova tipologia de acervo e de abordagem começava a ser criada nas universidades. No Brasil, o Centro de Pesquisa e Documentação da Fundação Getúlio Vargas (CPDOC/FGV) foi pioneiro nesse trabalho, criando, na década de 1970, um setor de História Oral. A partir daí, outros centros foram criados junto a universidades e instituições de pesquisa.

A História Oral contata, a todo o momento, as histórias de vida, suas análises e as biografias coletivas. É importante reiterar que os estudos biográficos não se prendem somente à oralidade; eles recorrem a outras fontes, pois existem várias formas de discurso. Por exemplo, o discurso dos corpos calados, de Foucault, é de grande contribuição à história social e sociocultural. Fica uma questão crucial: a avaliação entre fato, acontecimento e, no conjunto, o seu sentido mecanicista e corpóreo. O discurso calado de um corpo calado, em algumas situações, é vital para questões coletivas da história. A história oral nem sempre está gravada em livros: é baseada em depoimentos, relatos, ou até mesmo em heterologias (Foucault).

A História Oral, numa pesquisa histórica, não se volta para a construção ou reconstrução de histórias de vida, singulares ou coletivas. São duas modalidades de pesquisa e de narrativa independentes. Contudo, o casamento entre História Oral e Histórias de Vida vem se mostrando bastante fecundo. Permite a valorização da oralidade como fonte, como registro e como linguagem, com o mesmo status da linguagem escrita. Permite um mergulho na vida cotidiana e privada das pessoas do grupo estudado, que, em algumas realidades, possuem certa autonomia, tornando possível ao historiador estabelecer uma relação entre a História e os caminhos de vida de pessoas reais, num determinado momento, num dado lugar. Temos claro, no entanto, que a história de vida apresenta algumas armadilhas para o pesquisador que a utiliza como fonte e narrativa.

A ferramenta entrevista, que ajuda a recompor a história de vidas, também organiza a vida como uma história, permitindo que se faça uma retrospectiva cronológica, com princípio, meio e fim mais bem definidos. E é capaz de aguçar a percepção do pesquisador para aspectos que somente aparecem heterologicamente no e do não dito, numa leitura apenas do gestual. As vidas humanas dificilmente têm essa organização, esse sentido cristalino.

Bourdieu faz o alerta no seu artigo intitulado, muito a propósito, A ilusão biográfica:

Produzir uma história de vida, tratar a vida como uma história, isto é, como o relato coerente de uma sequência de acontecimentos com significado e direção, talvez seja conformar-se com uma ilusão retórica.

Para escapar dessa ilusão, ele nos propõe a visão de trajetória

como uma série de posições sucessivamente ocupadas por um mesmo agente, num espaço em que é ele próprio um devir, estando sujeito a incessantes transformações.

Uma trajetória que constitui a noção que substituiria a ideia de história de vida só pode ser compreendida a partir de um quadro de interações sociais. A trajetória de um indivíduo é avaliada a partir do confronto com outros, num determinado momento e contexto, o que inclusive constitui o conceito de campo do pensador (Bourdieu).

Contudo, apesar das armadilhas apontadas por Bourdieu, é inegável a ampliação de horizontes da pesquisa histórica produzida pela História Oral. O pesquisador Paul Thompson, sensível a tais mudanças na historiografia, sugere em seu livro A voz do passado:

no sentido mais geral, uma vez que a experiência de vida das pessoas de todo tipo possa ser utilizada como matéria-prima, a história ganha nova dimensão.

Na metodologia proposta por Franco Ferraroti sobre os relatos de vida em seu livro Histoire et Histoires de Vie: la méthode biographique dans les sciences sociales (1983), no prefácio da edição francesa, Georges Balandier alertava para algumas das características do trabalho de Ferrarotti: a necessidade de atentar para a relação entre a história e as múltiplas histórias. Situava o método de histórias de vida como uma retomada de procedimentos de pesquisa, como o método de biografias que dominou a sociologia e a antropologia nos anos 1920/30 e foi substituído por técnicas de pesquisa mais a observação do quantitativo, quando os gráficos e tabelas ocuparam o lugar dos depoimentos e das histórias de vida. Certo esgotamento desses métodos e técnicas trouxe de volta a importância das biografias e das histórias de vida.

Estávamos diante do desafio de deixar-nos levar pela corrente do cartesianismo como visão paradigmática ou render-nos ao holismo. Em tempos recentes, vivemos algo que deixou mais complexa a maneira de observar coisas como o tudo no todo, por exemplo. Vivemos uma “crise dos métodos quantitativos e das grandes elaborações teóricas que justificam a retomada de antigos procedimentos” (Ferrarotti).

O livro de Ferrarotti se propunha a dar base teórica ao método biográfico, mas o utilizava no plural. Esse método era utilizado para apenas um indivíduo, com o propósito de elaborar biografias individuais. Mas essa escolha esconderia um equívoco: a ideia do indivíduo como átomo social, unidade básica fundamental da sociologia. Na verdade, o indivíduo é uma síntese complexa de várias relações. A unidade mais básica da sociologia era o corpo social, um grupo básico que estabelecesse, entre si, relações de sociabilidade, de troca, de interação. Seu método de histórias de vida voltava-se para a construção de biografias de grupo. Isso era seu maior potencial, ao mostrar que as múltiplas histórias de vida particulares de uma época, de uma geração, de um lugar, e seus movimentos e a sinuosidade corpórea, o desenho, as estratégias de vida se inscrevem dentro dos limites e das possibilidades de uma História mais geral e que cada uma dessas múltiplas histórias particulares interpretaria, à sua maneira, a História e sua relação com ela.

Tratar anos tão complexos como os da escravidão/pós-escravidão representou e representa um grande desafio, de reverberação ainda em toda a nação brasileira em termos sociorreligiosos, que revolucionou o perfil comportamental que os lusitanos imaginavam para um Brasil que se tornava fácil e rapidamente um pais multicultural. O mundo que se desenha sob a égide do cérebro de obra é forte, inigualável como coletivo organizado, pois se move com a sombra de um misto sociocultural que festeja sempre o externo, o seu entorno.

Conclusão

Buscou-se, neste trabalho, abrir um campo de investigação para a história político-social contemporânea no Brasil. Um estudo voltado para as experiências do dia a dia e, principalmente, para os diálogos entre o tudo no todo, até agora não decodificáveis claramente, o que permitiria um categorial sistêmico consistente, uma ferramenta com que se possa operacionalizar com a segurança desejada, no mundo da combinada infomotricidade e infotecnologia.

Sem utilizar procedimentos específicos, é necessário muito cuidado. Os corpos socioculturais autônomos, as organizações dissidentes, os movimentos de minorias políticas, os periódicos avessos de época, os depoimentos de personagens sobre suas lutas contra o avesso/anverso do direito, da lei, do exercício da mais plena cidadania vociferam os louros de vitórias que talvez se encontrem na história do esquecimento.

Lidar com a história do tempo presente, escapando de qualquer arroubo de demagogia, não fugindo da dimensão humana e política dessa proximidade perigosa, é o desafio mais importante. Uma necessidade urgente de mudança para um mundo globalizado sob o capitalismo, na passagem da acumulação de capital para a acumulação flexível de capital, pode permitir que se tenha algo novo, que impila pesquisar mais e tenha a capacidade de provocar no pesquisador o aguçamento de todos os sentidos. É urgente que ultrapassemos as velhas barreiras, as velhas ferramentas de pesquisa para avançarmos para um espaço novo.

Portanto, no mundo do cérebro de obra se assiste à dança de um novo pensar histórico social global, que insere questões como as distâncias e limites novidadeiros e surpreendentes, o ocultamento, o fato revelado e descoberto, dentre outras questões que fazem a diferença ao olhar científico. Pois não se trata de observar apenas a concretude do fato; prudente se faz observar a sua subjetividade e seu espectro ao longo do tempo e no tempo presente tão convulsionado. Trata-se de entender sua sanha moderna, seus mistérios, intenções e ações ao longo do tempo.

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Publicado em 1º de dezembro de 2009

Publicado em 01 de janeiro de 2002